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sábado, 30 de maio de 2015

Lélia Coelho Frota

OCLUSO

A floresta — verde
úmida epiderme.
A capela rósea,
sobre alguma nuvem
a estátua vendada.
Sempre em sustenido
a aérea cascata.
E o trilo do grilo
(no maior sigilo)
exato no musgo:
estremecimento
minúsculo, tenso.
Gotejante linho
sobre os corpos claros
e as mãos em descanso
no remanso tênue
da erva sensitiva,
e os imperceptíveis
suspiros no limo.
E pela pervinca
do plural silêncio
egeu, vegetal,
os apaixonados
restauram o tempo
em um só crisólito
de mudo colóquio
branco e malincônico
fossem duas notas
de velado acorde
fossem duas asas
num voo perdido
fosse o diamante
de duas facetas
(mágica luneta
a frasear o escuro
de encantada luz)
fosse o mesmo anjo
nas pupilas vagas
do desmemoriado
fosse a mesma grave
comissura em que
os lábios se fecham
no segredo incrível
do mais puro amor.

[In Poesia Lembrada, Rio de Janeiro: José Olympio, 1971, pp. 138-139].


By Anne-Laure Djaballah

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Lélia Coelho Frota

MÁXIMA POLIDA
A um audaz parceiro
Lembra a emoção que sentiste,
que não sendo grande amor
Floriu mesmo em amor grande
(grande mas não para mim -
só ao prestígio da imagem
que declararam ser minha)
eu, que ignorando previra
minha sorte no flautim
de certo
pícaro bardo
que se disfarçou de cardo
dissimulando ternuras.


Que fique pois nossa dança
com o sabor acre de um brinde
atirado na parede
sobressaindo na argila
nossa polca inacabada
nesta comarca de sonho.
[In Poesia Lembrada, in Poesia Reunida 1956-2006, Rio de Janeiro, Bem-Te-Vi, 2013, p. 82].


terça-feira, 20 de maio de 2014

Lélia Coelho Frota

AQUERÔNTICO
É de noite que os mortos voltam
em sua barca de papel
a roçar a porta do sono
em que inermes escurecemos
mais um dia — pulmão de chama
contraindo a luz da manhã!
E de noite, pela amurada
que vêm se debruçar conosco
e indulgem — apenas sorriem
sem qualquer resguardo, sem ênfase
em ir e vir, em ter partido.
Impressões de viagem? Alheias
como a do perfil de uma dracma.
Remiram-nos maliciosos
pensos de ternura se quedam
em sua fosca primavera,
atrás de embaciados acenos,
pacientes, à nossa espera.

[In Poesia Reunida 1956-2006, Rio de Janeiro, Bem-Te-Vi, 2013, p. 256]





terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Lélia Coelho Frota

BALANÇO DOS VINTE ANOS
Dizer a flor da idade
a síntese minguada
de concreto e ficção
assim entrelaçados
a nos cristalizar:
o pouco — o florescente —
em muito: esta emoção.
Os prismas diluindo
real em relativo
constroem a paisagem
em torno da louçã:
vida vargem florida.
(O inverno é rubrica
de prata, imponderável
mal se arrisca em prenúncio
sem chegar a certeza.)
Terrível primavera
as promessas acesas
em cinco ávidas ânsias
que não passam da infância
no seu desabrochar.
— É a conduta humana
a quem deveis culpar
doutores de Alzaar
já que foge de amar
quem em vez de amor, dá ar.
O paladar reclama
suquinhos e temperos
mas o seu exagero
de ótimo o consome
e o isola na fome.
Caridoso olhar
quer fundir-se na fímbria
da harmonia das cores
que navegam o espaço
bojo das figuras —
investiga e desola-se
ante a inútil dinâmica
de sombras, corpos, flores
ausentando-se em sono.
As mãos desejariam
ser brandas portadoras
de excepcionais infantes
valencianas e cassas
voando em transparência.
No limite barroco
da província trocista
dos eros em ciranda
estacam reticentes
e sempre: flor latente.
Aroma serafínico
prezou sua atmosfera.
Os incensos fugiram
no bolso do delfim
e o ar indiferente
é insípida fera
que nos fere com paina.
Música? Só de Mozart
e Bach, insopitáveis.
Mas há (íntimos) leigos
sempre tédio, memória
a acionar mudas cenas
lançando em desalinho
rosicler, minueto.
Que fazer desta vida
primavera precipite
em recreio de amor?
Vida vargem florida.
E a palavra aturdida
na ausência multicor.

