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domingo, 10 de novembro de 2019

Maria Gabriela Llansol


Quatro garotos com suas calças curtas, e de alturas 
Desiguais, disseram-lhes:
   Este é o ponto extremo de nossos corpos. -
   (...)
   Para além, deixamos de ser humanos.
Foram incapazes esses homens de subir para o 
Veículo da noite estrelada, facetado com o último 
Rosto das crianças. O próprio texto uivava sobre 
Seus pés. Nesse horizonte nenhum bicho rasgaria 
A paisagem, mas eram almas humanas girando 
Na sua aterradora liberdade.

///

 O amor tem dosagem.
Principia por ser um líquido escuro numa farmacopeia Abandonada. Espesso, espera ser dividido em porções
Mais líquidas, que o transformem numa poção de cura Homeopática. Um prazer curado que regressa
À fulgurância. Não desejo rapto
Mas santidade.



///

A santidade é o mais forte de todos os sentimentos
Verdadeiros.
O seu trabalho é de uma beleza aterradora.
A sua perturbação invade o peito deslumbrado sem que,
Todavia, oscile para além do tranquilo.
Dá oito horas
No relógio da cidade velha.
Por ser uma alegria que
Rejubila com a alegria que se aprofunda, ela as transforma,
As horas (digo), as cansa, as regenera.
No fundo do peito,
Abrigando-se sob sentimentos humanamente tão usados
(Que, todavia, cintilam) adquire a sua única certeza
A de um trabalho que se gera
Para além de qualquer contrariedade.

[Em O começo de um livro é precioso, Lisboa, Assírio & Alvim, 2003]

domingo, 2 de março de 2014

Maria Gabriela Llansol

EXCERTO DE "CAUSA AMANTE"
VI —
Úrsula encontrou à entrada da porta uma mulher com uma cana na mão. Suspeitou que ela teria meia-idade, pois não lhe via o rosto coberto por um chapéu descido; observou-lhe as mãos queimadas, de quem frequentes vezes trabalha, e adormece ao sol.
vim a este país para reconhecer o que escrevo, e por onde andou Ana de Penalosa; faço à mulher a primeira pergunta, a que a mesma pergunta deve suceder-se, por não obter resposta; eu não me sinto a viver ao mesmo diapasão que este país, nem nesta região extensa com terras em que crescem sobreiros ou azinheiras, e onde podem pastar porcos; mas devo continuar a perguntar à mulher, único ser falante que encontrei nestes montes, o que ela ouviu dizer sobre Ana de Penalosa; nada me revela por meio de gestos, e o rosto quase caído sobre o peito, não se levanta; usa chapéu para armar a cabeça.

se a mulher fosse Ana de Penalosa, eu contar-lhe-ia até que ponto as beguinas perturbadas a esperam; sento-me à sua frente como só existisse a luz directa iluminando-nos; desço as pálpebras ao elevar o pensamento para a parede de cal; antes de voltar a mover-me pela palavra, reparo que a minha língua nem coincide com este país, nem com a sua linguagem; mas a mão de Ana de Penalosa, quando ela ma estende, coincide com a minha; trocamos o lugar e, na invocação que dirigimos uma à outra, fico a saber quem é a mulher, e quem eu não sou ainda.

continuo a não encontrar Ana de Penalosa que me deixou quase sozinha neste país que infunde temor; muitas das beguinas tornaram-se aves migratórias e eu, para recolher a experiência da transformação vegetal que sofreu o rei, não fui das que partiu com elas; quando subi ao mirante da casa que deve orientar-me, vi o último bando de aves pousado nas figueiras e nas alfarrobeiras, com as amendoeiras dispersas ao meio; quando se aquietaram nas diferentes árvores para passar a noite, escutei o som deste crepúsculo que se estendia pelas azinhagas próximas; como sucede quando alguém que eu amo está para partir, eu sentia-me já no deserto. Fosse de noite, ou já claro, o calor e a imobilidade eram os mesmos; tive receio de que dom arbusto, se naquele jardim estivesse plantado, morresse na terra, ou vogasse à deriva do que, sem mutação, estava a passar-se; o adeus das aves, e o seu regresso, davam um certo sentido àqueles campos em que a escrita cultivada pelas beguinas se tornara seca e atonal.

não quis ficar fora do círculo das beguinas, neste país onde só cresciam belezas excluídas. Tive o pensamento cruel de preparar armadilhas às aves que se dispunham a partir; mas lembrei-me da alegria de Eleanora, Margarida, Eulália, Alice, Marta, Clara Serena, da própria rapariga que temia a impostura da língua.

