MAPA
A Jorge Burlamaqui
Me colaram no tempo, me puseram
uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou
limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,
a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.
Me vejo numa nebulosa, rodando, sou um fluido,
depois chego à consciência da terra, ando como os outros,
me pregam numa cruz, numa única vida.
Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.
Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou andando, aos solavancos.
Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado,
gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar,
alguém da terra me faz sinais, não sei mais o que é o bem nem o mal
Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso, angustiado, no éter,
tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamentos,
não acredito em nenhuma técnica.
Estou com os meus antepassados, me balanço em arenas espanholas,
é por isso que saio às vezes pra rua combatendo personagens imaginários,
depois estou com os meus tios doidos, às gargalhadas,
na fazenda do interior, olhando os girassóis do jardim.
Estou no outro lado do mundo, daqui a cem anos, levantando populações…
Me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida.
Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça.
Triângulos, estrelas, noite, mulheres andando,
presságios brotando no ar, diversos pesos e movimentos me chamam a atenção,
o mundo vai mudar a cara,
a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas.
Andarei no ar.
Estarei em todos os nascimentos e em todas as agonias,
me aninharei nos recantos do corpo da noiva,
na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.
Tudo transparecerá:
vulcões de ódio, explosões de amor, outras caras aparecerão na terra,
o vento que vem da eternidade suspenderá os passos,
dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete mulheres,
vibrarei nos canjerês do mar, abraçarei as almas no ar,
me insinuarei nos quatro cantos do mundo.
Almas desesperadas eu vos amo. Almas insatisfeitas, ardentes.
Detesto os que se tapeiam,
os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens “práticos”…
Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas,
e os soldados que perderam a batalha, as mães bem mães,
as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos.
Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque jejuavam muito…
Viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente.
Sou a presa do homem que fui há vinte anos passados,
dos amores raros que tive,
vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos do amor,
tudo é ritmo do cérebro do poeta. Não me inscrevo em nenhuma teoria,
estou no ar,
na alma dos criminosos, dos amantes desesperados,
no meu quarto modesto da praia de Botafogo,
no pensamento dos homens que movem o mundo,
nem triste nem alegre, chama com dois olhos andando,
sempre em transformação.
(Em Poemas, 1930)
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sexta-feira, 13 de dezembro de 2019
segunda-feira, 19 de agosto de 2019
Murilo Mendes
MURILO MENDES
O FILHO DO SÉCULO
Nunca mais andarei de bicicleta
Nem conversarei no portão
Com meninas de cabelos cacheados
Adeus valsa "Danúbio Azul"
Adeus tardes preguiçosas
Adeus cheiros do mundo sambas
Adeus puro amor
Atirei ao fogo a medalhinha da Virgem
Não tenho forças para gritar um grande grito
Cairei no chão do século vinte
Aguardem-me lá fora
As multidões famintas justiceiras
Sujeitos com gases venenosos
É a hora das barricadas
É a hora da fuzilamento, da raiva maior
Os vivos pedem vingança
Os mortos minerais vegetais pedem vingança
É a hora do protesto geral
É a hora dos vôos destruidores
É a hora das barricadas, dos fuzilamentos
Fomes desejos ânsias sonhos perdidos,
Misérias de todos os países uni-vos
Fogem a galope os anjos-aviões
Carregando o cálice da esperança
Tempo espaço firmes porque me abandonastes.
(Em O Visionário, 1941)
O FILHO DO SÉCULO
Nunca mais andarei de bicicleta
Nem conversarei no portão
Com meninas de cabelos cacheados
Adeus valsa "Danúbio Azul"
Adeus tardes preguiçosas
Adeus cheiros do mundo sambas
Adeus puro amor
Atirei ao fogo a medalhinha da Virgem
Não tenho forças para gritar um grande grito
Cairei no chão do século vinte
Aguardem-me lá fora
As multidões famintas justiceiras
Sujeitos com gases venenosos
É a hora das barricadas
É a hora da fuzilamento, da raiva maior
Os vivos pedem vingança
Os mortos minerais vegetais pedem vingança
É a hora do protesto geral
É a hora dos vôos destruidores
É a hora das barricadas, dos fuzilamentos
Fomes desejos ânsias sonhos perdidos,
Misérias de todos os países uni-vos
Fogem a galope os anjos-aviões
Carregando o cálice da esperança
Tempo espaço firmes porque me abandonastes.
(Em O Visionário, 1941)
sábado, 13 de abril de 2019
Murilo Mendes
REVELAÇÃO
Quando me inclinei sobre a água, a estrela saíra,
O parque elaborando curvas a seu gosto.
Um rumor de pássaros fixou-se na folhagem:
As árvores cantavam o que sobrou de Mozart.
Com as garras de veludo e ferro a noite
Ao seu colo atraía as demais formas.
