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segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Rui Costa

AUTOBIOGRAFIA 
Não preciso mas tu sabes como eu sou
Encaminho-me pouco divirto-me assim nas copas
Das árvores soprando pensamentos para o mundo que há de noite.
As pessoas quando acordam são outras, já sabias,
Essa névoa contemporânea do medo miudinho
Que perdemos nas cidades e nos corpos, tu entraste
Antes de mim nos jogos, o enxofre da música e o
Lago do feitiço, inocente homem breve que sonha
Tu bem sabes.
Depois aluguei a bruxa por uma vasta noite.
E a minha vida mudou, a noite cresceu,
A vertigem ardeu-me nos braços até a sangria
Do tédio quando para sempre julguei que te perdia.
Na luta perdi um ou dois braços,
Mais do que o que tinha. Mas esta memória é um palácio,
São corais no pensamento. Jardins e fantasmas,
O gume nas mãos sorvendo, criança estratosférica
E profunda: sem braços e agora sem mais nada.
Não me percebeste, enchi-me de fúria.
É uma arte, queria eu dizer, matar sem retrocesso e
Atraso – ah aqueles braços para apoiar as mãos - ,
Ceifando. Saturno.e.o.vento.na.proa.erguendo.
O: navio:no:mar:parado:parado: completamente.
Parado.como dizer? Não dizer, eu sou.uma vida
Medonha e múltipla. E agora descanso
Deitado nestas mãos que mexem
Sem apoio, sabes, nascendo dos teus olhos
P’la manhã.

A NUVEM PRATEADA DAS PESSOAS GRAVES
Nem sempre se deve desconfiar das pessoas
graves, aquelas que caminham com o pescoço inclinado para baixo,
os olhos delas a tocar pela primeira vez o caminho que os pés confirmarão
depois.
Às vezes elas vêem o céu do outro lado do caminho que é o que lhes fica por baixo
dos pés e por isso do outro lado do mundo.
O outro lado do mundo das pessoas graves parece portanto um sítio longe dos pés
e mais longe ainda das mãos
que também caem nos dias em que o ar pode ser mais pesado e os ossos
se enchem de uma substância morna que não se sabe bem o que é.
Na gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, com que nos são alheias
quando as olhamos de frente rumo ao lado útil do caminho que escolhemos, essas
pessoas arrastam uma nuvem prateada que a cada passo larga uma imagem daquilo
que foram ou das pessoas que amaram.
Essas imagens podem desaparecer para sempre se forem pisadas quando caem no
chão. A gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, dessas
pessoas, é, por isso, uma subtil forma de cuidado.

[In A Nuvem Prateada das Pessoas Graves, Ed. Quasi, 2006]

Fonte: Blog Casa dos Poetas 

Giovanni Spazzini

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Rui Costa

PARQUE DA CIDADE
o cão é uma extensão da floresta,
foi posto ali para compensar o nosso desprezo
por mapas e satélites que nos indicam sempre
uma saída. já não podemos perder-nos na floresta
com celulares no bolso, e seria tão bom que pudéssemos
amar-nos também assim, com o frio da noite a roer-nos os
ossos e a fome a disputar a atenção das nossas bocas, desalojados
definitivamente do mundo.
deixámos em casa os produtos da tecnologia. levámos apenas os nossos
corpos, sabendo que há dez mil anos que não os sujeitamos aos necessários
upgrades. os teus pés não doíam nos meus sapatos, e a minha impaciência
entretinha-se com o teu pescoço.
quando a trilha escureceu eu comecei a acreditar.
dissolvia-se a memória das casas no último verde tocado
pelo sol. um inocente segundo passo separava-nos da dignidade
do assombro. em breve estaríamos perdidos, amarrados a um
labirinto maior que todos os nossos sonhos. morreríamos abraçados, lindos,
e todos os amantes da História teriam inveja de nós.
Mas eu esquecera-me que neste país algumas pessoas constroem
casas no meio de florestas públicas como a floresta da Tijuca.
Privilégios herdados, que são o fruto de histórias feitas
com armas menos ingénuas do que as nossas, meu amor.
E os dentes do cão que corria para nós pareceram-me grandes como
as estratégias dos homens que me vencem na política.
Quer dizer, tive medo.
Toda a minha concentração foi usada na criação de um
semblante calmo, de um corpo estável, e quando tu te escondeste
atrás de mim e me agarraste as costas, eu nem sequer tremia.
Conclusão: não nos perdemos na floresta, como eu queria, mas também
não fomos devorados pelo rottweiller de olhos brilhantes.
A vida tem destas coisas. Tem muitas coisas destas.
Regressámos pela mesma trilha ao centro da cidade, jantámos,
tomámos, café, e só não morremos abraçados para sempre
porque às 8 horas em ponto da noite de domingo um ónibus te levaria,
com excessos de ar condicionado, da (nossa) eterna cidade do Rio de Janeiro.

SOBRE RUI COSTA


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...