[In: Poesia Lembrada, Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1971, pp. 170-171]


 by Alberto Bruzzone



terça-feira, 26 de novembro de 2013

Lélia Coelho Frota

ELUCIDÁRIO
Se a manhã nos arma um laço
de margaridas de aço
meu bem, eu fujo na brisa
que voa para Ouro Preto.
Eu voo para Ouro Preto
não para filar venturas
que escapariam de mim.
Eu voo para Ouro Preto
na pontinha de teus pés
e com asas de saíra
para antecipar a morte
de meu eu impaciente
nos planaltos impassíveis:
clara cor clarividente.
Essas melífluas tristuras
que esquinas cotidianas
distribuem no caminho
em Ouro Preto se aguçam
a um tal diapasão
que o ser não resiste e cede
seu lugar a algum inseto
cariátide de altar.
Eu voo para Ouro Preto
não no cultivo de hiper-
requintadas regalias:
eu voo sobre ouropéis
a me confundir nos cerros
que se engolfam na distância
no cerro
no cerro azul
de diamante taful.
Azulvoante volátil
para não ser: ser lembrança
de alguém que nunca existiu
 não usou vestido novo
não se sorriu nos espelhos
deu mão para namorado
e decorou teoremas
e não amou não amou
e não sofreu, diluiu
os olhos em noite insone.
Ser detalhe de paisagem
galicismo, bem-te-vi
principalmente não ser,
não ser, meu bem, eis aí
a razão de ser inversa
que claudica e se tortura
e que se condensa em verso.
Eu voo num voo curto
surdo preto caviloso
com meus pezinhos dourados
eu fujo de mim nos braços
assustados dos ponteiros.

Marília, Dirceu, é hora
dos madrigais mais soturnos:
eu voo para Ouro Preto
valsando nos meus coturnos.

[In Alados Idílios, in Poesia Reunida 1956-2006, Rio de Janeiro, Bem-Te-Vi, 2013, pp. 148-149].


ALBERTO DA VEIGA GUIGNARD
Paisagem onírica de Ouro Preto 



terça-feira, 6 de agosto de 2013

Lélia Coelho Frota

FINESTRA DA ENCLAUSURADA
Claridade cobalto
de mar que se adianta
em máquinas de alto
azul, pura faiança

Partida no minuto
daquela intimidade
festiva e cariciosa
em que a praia se alcança.
O melhor do mar
é ser azular
o melhor do mar
é não ser tangível:
resistir ao olhar
e manter-se incrível.
O melhor do mar
é ser impossível:
permitir presença
de corpo sensível
sem jamais deter-se,
transparente veste
sobre a pele clara.
O melhor do mar é fluir
em nível
desapercebido
de incursão qualquer
no fluido tecido
de aéreos pavilhões
— água estremecida
pelos reinos do
coral devaneio.
Pela definida
moldura, pelos quatro
limites que o seccionam
no quadrado aberto
da extática janela
na prisão diária
e abrem
pela sombra adentro
radioso alarme
de alegria, ia
o coração num til
refletindo o inteiro
triunfo da espuma
pulsando, fugindo
da fria pupila
do relógio seu
piscar burocrata seu
rotulado zelo.
Até que em ampla parábola
de um consolo universal
eis que mesmo o pensamento
em meio a azul se desmancha
e o olhar, apenas liberto,
se evade, pequena mancha,
lá, no perfeito horizonte
que justo agora dissolve
discreta, ligeira lancha.

[In Caprichoso Desacerto, in Poesia Reunida 1956-2006, Rio de Janeiro, Bem-Te-Vi, 2013, pp. 230-231].


ODILON REDON



segunda-feira, 3 de junho de 2013

Lélia Coelho Frota

CANÇONETA LEVETA
Não procures tecer de crivos 
metafísicos nosso amor.
Ele é lúdico. E não carece 
de teu floreio sem calor.

E nem sugere, mais vossa dama, 
alexandrinos como desculpa: 
só teu perfil, incisivo e breve, 
já destruíra a se alguma, culpa.

Eu não espero nem desespero. 
Para te amar, fiarei um escrínio 
de mais amar, que me dissolvesse 
pelas agruras do teu fascínio.

Tênue é a vida, rude o juízo 
que determina minha passagem — 
enternecer-me com teus indícios 
enquanto habitas outra paisagem.

