ROMANCE DO ALEIJADINHO
Antônio Francisco Lisboa
no catre de paralítico.
Antônio Francisco Lisboa
está nos últimos dias.
—Sobre meu corpo, ó Senhor,
põe teus divinos pés.
Ao penitente perdoa
ira, luxúria e soberba.
Os grossos lábios murmuram
secos, gretados de terra.
Tateiam os olhos cegos
as moedas falsas da luz.
Estende os braços, estende-os,
não tem mãos para sentir
a carnadura de estrelas
de sua pedra vencida.
E anseia substâncias plásticas
sob dedos renascidos.
—Mais que volutas, rosáceas,
mais do que as flamas e as curvas
flexuosas dos meus delírios,
em segredo amei as virgens
de leves túnicas brancas,
formas essenciais do sonho
que fez de meu corpo uma alma.
E mais do que os rijos músculos
desses guerreiros que atroam
nuvens e ares com trombetas,
amei a graça e a doçura
dos anjos, dos ruflos de asas,
a delicadeza em flor
das crianças que não me amaram.
Queda um momento perplexo:
de um lado o mar infinito
de vagas que se desdobram
verdes, verdes, sempre verdes,
e seus passos firmes de homem
caminhando, caminhando,
sobre as ondas caminhando.
À esquerda a floresta, o abismo:
fulvas serpentes se enroscam
nos troncos dóceis dos cedros
atravancando a passagem.
E recorda as vezes tantas
em que seus pés se enredaram.
—Filtros, filtros de cardina,
filtros, prodigiosos filtros!
Do catre imundo e revolto
Joana Lopes se aproxima:
—Que queres tu, Pai Antônio?
—Para onde foi teu marido,
filho ingrato que gerei?
—O mundo levou teu filho
mas uma filha te deu.
—Januário, onde está Januário?
É meu escravo ou não é?
—Januário de tantas mágoas
descansa no cemitério,
— Ganhei dinheiro às carradas
e minha arca está vazia.
—Eras amigo dos pobres,
são pobres os teus amigos.
—Quero a Bíblia, a minha Bíblia!
Mãos compassivas depõem
no peito coberto de úlceras,
restos do sagrado livro.
—Sobre meu corpo, ó Senhor,
põe teus divinos pés.
O moribundo sem força
move os lábios num sussurro.
E da distância dos séculos
anjos e virgens o escutam.
[In Nova Lírica, Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1971, pp. 47-49]
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sexta-feira, 11 de setembro de 2015
quarta-feira, 8 de julho de 2015
Henriqueta Lisboa
ARIEL
Dança Ariel sob raios de sol
entre o vergel, vergando
as finas hastes, as corolas
repletas de orvalho. A gota
de orvalho, que clara
medalha sobre o peito de Ariel!
Dança Ariel renascido
de frias ruínas, como o arco-íris
do fundo dos vales. E o vento
com suas flautas e bronzes, que impulso
para os aéreos movimentos de Ariel!
Dança Ariel sobre as ondas. Seus pés
como pérolas salvas pendem
de dois frisos. E o mar,
que voluptuoso ninho de conchas
para o jogo de Ariel!
Dança Ariel sobre o altar das noites
despertando as estrelas. E elas
próprias, suspensas
de secretos transportes, que ardentes
comparsas para o sacrifício de Ariel!
Dança Ariel para o tempo, à margem
da eternidade. E que precária
cousa, a eternidade,
para a alegria pura de Ariel!
[In Nova Lírica, Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1971, p. 107]
Dança Ariel sob raios de sol
entre o vergel, vergando
as finas hastes, as corolas
repletas de orvalho. A gota
de orvalho, que clara
medalha sobre o peito de Ariel!
Dança Ariel renascido
de frias ruínas, como o arco-íris
do fundo dos vales. E o vento
com suas flautas e bronzes, que impulso
para os aéreos movimentos de Ariel!
Dança Ariel sobre as ondas. Seus pés
como pérolas salvas pendem
de dois frisos. E o mar,
que voluptuoso ninho de conchas
para o jogo de Ariel!
Dança Ariel sobre o altar das noites
despertando as estrelas. E elas
próprias, suspensas
de secretos transportes, que ardentes
comparsas para o sacrifício de Ariel!
Dança Ariel para o tempo, à margem
da eternidade. E que precária
cousa, a eternidade,
para a alegria pura de Ariel!
