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quarta-feira, 10 de abril de 2013

Marly de Oliveira

XIX
A morte é meu espanto cotidiano.
Por isso não entendo que a chames 
irmã, como à água, à lua, 
a tudo o que é vivo e floresce, 
a tudo o que é vivo e mata 
para viver ainda,
como o animal mais terno,
o mais empedernido.

Teu Cântico do Sol é uma oração tão bela
quanto a outra, que se insere
entre as mais belas.
E fala de uma forma tão perfeita
de amar — Ah, se o soubeste! —
sem esperança da mais leve recompensa.

Mas esse renascer de que me falas
para uma vida eterna?
São eternos os campos, as espécies?
Ou todos, se renascem de si mesmos,
conhecem essa estranha sensação
do não-ser, até que vem de novo
a primavera?
Tenho medo de mim, do que não sei,
do que me confiaram certa vez
e por incúria esqueci.
Obedeço a uma lei que desconheço,
e vim, tão sem escolha,
que nem sei a que vim.


XX

Chamo-te santo, santo,
mas não sei do que falo:
da renúncia à riqueza deste mundo?
da tua entrega a teu irmão
sem pedir nada em troca?
do teu desnudamento necessário?
ou da fidelidade a teu destino
de amar, amar, entre os mais nobres?
Olhavas com atenção a mínima planta,
atendias aos bichos, que te amavam 
de forma obscura, nunca ameaçadora.
Opunhas tua força e rebeldia 
passiva ao jugo do mais forte, 
e amavas conhecendo o não-amor, 
a injúria, a incompreensão, a glória, 
que outra não sei maior que de enfrentar 
a dureza da pedra, 
a dureza daquele
que não quer ver.  

XXI

Tua maior lição: 
essa humildade 
de perdoar sem conta, 
esquecendo até mesmo a chaga aberta 
em cada mão,
no canto sem suplício levantado 
na eterna louvação do que é criado 
a cada dia, 
cada nova estação.
Se se pudesse ao menos aprender 
essa alegria de ser, tão desprovida 
de medo ou de paixão,
que até mesmo a Indesejadaa incompreensível 
e fatal se incorporasse 
ao ofício de viver!
criando um novo espaço para o amor, 
onde nada se exclui, nem mesmo a aceitação 
do absurdo, a submissão àquilo que me escapa.

[Marly de Oliveira, Aliança, Rio de Janeiro, Nova  Fronteira, 1978, pp. 41-43].




quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Marly de Oliveira


IX
A Carlos Drummond de Andrade
Poeta do finito e do infinito,
tempo presente e ausente e do futuro,
de tudo um pouco te ficou na austera
concepção de vida, ó demiurgo
da memória, do sonho, do sarcasmo,
da violência contida e sem triunfo,
da doçura do hóspede secreto
de si mesmo
rebentando-se em dor, amor, soluço;
que te dizer no dia abençoado,
eu que nem sei de mim, eu que me sei
agora remetida à tua lição
de dançarino aflito sobre os fios
finos, tênues e tensos da canção?

O pórtico arruinou-se de meu sonho,
a tristeza infantil revigorou-se;
meu canto não celebra o que interpreta
na inspeção, de que falas, dolorosa
do deserto.
Já não saúdo ao jeito natural
de quem sabia adormecer crianças.
O sino toca e não percebo: falta
a malícia das coisas, a aliança
secreta com o que existe.
Ó meu jovem poeta,
não te consome o tempo irreverente:
és a mina de tudo o que ainda anima
a aceitação difícil do mistério, 
a solércia dos mitos que o amor 
vai criando de forma insidiosa.

Atento te debruças sobre a vida, 
assistes impassível ao desmonte 
e ao recriar-se, franco, cada dia, 
de um céu mofino, um tempo de pesares. 
Mas de tal modo, poeta, 
extraordinária
é a tua percepção do que se vive, 
que nem te rapta o sonho, 
nem te perde a obscura realidade.
Pairas, tranqüilo, sobre as coisas, 
herdeiro penseroso do milagre. 

