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sábado, 20 de setembro de 2014

Jorge de Lima

37

Vinde vós das cidades para o campo
onde existe a aventura da malária.
Foi em agosto, o lago respirando
que ouvi no sangue a mais formosa ária.

E vi mais um ginete galopando
num ocaso de sangue iluminado;
era o tempo mais ouro das queimadas,
e as geórgicas se enchiam de piratas.

Deram-nos tudo: frêmitos e prata
e certo afã de lírios encarnados.
Que madura estação provisionada!

Que lagunas noturnas sobre as frontes!
Que mãos frias errando no ar parado!
Que sibilos de medos e de fontes!


[In Invenção de Orfeu, São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 88]



quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Jorge de Lima

32
No profundo das coisas materiais,
há um roteiro de dança mais severo
que o bailado do vento entre enforcados,
principalmente quando as feiras findam,
e os derradeiros bêbedos proferem
palavras agoniadas, (os sapientes!)
uns cochilos de cova, uns salmos miados;
é o roteiro da cana. Ei-la que os sua
e os adormece com (entre os suores)
os suores de seiva mais vinagres;
pois a cana são gomos, mesmo bares
com ruídos de língua, tragos fundos,
e uma só folha como espada verde
cobrindo pazes, ventres e barricas
e alambiques, bochechas e garrafas.

Falo de canaviais que com seus bêbedos
são canículas sobre os poentos morros;
falo de canas, falo de seus homens,
seus dançarinos, dançam, dançam
e acometem os bois; desconjuntados
diluem-se nas águas, águas lentas,
e escondem-se nos lodos esfiapados.
Todavia, as polícias entram n’água
com punhais de caianas e golpeiam
(dançarinos!) os peitos encharcados.

E todavia acorrem escafandros
tão fofos como bolhas, câmaras lentas,
algodões de botica, bojos de óleo,
e empolam-se nas bicas de oxigênio
cobertos por placentas maternais.

Surgem as mães ciumentas, cuidadosas,
pés ante pés bailando, triplicadas,
acariciando os seus embriões borrachos.
E todavia acorrem as rameiras
que aparecem lavadas de pecados,
e soerguendo as saias encarnadas
mostram dançando peixes devassados.
E todavia acorrem guarda-chuvas
enfunando defuntos embriagados,
vêm revestidos de bagaços brancos
das canas ósseas dos canaviais.
Todavia há soluços nas moendas:
é o roteiro da cana e seu delírio,
e umas visões de bichos e demônios;
é o motivo da cana pelo mundo.
Ó demências, ó mortes, ó bailados!

33
Tu queres ilha: despe-te das coisas,
das excrescências, tira de teus olhos >
as vidraças e os véus, sapatos de
teus pés, e roupas, calos, botões e
também as faces que se colam à
tua, e os braços alheios que te abraçam
e os pés que querem ir por ti, e as moças
que querem te esposar, e os ais (não ouças!)
que querem te carpir, e os cantos que
querem te consolar, e tantos guias
que querem te perder, e as ventanias
que não dormem, que batem alta noite,
tristes, em tua porta, se ressonas
pois nem o vento, nada te abandona.

[In Invenção de Orfeu, São Paulo: Cosac Naify, 2013, pp. 77-79]