[In Nova Lírica, Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1971, p. 107]
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| Georges Henri Rouault - 1939 |
domingo, 27 de abril de 2014
Henriqueta Lisboa
HERANÇA
Ouso à sombra de Dante ao meu Virgílio
oferecer louvor com tal ternura
que me estremece a voz ao casto idílio.
Quem mergulhou um dia na leitura
do magno poeta vem transfigurado
de uma consciência límpida e madura.
Todo o valor do tempo no passado
volve de novo em raios convergentes
à lembrança de lume radicado.
Tudo emerge no plano do presente
— pronto, cálido e nítido — pelo ato
que é promessa de vida permanente.
A cada circunstância o termo exato
dá testemunho da alma que está presa
à contínua experiência do recato.
Esse conhecimento da beleza
junto à simplicidade quase rude
já sobreleva os dons da natureza.
Clássico sereníssimo! Que o estude
sempre, alguém, à noção de que é mister
entregar-se ao destino em plenitude
à maneira de Enéas para obter
a expressão que transcende esse destino
e é dádiva de sangue a um outro ser.
O verbo humano, então, se faz divino.
[Henriqueta Lisboa, Obras Completas, Vol. I, Poesia Geral, Duas Cidades: São Paulo, 1985, p. 311]
Ouso à sombra de Dante ao meu Virgílio
oferecer louvor com tal ternura
que me estremece a voz ao casto idílio.
Quem mergulhou um dia na leitura
do magno poeta vem transfigurado
de uma consciência límpida e madura.
Todo o valor do tempo no passado
volve de novo em raios convergentes
à lembrança de lume radicado.
Tudo emerge no plano do presente
— pronto, cálido e nítido — pelo ato
que é promessa de vida permanente.
A cada circunstância o termo exato
dá testemunho da alma que está presa
à contínua experiência do recato.
Esse conhecimento da beleza
junto à simplicidade quase rude
já sobreleva os dons da natureza.
Clássico sereníssimo! Que o estude
sempre, alguém, à noção de que é mister
entregar-se ao destino em plenitude
à maneira de Enéas para obter
a expressão que transcende esse destino
e é dádiva de sangue a um outro ser.
O verbo humano, então, se faz divino.
[Henriqueta Lisboa, Obras Completas, Vol. I, Poesia Geral, Duas Cidades: São Paulo, 1985, p. 311]
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
Henriqueta Lisboa
NATAL
Vejo a estrela que percorre
a noite larga.
Vejo a estrela que perturba
fundos mares.
Vejo a estrela que revela
a eternidade.
Mas para onde foi a estrela
contemplada?
Para onde foi no momento
mais amargo?
Em que cimos ora habita
que debalde
nos olhos guardo constantes
orvalhadas?
Vejo a estrela — tão de súbito!
ao meu lado.
Vejo os olhos do Menino
desejado.
Vejo a estrela que percorre
a noite larga.
Vejo a estrela que perturba
fundos mares.
Vejo a estrela que revela
a eternidade.
Mas para onde foi a estrela
contemplada?
Para onde foi no momento
mais amargo?
Em que cimos ora habita
que debalde
nos olhos guardo constantes
orvalhadas?
Vejo a estrela — tão de súbito!
ao meu lado.
Vejo os olhos do Menino
desejado.
[Henriqueta Lisboa, Obras Completas, Vol. I, Poesia Geral, Duas Cidades: São Paulo, 1985, p. 270]
sábado, 7 de setembro de 2013
Henriqueta Lisboa
TRADIÇÃO
O Caraça tem diadema
de ouro que ninguém conhece.
— Mas o
ouro puro da gema
traz o signo de outra espécie.
Apagou-se o rastro andejo
de Bento Godóis Rodrigues
junto
aos três almofarizes
que ficaram de sobejo
quando ele para haver água
distraidamente cava
e à flor da terra descobre
mina que o salvou de pobre.
Não se sabe onde o artesão
misterioso peregrino
nos seus
andrajos tão chão
como seguro no tino,
de passeios solitários
pelas brenhas
caracenses
colhe barras, com a licença
de dourar os relicários.
Em jazidas ou feitiços
dorme o ouro do preto velho
que
matreiro por discreto
desfruta filão maciço.
E no seu momento extremo
quer revelar o sigilo
pelos
silenciosos reinos
até hoje a persegui-lo.
Desapareceu de vez
para dramático espanto
dos construtores
da igreja,
às ordens do padre santo,
jorro de fulvo metal
que das
feridas da rocha
aos estampidos da pólvora
emergiu — talvez do mal.