X
A Carlos Drummond de Andrade
Meu poeta querido: 
os tempos são ruins, a vida pesa, 
reina por todo lado a forma imperativa 
da mentira e do engano.
Estou só como nunca, de tal forma 
envolvida fui numa trama antiga, 
que ora morta me tem e separada 
até de mim.

Não sei bem que dizer-te neste dia,
senão que meu amor não muda com a mudança
de tudo.
O que me salva é a fé que tenho em mim, 
em ti,
na tua Obra, altíssima entre todas, 
no livro que acabei de traduzir, 
na lembrança de Borges, que aceitou 
a cegueira dos olhos, que lhe impede 
a leitura de uns livros, que só eles 
compensam nossa faina de existir.

O resto não tem nome, é só a fúria 
de perceber o dano
que atinge o entendimento e nos destrói 
a esperança, a certeza, a confiança 
que se depôs no amor, que era tão pouco, 
no anel, que era só vidro 
e se quebrou.
No entanto, aqui estou,
no dia de teus anos proclamando
que apesar dos pesares, dos desmandos,
do tempo que inaugura novos tempos
de desentendimento
e luta,
que o canto me consola se me vem 
com a inocência cruel da tua chama dizer
que se te sai da boa ensimesmada
é porque a brisa o trouxe e o leva a brisa. 
Mas neste poema eu sou quem te visita 
e te traz a certeza de um afeto, 
que antes cresce com o tempo que declina, 
contrariamente à lei que rege a vida, 
e a lição renovada de teus livros, 
que quanto passa o tempo mais entendo.

Marly de Oliveira, Aliança, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978, pp; 25-28

Tributo ao mineiro Carlos Drummond de Andrade, no dia em que faria 110 anos!



terça-feira, 12 de junho de 2012

Marly de Oliveira

O PENSAMENTO ABERTO

1. Adsum, Domine. De novo,
enclausurada e feliz,
diante desta paisagem
como num convento antigo,
onde altos muros escondiam
os sofrimento secretos,
mais os secretos caminhos
que levavam a um destino,
de forma tão poderosa
que até hoje o não entendo,
como quem perdeu a rota.

2. Só que já não sou aquela
que aceitava como serva
as imposições do mundo.
Vou percorrer outras terras,
onde se possa lutar
contra setas desferidas,
impiedosos arpões,
estando mais prevenida.
Ou melhor, tão sem cuidados,
que já não seja atingida.

3. Como se fosse possível!
que os desastres, já diziam
os antigos, hão de vir,
ou melhor, se hão de sentir,
sem prévia desconfiança.
Que o destino quando abranda,
nem sempre mais favorece:
como a chama de outra chama
não só nasce, encorpa e cresce;
umas vezes ilumina,
outras, destrói, como o galho
seco, atirado à fogueira,
a alimenta enquanto queima.

4. No entanto, vejo bem claro:
o menos que abandonei
seria suficiente
para abrandar esta pena
que mais cresce quanto mais
se me oculta na aparência.

5. Deslizando sobre a areia
de nenhum céu, não será
este o indício sorrateiro
de uma luz atrás da ponte,
com o movimento perfeito
da praia-leito de um rio,
que corre só na memória
enternecida com o frio?

6. Mas se se visse perdida
a ilusão em que se anda,
do quanto o tento e a firmeza
não bastam para confiar
naquilo em que acreditamos,
se nos dobrava a tristeza;
se nos pesava no dedo
o anel do azul mais turquesa,
o encarnado dos rubis
incrustado em ouro e seda.

7. No entanto, outra é a lei
que comanda que se viva
e conserve altivo o olhar
(bem que de boca ferida),
destronado o sonho, à espera
do que algum dia viria.
Onde estão os servidores,
os afeitos às matinas,
os impérios conservados
pela escrita dos antigos?

8. Velhos mosteiros, histórias
que convocam com paixão
para assembleias mais íntimas,
para desordens mais fortes
que fazem esquecer tormentos
e dão brio a outras batalhas
ainda mais ferozes.