Então a morte começou a filtrar palavras duras
Nos pares demarcados pela sombra,
— Desfaziam-se mãos, cabeças e cinturas —,
E o pequeno verme roeu a concha da vida,
Flechou a íntima dúvida nos corações
Que batiam em ritmo de marcha, apressados tambores
A aumentar o ruído das ruínas do céu
Tombando sobre nós todos, tombando.
IMAGEM DE CRISTO
Eis um Cristo miserável, ínfimo,
Feito com remendos
De madeira, cortina e papelão,
Feito com estilhaços
De homens mortos, vivos e por nascer.
Negam-lhe o ar da ternura,
O sopro dos corações antigos
E as lonjuras da primeira infância.
Em torno dele cantam fechados,
Dançam, rindo e chorando:
Inconscientes, cantam
Entre nuvens de incenso e sarcasmos.
Pedem graças, milagres e dinheiro.
Tudo suporta a imagem,
Tudo suporta obscura.
Mas o átomo se desintegra
Para que a matéria refeita,
Regenerada,
Varrida pelo chicote dos quatro ventos,
Faça em breve ao Cristo ultrajado
Um trono de universos que se expandem
Violentamente.
(In Parábola)
Quando me inclinei sobre a água, a estrela saíra,
O parque elaborando curvas a seu gosto.
Um rumor de pássaros fixou-se na folhagem:
As árvores cantavam o que sobrou de Mozart.
Com as garras de veludo e ferro a noite
Ao seu colo atraía as demais formas.
Então a morte começou a filtrar palavras duras
Nos pares demarcados pela sombra,
— Desfaziam-se mãos, cabeças e cinturas —,
E o pequeno verme roeu a concha da vida,
Flechou a íntima dúvida nos corações
Que batiam em ritmo de marcha, apressados tambores
A aumentar o ruído das ruínas do céu
Tombando sobre nós todos, tombando.
IMAGEM DE CRISTO
Eis um Cristo miserável, ínfimo,
Feito com remendos
De madeira, cortina e papelão,
Feito com estilhaços
De homens mortos, vivos e por nascer.
Negam-lhe o ar da ternura,
O sopro dos corações antigos
E as lonjuras da primeira infância.
Em torno dele cantam fechados,
Dançam, rindo e chorando:
Inconscientes, cantam
Entre nuvens de incenso e sarcasmos.
Pedem graças, milagres e dinheiro.
Tudo suporta a imagem,
Tudo suporta obscura.
Mas o átomo se desintegra
Para que a matéria refeita,
Regenerada,
Varrida pelo chicote dos quatro ventos,
Faça em breve ao Cristo ultrajado
Um trono de universos que se expandem
Violentamente.
(In Parábola)
terça-feira, 10 de novembro de 2015
Murilo Mendes
ESTUDO N° 4
Quando se acalmará
Esta doença fértil a que chamam Vida?
Não quero soletrar o horizonte
Nem seguir o desenho da onda na areia,
Nem quero conversar flores no campo idílico.
Quero antes correr a cortina sobre mim mesmo,
Transcender minha história
E esperar que Deus remova meu corpo.
Quero tudo, ou nada:
Todas as paixões, todos os crimes, delícias e propriedades.
Ou então mergulhar num saco de cinzas,
Montar num avião de fogo, e nunca mais descer.
POEMA BÍBLICO ATUAL
Nós esperamos a formação de trincheiras na nuvem
Esperamos ver os anjos reunindo os elementos
E as filhas do relâmpago empunhando fuzis.
Para que semear a árvore que vai dar a madeira do leito do assassino,
Para que tratar a terra, descobrir o metal destinado às metralhadoras,
Para que alimentar a criança que mais tarde abandonará os pais
[órfãos?
Deixa crescer a semente que Deus plantou na tua alma
E tua posteridade tranquila se multiplicará
Na proporção das areias do mar e das estrelas do céu.
Reconhece o teu limite e adora a mão do Senhor que te remove
Como um menino remove as peças do seu jogo de armar.
[In As Metamorfoses, Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, pp. 323-324]
Quando se acalmará
Esta doença fértil a que chamam Vida?
Não quero soletrar o horizonte
Nem seguir o desenho da onda na areia,
Nem quero conversar flores no campo idílico.
Quero antes correr a cortina sobre mim mesmo,
Transcender minha história
E esperar que Deus remova meu corpo.
Quero tudo, ou nada:
Todas as paixões, todos os crimes, delícias e propriedades.
Ou então mergulhar num saco de cinzas,
Montar num avião de fogo, e nunca mais descer.
POEMA BÍBLICO ATUAL
Nós esperamos a formação de trincheiras na nuvem
Esperamos ver os anjos reunindo os elementos
E as filhas do relâmpago empunhando fuzis.
Para que semear a árvore que vai dar a madeira do leito do assassino,
Para que tratar a terra, descobrir o metal destinado às metralhadoras,
Para que alimentar a criança que mais tarde abandonará os pais
[órfãos?
Deixa crescer a semente que Deus plantou na tua alma
E tua posteridade tranquila se multiplicará
Na proporção das areias do mar e das estrelas do céu.
