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segunda-feira, 18 de maio de 2015

Fany Aktinol

Confundias em mim
o silêncio com a melancolia
quando assistia imóvel
à passagem do tempo
e deixei que me atravessassem
suas marcas.

O silêncio é o recorte da alma -
se estás sem medo
e desapegado
o som do vazio
preencherá o ar:
nenhum bater de asas
nenhuma folha ao vento
será audível -
a vida te inundará -
corpo e sentidos.

Serás aquele que passou
pelo silêncio dos abismos
e sobreviveu
como, creio, eu.

© Fanny Aktinol


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Fany Aktinol

Somos filhos do tempo infinito,
de um tempo que traz sabedoria e leveza,
mas tornei-me criatura tão frágil -
qualquer um pode perceber -
que desmorono ao acaso,
a um lance de dados,
se não respondes
ao meu aceno
quando estás
a meu lado.

Por nada, eu sei, por nada
desmorono numa implosão silenciosa
flutuo ao sabor do vento
perdida de mim
desesperançada de ti
até que o sopro do vento
me carregue daqui.


terça-feira, 18 de novembro de 2014

Fany Aktinol

FELICIDADE
Do cume desce o poente / Púrpura
Tocado por sua própria substância diáfana
A tingi-lo de vermelho sangue.
As árvores
tornam-se levemente avermelhadas
A grama
Perfuma o ar com seu verdor úmido
Penetrante.
O lugar é familiar
Mas o crepúsculo tem a capacidade de extasiar,
Tornar um instante em algo monumental.
O dia se prolonga para além de si mesmo,
Para o mais alto e insondável -
O tempo está impregnado de eternidade.
Deixo que o crepúsculo me envolva.
Nesse instante sou feliz
Como uma criatura recriada ao acaso,
Ao largo de Deus.

******
O MOMENTO SUBLIME
Descíamos pela trilha
Após longa caminhada,
Exaustos e sedentos.
Eu trazia lírios na mão abrasada...
Descíamos como Absalão desceu a Jericó
Ao longo do vale do Jordão.
Caía a tarde de um dia de verão.
O vasto céu estava tão próximo
Que eu me entristecia
Diante do adiantado da hora.
As flores exalavam um perfume
Que embriagava.
Sentamos num banco de pedra
Para que o momento sublime
Não nos escapasse.
Ali assistimos imóveis
Ao morrer de mais um dia e
À chegada da noite prateada
Num encadeamento impreterível.
Eu me pus confiante
Depois que vi a lua
A iluminar o caminho
Que restava percorrer. 

******
DESCANSO
Nas claras tardes
De fim de outono
Em Har Haguilboa
O ar puro magnifica
Os sons transparentes
Que sobem do vale.
Os cantos dos pássaros
E o uivo do vento
Soam como a manifestação idílica
Da natureza que repousa.
Vês a relva, Ben,
Coberta de folhas secas,
E um tapete colorido
Com seu desenho único
Que terá vida curta.
Ao fim da estação que se aproxima
Não haverá mais tapete algum.
As folhas terão morrido para dentro da terra
Uma morte silenciosa e oculta
Cujo segredo jamais vivenciaremos.



segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Fany Aktinol

FERTILIDADE
A mim,
A me acompanhar
Desde o céu profundo,
A poeira do sol, das estrelas e
O vento a instilar o espírito do tempo
Pela vida inteira.

A ti,
A semente
Passada de geração em geração,
O vale fértil e irrigado.

No umbral do portão da casa,
Com os pés nus,
Piso o caminho de pedra sobre a grama
Banhado em suave claridade.

Toda a escuridão desapareceu.
As plantas e as flores se multiplicaram
E há quem as guarde.

Tudo frutificou
No jardim guarnecido por pequenos seixos.

               ******

AS CHAVES DA CASA
A quem poderei entregar
As chaves de casa,
Revestidas por ternas palavras
Que inundam o coração?

Na passagem deste símbolo precioso
Os cantos serão de imenso júbilo
E algum tormento,
As récitas abarcarão a vida completa.
Quem me dará a Palavra
Antes que se apague a memória?

Meu quintal foi sempre
Frondoso em árvores frutíferas.
Nunca precisei cuidá-lo.

A quem entregarei
As chaves da casa
Tão cálida e arejada
Com pomares ao sul
E majestosas montanhas à frente?

Quem virá até mim
Receber uma chave
Respingada de lágrimas e saudades?

              ******

Tão ensolarados estavam os dias,
e o meu peito explodia em tantos espasmos
de dor e saudade,
que estava certa de haver morrido.
Mas, sabes bem
que aqui ainda estou
em estado de absoluta confusão:
estamos no inverno ou no verão?
vivemos o presente ou apenas planejamos o futuro?
Pode-se dizer que, na verdade,
nunca me ausentei nem por um instante
porque uma densa cortina de lágrimas
inunda constantemente a passagem
e eu tenho medo de me afogar na travessia.
E também,
por vocação,
a esperança foi sempre essa coisa imensa
dentro de mim.
EMIL NODE

Fany Aktinol, poeta e bibliotecária, nasceu no Rio de Janeiro. Publicou, em prosa poética, "Um atalho entre o sol e a solidão"  e os livros de poesias "O sol se põe em meu corpo", "Sob o esplendor de milhares de sóis" e "Para onde vou (vou sozinha). 

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...