De manhã, sem ter dormido, reparei, perto de mim, no vulto enraizado de dom arbusto e deitei-lhe água, que tirei do poço; no espaço, ainda agitado pelo voo, as aves migratórias tinham deixado cair grandes ovos que, sem quebrar-se, pousaram na terra, e se transformaram nesta paisagem em que tinha vivido Comuns.

no regresso, ensinou-me a romper o silêncio, ou a falar nele; a ausência de Ana de Penalosa fez-me ver até que ponto uma paisagem se pronuncia sobre outra paisagem; só a névoa do Brabante me levaria a contar  como os arbustos desse país litoral ardem.

não consigo chegar a compreender a natureza das alterações da percepção de Sebastião, o dom, mergulhado no solo, ou na névoa; mas ele, dom arbusto, já se adaptou a esta visão singular das folhas que tinha encontrado no jardim de Psyché.

[In Causa Amante, Lisboa: Relógio D´Água, 1994, pp. 151-153]

N.B.: Pela dificuldade de reprodução, não se respeita aqui a disposição gráfica original do texto.
John W. Waterhouse



segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Maria Gabriela Llansol

Encontrei, de noite, na paragem de um autocarro,
Perdido de pai e mãe, um menino. Como te 
Chamas? Literatura. Nome estranho para um 
Masculino. Trazia como este nos olhos um susto 
Verdadeiro velado por uma ousada fantasia. Via-se 
Que a realidade lhe causava muito incómodo. Por exemplo, 
Ser noite, estar só, pagar bilhete, ter de saber a direcção, 
Sentir fome, estar com frio, respirar tubo de escape. Dei-lhe 
Minha mão e, através do veneno das trevas, para não o 
Perturbar, trouxe-o para viver comigo. Seu nome 
Pouco me dizia, mas por seu olhar daria 
A própria escrita.

In O começo de um livro é precioso,  Lisboa, Assírio & Alvim, 2003, p. 84

Katherine Ross Robinson



terça-feira, 28 de maio de 2013

Maria Gabriela Llansol

A santidade é o mais forte de todos os sentimentos 
Verdadeiros. 
O seu trabalho é de uma beleza aterradora. 
A sua perturbação invade o peito deslumbrado sem que, 
Todavia, oscile para além do tranqüilo. 
Dá oito horas 
No relógio da cidade velha. 
Por ser uma alegria que 
Rejubila com a alegria que se aprofunda, ela as transforma, 
As horas (digo), as cansa, as regenera. 
No fundo do peito, 
Abrigando-se sob sentimentos humanamente tão usados
(Que, todavia, cintilam) adquire a sua única certeza   
A de um trabalho que se gera 
Para além de qualquer contrariedade.
Ilda David

[Maria Gabriela Llansol. O começo de um livro é precioso, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, p. 171].

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Maria Gabriela Llansol


Excerto de "Causa Amante"
5 — estou hoje intrigada por uma palavra: marfolho. 
Encontrei-a no tesouro vegetal da língua; 
e com o modo por que encontrei Alice na igreja de Santa Engrácia, e trouxe para casa a Proclamação de Lisboa, cidade que deve ser tomada, em meu entender, sem capitular;

em conluio com as ruínas, esta igreja é bem inquietante,
com a sua multidão em que não distingo um só conhe­cimento; não distingo os pés que, no entanto, se mo­vem lentamente; a terra, ela move-se. Procuro sempre Alice que tem as pálpebras descidas e que não provoca enganos, como os cegos de olhos abertos. Estava en­costada a um degrau de pedra, com o capuz batido pelo vento, e deve ter distinguido os meus passos,
ou a minha presença,
através de um dos seus sentidos ocultos que a encami­nham sempre para mim: — «Estará morta, ou ainda viva?» — perguntou-me: — «Quando voltamos para casa?» — «Hoje, o que me atrai é estar em Lisboa, andar por Lisboa na meia solidão em que podes sem­pre acompanhar-me.» — Pôs a mão no meu braço, e transpusemos a abertura como se tivéssemos os mesmos pés. O Tejo era diferente do da minha lembrança, muito mais rio preciso do que a imensidão que eu jul­gara.