Reconhece o teu limite e adora a mão do Senhor que te remove
Como um menino remove as peças do seu jogo de armar.
[In As Metamorfoses, Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, pp. 323-324]
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| By Sabine Van Durmen |
sábado, 26 de setembro de 2015
Murilo Mendes
OURO PRETO
A alma livremente encarcerada
Comunica-se com os doidos e os poetas
Oue pelas frias naves dão-se os pés.
Sinto grego o céu de outrora me envolver.
A cavalo sobre as igrejas de pedra
Irrompe o Aleijadinho na sua capa.
Nas linhas de ar balança-se o relógio
Marcando cegamente o compasso do tempo.
Um vulto cruza outro na ladeira.
Pelos desertos espaços metafísicos
Arrastam-se as sandálias da pobreza.
Das varandas azuis tombam ossadas.
Ouro Preto severa e íntima adormece
Num abafado rumor de águas subterrâneas.
[In Sonetos brancos, in Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 445]
A alma livremente encarcerada
Comunica-se com os doidos e os poetas
Oue pelas frias naves dão-se os pés.
Sinto grego o céu de outrora me envolver.
A cavalo sobre as igrejas de pedra
Irrompe o Aleijadinho na sua capa.
Nas linhas de ar balança-se o relógio
Marcando cegamente o compasso do tempo.
Um vulto cruza outro na ladeira.
Pelos desertos espaços metafísicos
Arrastam-se as sandálias da pobreza.
Das varandas azuis tombam ossadas.
Ouro Preto severa e íntima adormece
Num abafado rumor de águas subterrâneas.
[In Sonetos brancos, in Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 445]
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segunda-feira, 28 de julho de 2014
Murilo Mendes
FLORES DE OURO PRETO
A Cecília Meireles
Vi a cidade barroca
Sem enfeites se levantar.
Nem flores eu pude ver,
Flores da vida fecunda,
Nesta áspera Ouro Preto,
Nesta árida Ouro Preto:
Nem veras flores eu vi
Nascidas da natureza,
Da natureza lavada
Pelo frio e o céu azul.
Tristes flores de Ouro Preto.
Só vi cravos-de-defunto,
Apagadas escabiosas,
Murchas perpétuas sem cheiro,
Só vi flores desbotadas
Nascidas de sete meses,
Só vi cravos-de-defunto,
Que se atam ao crucifixo,
Que se levam ao Senhor Morte
Vi flores de pedra azul...
Eu vi nos muros de canga
A simples folhagem rasa,
A avença úmida e humilde,
Brancos botões pequeninos
A custo se entreabrindo,
Mas não vi flores fecundas,
Não vi as flores da vida
Nascidas à luz do sol.
Eu vi a cidade árida,
Estéril, sem ouro, esquálida;
Eu vi a cidade nobre
Na sua patina fosca,
Desfolhando lá das grimpas
No seu regaço de pedra
Buquês de flores extintas.
Eu vi a cidade sóbria
Medida na eternidade,
Severa se confrontando
À cinza das ampulhetas,
Sem outro ornato apurado
Além da pedra do chão.
Eu vi a cidade barroca
Vivendo da luz do céu.
[Contemplação de Ouro Preto, In Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, pp. 470-471].
A Cecília Meireles
Vi a cidade barroca
Sem enfeites se levantar.
Nem flores eu pude ver,
Flores da vida fecunda,
Nesta áspera Ouro Preto,
Nesta árida Ouro Preto:
Nem veras flores eu vi
Nascidas da natureza,
Da natureza lavada
Pelo frio e o céu azul.
Tristes flores de Ouro Preto.
Só vi cravos-de-defunto,
Apagadas escabiosas,
Murchas perpétuas sem cheiro,
Só vi flores desbotadas
Nascidas de sete meses,
Só vi cravos-de-defunto,
Que se atam ao crucifixo,
Que se levam ao Senhor Morte
Vi flores de pedra azul...
Eu vi nos muros de canga
A simples folhagem rasa,
A avença úmida e humilde,
Brancos botões pequeninos
A custo se entreabrindo,
Mas não vi flores fecundas,
Não vi as flores da vida
Nascidas à luz do sol.
Eu vi a cidade árida,
Estéril, sem ouro, esquálida;
Eu vi a cidade nobre
Na sua patina fosca,
Desfolhando lá das grimpas
No seu regaço de pedra
Buquês de flores extintas.
Eu vi a cidade sóbria
Medida na eternidade,
Severa se confrontando
À cinza das ampulhetas,
Sem outro ornato apurado
Além da pedra do chão.
Eu vi a cidade barroca
Vivendo da luz do céu.
[Contemplação de Ouro Preto, In Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, pp. 470-471].
sexta-feira, 11 de julho de 2014
Murilo Mendes
O OVO
O ovo é um monumento fechado, automonumento; plano-piloto, realizado agora, do germe inicial da criação.