O Caraça tem diadema de ouro
que ninguém conhece.
— Mas
o ouro puro da gema
quinta-feira, 4 de abril de 2013
Henriqueta Lisboa
AS COLEÇÕES
Depois a música: frêmito
Mais
tarde os campos, as grutas,
Em primeiro lugar as magnólias.
Com seus cálices
e corolas: aquarelas
de todas as tonalidades e suma
delicadeza de toque.
Pequena aurora diluída
com doçura, nos tanques.
e susto de pássaro.
As valsas — que
sorrateiras. E as flautas.
As noites com
flauta sob a janela
inaugurando a lua
nascida
para o suspirado
amor.
a maravilha. E o
caos.
Com seus favos e
suas hidras,
o mundo. O mar com
seus apelos,
horizontes para o
éter,
desespero em
mergulho.
Com o tempo, o
ocaso. As lentas
plumas, os
reposteiros
com seus moucos
ouvidos,
a tíbia madeira
para
o resguardo das
cinzas,
as entabulações —
e com que recuos —
da paz.
Finalmente os
endurecidos espelhos,
os cristais sob o
quebra-luz,
dos ângulos o
verniz,
o ouro com
parcimônia, a prata,
o marfim dos
esqueletos.
(Flor da morte)
quinta-feira, 21 de março de 2013
Henriqueta Lisboa
RESTAURADORA
A morte é limpa.
Cruel mas limpa.
Com seus aventais de linho
— fâmula — esfrega as vidraças.
Tem punhos ágeis e esponjas.
Abre as janelas, o ar precipita-se
inaugural para dentro das salas.
Havia impressões digitais nos móveis,
grãos de poeira no interstício das fechaduras.
Porém tudo voltou a ser como antes da carne
e sua desordem.
In Flor da Morte, 1945-1949
In Flor da Morte, 1945-1949
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
Henriqueta Lisboa
ELEGIA DE MARIANA
Doce Mariana melancólica,
a evocação do teu passado
é um novo Ribeirão do Carmo
a propiciar centelhas de ouro,
em redundâncias e reflexos
do ouro que dava e sobejava
ao lume das correntes de água
quando as primeiras descobertas
eram fascínio para os povos.
Vejo-te ainda como outrora
encravada no coração
das Minas-do-Ouro, o porte ardente
das montanhas que serpenteiam
em torno de planície e vale
acenando para os de longe,
defendendo seu patrimônio
da gana dos faiscadores,
prometendo mundos e fundos
para a alforria do futuro
na gangorra do perde-ganha.
Retomo à Fonte das Saudades:
a mesma lua a antiga lua
inaugura a noite em que as Fadas
de tanto sonho pelo azul
pairam nos ares vêm baixando
em revoada de transparência
para o mergulho à flor do lago
entre lucilações e espumas.
Logo erguida nas próprias asas
Fada formosa entre as demais
abraça a lira e apura o canto:
Serás Mariana uma Rainha
sagrada para sempre à chama
desse “Candor Lucis Aeternae"
— pergaminho de privilégio
para teus foros de cristã.
E no “Áureo Trono Episcopal”
em sintonia de homenagem
ao Bispo Dom Manuel da Cruz
vencerás a imaginação
das cores das formas dos sons.
Tal cerimônia se inicia:
São flautas pífanos clarins
são claras vozes de cristal
cantando antífonas e salmos.
São arcos e jardins suspensos
dosséis portando girassóis.
São cavalos ajaezados
de ouro e veludo carmesim.
São figuras de alegoria
ornadas de plumas e franjas
de diamantes e de topázios.
Uma delas ostenta à fronte
um rubi que desfere fogo.
Vai desfolhando-se a Folhinha
a marcar um dia e mais outro.
Ê sexta-feira da Quaresma.
Ressoa meia-noite em ponto.
Já vem vindo em lento cortejo
a Procissão do Miserere.
Não se abram portas nem janelas
que a rua pertence aos defuntos.
Almas em grau de penitência,
envoltas em manto e capuz
carregando velas de cera
pisando áscuas de fogo fátuo,
exprobam os sete segredos
por que finalmente se salvem.
Guia espiritual da Província
Mariana do primeiro ofício:
Fé Esperança e Caridade
foram teus dons para que sejam
remissíveis os teus pecados.