6 —                       encontrei-me
Alexander Leal

numa faixa do rio, ao fim da noite; 
há tanto tempo que a olhava, à procura; 
a meu lado, estava um homem pequeno, cujos sinais correspondem exactamente aos de João da Cruz, visto através dos seus textos, e do modo de viver a sua vida; era evidente que, para mim, aquele homem era, sobre­tudo, enquanto bosque, sombra; e enquanto força,
corrente; disse-me que tinha um peso secreto sobre ele. Sem sequer o ouvir, dispus-me a pedir-lhe conselho, a que já sou menos rebelde; ele interrompeu a sua confi­dência, e antecipou-se à formulação da minha primeira pergunta: — ...não sei se poderás voltar a optar; ali está a água — disse —, a água do Tejo, com esse nome, e nenhum outro; atrás de nós está o casario de Lisboa, «casario subindo as colinas», submetido a essa expres­são, e a nenhuma outra; hoje, é este dia do século, an­tes do terramoto que há-de destruir Lisboa, e de ne­nhum outro; hoje, eu estou aqui a teu lado para que narres o nosso encontro, até à última pausa da palavra que te dirigi; já baixas a cabeça ao peso do trabalho, e à necessidade inexorável de contar. — Tento, então, fa­zer o que ele diz: precisar, no escuro, o nome da parte de Lisboa que se ergue atrás de mim, 
ver povoadas suas ruas íngremes; 
quando me encontrei a reaprender a escrever, 
ou a prosseguir o caminho de suspender estas emoções
por algumas horas, já era mais de meia-noite, e João da Cruz, sempre vivo em sua fala e movimentos, ainda não me abandonara. Falava-me da sua própria vida pessoal, de um drama que o atingira parecendo, ele, o inacessível; torcia e retorcia as mãos, e ora me olhava, e olhava o rio, ora olhava os contrafortes do castelo, que se apagava sobre nós.

Causa Amante, Lisboa: Relógio D´Água, 1996, pp. 11-113.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Maria Gabriela Llansol

Herbais, 3 de dezembro de 1982

Uma outra ferida, um outro luto de animais, ou plantas, desponta no horizonte:
os nossos vizinhos mais recentes desejam comprar o jardim separado que, pelo nosso contrato, está incluído no arrendamento comercial da Casa, e dependências; o Augusto vai contestar, mas eu admito que ganhem o litigio e vejo que, neste ambiente dubitativo se enraíza a partida definitiva de Herbais e que, para o futuro, eu não quererei mais plantar nenhum arbusto, ou árvore para mim; sempre que o nosso espaço, ou seio, é ameaçado, ou cobiçado, as plantas, ou os animais, são as vítimas; presumo que se fecha uma fase - a fase da imobilidade —, e que nos anos próximos seremos marcados com o signo da passagem por lugares provisórios;

esta manhã estava, no entanto, inconsolável por abandonar à sua sorte os arbustos, quem me diz que não vão cortá-los, ou deslocá-los, dar-lhes uma importância secundária e um destino de joguetes do homem; e eu seria privada do horizonte pontiagudo daquela pouca terra em forma de proa; durante o sono desta noite admitira que era vizinha das raízes compadecentes de Prunus Triloba e, mais tarde, explicando a mim mesma o prosseguimento de Lisboaleipzig, e o método que ia seguir em tal trabalho, tive o sentimento de que o jardim que estava a perder, e em que eu no verão passado criara geometrias reflectidas em arbustos, se havia de transformar em território, ou seio de um livro. O seio de um livro ninguém o pode dominar ou destruir, nem eliminar por crueldade, ou cobiça. 

Herbais, 6 de dezembro de 1982

Tem dois anos e meio e é de uma imensa beleza; comparando-o ao espaço, é mais espaço do que o espaço; os seus arbustos, e árvores, obedecem a uma plantação irregular mas têm uma ordem; o inverno, dominando pela geada as ervas do chão, faz sobressair a sua parte aérea que ressoa nas minhas costas quando volto para casa.

Os ladrões de jardins, que fazem do jardim? O jardim fica cego para eles, ou são eles que fecham os olhos? No dia em que a terra for trocada por cobiça, para que existirão páginas para este livro?
levo comida à gata preta, e vou-me embora. Regressso. Ela assusta-se, mas logo sossega.
- Não é nada — falo-lhe. — É o nada que eu sou.