[In Iminente Cristal, in Poesia Reunida 1956-2006, Rio de Janeiro, Bem-Te-Vi, 2013, p.184].



quarta-feira, 22 de maio de 2013

Lélia Coelho Frota


TALVEZ PENÉLOPE
Ah o amor da Grécia o branco 
imaculado amor das ilhas 
que pervagam no mar violeta
 numa eterna tapeçaria 
a desfazer-se, a refazer-se —
                                             espumas
peixes, sargaços, conchas, abismos,
                                            Ulisses!
Onde viajas, encantado, retido, 
ó esperado desaparecido?

Ó nunca visto, ó viajante rijo
do mar guerreiro, de ondas em riste, onde
teu rosto ignorado persiste?

Na nostálgica superfície 
ecoa um nome, e o edifício 
das águas reboa, desaba 
pelas angras do esquecimento.

Que sereia te seduziu 
para assim me deixares, só, 
na mesa vazia, entre conchas 
murmurejantes?

Ou serei eu a sereia
que se põe entre nós de permeio
e desfaço a a tua chegada 
quando de longe, na amurada 
 vês o meu vestido vermelho 
que a brancura da praia incendeia?

Serei eu quem de ti se afasta 
e que a trama das ondas desata 
quando a meus pés resvala, súplice, 
a marola da tua fragata?

[In Alma & Pétalas, in Poesia Reunida 1956-2006, Rio de Janeiro, Bem-Te-Vi, 2013, pp. 418-419]


quarta-feira, 1 de maio de 2013

Lélia Coelho Frota

EM SINAL DE TE ABRAÇAR
Onze anos no jardim da morte e é como se fosse 
o teu dia de aniversário
tão próximo apareces, de olhos líquidos, dados.
Ervilhas-de-cheiro e uma luz muito clara 
sobre o mármore do teu retrato.
Cartas guardadas agenciam a entrega rápida do passado
onde instantâneo ris, 
no sofá ladeado de cisnes.

Já não tenho o teu endereço
a não ser pela mala dos sonhos.
Há graúnas bicando os grãos da vida,
romã. O que acontece
na paisagem à prova de som, sem gravidade,
suspensa dos filamentos da saudade.

Súbito e são lágrimas, a fratura exposta
da tua falta.
Depressa, depressa demais é que se desprendem os pássaros
do teu rosto.

Dia de Todos os Mortos:
flutuas
pela nave espacial da lembrança.
Nem os acordes do grande órgão de Thomaskirche
iluminado como um transatlântico          
conseguem me levar à tua estrela.
Dali mandas mensagens
convites para o cottage verde
onde fechas devagar os olhos de ocarina.
Acorda
deste lado do espelho
trinca o cristal da ausência,
corpo de ar!
Sobem vazios
os elevadores da morte.

Por esses, e por outros motivos,
recorro à ladainha do teu rosto
que repito que repito
inconscientemente dentro dos anos
me desviando da tua memória frontal
insuportável
até o nosso encontro,
corolário de uma eternidade lógica,
no primeiro círculo do Purgatório,
nos subúrbios do Paraíso.

Em trânsito
para a devastadora claridade
flash fulgurante dos nossos corpos e almas
enfim revelados e contidos fora do espaço e do tempo.

[In Menino Deitado em Alfa, in Poesia Reunida 1956-2006, Rio de Janeiro, Bem-Te-Vi, 2013, pp. 388-389].

John Martin

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Lélia Coelho Frota

SALA CECÍLIA MEIRELES

Cecília,
tua casa agora é uma ilha 
frente ao jardim antigo. Obeliscos 
próximos perfeitamente te guardam 
e anunciam, entre a família das árvores, 
tua pureza solitária, a erguer-se em cal.

Cecília,
tua casa agora é navio 
de argamassa e alvenaria 
branco e azul, musical.

Cecilia
de sete jardins 
suspensos 
habita agora a escala 
absorta
dos sons a que se move seu navio.

Navio de grande calado 
êle singra a Lapa, feudal, 
e a figura de proa, sabemos 
invisível, deixa estendal 
de finos gestos, formosuras, 
olhares claros, refloridas 
frases de leve doutorado 
a exercer visões profundas 
sob uma graça oriental.

Cecília, entre lótus,
Meireles,
frontispício de dois acordes 
é a ideal anfitriã 
que venturosa propicia 
ao visitante uma precisa 
música, um retrato 
trágico ou risonho, máscara 
oportuna a animar-se entre 
as quatro palavras mágicas 
de sua sala de visitas.

Cecília, Cecília, padroeira 
de teu navio sensitivo 
por largos mais amplos que esse 
de tua casa transitiva 
vem buscar-nos, singra conosco 
rumo àquele ditoso país 
de cordilheiras e murmúrios 
que já habitavas à distância 
por um espelho de suspiros 
e ausência — lá onde o tempo 
era redondo e o pensamento 
um acidente feliz.