Salvem-se do tempo teus templos
teus palácios de amplas varandas
tuas pratarias avoengas
as messes do teu Seminário
tuas Irmãs da Providência.
Salvem-se os exemplos mais altos
do servo de Deus Dom Viçoso
de braços abertos em pálio
pelo sinal que te abençoe.
Teu ouro, oculto nas gavetas
para surpresa de rivais
à hora da avaliação do peso
no confronto diante do Reino,
além da doação de arrobas
sobrou para beneficiar
a florescência do Barroco
no revestimento de entalhes.
Ouro de maior relevância
extraído das minas da alma
entre as brumas da solidão
pulsa na pena de teus poetas:
Cláudio desbrava seus penhascos
mais rudes que os da natureza
— pastor apascentando musas.
Alphonsus diante do oratório
mais celestial do que terrestre
desfia o rosário de pérolas.
A saudade punge e conforta.
Em meio a vultos que pervagam
e confidências que se enleiam,
com mãos trêmulas o crepúsculo
afaga teus ombros recurvos,
doce Mariana melancólica.
[In Henriqueta Lisboa, Obras Completas, Vol. I, Poesia Geral, São Paulo, Duas Cidades, 1985, pp. 229-232]
Doce Mariana melancólica,
a evocação do teu passado
é um novo Ribeirão do Carmo
a propiciar centelhas de ouro,
em redundâncias e reflexos
do ouro que dava e sobejava
ao lume das correntes de água
quando as primeiras descobertas
eram fascínio para os povos.
Vejo-te ainda como outrora
encravada no coração
das Minas-do-Ouro, o porte ardente
das montanhas que serpenteiam
em torno de planície e vale
acenando para os de longe,
defendendo seu patrimônio
da gana dos faiscadores,
prometendo mundos e fundos
para a alforria do futuro
na gangorra do perde-ganha.
Retomo à Fonte das Saudades:
a mesma lua a antiga lua
inaugura a noite em que as Fadas
de tanto sonho pelo azul
pairam nos ares vêm baixando
em revoada de transparência
para o mergulho à flor do lago
entre lucilações e espumas.
Logo erguida nas próprias asas
Fada formosa entre as demais
abraça a lira e apura o canto:
Serás Mariana uma Rainha
sagrada para sempre à chama
desse “Candor Lucis Aeternae"
— pergaminho de privilégio
para teus foros de cristã.
E no “Áureo Trono Episcopal”
em sintonia de homenagem
ao Bispo Dom Manuel da Cruz
vencerás a imaginação
das cores das formas dos sons.
Tal cerimônia se inicia:
São flautas pífanos clarins
são claras vozes de cristal
cantando antífonas e salmos.
São arcos e jardins suspensos
dosséis portando girassóis.
São cavalos ajaezados
de ouro e veludo carmesim.
São figuras de alegoria
ornadas de plumas e franjas
de diamantes e de topázios.
Uma delas ostenta à fronte
um rubi que desfere fogo.
Vai desfolhando-se a Folhinha
a marcar um dia e mais outro.
Ê sexta-feira da Quaresma.
Ressoa meia-noite em ponto.
Já vem vindo em lento cortejo
a Procissão do Miserere.
Não se abram portas nem janelas
que a rua pertence aos defuntos.
Almas em grau de penitência,
envoltas em manto e capuz
carregando velas de cera
pisando áscuas de fogo fátuo,
exprobam os sete segredos
por que finalmente se salvem.
Guia espiritual da Província
Mariana do primeiro ofício:
Fé Esperança e Caridade
foram teus dons para que sejam
remissíveis os teus pecados.
Salvem-se do tempo teus templos
teus palácios de amplas varandas
tuas pratarias avoengas
as messes do teu Seminário
tuas Irmãs da Providência.
Salvem-se os exemplos mais altos
do servo de Deus Dom Viçoso
de braços abertos em pálio
pelo sinal que te abençoe.
Teu ouro, oculto nas gavetas
para surpresa de rivais
à hora da avaliação do peso
no confronto diante do Reino,
além da doação de arrobas
sobrou para beneficiar
a florescência do Barroco
no revestimento de entalhes.
Ouro de maior relevância
extraído das minas da alma
entre as brumas da solidão
pulsa na pena de teus poetas:
Cláudio desbrava seus penhascos
mais rudes que os da natureza
— pastor apascentando musas.
Alphonsus diante do oratório
mais celestial do que terrestre
desfia o rosário de pérolas.