A exemplo da torre de Pisa, o ovo não costuma sustentar-se em pé. Ninguém ignora que a torre gosta de emigrar durante a noite. De resto, ela subsiste somente porque amparada por uma pena num quadro de René Magritte.
O mesmo pintor em outro quadro Les vacances de Hegel mostra um guarda-chuva aberto: em cima pousa um copo contendo um líquido. Evidentemente todos os observadores sofrem uma ilusão de óptica, trocando o copo por um ovo, de resto mais vizinho ao pensamento do filósofo.
O ovo, objeto concreto de alto coturno, caríssimo, quase inacessível: diamante do pobre.
*
No meu tempo de infância, indo a noite alta de dois metros, eu já não ouvia mais o tique-taque do relógio; antes, o pulsar do ovo na sua gema, nunca sua clara.
Num tempo ainda mais recuado eu tinha medo do ovo. O medo: confere-nos uma téssera de identidade, fazendo-nos enfrentar algo de real, o próprio medo. O medo é o ovo da aventura posterior.
[In Poliedro, in Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 995]
sábado, 12 de abril de 2014
Murilo Mendes
SEGUNDA MEDITAÇÃO
Ó Deus abandonado
Tu te consolas na tua solitária justiça,
Tu te consolas
Dos que não te amam nem te reconhecem,
Dos que coroam de flores a estátua do Tempo
E te voltam a face e os pés.
Tu te consolas no teu próprio equilíbrio
Insondável ao olhar e ao espírito do homem.
Tu te consolas na geração incessante do teu Verbo
E no amor em espiral do teu Espírito.
Tu te consolas sem auxílio da natureza,
Sem o ritmo e o vaivém das asas dos arcanjos,
Tu te consolas sem consolo
No infinito íntimo que revelaste ao homem
E que ele resistente rejeita.
Ó Deus absurdo e nu
Tu te consolas no teu próprio conhecimento
E na qualidade de seres em ti mesmo eterno.
Ó Deus ácido
Tu te consolas dos criminosos,
Dos homens que romperam a tua e a sua lei.
Tu te consolas da morte
Que o homem quis conhecer e provocou,
Tu te consolas dos massacres e misérias que consentes
Mas a tua face não regista a angústia
Porque és anterior e posterior a todo sofrimento.
Ó Deus
Tu te consolas da crucifixão e morte do teu Filho unigênito
Porque podes gerá-lo eternamente e agora
Conhecendo que pela sua morte ele matou a morte.
Na tua plenitude e perfeição
Tu te consolas do desvio da tua raça terrestre.
O homem se transformará no teu conhecimento
Mesmo árido,
Mesmo em parcela e enigma,
Captando assim o infinito íntimo
Que um dia lhe deste em testamento.
[In Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, pp. 772-773].
Ó Deus abandonado
Tu te consolas na tua solitária justiça,
Tu te consolas
Dos que não te amam nem te reconhecem,
Dos que coroam de flores a estátua do Tempo
E te voltam a face e os pés.
Tu te consolas no teu próprio equilíbrio
Insondável ao olhar e ao espírito do homem.
Tu te consolas na geração incessante do teu Verbo
E no amor em espiral do teu Espírito.
Tu te consolas sem auxílio da natureza,
Sem o ritmo e o vaivém das asas dos arcanjos,
Tu te consolas sem consolo
No infinito íntimo que revelaste ao homem
E que ele resistente rejeita.
Ó Deus absurdo e nu
Tu te consolas no teu próprio conhecimento
E na qualidade de seres em ti mesmo eterno.
Ó Deus ácido
Tu te consolas dos criminosos,
Dos homens que romperam a tua e a sua lei.
Tu te consolas da morte
Que o homem quis conhecer e provocou,
Tu te consolas dos massacres e misérias que consentes
Mas a tua face não regista a angústia
Porque és anterior e posterior a todo sofrimento.
Ó Deus
Tu te consolas da crucifixão e morte do teu Filho unigênito
Porque podes gerá-lo eternamente e agora
Conhecendo que pela sua morte ele matou a morte.
Na tua plenitude e perfeição
Tu te consolas do desvio da tua raça terrestre.
O homem se transformará no teu conhecimento
Mesmo árido,
Mesmo em parcela e enigma,
Captando assim o infinito íntimo
Que um dia lhe deste em testamento.
[In Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, pp. 772-773].
quarta-feira, 2 de abril de 2014
Murilo Mendes
A GRANDE CEIA
Eu quero dar uma grande ceia aos deserdados — aos tímidos — aos desconsolados — aos oprimidos — aos humildes — aos doentes incuráveis de amor — às prostitutas que olham pela rótula, sem coragem de chamar os clientes.
Eu quero dar uma grande ceia aos que enxergam demais — aos desesperados com esperança — aos rebelados contra Deus, mais próximos a mim do que os indiferentes.
Eu quero dar uma grande ceia aos poetas que não sabem se exprimir — aos amantes reciprocamente saciados — aos covardes que não podem se matar.
