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quarta-feira, 16 de outubro de 2019

João Luís Barreto Guimarães

EPITHALÁMION

A paixão procura um corpo (o amor
procura a alma) o que será o amor senão
dor de um fogo posto? Que fará
com que esses dois
(por um acaso perfeito) prefiram ficar unidos
sobrevivendo a mágoas
(desejando a empatia) o que será
que consegue repetir à mesma mesa duas vidas
a cada dia —
cada qual com o seu livro
cada com sua cor de vinho
cada qual sua viagem? O amor não é mais
que o presente (um presente absoluto) em que
procuras a mesa e
do outro lado da mesa está alguém que lê o teu livro
(alguém de quem provas o vinho)
com quem
começaste a viagem. O amor não é mais que isso
 (quimera que não se explica)
o amor não escolhe entre dois
não anula: o
amor duplica.

A SOLIDÃO DOS HOMENS CANSADOS

A
cada dia que passa me sinto mais fatigado. Um
homem procura ternura
no seu regresso a casa (um
 homem não vê o instante em que despe
o ultraje) quando
sai de pés descalços pelo soalho da tarde em
busca de um
copo de olvido. Um homem conhece a casa
pelo gato à janela
 — duas pupilas acesas sentam-se
à mesma mesa
sentam-se à mesa da alma. E a casa recebe o homem
com uma noite sempre nova
(um homem entrega tudo a quem o
salve do exílio)
quem lhe aplaque a solidão
que existe nos homens cansados.

(In Nómada, Quetzal, 2018)

domingo, 20 de setembro de 2015

João Luís Barreto Guimarães

PONTE MÓVEL SOBRE O RIO LEÇA
Imóvel na ponte aberta sobre este porto de mar
queria não ter de esperar que o petroleiro passasse
a vomitar ouro preto nos depósitos da Cepsa.
Olho as margens da tarde em informe ebulição:
o navio japonês veio dar à luz Toyotas
alinhados sobre o cais qual parada militar
(os turistas do cruzeiro aguardam pelo autocarro
que narrará em sueco memórias do Porto antigo).
Do cargueiro africano rolam troncos gigantescos
houve um que caiu à água e ninguém o foi salvar
(decerto não irá longe nestas águas estagnadas
nem poderá ir mais ao fundo).
Corre um vento de norte. Novembro
está dentro do outono. Alguém reuniu o manto
de folhas cerca da ponte mas pelo final do dia
já é outono outra vez. E
distraí-me do cais. Espera. Lá está a marinha.
A fragata da Defesa devolveu homens a terra
meio dia de licença na casa da luz vermelha
(este Natal as meninas vão-lhes dar a provar sonhos
e o porteiro: rabanadas). Se
faltavam desrazões para me obrigar a parar
aqui me têm parado (só re
parando se vê)
qualquer amurada é perfeita para resumir um país
qualquer ponte é ideal para se matar
os tempos.

[In Poesia Reunida, Lisboa, Quetzal, 2011, p. 240]





quarta-feira, 13 de maio de 2015

João Luís Barreto Guimarães

como se o acaso fizesse desta folha um reino
por habitar o endereço de janeiro algo branco
por começar como se de entre as nervuras da
folha apenas uma fosse o pombo que líquido se
eleva e voa como um aroma como um adeus ou
mesmo: como se uma ideia de ar fosse a força
dobrando uma pedra d’aço e o riso fosse água
e o jardim movimento onde se falasse das
cores do vinho e do corpo (substância de
referência) como se por exemplo: o amor fosse
só um de todos com outros todos (etc. assim:)
apenas eu como se livre fosse seria o eco que
volta como leve sono ou algo puro algo novo
raiz fixa ao gozo de ter uma vida nas mãos
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este poema foi escrito ontem hoje não
vou escrever (na face nego sorrisos como
quem fecha janelas) hoje só preciso de

mim (este poema é grátis: não está
incluído no preço do livro). hoje
não tocarei o corpo da Corona Four
uma ‘azerty’ americana já com uma certa
idade (ainda é das que escreve poesia a
preto e ranco) faz um mês que se perdeu
a tecla da letra « » só por isso não
tenho escrito sobre o rilho dos teus
olhos. o meu copo está vazio (hoje
não é poedia) depois eu mando alguém
buscar as minhas palavras

