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quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Nuno F. Silva

QUARTO MINGUANTE

A madrugada,
essa lembrança
brutal
de que sou
apenas um nome
Invertebrado
que transita
daqui para ali.


E estorva
nas outras
bocas


Tenho a certeza que
se ouviria o pulso
sanguíneo das coisas
cardeais,
se as cabeças
estivessem limpas
da caspa do dia
anterior.


Não te assustes,
cada nome amado
é desde o início
uma cicatriz feita à gadanha
no instinto reptil da língua.


Eu dou o meu corpo
como albergue
a quem tem medo da noite.


Sou com quem eles falam
sobre os estrangeirismos
da solidão,


antes que amanheça
e não lhes seja permitido
segredar mais nada.

(Inédito)



terça-feira, 3 de setembro de 2019

Nuno F. Silva

Metamorphosis
Que seja alva a morte do poeta
como o silêncio da madrugada.
Mostrem-lhe a luz em graça
pois dedicou a vida
a estudar o relevo das sombras
e tacteou sempre as rosas
pelo lado soturno do deslumbramento

(Nuno F. Silva. In Lunescer. Ed. Lua de Marfim)

INCÊNDIO
E se me arderem todas as expressões
como arde o aconchego da casa?
O que será de mim?
O que será de nós,
que somos seres intravenosamente ligados pelas palavras?
(Pelo temor secreto do poema).
E se no leito de morte
me reacendesses a poesia
como se acendem os cigarros,
voltaria a viver?

(Nuno F. Silva. In. Cativeiro. Ed. Idioteque)

RESSURREIÇÃO
Já escavei as fundações da terra
com os dedos esquálidos,
desci às razões da minha melancolia
para me separar de mim,
assim:
átomo por átomo.
Quis praticar o desapego
do inalcançável e
escondi a fome do impossível
debaixo da sujidade das unhas.
Enterrei o corpo numa cova qualquer
na infertilidade árida das sombras.
E não me encontrei mais
no imaginário das coisas,
no veneno das sensações,
no prisma romântico
da servidão lírica das rosas.

Fui curar as feridas da alma
com o queimor do sol ao morrer do dia,
tornar-me a cicatriz de cinza.
Revelar no sossego
a nova odisseia.

(Nuno F. Silva. In. Cativeiro. Ed. Idioteque)

ELEGIA
Coitado!
Dizem que pariu uma elegia
debaixo do lodo da lâmpada,
na imensidão claustrofóbica do quarto.
A sombra do poema, examinada a raio X
confirmava-o:
Era um nervo soturno da cabeça aos pés.
Como quem se veste sempre de negro,
a fechar perpetuamente o corpo à luz.

(Nuno F. Silva. In. Cativeiro. Ed. Idioteque)


O ANJO EDIPIANO 
Mãe
eu sei
que ainda te doo
como um bicho esquisito
nalguma parte do corpo

Como se, em segredo
nunca me tivesses parido
completamente.

A minha rebeldia,
uma aflição opaca
na tua cabeça.


Em mim
translúcida
só a luz da manhã.


E por vezes
como sabes
nem isso sobra,
nem isso basta.

(Nuno F. Silva. In. Linguagem do Abandono. Ed. Idioteque)

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SOBRE O AUTOR

Nuno F. Silva é um poeta português nascido na maternidade Júlio Diniz, no Porto, em
19 de agosto de 1993. Vive em Paredes.  Completou o ensino secundário na
Escola Secundária de Baltar, que tem como padroeiro o poeta consagrado Daniel Faria, seu
primo. foi também nessa mesma escola que despertou a sua necessidade de criar. Começou por
escrever pequenos contos de fantasia, mas rapidamente sentiu a necessidade de escrever poesia.
Em 2011, então com 18 anos, publicou o seu primeiro conjunto de poemas: Flor de Espinhos.
(pela Corpos Editora). Em 2013 publicou Flor de Lótus (pela editora euedito). Em 2016 surgiram Frágil (pela editora euedito) e Lunescer (pela editora Lua de Marfim. em Março de 2017 surgiu Cativeiro e em Maio de 2018 publicou Linguagem do Abandono, ambos pela editora Idioteque. Em 2019 publicará um novo livro de poemas.









Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...