Eu quero dar uma grande ceia aos desertores da lei humana — aos que apenas conseguem destruir — aos que receberam o inferno por herança.
Servi-vos de mim, derrotados. Eu vos considerarei a cada um como uma parte dispersada de mim mesmo. Presidirei vossas angústias e miséria:. Retalhai-me, dividi meu coração em pedaços; então se terá cumprido um claro mistério de Deus.
[In Poesia Completa e Prosa, Nova Aguilar: Rio de Janeiro, 1994, p. 762].
Eu quero dar uma grande ceia aos deserdados — aos tímidos — aos desconsolados — aos oprimidos — aos humildes — aos doentes incuráveis de amor — às prostitutas que olham pela rótula, sem coragem de chamar os clientes.
Eu quero dar uma grande ceia aos que enxergam demais — aos desesperados com esperança — aos rebelados contra Deus, mais próximos a mim do que os indiferentes.
Eu quero dar uma grande ceia aos poetas que não sabem se exprimir — aos amantes reciprocamente saciados — aos covardes que não podem se matar.
Eu quero dar uma grande ceia aos desertores da lei humana — aos que apenas conseguem destruir — aos que receberam o inferno por herança.
Servi-vos de mim, derrotados. Eu vos considerarei a cada um como uma parte dispersada de mim mesmo. Presidirei vossas angústias e miséria:. Retalhai-me, dividi meu coração em pedaços; então se terá cumprido um claro mistério de Deus.
[In Poesia Completa e Prosa, Nova Aguilar: Rio de Janeiro, 1994, p. 762].
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| Andre Derain |
domingo, 23 de março de 2014
Murilo Mendes
HOMENAGEM A JORGE DE LIMA
Inventor, teu próprio mito, Jorge, ordenas,
E este reino de fera e sombra.
Herdeiro de Orfeu, acrescentas a lira.
À mesa te sentaste com os cimeiros
Dante, Luís de Gongora, o Lusíada,
E Lautréamont, jovem sol negro
Que inaugura nosso tempo.
O roteiro traçando, usaste os mares.
A ilha tocas, e breve a configuras:
Ilha de realidade subjetiva
Onde a infância e o universo do mal
Abraçam-se, perdoados.
Tudo o que é do homem e terra te confina.
Inventor de novo corte e ritmo,
Sopras o poema de mil braços,
Fundas a realidade,
Fundas a energia.
Com a palavra gustativa,
A carga espiritual
E o signo plástico
Nomeias todo ente.
O frêmito e movimento do teu verso
Mantido pela forte e larga envergadura.
Poder da imagem que provoca a vida
E, respirando, manifesta
O mal do nosso tempo, em sangue exposto.
Aboliste as fronteiras da aparência:
No teu Livro, fértil se conjugam
Sono e vigília,
Vida e morte,
Sonho e ação.
Nutres a natureza que te nutre,
Mesmo as bacantes que te exaurem o peito.
Aplaca tua lira pedra e angústia:
Cantando clarificas
A substância de argila e estilhaços divinos
Que mal somos.
[In Poesia Completa e Prosa, Ed. Nova Aguilar: Rio de Janeiro, 1994, pp. 555-556].
Inventor, teu próprio mito, Jorge, ordenas,
E este reino de fera e sombra.
Herdeiro de Orfeu, acrescentas a lira.
À mesa te sentaste com os cimeiros
Dante, Luís de Gongora, o Lusíada,
E Lautréamont, jovem sol negro
Que inaugura nosso tempo.
O roteiro traçando, usaste os mares.
A ilha tocas, e breve a configuras:
Ilha de realidade subjetiva
Onde a infância e o universo do mal
Abraçam-se, perdoados.
Tudo o que é do homem e terra te confina.
Inventor de novo corte e ritmo,
Sopras o poema de mil braços,
Fundas a realidade,
Fundas a energia.
Com a palavra gustativa,
A carga espiritual
E o signo plástico
Nomeias todo ente.
O frêmito e movimento do teu verso
Mantido pela forte e larga envergadura.
Poder da imagem que provoca a vida
E, respirando, manifesta
O mal do nosso tempo, em sangue exposto.
Aboliste as fronteiras da aparência:
No teu Livro, fértil se conjugam
Sono e vigília,
Vida e morte,
Sonho e ação.
Nutres a natureza que te nutre,
Mesmo as bacantes que te exaurem o peito.
Aplaca tua lira pedra e angústia:
Cantando clarificas
A substância de argila e estilhaços divinos
Que mal somos.
[In Poesia Completa e Prosa, Ed. Nova Aguilar: Rio de Janeiro, 1994, pp. 555-556].
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| Alexandre Seon |
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
Murilo Mendes
POEMA PESSOAL
Levanto-me da carruagem de paixões e plumas
Aparentemente guiada pelas irmãs Brontë.
Deu uma tristeza agora nos telhados.
As cigarras sublinham a tarde emparedada,
O trovão fechou o piano.
