SAUDAÇÃO A NIKOS KAZANTZAKIS
Meu amigo e eu na Montanha Santa, pelas ladeiras eternas, sós ao amanhecer enquanto se desfaziam pela primeira luz as belezas que a chuva espalhou.
Respirando profundamente víamos até lá embaixo onde brilhava oculto, pálido, o largo mar, e nossa mente, como a poderosa copa do pinheiro
se regozijava na completa calma, na bendita fragrância do monte, e pelo frescor que sentíamos até o interior de nosso jovem coração ressuscitado...
Nas testas, nas mãos, sobre todos os nossos membros, brilhava serenamente a sossegada força que conheceu o mel da criação, e voltando de novo ao passar por onde se sorveu, ou se amamentou em tudo a alegria mística, fazia-nos elevar os braços como se fossem asas
em direção a um inefável culto...
Magna graça sobre ele ia derramando o robusto
e irrigador manancial da solidão, e insone em seus olhos negros uma alma pensante
se alegrava, sagrada e amplamente, de abraçar de dia os céus ocultos, e como uma fonte em sua fundura de abraçar em segredo a formosa maturidade da mente...
Alto e silencioso nos rodeava como um ciclópico muro; e de repente, sossegada, tal como água fluente, quando sem cessar chega um sussurro,
A voz de meu amigo soou em meus ouvidos: “Irmão, bendita seja a hora em que tomei a trilha,
a odorífica trilha que se afasta do povoado, e te encontrei tal asceta
debaixo daquele pinheiro, gozando o místico festim da mente, e ali, já juntos,
repartimos como pão
a alegria do céu cheio de estrelas...
10 de outubro de 1921
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terça-feira, 27 de outubro de 2015
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
Ángelos Sikelianós
O APOCALIPSE
E a criação, como após
a morte de Deus, se enchera
de brumas. O ar nevoento,
que a espada de luz
das estrelas feria,
por toda parte estremecia
de antigo sofrimento...
A bruma se elevava, espessa
como o incenso da oferenda
fiel de uma escrava enquanto,
inundados de lua,
os olhos vertiam,
orvalho silencioso, o pranto.
E com as mãos rasguei
o ar enganoso à volta;
nos montes e nos mares
a meus olhos luzia
do profundo, sacro dia
da criação, o arrebol.
Uma lira soava
no ar tão intenso
— a do sol!
[De O vidente, 1]
CREPÚSCULO
E eu tinha os olhos cheios,
mas tão cheios de luz,
que se fechasse as pálpebras
ela jorraria como pranto,
como pranto — abrindo-se
em flores orvalhadas.
A luz cavava sulcos
em meu cérebro, aligeirando-o
como à árvore o vento
que lhe atira os frutos
ao chão, e aí,
libertas, as folhas
frondejam nas alturas
com um novo frêmito.
A luz cavava sulcos
em meu cérebro e corria-me
pelas veias, lenta, calma.
[Idem, III]
HOMERO
E o ombro tocou-me
mão que não se via;
e tive pena ao guiar um cego
pela rua sombria.
A alta lei não-escrita
da criação ouvia
eu, pálpebras bem abertas,
como quem não deseja
perder da grande luz
uma gota que seja.
No bosque à minha volta
noite adentro as azeitonas
se iluminavam do secreto
azeite que as sazona.
E enquanto ele ascendia, farto,
contemplando os longes, eu
anulava em meus olhos
a lágrima, como Odisseu.
[Idem, III]
SOBRE SIKELIANÓS
[In Poesia Moderna da Grécia, seleção, tradução direta do grego, prefácio, textos críticos e notas de José Paulo Paes, Rio, Ed. Guanabara, 1986, pp. 96-98].
E a criação, como após
a morte de Deus, se enchera
de brumas. O ar nevoento,
que a espada de luz
das estrelas feria,
por toda parte estremecia
de antigo sofrimento...
A bruma se elevava, espessa
como o incenso da oferenda
fiel de uma escrava enquanto,
inundados de lua,
os olhos vertiam,
orvalho silencioso, o pranto.
E com as mãos rasguei
o ar enganoso à volta;
nos montes e nos mares
a meus olhos luzia
do profundo, sacro dia
da criação, o arrebol.
Uma lira soava
no ar tão intenso
— a do sol!
[De O vidente, 1]
CREPÚSCULO
E eu tinha os olhos cheios,
mas tão cheios de luz,
que se fechasse as pálpebras
ela jorraria como pranto,
como pranto — abrindo-se
em flores orvalhadas.
A luz cavava sulcos
em meu cérebro, aligeirando-o
como à árvore o vento
que lhe atira os frutos
ao chão, e aí,
libertas, as folhas
frondejam nas alturas
com um novo frêmito.
A luz cavava sulcos
em meu cérebro e corria-me
pelas veias, lenta, calma.
[Idem, III]
HOMERO
E o ombro tocou-me
mão que não se via;
e tive pena ao guiar um cego
pela rua sombria.
A alta lei não-escrita
da criação ouvia
eu, pálpebras bem abertas,
como quem não deseja
perder da grande luz
uma gota que seja.
No bosque à minha volta
noite adentro as azeitonas
se iluminavam do secreto
azeite que as sazona.
E enquanto ele ascendia, farto,
contemplando os longes, eu
anulava em meus olhos
a lágrima, como Odisseu.
[Idem, III]
SOBRE SIKELIANÓS
[In Poesia Moderna da Grécia, seleção, tradução direta do grego, prefácio, textos críticos e notas de José Paulo Paes, Rio, Ed. Guanabara, 1986, pp. 96-98].
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