Mostrando postagens com marcador Maria Lúcia Dal Farra. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Maria Lúcia Dal Farra. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 3 de março de 2015

Maria Lúcia Dal Farra

POEMA
A Antonio Cândido

O ondulado mar
(crina arisca de versos)
galopa na areia imóvel desta página.
Dos cascos e redemoinhos do acaso
faço argolas de Iemanjá,
pulseiras com que ela dança
acatando
o rito dos náufragos.
Nesse ritmo
cu mesma me afogo na gramática deslizante
dessas águas
como se imergisse para o imo hipnótico
onde as ondas
sussurram vocábulos em tom de sonda.

Mimosos cavalos marinhos
escavam (sem patas)
a massa lendária deste papel,

e flores aquosas, arabescos de espuma,
calêndulas
(e até peixes)
sobem à tona
apenas

para comprovar o milagre da escrita.

MUDAS CINZAS
A Jesana B. Pereira e ao
pessoal do "5“ Curta As Mulheres”

Tudo o que é belo
a morte devora:
o pássaro, o êxtase, a veemência das musas,
a infância —
inscrita no vento
ou na água nascente
a vida nada retém.

Indago em vão
as mudas cinzas porque sei
que cada pequena coisa
pede canto.

Ó Deus,
escutai ao menos estes versos
que não vos censuro por acompanhardes
(do alto)
a minha angústia.

[In Alumbramentos, São Paulo, Iluminuras, 2011, pp. 112-113].

ODILON REDON


quarta-feira, 9 de julho de 2014

Maria Lúcia Dal Farra

TRIUNFO DA VIDA
A Haquira Osakabe

O fósforo das estrelas acende rápido a noite.

Quente é o aroma do jasmim
convocando o cio.
Há gemidos no canavial
tal qual corpos que se estorcem
arrepiados da lâmina das palhas —
veludo áspero de taturanas.

Em outro lugar do mundo
(no mesmo silêncio noturno)
a toada do mar reza seu salmo.
Crisântemos se despenteiam
girassóis sem norte perseguem a lua
lírios brotam (em sigilo) da neblina.

Fosse dia,
malhava o seu ferro na atmosfera
a araponga,
preparava rendilhada mantilha a hera.

Cada qual
(a seu modo)
todos burlamos o desconforme da morte.

[In Alumbramentos, São Paulo, Iluminuras, 2011, p. 35].



segunda-feira, 7 de abril de 2014

Maria Lúcia Dal Farra

A MÃO
Como é raso o entendimento da vida:
planícies com disciplinados desníveis
em organizados degraus
(poucos, aliás);
um ou outro pequeno grupo
à espera de milagres;
céu de cenário indicando bem-estar
— e (todavia)

eu,
no meu instrumento de tortura
que me penetra de alto a baixo,
cetro soberano
a suspender a outra versão de mim
(cabelos que destampam o rosto fácil)
e a grande mão que estendo

(de benevolência)
para as esperanças frugais.

Pareço por acaso
comodamente instalada na minha
temperança?

[In Alumbramentos, São Paulo, Iluminuras, 2011, p. 74].

SALVADOR DALI


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Maria Lúcia Dal Farra

ORQUÍDEA
Ter sardas é a marca registrada desta fada.
O que não afeta sua beleza
antes a favorece
e acrescenta naturalidade
à maquiagem feita para enfeitiçar: a baunilha
é uma orquídea.
Pobre da aranha, do mosquito, da vespa, do zangão
e da abelha! Imantados pelo néctar que os guia
ao corredor aéreo
(armadilha: balizas, pista colorida, estrias)
onde aterrissam direto para o sexo
(território de pelos envolventes, forma, odor, tato, cor)
— embebedam-se ardorosamente
e copulam com a flor.