Um falcão no Punho - Diário I, Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2011, pp. 94-95.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Maria Gabriela Llansol

Passo V

É
     por mais que eu escreva, que eu revele, por tentativas, as mutações e os matizes do nosso gênero interior, através do qual acedemos ao país mais doloroso de todos nós, homens, animais, plantas, países governados em torno de seus Estados, aflige-me sempre a estreiteza do meu espírito, e a angústia da minha falta de conhecimentos,
     ou de memória vossa que os substitua; as mulheres são mulheres mesmo quando escrevem, e os homens são homens mesmo quando governam, o que se vê a olho nu. Governar um livro foi o que eu mais desejei, ficando sempre aquém; sou um corpo de ver, e não agir; sou um cosmos de meditar.
Narro, e volto à narração,
vivo os meus meses reflectida
numa móvel amplitude,
em que já participam vida e morte
(a clara superfície da treva eterna que ilumino),
sem engano, sem ilusão, sem ódio. elas, Clara e
Lúcia, caminhavam nas vertentes da Arrábida aspirando o mar,
 Marie Laurencin
e eu antevia a sua entrada na gruta
(delas próprias e do mar),
que se abria em recantos sempre inesperados,
onde havia homens que usavam burel
os hábitos —, e tinham rostos semelhantes à primeira
vista
e que, depois,
avaliados à luz das preciosidades que deles se podia
trazer,
e que nós, com risco de esgotar nossos recursos, pagávamos às recoveiras a peso de ouro,
se revelavam profundamente singulares. Sem
terem um nome de família consideravam-se cristãs baptizadas Clara e Lúcia, e transportavam cargas ou bagagens de uma povoação a outra. Na nossa comunidade de beguinas (livre dos princípios da ortodoxia) eram tomadas por visitantes, mensageiras, caminhantes, e usurárias. Mas o serviço que nos prestaram foi inestimável. Elas vêem, à entrada da gruta que desce para a profundidade do solo, uma fogueira acesa que aquece os monges, três ou quatro sentados, e um de pé; eu, que as acompanho por esta narrativa, vejo labaredas, um ramo de chamas, e reconheço, nas mãos dos monges, o caminho que as há-de conduzir a Luís M., no declive penetrável da serra. Ponho-me a imaginar atentamente o seu rosto, enquanto Clara e Lúcia tiram dos alforges do burro as toalhas com que hão-de cobrir os rochedos escritos que ele nos envia. Debaixo das toalhas, os rochedos pesam e tornam-se invisíveis, o burro abandonando-se, percorre o itinerário com a sua própria lentidão e se alguém pergunta de que vai o burro, e de que vão elas próprias tão carregadas, eu sugiro-lhes que sorriam mansamente.

Estamos sós, só nós — disse Coração do Urso, no princípio do Outono que ela desejaria passar em Portugal. Ela já está no cabo Espichei mas não sei por que melancolia humana se julga longe; eu sou o seu último companheiro e protejo agora, às ocultas, o nascimento de dois seres. Nesta caverna onde eu, habituado ao frio, estou à-vontade, eles escorrem ainda dos muros do nascimento e hesitam face ao quente conteúdo que os há-de levar; é uma forma de calor que brotada nela a mantém em vida. Eu sou o último companheiro destes dias tão atravessados pelas correntes do exílio que te peço,
Margarida,
os tomes serenamente por uma época de metamorfose divina.
Eu, Coração de Urso, tenho um coração.
Brancura e Simbular, se nascerem,
escrevem  desdobram como um manto    descobrem
a tua vida.

Fragmento de Causa Amante, Relógio D´ Água, 1984, pp. 27-29

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Maria Gabriela Llansol

(XXV)
terceiro estado de espírito
             já estou calma; não menos triste;
 tentar dizer o que uma coisa é, é viver;
 eu sou feita de irregularidades definitivas, e avanço por este carreiro até aos confins da cerca, à espera que alguém passe, e me leve. Não me surpreende a presença de Coração do Urso tendo debaixo da pata o maço de folhas atadas das minhas últimas vontades; levanta a garra no ar, e para que eu finalmente me ria, bate com o maço no focinho para que eu me lembre dos sermões de Eckhart esmagando-se sobre a minha cabeça;
eu sei que é um animal vagabundo, susceptível, solitário, tranqüilo; mesmo quando faz bom tempo sai pelo cres- púsculo, sem deixar rasto nas abreviaturas de caminhos;
mas
o meu, em vez de revolver as pedras, apanhar os formigueiros, desenterrar os bolbos, e colher mirtilhos
preocupa-se comigo quando entro numa terceira fase do espírito.
   Eu sou feita de irregularidades definitivas e avanço por este caminho até aos confins da minha vontade, à espera que ele passe e me leve.