Surge antecipadamente o arco-íris,
Aliança temporária de Deus com o homem,
Sem a solidez da eucaristia:
Surge sobre encarcerados, órfãos, marginais,
Sobre os tristes e os sem-solução.
Dos quatro cantos de mim mesmo
Irrompe um Dedo terribilíssimo que me acusa
Porque sem os olhar deixo de lado
Os restos agonizantes do mundo.
Transformou-se agora o céu.
Céu patinado, que escureza.
Céu sempre futuro e amargo,
Como são fundamentais
Estes sofrimentos de segundo plano!
Mais o que mesmo lembrar?
Ah sim — esta arrastada caranguejola da vida.
[In Poesia Completa e Prosa, Ed. Nova Aguilar: Rio de Janeiro, 1994, pp. 258-259].
Levanto-me da carruagem de paixões e plumas
Aparentemente guiada pelas irmãs Brontë.
Deu uma tristeza agora nos telhados.
As cigarras sublinham a tarde emparedada,
O trovão fechou o piano.
Surge antecipadamente o arco-íris,
Aliança temporária de Deus com o homem,
Sem a solidez da eucaristia:
Surge sobre encarcerados, órfãos, marginais,
Sobre os tristes e os sem-solução.
Dos quatro cantos de mim mesmo
Irrompe um Dedo terribilíssimo que me acusa
Porque sem os olhar deixo de lado
Os restos agonizantes do mundo.
Transformou-se agora o céu.
Céu patinado, que escureza.
Céu sempre futuro e amargo,
Como são fundamentais
Estes sofrimentos de segundo plano!
Mais o que mesmo lembrar?
Ah sim — esta arrastada caranguejola da vida.
[In Poesia Completa e Prosa, Ed. Nova Aguilar: Rio de Janeiro, 1994, pp. 258-259].
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Murilo Mendes
ISMAEL NERY
1
Não é do homem que recebes a glória.
O Verbo te criou desde o princípio
Para transmitires palavras de vida
E para que O mostrasses a outros homens.
Em poucos anos percorreste os séculos
Que medeiam entre o Gênese e o Apocalipse.
O germe da poesia, essencial ao teu ser,
Se prolongará através das gerações.
Eras sábio, vidente, harmonioso e forte:
Mas atrás de ti, que visavas o eterno,
Se erguiam o tempo e as muralhas da China.
Morres lúcido aos trinta e três anos,
Quando se fecha uma idade e se abre outra.
Morres porque nada mais tens que aprender.
É a manhã. Teu corpo jaz na urna.
Mas erguendo os olhos para o céu diviso
Um poderoso Ente que gira sobre si mesmo
Se levantar com o nascimento do sol.
2
Também eu vi aquele
Que vem precedendo a nova era.
Também eu vi aquele
Que foi criado para glória de Deus.
Também eu passei com ele
Sob as arcadas do templo e à beira do mar.
A sabedoria se manifestava pelos seus lábios
E a plenitude da arte pelas suas mãos.
O homem não recebendo sua mensagem,
A eternidade impaciente o reclamou.
Também eu vi os céus se abrirem súbito
E o Julgador lhe atribuir a estrela.
[Poesia Completa e Prosa, Ed. Nova Aguilar: Rio de Janeiro, 1994, pp. 258-259].
1
Não é do homem que recebes a glória.
O Verbo te criou desde o princípio
Para transmitires palavras de vida
E para que O mostrasses a outros homens.
Em poucos anos percorreste os séculos
Que medeiam entre o Gênese e o Apocalipse.
O germe da poesia, essencial ao teu ser,
Se prolongará através das gerações.
Eras sábio, vidente, harmonioso e forte:
Mas atrás de ti, que visavas o eterno,
Se erguiam o tempo e as muralhas da China.
Morres lúcido aos trinta e três anos,
Quando se fecha uma idade e se abre outra.
Morres porque nada mais tens que aprender.
É a manhã. Teu corpo jaz na urna.
Mas erguendo os olhos para o céu diviso
Um poderoso Ente que gira sobre si mesmo
Se levantar com o nascimento do sol.
2
Também eu vi aquele
Que vem precedendo a nova era.
Também eu vi aquele
Que foi criado para glória de Deus.
Também eu passei com ele
Sob as arcadas do templo e à beira do mar.
A sabedoria se manifestava pelos seus lábios
E a plenitude da arte pelas suas mãos.
O homem não recebendo sua mensagem,
A eternidade impaciente o reclamou.
Também eu vi os céus se abrirem súbito
E o Julgador lhe atribuir a estrela.
[Poesia Completa e Prosa, Ed. Nova Aguilar: Rio de Janeiro, 1994, pp. 258-259].
![]() |
| Figuras em azul, 1920 ISMAEL NERY |
sábado, 5 de outubro de 2013
Murilo Mendes
Anti-Elegia N° 3
As magnolias avançam com um ímpeto inesperado
São ombros nus é o luar o vidro de veneno
Deve haver um homicídio uma pergunta à esfinge
Um ultimato ao sonho um arroubo
do universo.