A saudade punge e conforta.
Em meio a vultos que pervagam
e confidências que se enleiam,
com mãos trêmulas o crepúsculo
afaga teus ombros recurvos,
doce Mariana melancólica.
[In Henriqueta Lisboa, Obras Completas, Vol. I, Poesia Geral, São Paulo, Duas Cidades, 1985, pp. 229-232]
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
Henriqueta Lisboa
AS PALAVRAS
1
Este é um planeta de palavras
neutras movíveis e versáteis
que de rodízio pela ponte
vão ter à margem oposta
Candentes em água fria
petrificadas no fogo
tumultuam-se as palavras
umas prontas para o jogo
outras intactas à sorte
Mantêm auras de mistério
nos percursos de ida e volta
conforme o sangue que as gera
o incentivo que as abrasa
conforme a língua que as solta
ou que as segura na raça.
2
Os cardos se abriram
fecharam-se os lírios
horizontes amplos
estreitaram o âmbito
só pela palavra
que em tempo de espera
nos foi sonegada.
A casa estremece
no próprio alicerce
pelo desatino
de alguma palavra
de metal ferino
que nos fira o ouvido
sem qualquer preparo.
Os verdes ondulam
ao longo das várzeas
espelhos se aclaram
no colo das grutas
por palavra terna
que a alma nos enleva
no momento exato.
Ó cores nascidas
ó sombras criadas
ó fontes detidas
Ó águas roladas
Ó campos abertos
por simples palavras.
3
Segredos expostos
tingem de rubor
a palavra rosa
Como que em deslize
tocam-se cristais
na palavra brisa
Algo se insinua
de abandono e flauta
na palavra azul
Desgastados mantos
pesam sobre o leito
da palavra fama
Espinheiro agreste
rompe raiva e ruge
na palavra guerra
Não há luz que corte
o ermo corredor
da palavra morte.
1
Este é um planeta de palavrasneutras movíveis e versáteis
que de rodízio pela ponte
vão ter à margem oposta
Candentes em água fria
petrificadas no fogo
tumultuam-se as palavras
umas prontas para o jogo
outras intactas à sorte
Mantêm auras de mistério
nos percursos de ida e volta
conforme o sangue que as gera
o incentivo que as abrasa
conforme a língua que as solta
ou que as segura na raça.
2
Os cardos se abriram
fecharam-se os lírios
horizontes amplos
estreitaram o âmbito
só pela palavra
que em tempo de espera
nos foi sonegada.
A casa estremece
no próprio alicerce
pelo desatino
de alguma palavra
de metal ferino
que nos fira o ouvido
sem qualquer preparo.
Os verdes ondulam
ao longo das várzeas
espelhos se aclaram
no colo das grutas
por palavra terna
que a alma nos enleva
no momento exato.
Ó cores nascidas
ó sombras criadas
ó fontes detidas
Ó águas roladas
Ó campos abertos
por simples palavras.
3
Segredos expostos
tingem de rubor
a palavra rosa
Como que em deslize
tocam-se cristais
na palavra brisa
Algo se insinua
de abandono e flauta
na palavra azul
Desgastados mantos
pesam sobre o leito
da palavra fama
Espinheiro agreste
rompe raiva e ruge
na palavra guerra
Não há luz que corte
o ermo corredor
da palavra morte.
ROSA PLENA
Rosa plena. Em glória
de cor
de forma
de febre
de garbo.
Em auréola sobre si mesma
— estática.
Em arroubo diante da luz
— dinâmica.
Enrodilhada em aconchego de concha
buscando o núcleo.
Fugindo-lhe ao cerco
— asas aflantes flamejantes.
Rosa plena.
Turíbulo. Ostensório.
Convite à valsa dos ventos.
Tributo ao círculo — perfeição
de chegar e partir.
Cada pétala é um sonho de retorno.
E as pétalas se avolumam compactas
e esmaecidas logo se despejam ao longo e ao largo
— no fascínio
do pretérito pelo devir.
Sangue em oblata
Amor e morte
pela revelação.
Rosa plena.
Poesia,
que se fez Carne.
(Pousada do Ser)
Henriqueta Lisboa, Obras Completas, Vol. I, Poesia Geral, São Paulo, Duas Cidades, 1985, pp. 514-517.
quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
Henriqueta Lisboa
Ó NOITE
Ó noite, ensina-me
o teu magno
segredo:
iluminar da sombra.