(XXVI)
o último estado de espírito
             debaixo da outra pata do Urso que, afinal, é um relevo da chaminé da sala em que trabalho durante o inverno,
há o cubo das palavras da minha língua; demora a rolar numa dança antiga e desenvolta, executada pelo urso, mas quando o ritmo adquire a segurança de deslizar, a primeira impressão que recolho é de que todas as palavras são inéditas, e não estão sós; a companhia das palavras que vêm ter comigo tem lugar no âmago de uma grande independência tal como aquela que eu aceito para a dança do Coração do Urso;
compelida a atravessar o mundo através do meu mundo, e do mundo de Copérnico e de Escarlate (refiro-me ao mundo por definir aqui presente), ora me sinto incluída no parque, ora me sinto excluída da cerca; que absurdos momentos sem confiança porque eu sei bem que Copérnico e Escarlate têm necessidade e amor determinado, pela mulher que os inclui na paisagem;

In: CONTOS DO MAL ERRANTE, Lisboa: edições rolim, 1986, pp. 52-53


domingo, 5 de agosto de 2012

Maria Gabriela Llansol

Saber esperar alguém
Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti -------------------
----------------------------- até que a dor alegre recomece.

In: O começo de um livro é precioso. Assírio & Alvim, 2003.

Extraído de http://poemargens.blogspot.com.br/2012/04/maria-gabriela-llansol.html

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 maria gabriela llansol / XCII. beirais

__________ se estiveres ausente ( automóvel, comboio, avião, mudança de estação ou de cidade ), compra um papel simples que te comunique e envia-mo pelos meios mais eficazes ao teu alcance, e que te revelem como comprimido a desfazer-se debaixo da língua.


maria gabriela llansol
amigo e amiga
curso de silênco de 2004
assírio & Alvim
2006


Fonte: http://canaldepoesia.blogspot.com.br

Se eu fosse aquela em que tu

 «Se eu fosse aquela em que tu
Pensas, a que tu tens amor», dizia
Insistente a canção, à luz daquele
Candeeiro da Belle Époque. Tinha
Oito anos e olhava para o garoto
Sobre o seu supedâneo. Estive para
Dizer «Eu sou aquela em quem tu
Pensas» e estive para não dizer. E se
Tivesse dito? Seria aquele semântico
Tu que sempre me diria. E se dito não
Tivesse? Meu Eu gramatical ficaria
Apenas meu, é certo… mas tão incerto

maria gabriela llansol
o começo de um livro é precioso
assírio & alvim
2003


Fonte: http://canaldepoesia.blogspot.com.br

 

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Maria Gabriela Llansol


Fragmento de "Causa Amante"

Era impossível que o fogo ardesse além, portas adentro, não no palácio da Inquisição mas num convento. Jorge Anés tinha acabado apenas por sofrer a pena dos reconciliados
(sacrifício espiritual, prisão, ou desterro). Era impossível que o fogo ardesse ali até ao fim; era um conluio vegetal, nesse princípio da Primavera, enleado de verde de limoeiro, e de humidade; o sacrifício espiritual que lhe tinha sido dado como penitência fora o de lhe fazerem crer que ia ser queimado vivo; para que as plantas não fossem atingidas, devia arder num dia imprevisível em que não houvesse vento, ou o vento soprasse a leste, dispersando nessa direcção faúlhas e cinzas. Eu dizia a mim mesma que nesse lugar devia ser ainda mais estranho ver submetido fosse a que poder fosse um homem, ou ser vivo de qualquer espécie. Jardim de reflexão crescido lentamente, as plantas medicinais, legumes, os loureiros, haviam sido olhados, e cultivados, através do deslumbramento dos cegos: 
Alice, que dizia a si própria viver na cegueira do entendimento e eu, que chegara quase aos cinquenta anos para constatar, com muita pena, que vivia na cegueira da língua. 

Causa Amante, Lisboa: Relógio D´Água, 1996, p. 99


Sobre a autora

sábado, 14 de julho de 2012

Maria Gabriela Llansol


 O QUE APRENDI COM TERESA?

O que aprendi com Teresa? Que a ressurreição não é um acto de potência divina, mas a suprema manifestação de amor. Dar a vida não chega, não é um acorde consonante com a substância. Ressuscitar, sim, é o acorde perfeito.
            Mais adiante, o texto falar-nos-á de uma rapariga.
            Ele entra, e diz-me:
            – Sim – diz-me ela, pousando as mãos nos meus joelhos: – Desejo encontrar alguém que me ame com bondade, e que seja um homem.
            – Alguém que queira ressuscitar para ti?
­            – Sim. Alguém que tenha comigo essa memória.


In O jogo da liberdade da alma, Lisboa: Relógio d’Água, 2003

(Teresa é Thérèse de Lisieux, de quem Maria Gabriela Llansol traduziu O alto voo da cotovia)

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...