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11 DE ABRIL
Transpõe a porta de entrada um par que reconheço. Ela, das casas a norte. Ele, dos bairros a leste. Aqueles rostos porém, transportam uma impressão difícil de definir.
Entraram de mãos laçadas, anel doirando no dedo. Não os conhecia unidos. Desconhecia-os sequer conhecidos.
Não tenho vigiado os amigos. Tenho estado pouco atento à procura de percursos na calçada de cimento que fronteia o Café. Não fui eu que estabeleci que as horas que somam para mim, se multiplicam para os outros.
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FALSA PARTIDA
Ainda estranho o lugar quando acordamos
no revés de já ser outro
o dia
porque espelhas o tempo à janela é
à face de teu rosto que decido
o que vestir.
O vento que molda a praia
é de todas as bandeiras:
há um silêncio talhado à substância do quarto
(o chão de madeira matiza o
frio que força uma fresta)
podia apostar comigo: hoje
de madrugada
um cão ladrou na voz do galo.
O meu sobrenome segue-te
pela véspera da casa
(fim de emissão no ecrã
cálices
meio hasteados) a
chuva desistiu de apagar o nosso amor embaciado
pelo lado negativo.
Tornas à cama e abres
aquele romance de sempre
(o descanso existe
noutro cansaço).

[In Poesia Reunida, Quetzal, 2011]

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

João Luís Barreto Guimarães

FALSA PARTIDA
Ainda estranho o lugar quando acordamos
no revés de já ser outro
o dia
porque espelhas o tempo à janela é
à face de teu rosto que decido
o que vestir.
O vento que molda a praia
é de todas as bandeiras:
há um silêncio talhado à substância do quarto
(o chão de madeira matiza o
frio que força uma fresta)
podia apostar comigo: hoje
de madrugada
um cão ladrou na voz do galo.
O meu sobrenome segue-te
pela véspera da casa
(fim de emissão no ecrã
cálices
meio hasteados) a
chuva desistiu de apagar nosso amor embaciado
pelo lado negativo.
Tornas à cama e abres
aquele romance de sempre (o descanso existe
noutro cansaço).

[In Poesia Reunida, Lisboa, Quetzal, 2011, p. 183].

JORGE CABALLERO


quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

João Luís Barreto Guimarães

Sol de janeiro
Nunca tanto como hoje reparei com atenção
na
luz do sol de janeiro. Forte
mas delicada. Furtiva
mas
demorada. Não arde nem faz tremer.
Não é densa nem clara. A
luz
do sol em janeiro:
assim é o nosso amor
oculto pela tinta dos dias apenas
espreita uma aberta
(uma distracção das nuvens)
para luzir e irromper
(nunca antes como hoje precisei
tanto que o vento lhe
desse oportunidade).
O nosso amor é janeiro:
mesmo se o julgo esquecido
sei que
vem sempre lá.

[In Poesia Reunida, Lisboa, Quetzal, 2011, p. 212]


domingo, 4 de agosto de 2013

João Luís Barreto Guimarães

Outro dia
Deixo agora que o dia me torne
um pouco mais dele. Saio
até à varanda e as chaminés dos telhados
devolvem de todas as vezes seu
pretérito fascínio.
Os dias vão mais pequenos. As 
árvores por vezes cantam é 
a música das manhãs que se espraia 
como um cheiro a fuel vindo das docas. Porque 
(sem querer) é
outro dia. Certo como fosse meu. A 
mais simples distracção tomará 
alma por 
lama.

In Poesia Reunida, Lisboa, Quetzal, 2011, p. 227

Wu Guanzhong

sábado, 18 de maio de 2013

João Luís Barreto Guimarães

Os lugares na cama
Adormecemos juntos acordamos
apartados
disputamos o lençol como quem puxa a razão para si:
a quantos beijos estamos hoje de distância?
De manhã a voz é lenta chega
a chegar atrasada (a
cama feita a correr não
vá a empregada encontrar caída
entre lençóis
a palavra proibida). Se
os braços devem cair ao
longo da fadiga de um corpo
que seja ao longo do teu
(tu não me olhes assim
com o ruído dos olhos:
os beijos desarrumados depois
de os utilizares)
por favor fica a meu lado. Quero
que sejas tu o
parente mais chegado.

In Poesia Reunida, Lisboa, Quetzal, 2011, p. 191.

Uma emergência de outono
As cores da maçã assada aberta
pelo fim do verão antecipam no palato
uma emergência de outono.
Convida a ficar por casa
esta maçã que feri e salpiquei pelo torso
com cézannes de canela.
Sob a epiderme tisnada (cor
amarelo-pecado) é
perene o seu sabor. Vê só
como jazem nuas
suas vestes pelo prato
(qual roupa de rapariga desbragada
pelo chão).

[In Poesia Reunida, Lisboa, Quetzal, 2011, p. 294]

Blog do autor


Paul Cézanne

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...