Da sombra permitir
a visão mais profunda.
Projeta pela sombra
o roteiro dos astros.
Quanto mais te recolhes,
ó noite, nos teus véus,
tanto mais fulgem
as constelações.
Serás acaso humilde,
generosa,
ou apenas criadora
de beleza?
Ó noite, ensina-me
o teu magno
segredo.
O IRREVELADO
Eis o trigo. Poucas
porém decisivas palavras
bastam para transmudá-lo
no corpo e sangue do Esperado.
Trigo incorrupto na infecundidade,
eis a matéria à espreita
de algo que lhe dera estrutura, de algo
que a modelara, dócil, à força.
ARIEL
Dança Ariel sob raios de sol
entre o vergel, vergando
as finas hastes, as corolas
repletas de orvalho. A gota
de orvalho, que clara
medalha sobre o peito de Ariel!
Dança Ariel renascido
de frias ruínas, como o arco-íris
do fundo dos vales. E o vento
com suas flautas e bronzes, que impulso
para os aéreos movimentos de Ariel!
Dança Ariel sobre as ondas. Seus pés
como pérolas salvas pendem
de dois frisos. E o mar,
que voluptuoso ninho de conchas
para o jogo de Ariel!
Dança Ariel sobre o altar das noites,
despertando as estrelas. E elas
próprias, suspensas
de secretos transportes, que ardentes
comparsas para o sacrifício de Ariel!
Dança Ariel para o tempo, à margem
da eternidade. E que precária
cousa, a eternidade,
para a alegria pura de Ariel!
(Azul Profundo)
Henriqueta Lisboa, Obras Completas, Vol. I, Poesia Geral, São Paulo, Duas Cidades, 1985, pp. 245-247.
Ó noite, ensina-me
o teu magno
segredo:
iluminar da sombra.
Da sombra permitir
a visão mais profunda.
Projeta pela sombra
o roteiro dos astros.
Quanto mais te recolhes,
ó noite, nos teus véus,
tanto mais fulgem
as constelações.
Serás acaso humilde,
generosa,
ou apenas criadora
de beleza?
Ó noite, ensina-me
o teu magno
segredo.
O IRREVELADO
Eis o trigo. Poucas
porém decisivas palavras
bastam para transmudá-lo
no corpo e sangue do Esperado.
Trigo incorrupto na infecundidade,
eis a matéria à espreita
de algo que lhe dera estrutura, de algo
que a modelara, dócil, à força.
ARIEL
Dança Ariel sob raios de sol
entre o vergel, vergando
as finas hastes, as corolas
repletas de orvalho. A gota
de orvalho, que clara
medalha sobre o peito de Ariel!
Dança Ariel renascido
de frias ruínas, como o arco-íris
do fundo dos vales. E o vento
com suas flautas e bronzes, que impulso
para os aéreos movimentos de Ariel!
Dança Ariel sobre as ondas. Seus pés
como pérolas salvas pendem
de dois frisos. E o mar,
que voluptuoso ninho de conchas
para o jogo de Ariel!
Dança Ariel sobre o altar das noites,
despertando as estrelas. E elas
próprias, suspensas
de secretos transportes, que ardentes
comparsas para o sacrifício de Ariel!
Dança Ariel para o tempo, à margem
da eternidade. E que precária
cousa, a eternidade,
para a alegria pura de Ariel!
(Azul Profundo)
Henriqueta Lisboa, Obras Completas, Vol. I, Poesia Geral, São Paulo, Duas Cidades, 1985, pp. 245-247.
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
Henriqueta Lisboa
PROMESSA
Não hoje, talvez amanhã.
Canto. Verdade. Amor. Sofrimento.
Sim, amanhã, por certo, amanhã.
Ainda não raiou o instante.
Ainda há restolhos no caminho. E demasia
de quimera a premir o mármore. E denodo
pronto a lançar o dardo. E soluços
ao desmaio das brumas. Ainda escorre
dos alvéolos o doce mel.
Mais alguns lances pelo esboço.
Leves retoques no cenário.
Céu pouco a pouco aberto em perspectiva
por que o pássaro evoque
— serenidade viva — o dom
e não o preço do equilíbrio.
Para o momento de exceção, válido acima
da contingência.
Momento que virá porventura amanhã.
Com a têmpera do azul no campo
lactescente de espigas.