A bela e sedutora dama (no entanto)
tem raiz grega masculina.
São de testículos as grossas desinências
que convertem essa filha do ar
em ser do chão
— depois de muitas acrobacias
(a perseguir incessante o sol)
conforma-se com seu murcho simulacro:
um fungo — o reles cogumelo!

Também se tomam cópias
de si mesmas — mas com vantagem.
Macho e fêmea (sempre vamps)
jamais deixam de atender pelo nome de
Vênus.

Estrela-guia,
ensina-me o fascínio da tua androginia!

[In Maria Lúcia Dal Farra, Livro de Possuídos, São Paulo, Iluminuras, 2002, p. 67]

By Gerry Daniel


terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Maria Lúcia Dal Farra

CUPIDO
O bibelô desperta na sala deserta.
Os pés da cadeira tropeçam nessa evidência
transportam minha alma para um tempo de penúrias.
Odores litúrgicos, paisagem serrana, leque espanhol.
O bronze do cinzeiro se espalha e funde tudo:
sou atingida!
Inventario os móveis. Aqui um armário
ali o oratório, oh Santo António,
me socorre! Que salmo devo invocar?
O amor é uma coisa estúpida (pensa, carente,
a Karenina, a Ana que muito amou)
mas salva os homens e alguém me aguarda
no quarto contíguo.
O gato salta por cima do meu sobressalto
e a pequena estátua recolhe ao arco sua flecha.
Tudo se aquieta na sala aberta.

AMOR DIÁRIO
Vocábulos travados,
estes gestos ausentes
nada são (enfim)
para o roteiro da noite.

Transitam pelo espaço inútil
e rodam
(tontos)
estourando no chão
como cebolas.
Choramos ou rimos —
efeitos visuais que exalam
ao topar o solo.

[In Livro de Auras, São Paulo, Iluminuras, 1994, pp. 56-57].

Oratório para santo Antonio de rosas de alumínio
by Flávio Ferraz Lima

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Maria Lúcia Dal Farra

V
BÍBLICAS DE SANTA TERESA D’ÁVILA

I
Era uma vez uma mulher 
que foi tocada pelo amor celeste.
O Senhor fez nela o seu piano
— a maneira íntima de deitar as mãos sobre o humano. 

Que forte sopro é este que se infunde em mim?

Com sua vara
Ele arranca água deste ermo 
sulcado em marfim.
Com o polegar no sol 
põe-me dentro da luz — 
sou solista da sua voz.

E porque leio os sinais
na clave bem temperada do corpo,
solfejo freneticamente as esferas.

Ah oratório dos meus pecados!
II
Procuro nas trevas tua voz 
enquanto lanças sobre mim a espada. 
Fustigas no meu corpo tempestades más 
— não reconheço nelas teu espírito.

Por que me abandonaste, ó Senhor, 
se debaixo da tua vindima 
mitiguei tua sede, 
se pelos campos afora 
me abri ao teu agrado?

Apóia em mim tua face 
transborda em mim tua carne 
e
acima do céu ou do inferno 
dá-me o prazer eterno, amém!
III
E o Senhor criou a mulher!
Deu-lhe crina de fogo ondulante 
regiões da mais delicada força 
uivos arrebatados na treva 
coisas de incontida beleza.

Sou um sacrário prenhe de palpitações do espírito 
onde o cálice se reserva para o festim.
E (clara) uma luva está sempre prestes 
a ascender em mim a pomba que enaltece.

Voo de guerra que atravessa as plagas 
do desde baixo até a mais profunda ascese, 
exército urdido na solidão 
para o clarim do dia primevo!

É quando a espada rasga o corpo 
é quando (pelos dons do Senhor) 
me reverto em seu espelho.
Imagem e semelhança.
IV
És tu que tens na mão a minha parte!

Que se alevante então 
a montanha encoberta 
e que os incensos inundem de cheiros 
a entrada das cavernas mais secretas!

Meu peito é o horto da paixão, 
oliveiras no aguardo do vento forte!
Honra esta casa
 — esta lareira — 
sobe a escarpa 
atiça o vulcão!