À meia-noite em ponto bate o mar na varanda
É impossível deixar
de acontecer alguma coisa
Há uma espera vã — raptaram as nebulosas.
Canção
Vejo as nuvens decotadas
Ouço o murmúrio
do mar
Palpo a matéria de pedra
Espero a amada voltar.
Desespero... espero em vão.
Este céu que não acaba
E esta amargura que me faz
viver,
Que vem soprando desde a eternidade.
Delírio Divino
O lirismo de Deus aumenta súbito
Oscila o infinito nas bases
Metafísica da física
Brota uma violeta nos anéis de
Saturno
Alguém desfolha um ciclone
Os aeromoços corteses
Penteiam a cabeleira das filhas do demônio
Deus com fome
Mata um homem e come.
In Os Quatro Elementos, Poesia Completa e Prosa, Ed. Nova Aguilar: Rio de Janeiro, 1994, pp. 380-381].
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
Murilo Mendes
Ideia Fortíssima
Uma ideia fortíssima entre todas menos uma
Habita meu
cérebro noite e dia,
A idéia de uma mulher, mais densa que uma forma.
Ideia que me acompanha
De uma a
outra lua,
De uma a outra caminhada, de uma a outra angústia,
Que me arranca do tempo e
sobrevoa a história,
Que me separa de mim mesmo,
Que me corta em dois como o
gládio divino.
Uma idéia que anula as paisagens exteriores,
Que me provoca terror e febre,
Que se antepõe à pirâmide de órfãos e miseráveis,
Uma idéia que verruma todos os
poros do meu corpo
E só não se torna o grande cáustico
Porque é um alívio
diante da ideia muito mais forte e violenta de
[Deus.
Companheira
Companheira, dou-te as sombras que me acompanham,
Todas as
sombras criadas pelos vivos.
Companheira, dou-te a alegria
Do que nada tem a esperar do
esforço humano.
Dou-te a cantiga do asilado,
O suspiro do menino que olha em vão
O velocípede do menino
vizinho.
Dou-te a nostalgia de quem soltou papagaio
Em épocas muito
remotas.
Companheira,
Dou-te a tristeza do que nada achou na sua primeira
comunhão.
Dou-te o desconsolo do que está sendo destruído
Pelos crimes que não
cometeu,
Pelos crimes de outros em época
distante.
Pastoral
Traze a sandália e o bordão para passearmos no campo sereno.
Somos contemporâneos de raças extintas,
Viemos de torres golpeadas e de
hóstias profanadas.
Até que desçamos para os rios
invisíveis
Convém dançar entre os humanos, comer o pão e o mel.
Os imortais nos aguardam nas
esferas da música:
Muitos pássaros, muitas luas viajantes têm nostalgia de nós.
Esquadrilhas de mitos são enviadas para nos protegerem.
Hospedamos companheiros
imprevistos,
O Máscara de Ferro, Nosferatu,
Ou então a Órfã do Castelo Negro.
As fontes esperam nosso sinal
para murmurarem,
E os germes da peste se contêm
ante a nossa benção.
Paz aos corpos insaciados de
amor, aos membros genitais em delírio:
Suspendei de novo no azul a gaiola dos anjos,
domingo, 9 de junho de 2013
Murilo Mendes
VELÁZQUEZ
Andaluz e castelhano,
Resume a tensão espanhola.
Entre precisão e força
Ordena sua paleta.
Eis a
pintura.
Eis a matéria do homem a duas dimensões.
Pintando, Velázquez
orienta
A rígida consciência de Espanha:
Orgullo castelhano de estrutura,
Ligado à
língua e ao solo.
Velázquez sabe: pintar é elucidar o espaço
Aberto ou restrito
Pela marcha do pincel consciente.
Velázquez sabe: a cor delimita a forma.
Situando a
cor, seu pincel a define:
Suprime a fluidez, a suavidade,
Qualquer elemento opaco ou impreciso.
Suporte da verdade plástica
É o próprio grupo dos nobres:
Entre o
rei e o niño de Vallecas
A continuidade da matéria enxuta.
A marcha do pincel voluntário
Constrói o homem na grandeza circunscrita:
Sua dimensão é a cor, a forma definida.
Eis o que
o distingue dos outros:
Seu DUENDE não é visível
Como o de Goya, de El Greco.
Entre o minucioso «fantástico» de Flandres
E o gosto
superlativo italiano
A linha castigada e enxuta de Velázquez
Demarca os precisos limites
Onde Espanha se reconhece autônoma.
In Tempo Espanhol, Poesia Completa e Prosa, Ed. Nova Aguilar: Rio de Janeiro, 1994, pp. 599-600
![]() |
| Autorretrato, 1640. Real Academia de Bellas Artes de San Carlos de Valencia - Valência, Espanha. |
quinta-feira, 11 de abril de 2013
Murilo Mendes
Mariana Alcoforado
A Isabel da Nóbrega
Transcurso o subsistente enigma crítico. Existiu Soror Mariana Alcoforado, existiu o (intolerável?) capitão de cavalaria Noel de Chamilly; forjadas ou não, alteradas ou não por algum esperto literato, existiam até hoje, ignoro se até sempre, as cartas.