Henriqueta Lisboa, Obras Completas, Vol. I, Poesia Geral, Duas Cidades: São Paulo, 1985, pp. 336-337
Não hoje, talvez amanhã.
Canto. Verdade. Amor. Sofrimento.
Sim, amanhã, por certo, amanhã.
Ainda não raiou o instante.
Ainda há restolhos no caminho. E demasia
de quimera a premir o mármore. E denodopronto a lançar o dardo. E soluços
ao desmaio das brumas. Ainda escorre
dos alvéolos o doce mel.
Mais alguns lances pelo esboço.
Leves retoques no cenário.
Céu pouco a pouco aberto em perspectiva
por que o pássaro evoque
— serenidade viva — o dom
e não o preço do equilíbrio.
Para o momento de exceção, válido acima
da contingência.
Momento que virá porventura amanhã.
Com a têmpera do azul no campo
lactescente de espigas.
Henriqueta Lisboa, Obras Completas, Vol. I, Poesia Geral, Duas Cidades: São Paulo, 1985, pp. 336-337
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Henriqueta Lisboa
PROCISSÃO
Corpo de Deus!
Bem-vindo
sejas à terra pelo tempo infindo,
rochas movendo, corações ferindo,
límpidos sóis e areias
juntando ao mesmo passo nessas veias
pelas quais entre flâmulas passeias.
É a Carne, é o Pão, é o Trigo,
é a Semente a brotar do solo
antigo
para acima das nuvens ter abrigo
no firmamento da alma
que arde do próprio azul, profunda e calma,
sobre os arcos de triunfo e as verdes palmas.
É o Mediador que vem
das paredes de vidro que O retém
para o encontro primevo de Belém.
É o Verbo, o Lume, a Flor,
o Beijo, o Nardo, o Bálsamo, o
Amargor
do que se esquiva ao sangue redentor.
Cante, brilhe, floresça.
Fruto, no seu vergel amadureça,
mantenha — Cerne — essa
floresta espessa.
Pise a pedra que O adora,
beba o olhar que se orvalha à branca aurora,
roce o musgo do peito que O namora.
[Henriqueta Lisboa, Obras Completas, Vol. I, Poesia Geral, Duas Cidades: São Paulo, 1985, p. 310]
quarta-feira, 30 de maio de 2012
Henriqueta Lisboa
O TESOURO
Em pleno cristal reside o tesouro.
Orvalho cotidiano. Mãos de criança
poderiam tocá-lo.
Porém o homem buscou na distância
a névoa para os próprios olhos.
om a sombra caminhou sobre os mares,
com a noite regressou à terra.
E logo vislumbrava o tesouro
por entre as montanhas da lua.
O tesouro é desnudo. O louco
o transporta ao reino dos sonhos
onde pervagam panejamentos.
Sopram os vendavais sobre as formas
a cada instante recriadas.
E em meio à conjura de mitos
o diamante se troca
pelas jóias de embuste.
Pronto para abastecer o universo
com a delicada flor dos trigais,
a todos pertence o tesouro.
Porém em torno da arca lavra
o pânico, lavra o fogo nos campos
guardados pelas foices recurvas.
E a um passo dos rufiões o tesouro
permanece inviolado.
Demasiado ardente é o hálito humano
sobre a camélia branca.
[Henriqueta Lisboa, Obras Completas, Vol. I, Poesia Geral, Duas Cidades: São Paulo, 1985, p. 269]
Em pleno cristal reside o tesouro.
Orvalho cotidiano. Mãos de criança
poderiam tocá-lo.
Porém o homem buscou na distância
a névoa para os próprios olhos.
om a sombra caminhou sobre os mares,
com a noite regressou à terra.
E logo vislumbrava o tesouro
por entre as montanhas da lua.
O tesouro é desnudo. O louco
o transporta ao reino dos sonhos
onde pervagam panejamentos.
Sopram os vendavais sobre as formas
a cada instante recriadas.
E em meio à conjura de mitos
o diamante se troca
pelas jóias de embuste.
Pronto para abastecer o universo
com a delicada flor dos trigais,
a todos pertence o tesouro.
Porém em torno da arca lavra
o pânico, lavra o fogo nos campos
guardados pelas foices recurvas.
E a um passo dos rufiões o tesouro
permanece inviolado.
Demasiado ardente é o hálito humano
sobre a camélia branca.
[Henriqueta Lisboa, Obras Completas, Vol. I, Poesia Geral, Duas Cidades: São Paulo, 1985, p. 269]
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