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Jorge de Lima

SABEREIS QUE CORRI ATRÁS DA ESTRELA
Sabereis que corri atrás da estrela como um Mago,
tropeçando nas cisternas e nos montes;
e li as inscrições das pedras dos antigos rios;
e consultei os áugures contra a vossa recomendação;
e aprendi a significação do meu sonho
porque os céus se desenrolaram como um livro santo.
Por isso chegai homens e ouvi;
e moças em flor escutai;
e povos atendei;
ouça a terra com todos os seus peixes e suas aves e seus
[luzeiros
e tudo o que ela produz:
quem subiu primeiro para a Arca foi a mulher de Noé
que levou casais de flores e de abelhas, e bordou quarenta dias e quarenta noites o catálogo geral
[da posteridade una;
as filhas da mulher salva das águas
conceberam debaixo dos capinzais do rio; e de raça de Esaú
houve mulheres lindas cabeludas nos seios, nos sexos e nas
[axilas
para que se resguardassem os lugares preferidos pela per-
[petuação;
e por isso a mulher será a última a expirar no último dia
e fechar as longas pestanas dos seus olhos amados;
as escravas egípcias e Sara, Tamar e a mulher de Lot e a
[mulher de Isaac
e a filha de Batuel e a nora de Abimelec e a viúva de Elon
[a de luto recente
nunca ficaram estéreis e pariram gerações como as estrelas
[no céu;
a filha mais nova de Labão era belíssima e Dina filha de
[Jacó
foi violada para perpetuar o exemplo dos violadores;
e aí termina o catálogo geral de Jacó e de Esaú; mas a
[mulher de Noé
que teceu quarenta dias e quarenta noites chuvosos, disse
que Onã é maldito porque se rebelou contra a lei de So-
[doma foi queimada
porque a mulher tinha sido demitida;
e eis que as mulheres escravas sempre ficaram rainhas,
e sempre os cânticos da terra acumulados no mundo de-
[flagraram na boca
dos moços denominados poetas;
e as posteriores gerações conheceram Judite que levou uma
[cabeça decepada
e segurando-a nos cabelos descobriu com a cabeça imolada
os inimigos da espécie imortal;
e do sangue de Judite um Rei assinou poemas da filha de
[Faraó e lhe deu escravas
já fecundadas pelo sangue de Deus;
e as filhas de Deus se queimaram de sol, e para diferir dos
[desertos de
areia ficaram negras para afastar o sol;
e passaram por vontade de Deus a outros mares e a outras
[ilhas
onde depois o Filho do Pai baixou e sagrou a aliança
com os povos amarelos, e com os povos dos gelos, e com os
[povos das montanhas
e com os povos mais distantes onde a Arca boiou.
A mulher de Noé abriu então a portinhola e soltou a flor
[de longo pistilo
e a açucena ainda virgem do ferrão das abelhas;
e a longa ventania de Deus tangeu pólen
desde o monte Sinai ao pomar de Canaã:
e houve jardins no mundo para as musas colherem;
e houve luares na terra para atrair os poetas;
e a geração de Judite aparece em Herodíades para
[inverter a
divina façanha e perpetuar os dois ramos da árvore do
[paraíso.
Então, o Senhor falou às gerações dizendo:
Cortai os ramos da árvore e construí o meu Tabernáculo
e as tábuas da tenda e o pau do altar; mas do lado do vento
protegereis o átrio com a madeira da árvore;
e depois de purificado o Tabernáculo,
aí uniremos as gerações: cada mulher com o oficiante que
[escolher;
então a mulher mais nova dessa geração acampou com o
[amado
nas margens do rio grande, e depois acampou nas margens
[do
grande lago, e depois acampou nas margens do grande mar;
e da banda do aquilão nasceu a geração das mulheres deno-
[minadas sabinas que foram violadas
para perpetuar outra vez a espécie das que são dominadas
[com força;
mas apareceu entre as sabinas um mancebo donzel
que era muito mais débil que elas, mas sabia poemas e
[usava capas belíssimas;
e nasceu da união uma menina franzina de coxas unidas e
[cintura esbelta
como nunca houve na raça humana da terra:
era a guerreira cuja bisneta brigou com os povos da ilha
[e foi queimada como feiticeira;
e porque era feiticeira sagrada,
das cinzas brotou uma santa para perpetuar as gerações
[de Deus;
e as gerações de Deus subiram para o plano divino;
e do plano divino desceram signos que os homens do
[tabernáculo entendem
 para se comunicarem entre si até a consumação dos séculos,
quando a mulher será a última a cerrar os longos cílios
 para abri-los de novo no começo da Vida.

[In Antologia Poética, Rio de Janeiro: Ed. Sabiá, 1969, pp85-88.]


sexta-feira, 7 de junho de 2013

Jorge de Lima

O SONO ANTECEDENTE
Parai tudo que me impede de dormir: 
esses guindastes dentro da noite, 
esse vento violento, o último pensamento desses suicidas.
Parai tudo o que me impede de dormir:
esses fantasmas interiores que me abrem as pálpebras,
esse bate-bate de meu coração,
esse ressonar das coisas desertas e mudas.

Parai tudo que me impede de voltar ao sono iluminado 
que Deus me deu 
antes de me criar.

[In Antologia Poética, Rio de Janeiro: Ed. Sabiá, 1969, p. 81]



A.Kuinj

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...