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terça-feira, 21 de agosto de 2012

Alphonsus de Guimaraens Filho

NOITE
Noite feita de um acúmulo de noites,
noite das noites, por que me penetras?
Induzido por ti cheguei até estas cercas espessas
e não sei ir além. Noite mais noite que qualquer, por que
me segredas
mais que teu frio, mais que o frio das tuas estrelas?
Eu não sei te dizer senão que és e estás, mas que te desconheço
como o homem desconhece o seu caminho por mais caminhos que tenha
desvendado.

Sei que és inatingida, por mais que vá até ao fundo do teu silêncio
incendido de chamas pálidas e suaves.
Sei que nunca serás, por mais que estejas sendo, perturbadora
noite em que os símbolos desmaiam
e apenas fica uma linguagem que nunca decifrarei e todavia entendo,
ou pelo menos julgo entender enquanto me arrebatas
em cordas tensas de um instrumento de que irrompem árias que
julgamos captar e nunca serão ouvidas
aqui, ou em nenhum mundo.

In:  Suplemento Literário do "Minas Gerais", Belo Horizonte, Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais, 4 de outubro de 1980, ano XIV, n. 731, p. 3

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Alphonsus de Guimaraens Filho



Já me cansei do ofício triturante
de procurar o sumo das palavras.
Quero ouvir outra voz, não esta que foi minha.
Quero outro sol, não este que anoitece
meu coração e o crispa e farpa e deita
âncora a cegos, barcos para os mortos.

Oscila minha voz entre o clamor
da vida ensanguentada e perseguida
pelos punhais de fogo do real.

Vou pelas ruas que não vi: não quero
ver nas fábulas mais que nas calçadas.
Quem canta? Já me canso do que cantam.
Já me canso dos cantos dissipados
como grandes hortênsias nos jardins
onde rendeiras cegas bordam harpas.

Já me cansei dos portos invisíveis.
Do silêncio das casas cor de morte,
dos quintais onde háfrutos para bocas
surtas do sulco em brasa da agonia.

Já me cansei o ofício triturante
de procurar o sumo das palavras.
Pois se palavra sou, se sou o verbo,
quero me inocentar de quanto fere
meu desalento e solidão, criar-me
à minha própria semelhança, ter
uma certeza ao menos entre instáveis
e vacilantes coisas que me olham
como se alguma culpa lhes pesasse,
como se a minha culpa lhes pesasse.

Quero uma voz que fenda o ser e varra
essa fina poeira incandescente
em que de todo me queimei sonhando,
desconhecendo.

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...