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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Emily Dickinson

Ha algo mais calmo do que o sono
Neste quarto sem luz.
Ele usa um ramo sobre o peito -
E seu nome não diz.

Vêm uns tocá-lo, outros o beijam
Tomam-lhe a fria mão -
No aspecto dele eu não entendo
A calma introspecção.

No lugar deles não chorava -
Como é feio gemer!
Pode assustar seres do bosque
E fazê-los voltar!

Enquanto os bons vizinhos falam
Do “Jovem no caixão” -
Dada a perífrases, observo
Que as Aves já se vão.

[In A branca voz da solidão, tradução de José Lira, São Paulo: Iluminuras, 2011, p. 97]

Por Picasso

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Emily Dickinson

Foi como um Furacão aberto ao meio
Que mais e mais se aproximando 
Estreitasse o seu Círculo de fúria 
Até que uma Aflição

Pôs-se fria a brincar com o arremate
De uma Bainha imaginária -
E algo partiu-se - e às cegas tu caíste -
E acordaste afinal -

Foi como se um Duende com uma Escala
Todas as Horas conferisse -
Até que o teu Segundo sem remédio
Foi aos seus Pés cair -

E nem mais os teus Nervos te acudiam -
Tua razão abandonou-te -
E Deus então - lembrou-se - aí o Demo
Te soltou - e se foi -

Como se o frio dos Porões deixando
Para cumprir tua Sentença
Do conforto da Dúvida saísses
Para a Forca - e o Além -

E quando um Véu te costurava os olhos
Viesse alguém bradar - “Já chega!”
Que Tortura maior então seria -
Perecer - ou viver?

[In A branca voz da solidão, tradução de José Lira, São Paulo: Iluminuras, 2011, p. 223].



sábado, 28 de dezembro de 2013

Emily Dickinson

Eu passei fome todos esses Anos - 
E enfim cheguei à Mesa
Para almoçar - e eu tremendo - o Vinho
Exótico toquei -

Era isso que eu vira à Mesa quando
Espiava às Janelas
A Riqueza que à míngua eu não ousava
Almejá-la sequer

Um Pão inteiro era tão diferente
Das Migalhas que tive
E que ao Ar Livre os Pássaros vieram
Comigo repartir -

Doía-me a Fartura - era algo novo -
Senti-me mal -  e estranha -
Qual Frutinha da Serra que na Rua
Fosse largada ao chão -

E eu já nem tinha fome - e me dei conta
Que a Fome era só algo
Que se tem do outro lado das Janelas -
E acaba-se ao entrar

[In A branca voz da solidão, tradução de José Lira, São Paulo: Iluminuras, 2011, p. 299].


Nesis Elisheva





sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Emily Dickinson

Um certo Viés de luz,
Tardes Invernais
Que oprime, como o Peso 
De Sons de Catedrais —

Dá-nos Dor Celestial 
Não vemos cicatriz,
Mas diferença interior,
Onde os Sentidos, são —

Ninguém lhe ensina — Nada 
Seu Lacre, o Desespero — 
Aflição imperial 
Que nos envia o Ar —

Vem, e a Paisagem escuta-o 
Fica expectante — a sombra 
Parte, e é como a Distância 
Perante a visão da Morte —

In Cem Poemas, trad. Ana Luísa Amaral, Lisboa, Ed. Relógio D´Água, 2010, p. 177. 

MONET

domingo, 8 de setembro de 2013

Emily Dickinson

Nunca me senti em Casa — Aqui —
E lá nos Belos Céus
Jamais me sentirei em Casa — eu sei — 
Não gosto do Paraíso —

Porque é Domingo — todo o tempo lá — 
E nunca — há Intervalo —
E o Éden é tão triste nas brilhantes 
Tardes de Quarta-feira —

Se Deus fosse em visita —
Ou fizesse uma Sesta —
De forma a não nos ver — mas dizem 
Que Ele é — um Telescópio

Que nos vigia Perene —
Eu fugiria D’Ele —
Do Espírito Santo — de Todos —
Mas há o dito «Dia do Juízo Final»!

