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domingo, 10 de julho de 2016

Miguel Manso

V
desprendeu a crina prateada
frente ao espelho corroído na casinha do pátio
ao pé do lavatório, essa bisavó
magra enigmática

num aceno breve reuniu o que estendeu
no enredo voluminoso de um toucado enquanto
de fora o calor velava um Verão de limoeiros

eu estava no ângulo mais assombrado
da idade cuidando por não ser descoberto
escondido com uns pássaros ao fundo

tão-pouco soubemos avó de poesias
e o que nesse canto me ofereceste devolvo
pior no recanto tardio de uns versos

VI
o ciúme tardio sem motivo
a torpe varonia enroupada na mansidão
em que flagravas

inseguro, em surdina
junto à presença desenvolta da mulher
de quem foste marido e náufrago

e teve contigo, afinal, um amor fiel
fecundo e bom

[In Supremo 16/70, 2013]



quinta-feira, 26 de maio de 2016

Miguel Manso

NA MORTE DA AVÓ
não bastasse a humilhação pública de morrer
espera-se do corpo que cumpra com indiscutível
pompa o intolerável protocolo de ausentar-se

a penosa execução circular e nocturna do velório
a presença inconveniente dos agentes funerários
os adereços lutuosos a obscena maquilhagem

no dia seguinte, o inventário das orações, a concisa
cerimónia (não há muito a dizer, sejamos honestos
e soa até a insulto que se pronuncie o nome de

Lázaro) o caixão é fechado, o dia põe-se bonito
– é quase tão imoral como alguém ter trazido uma
gravata com motivos facetos, uma camisa florida –

depois, em casa, parece que as vozes ressoam como numa
sala a que tivessem subtraído os móveis e houvesse, por isso
a estranheza de uma extensão desprovida, dissemelhante

o avô vai buscar as memórias da infância (por que
razão obscura omite ele as lembranças de casado?) há
na sua voz qualquer coisa de paciente melancolia

como se aceitasse, com constrangedora submissão, que
o tempo não se detenha nunca, que os anos nos empurrem
para um buraco na terra, nos sujeitem a tão bruta descortesia

a prontidão da morte, a ligeireza do tempo, a estupidez
da vida que nunca vai encontrar cura e razão para ela própria
contra tudo isso eu alardeio o poema, antecipo a derrota

[in Santo Subito, edição do autor, 2010]

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...