Dos teus olhos só vem o que é reto!
Por isso te peço:
desce sobre mim o raio piedoso.

Senta-te à mesa, dá-me o teu fruto, 
indica-me (desde a direita) quais as delícias. 
Devolve do teu arbusto a minha seiva!
E dentro da tua mais excelsa indulgência 
faz de mim tua serva — e serventia tua!
V
O Senhor partiu para seu monte 
e as regiões se quedaram desabitadas 
como a solidão mais antiga!

O tempo ruiu-se sobre a manhã...
Nenhuma aragem fina
vem deitar sua mirra sobre este leito de morte!

Onde os cardos para o meu diadema?

[In Livro de Auras, São Paulo, Iluminuras, 1994, pp. 73-77].


O ÊXTASE DE SANTA TERESA - BERNINI
igreja de Santa Maria della Vittoria -  Roma.





terça-feira, 13 de agosto de 2013

Maria Lúcia Dal Farra

RETRATO DE MULHER DE FRENTE

De tanto esperar pelo meu olhar,
enrubesceu. Aguardou-o
anos a fio
mas emana dela ainda
a mesma timidez
igual esperança. Há
(quem sabe)
uma indagação impossível
na boca rubra e natural.

A aura do objeto
mistura-se a seu cabelo
como se a existência
tivesse transcendido o momento
em que por certo nos encontraríamos.

Malgrado estar eu aqui -
tudo nela ainda espera por mim.

Maria Lúcia Dal Farra, Livro de Possuídos, São Paulo, Iluminuras, 2002, p. 133

CÍCERO DIAS

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Maria Lúcia Dal Farra

Inventário de alegrias
Enlaçados um no outro
diante da mesa farta
mãe, pai, irmãs, sobrinhos —
somos distintos sorrisos
dum rosto só filiados:
porque nos amamos e estamos juntos
porque temos fome
e de tudo partilhamos.
 
Atrás
o relógio de parede mostra
(pelo avançado da hora) 
que o dia é de domingo.
Também
na travessa à vista 
a leitoa se quer generosa: 
aniversário de alguém.
 
A foto esqueceu a cor 
os sobrinhos estão moços 
e entre mamãe e nós
 
denso silêncio lacunar.

— Há quanto tempo éramos outros?

In Livro de Auras, São Paulo, Iluminuras, 1994, p. 109

Lasar Segall 

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Maria Lúcia Dal Farra

ALEIA DO CASTELO KAMMER
O enlace das árvores
(galhos em cumplicidade,
em afagos à procura da luz)
- faz desta alameda
a mais aprazível sombra a percorrer.

Assim
entras na morada
antes mesmo que te abram a porta
e desde então já sabes
quanto te quer bem
o anfitrião. O vento
(sopro de Van Gogh)
retorce em felicidade os troncos:

O amor também tem curvas.


[Maria Lúcia Dal Farra, Livro de Possuídos, São Paulo, Iluminuras, 2002, p. 122]
Gustav Klimt

domingo, 26 de maio de 2013

Maria Lúcia Dal Farra

Callas na escala ascendente
A Ziriguimel
Inteira,
tua voz é um cone,
torre de catedral,

coisa tátil, que se avista,
mutável como caleidoscópio. É fósforo,
poço de petróleo: força que se arremessa
das profundas da treva e que
(de chofre)
perfura com sua agulha as nuvens 
para ganhar penugem de pássaro 
e adejar (mui devagar) 
sobre o espírito.

Foguete é tua voz em busca do buraco negro 
(olho terceiro)
turbina que se aquece entre coração e cérebro 
e desenha ogivas de ignoradas paragens — 
onde leio flor, lâmina 
arcaica letra grega 
que não entendo
mas que se inscreve no mármore dos altares.

[In Livro de Auras, São Paulo, Iluminuras, 1994, p. 27]

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...