In Cem Poemas, trad. Ana Luísa Amaral, Lisboa, Ed. Relógio D´Água, 2010, p. 71.



sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Emily Dickinson

NÃO ERA A MORTE, POIS EU ESTAVA DE PÉ
E todos os Mortos estão deitados —
Não era a Noite, pois todos os Sinos,
De Língua ao vento, tocavam ao Meio-Dia.
Não era a Geada, pois na minha Carne
Sentia Sirocos – rastejarem —
Nem Fogo — pois só por si os meus pés de Mármore
Podiam manter frio um Presbitério —
E contudo sabia a tudo isso ao mesmo tempo;
As Figuras que eu vi,
Preparadas para o Funeral,
Faziam-me lembrar a minha –
Como se me tivessem cortado a vida
E feito à medida de moldura,
E eu não pudesse respirar sem chave,
E foi um pouco como a Meia-Noite —
Quando todos os relógios — pararam —
E o Espaço olha à volta —
Ou Terríveis geadas — nas primeiras manhãs de Outono,
Revogam o Palpitante Solo —
Mas foi sobretudo com o Caos — frio — Sem-Fim —
Sem Ensejo nem Mastro —
Nem mesmo Novas de Terra —
A justificar — o Desespero.

oooOOOooo

Florescer — é Resultar — quem encontra uma flor
E a olha descuidadamente
Mal pode imaginar
O pequeno Pormenor

Que ajudou ao Incidente

Brilhante e complicado,
E depois oferecido, tal Borboleta,
Ao Meridiano —

Encher o Botão — opor-se ao Verme —

Obter o que de Orvalho tem direito —
Regular o Calor — escapar ao Vento —
Evitar a abelha que anda à espreita,

Não decepcionar a Grande Natureza

Que A espera nesse Dia —
Ser Flor é uma profunda
Responsabilidade —

oooOOOooo


Eu sou Ninguém! E tu quem és?

Também tu és — Ninguém?
Então somos dois? Não digas nada!
Haviam de apregoar — sabes!

Como é aborrecido — ser — Alguém!

Como é público — qual rã —
Dizer-se o nome — o interminável Junho —
A um Charco admirador!

"LEITURAS, poemas do inglês”, Relógio d´Água, 1993, tradução de João Ferreira Duarte.  

ALICE SOARES


sábado, 20 de julho de 2013

Emily Dickinson

Eu que não sei pintar um quadro 
Prefiro - tão somente - 
Captar o brilho do impossível 
E me quedar - contente - 
A imaginar que mão tão rara 
E excelsa - evocaria 
Uma Aflição tão agradável - 
Suntuosa - Agonia -

Não sei falar como uma Flauta - 
Queria então somente 
Alçar-me fora nas Alturas 
E aí - suavemente - 
Atravessando Etéreas Vilas 
Balão em festa iria 
E num só Fio a sustentar-me 
A Nave ancoraria -

Como também não sou Poeta - 
Melhor será somente 
À Aptidão render o Ouvido - 
Frágil - dada - carente - 
Que tão sublime privilégio 
Nem há quem me daria 
De desatar com minha Arte 
Clarões de Melodia!

In A branca voz da solidão, tradução de José Lira, São Paulo: Iluminuras, 2011, p. 219.

Élisabeth Vigée-Lebrun

terça-feira, 2 de julho de 2013

Emily Dickinson

O Zumbir de uma Abelha 
Um Feitiço - me deixa - 
Se perguntam por quê - 
Será mais fácil eu morrer - 
Do que contar -

O Rubro na Colina - 
Toda me desanima - 
Se alguém zombando rir - 
Pare - é que Deus está aqui - 
Ponto final.

Quando a Manhã irrompe 
Aumenta o meu Encanto - 
Se o porquê quer alguém -
 O Artista - que me fez assim - 
É quem dirá!

A Paz é uma ficção da Fé -

In A branca voz da solidão, tradução de José Lira, São Paulo: Iluminuras, 2011, p. 45


LAURA KNIGHT



sábado, 15 de junho de 2013

Emily Dickinson

Após a dor imensa, a sensação formal —
Os Nervos sentam-se solenes, como Túmulos —
O Coração tenso pergunta foi Ele, a suportar,
E Ontem, ou há Séculos?

Os Pés giram, mecânicos —
Fora de Chão, ou Ar, ou Nada —
Caminho de Madeira 
Plantado ao acaso,
Contentamento em Quartzo, como pedra —

Esta é a Hora de Chumbo —
Quando sobrevivida, recordada,
Como o Enregelado lembra a Neve —
Primeiro — o Frio — o Estupor a seguir — depois o abandono  —

[In Cem Poemas, trad. Ana Luísa Amaral, Lisboa, Ed. Relógio D´Água, 2010, p. 27]

Fragonard - A leitora

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Emily Dickinson

Morri pela beleza – e assim que no Jazigo
Meu Corpo foi fechado,
Um outro Morto foi depositado
Num Túmulo contíguo –

“Por que morreu?” murmurou sua voz.
“Pela Beleza” – retruquei –
“Pois eu – pela Verdade – É o mesmo. Nós
Somos Irmãos. É uma só lei” –

E assim Parentes pela Noite, sábios –
Conversamos a Sós –
Até que o Musgo encobriu nossos lábios –
E – nomes – logo após –

Tradução de Augusto de Campos



Sobre Emily Dickinson

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...