9.  E chega a vez do delírio,
mas ninguém é coroado.
Antes, o sair desgovernado
o leva a estranhos caminhos.
Perdi-me? perdeu-se o rastro?
Ninguém me cingiu de fato
a cintura, o peito, o braço?
Ninguém para me impedir
o previsível naufrágio?

10. Esta a mágica prisão:
esporear um cavalo,
sem brida, um touro, um leão,
sem direito à explosão
que tem na floresta virgem,
se florestas ainda existem
tão perto do coração.

11.  Um cavalo de batalha,
um touro, um leão domado,
iguais na sina (ou no fado),
com clavículas feridas,
sem coragem para a vida.

12.  Ah, como não voltar atrás
no tempo, no espaço, na vida,
a que poderia ter sido
(segundo o poeta) e não foi.
Recolher-se à própria escrita,
como aquele que semeia,
que planta e replanta a terra,
com a força do sangue na veia.

13. Por fazer-lhe honra é preciso
que a defendam os vassalos,
e a amparem, obrigação
tão grande que o arredar-se dela
é não só cometer perigos
como fazer qualquer esforço
que a ninguém aproveitasse
e que a ninguém fosse sensível.

14. Direto à limpidez,
à transparência viva
de alguma gota d' água
sobre a asa de urna abelha.
E encerrar o discurso
que se vai alongando
certa de que está faltando
o que mais importava
ao longo do percurso.


In: O Deserto Jardim, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990, pp. 43-56

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Marly de Oliveira

E se houvesse uma missão


secreta para cada um de nós,
uma senha, um pacto anterior
à própria vida, que vivemos, lassos,
indecisos no mal como no bem,
se bem e mal são forças separáveis?

Vivendo cumpro o meu destino,
ou me cabe fazer o que não sei,
mas vou aos poucos descobrindo,
como a luz se insinua pelos vãos
de janelas e portas, ainda que ferozmente fechadas?

Aliança, p. 63





Marly de Oliveira

Nel mezzo deI cammin di nostra vita,

eis que me encontro numa selva escura,

com tanta fera à espreita

dentro de mim, que por pouco

não sucumbo. Perdi também o caminho, ou entrei por um desvio

onde só havia cardos?

La rencontre manquée de Lacan,

o ser-para-a-morte de Heidegger,

o rio do sangue de Rilke,

a loucura de Hölderlin/Nietzsche, os labirintos de Borges,

tudo se junta e me condena

a refletir sem trégua. A minha pena vem de ainda não saber

o que me trouxe aqui.


Aliança, p. 62


Marly de Oliveira

Contudo, creio em mim, asseguro
que tenho amor, que me invade em momentos de fraqueza
a força da fraternidade.
Investigo, indago, insisto
no projeto de encontrar-me.
Quem sabe de mim, quem me vale?
O diamante mais precioso
não me seduz, nem me rapta
o tesouro que é dado e retirado.

Believe me,
eu não era assim.
De resto, basta lembrar
que o sonho mais desordenado
e sua riqueza singular,
o pensamento perdido
em seus amplos labirintos,
denunciavam logo a mensagem
terna da aprovação.
Hoje sei que nem tudo é doação,
o consolo não vem de onde se espera.
No entanto, a primavera ...

Marly de Oliveira, Aliança, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978, p. 18


Marly de Oliveira

Perdi a capacidade de assombro mas continuo perplexa:
esta cidade é minha, este espaço que nunca se retrai,
mas onde o ardor da antiga chama, que me movia no mínimo gesto?
Esperei tanto, no entanto, esvaem-se na relva, ao sol, no vento,
os sonhos desorbitados,
parte da minha natureza
sempre em luta com o fado.
Perdi também no contato com o mundo,
pérola radiosa, vão pecúlio, uma certa inocência;
ficou a nostalgia de uma antiga união com o que existe,
triste alfaia.

[Marly de Oliveira, Aliança,  Rio de Janeiro:Nova Fronteira, 1978, p. 17].

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...