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terça-feira, 13 de outubro de 2015

Abgar Renault

SEMI-INTERNATO
A Pedro Nava

Bonde cor de sono das minhas manhãs de colégio triste.
Enevoado bonde abrindo a friagem e o silêncio dos bairros
[estremunhados.
(De onde vinha misteriosamente, arrastando os começos do
[dia,
o bonde madrugador, carregado de junho,
com seu motorneiro de bigodes pardos, suas cortinas de
[vento, seus balaústres de gelo?)
Dor de sentir a manhã entrando debaixo das cobertas,
e ter de sair correndo para pegar o bonde das seis
(e sair sem correr para não pegar o bonde das seis).
Ir às seis, voltar às seis, ser triste como a tarde às seis da
[tarde.
Hoje não vou porque estou com dor de dente.
Como é que hei de ir hoje com esta roupa?
Não sei a lição e hoje não vou.
Não vou porque também a comida é muito ruim.
E ia hoje sem roupa no bonde das seis.
E ia hoje sem lição no bonde das seis.
E ia hoje sem dor de dente no bonde das seis.
Ia ficar com fome o dia inteiro — e partir no bonde das seis,
para só voltar às seis com o meu sono e a minha tarde
[precoce.
Assíduo e inocente, eu fugia das aulas e do almoço
e meditava o Parque Municipal contemplando os gramados
[e as pontes
(dor misteriosa de ver as águas fluindo sob a indiferença
[das pontes paradas)
e vadiava com meus sonhos vagarosos pelas ruas desabitadas
[e infinitas,
em busca dos doceiros que aceitavam coupons de bonde
[como dinheiro.
(Gratuidade da vida simples em que passagens de bonde
[compravam doces!
Ó antiguidade sem ônibus! Ó cinco automóveis na Avenida
[Afonso Penna,
que eu conversava, acariciava e de olhos fechados conduzia!
Ó Distribuidora de Eletricidade! Ó frack do Dr. Carvalho
[Brito!
Ó Cinema Familiar do Poni na Rua da Bahia sem nunca
[matinée!)
Era ali na Avenida João Pinheiro, esquina de Timbiras,
que eu devia residir das seis e meia às seis da tarde,
e era dali que eu fugia nas águas de barcarola do Parque,
[com Nick Cárter e os primeiros punhais de mulher.
Era lá que eu sonhava nunca estar e ser feliz,
e era dentro das paredes grossas que sem olhos, nem ouvidos
[revivia as horas de pagode em casa
e pensava gravemente no olhar de sombras dos olhos lon-
[gínquos de minha mãe.
Não aprendi o francês de Halbout, nem história sagrada,
[nem análise.
Viajava de bonde triste no ar desmaiado da manhã
e em cima da voz do professor ia desenhando jardins assírios,
[crimes, pistas e seminudezes.
Foi outrora. É outrora. Outrora é ali naquela esquina de
[Timbiras
onde estou ainda parado sem querer entrar para não chorar
[perdidos pêndulos;
é o meu olhar de hoje quando translê submersas ruas;
são as minhas calças curtas, as queijadinhas de medievais
[doceiros,
a minha boca temerosa perguntando: "O senhor aceita
[coupon?”;
é um bonde pálido, sujo da madrugada de amarelos arra-
[baldes,
levando para a prisão, às seis horas frias da manhã, o sono
[dos onze anos.

[In A outra face da lua, Rio de Janeiro: José Olímpio/INL, 1983, pp. 121-122]




quinta-feira, 2 de julho de 2015

Abgar Renault

DESINTEGRAÇÃO
Eu tenho o coração cheio de coisas para dizer. . .
E a minha voz, se eu acaso falasse,
teria a força de uma revelação!

Meu espírito palpita ao ritmo desordenado e aflito
de asas prisioneiras que se dilaceraram
na arrancada impossível da libertação e da altura.

Minhas mãos tremem ainda ao contato
imaterial, sobre-humano e fugitivo
de qualquer coisa além e acima deste mundo. . .

Adormeceu para sempre no fundo dos meus olhos
a saudade de paisagens estranhas e longínquas,
que nunca, nunca mais voltarão neste tempo e neste espaço.

Doem meus olhos. Tremem, ansiosas, as minhas mãos.
Meu espírito palpita. Tenho o coração cheio de coisas para
[dizer. . .

Eu estou vivo. Senhor! mas. em verdade, c como se estivesse
[ morto. . .
[1931] 

DIANTE DO CREPÚSCULO
Para que tantas palavras, se não existe onde derramá-las
ou fita de ouro em que enfiá-las em lúcido colar?
Para que esta contiguidade e este contacto,
se são construídos de alturas e de mares que não esquecem?
Para que o jardim de asas verdes e tantos céus,
quando a neblina corta o olhar e estanca o voo?
Por que nas mãos de escamas brotam frouxéis,
se em nenhuma pele se adoçará sua doçura amarga?
Onde a taça desmedida em que se debruçaria
tanto entornado vinho em busca de ser bebido?
E as uvas cálidas de onde ele escorreu
e em que procura regresso e reintegração?
Em que cidade de tantas ruas sem casas
procurar os sapatos já sem couro
e as pernas sem pés que desejam calçá-los para ir aonde?
Toda pergunta fica e interroga outra interrogação:
Quem se abriria em arca ou peito ou bosque
para receber o escuro viajante que está partindo sem viagem?

SOBRE ABGAR RENAULT

[In A outra face da lua, Rio de Janeiro: José Olímpio/INL, 1983, pp. 42-43]



Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...