Visita teus visitantes 
com os ares da tua graça, 
com jeito de quem não quis 
sobrevoa-nos pela Praça 
Paris, ó maga de fugas 
precipita-nos pelo teu mar absoluto 
adentro,
intransigente Cecília sem luto, 
a proferir na alvura, 
alta (poesia)
a indestrutível palavra cintilume.

[In: Poesia Lembrada, Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1971, pp. 159-160].



quinta-feira, 28 de março de 2013

Lélia Coelho Frota

AUTOGRAVURA, EM ÁGUA FRÁGIL II
Pelo que fui de riso claro
no estágio de uma primavera
pela doída confidência
impressa em água curiosa
e navegada por estranhos
em sua vã mansuetude
urdiu o tempo o comentário
que para vós é minha imagem:
apenas jovem ocorrência
de olhos risonhos na paisagem.
E com mineira e atra constância
passeio os córregos delgados
em meandro pervago no trilho
dos novilhos de chocolate.
Coração entre mar e Minas
de ligeiro favônio aceno
brinco entre vossa habilidade
de não saber-me (mar ou Minas)
e de tanta fragilidade
efígie de água me desmancho
frêmito leve de suspiro
para surgir no vau tranquilo
do Rio Verde mapeado na
concreta cidade dos morros
onde o universo se resume
no olhar explícito dos bois
e no severo circunlóquio
dos homens pelo território
cinábrio de seu cafezal —
feudo em que o arame é geografia
única de interna valia
e o que o excede é horizonte
onde a atenção não se ilimita:
já é outra jurisdição.
Rios vermelhos e vermelhas
estradas de barro ferido
pelos arados sonolentos
casas de barro, bois de barro
oco, paixão e anjos barrocos
desfazendo-se no passado
como em lenta câmara rubra
a resumir tudo em difusa
mancha de quem encara o sol.
Mas é na ternura do barro
que se molda a fisionomia
das longínquas tardes de infância
e dos atalhos em surdina
onde o segredo era ciência
de perdular-se e não exaurir-se:
mina que sempre revertesse
um imutável diamante.
E como imprimir à feitura
(assim tão sobre o purpurino)
de minha paisagem madura
o tom que lhe ameiga o contorno
e responde pela moldura
que esmerilha em amorosa luz
mesmo a fidúcia solitária
de quem soma seus desconfortos?
Só descerrando em talho doce
certa líquida anatomia
do espelho antigo que escorria
em nós o humor e os estuários
da reserva que é sentimento
das Gerais em qualquer instância
e sobrepaira em absoluto
diário cerrado, nostálgico,
as noruegas do silêncio
onde itinero em singradura a
 nave azul deste poema
com leme aberto em madrigal
que atravessa na cerração
mares que nunca saberei
em perdida viagem — meu próprio
longo exílio sem remissão.

Juan Carlos Boveri

[In Poesia Lembrada, Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1971, p. 119-120].


quinta-feira, 14 de março de 2013

Lélia Coelho Frota

EMPECILHO
Dura efígie que interfere 
em seu mais ínfimo gesto
artifício negador
suprimindo amenidades
armazenadas em azul
cor de flor primaveril.

Artifício volantim
equivocando emoções
(eis a troca sub-reptícia!).
Onde era lume, o fastio
resignado dos legumes
disciplinados em horta.

Sol, que não era, mas um
florim esculpido em blau
irradiando cordura
para as gentes sem paixão
é planeta moderado
a medir luz, donativo.

Fino cicio da grama
sugerindo proporções
de amar que se harmonizassem
ao segredo da paisagem
é verde epitáfio, e talha
sob placidez nossa face
devaneio choro talhe.

Violinha sonantinho
para nosso pé dançar
é pífaro intermitente
convidando a meditar.

Minuto que atrairia
o poema, a flor arisca,
se estilhaça no tinteiro
atrasa a memória pouca:
é fascículo incompleto
o livro que esmeraríamos
limitados, pobres, tensos,
desmedidamente avaros
fixos em lenta dolência
de navio sob pilhagem
a tentar fugas na brisa
mas contido no pesado
calado de sua rota
cor, velame, referência.

É partícula de tédio
e desencontro, letreiro
de nítidos argumentos
carreando senso ao denso
panejamento de amar.
É trave, é pílula grave
que assimilamos, desgosto
mudo, severo, pausado
a afiar no coração
seu dente de interferência
madureza e abstenção.

[In: Poesia Lembrada, Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1971, p. 56]

Siron Franco

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...