Na verdade, para muitos europeus que talvez desconhecessem, mesmo de nome, Os Lusíadas, o vinho do Porto e o — gêmeo — da Madeira, Portugal afigura-se um país resultante destas cartas; descoberto, sem que ela o soubesse, por Mariana Alcoforado.
Um comentário pessoal em torno deste nome não tem nenhuma relação com a história ou a crítica; mencionando-o, adoto o regime da confidência; pretendo apenas dialogar com o possível leitor.
Direi pois: Mariana é um nome da minha adesão. Reúne duas grandes senhoras bíblicas, Maria e Ana; alude também à poetisa Marianne Moore que
semprevoando-se, trata com lucidez e ciência da linguagem os objetos; atenta à
ideia do limite.
Alcoforado:
nome singular, simétrico, porque composto de cinco sílabas de duas letras cada
uma. A raiz “al” será relativa à origem mourisca da palavra? O fato é que o
Alentejo, onde vivia Mariana, sofreu influência dessa cultura.
Ninguém
ignora qua as cartas tocaram escritores consideráveis: Racine, Saint-Simon,
Rousseau, Stendhal, Rilke e muilos outros. Deram a deixa a Elizabetl Barrctt
Browning para o tema dos Sonnets from the Portuguese. Segundo Rilke, teriam sido escritas por mão de sibila;
personagem futurível que sempre me despertou terror e fàscino.
Difícil
determinar se esta freira é pagã ou cristã; mesmo porque talvez nenhum
teólogo-geógrafo conheça as fronteiras entre paganismo e cristianismo; sendo
também absurdo rotular os pagãos de a-religiosos. Quanto ao cristianismo: vasto
demais para se poder entendê-lo claramente.
De
qualquer modo Mariana experimenta na carne e no espírito a fúria amorosa,
palavra banal, mas que funciona. (No momento não disponho de nenhuma
metáfora-arquétipo.) Aplicarei portanto a Mariana a etiqueta “cristopagã”, sem
insinuar que ela seria cristã pelo espírito e pagã pela carne. A doutrina
católica declara-os intimamente unidos; além disto recomenda com insistência o
amor carnal que não deve se limitar ao prazer momentâneo, mas acudir à
perpetuação da espécie; Santo Agostinho e Santo Tomás dixerunt; logo, exclui-se a pílula. Discordo
deste último ponto: e como Paulo VI jamais lerá este livro, driblo a censura,
continuando, mesmo de binóculo, a entrevê-lo, debruçado à sua janela parda, ou
inserido na sédia gestatória, móvel felizmente já quase bissexto. Em quanto à
terra, superpovoando-se, ameaça explodir à força de complexos problemas, e
irresponde aos seus mútiplos apelos de paz universal.
Considerável,
nas cartas, a prioridade atribuída ao tema do amor-paixão, tratado em modo
raro, fora dos esquemas estilísticos então vigentes na Península Ibérica; sem
metáforas nem afetações cultistas. Segundo se escreveu, temos aqui a
anatomia do amor português levado à saturação; mas, o que é
incomum em Portugal, sem mancha de sentimentalismo ou excessos de “meiguice”,
ausente o diminutivo; nem atenção ao cenário e à natureza física. Com alguma
coisa da precedente Teresa de Ávila e o preanúncio do ímpeto de Mathilde de la
Mole.
Nessa
fúria amorosa todas as probabilidades se afirmam dentro da contradição, se
combinam e se destroem. Mariana sabe que não tem saída; nisto reside seu
caráter patético, exposto literalmente com vigor e audácia.
Seus
limites determinam-lhe a faixa da grandeza. É terrestre: “Já não quero honra
nem religião senão para amar-te perdidamente a vida inteira.” Inicia- se um
diálogo-monólogo: “Escrevo mais para mim do que para ti.” Ama o próprio texto:
“Custa-me mais a deixar esta carta do que a ti custou a deixar-me talvez para
sempre”; “Então este desespero só é verdadeiro nas minhas cartas?"
Consciente da sua abjeção (quem sabe seria masoquista), quer exorcizá-la: “Em
certos momentos parece-me que era capaz de levar a minha sujeição até servir
aquela que amas”. E seu impudor: igual ao seu pudor.
Esta
freira reversível, constrangida a trazer um véu preto em vez dum véu vermelho
disfarçando espada, pressente, antes de Baudelaire e Michel Leiris, o amor
como forma de tauromaquia. Meduséia talvez, mas não tele- meduséia; pelo que o
amante, já agora reinstalado na França, pode escapar à sua fúria.
Como
seria, fisicamente falando, a palavra Marina Alcoforado? Conservo para mim a
trama do seu retrato; a atenção que dedico ao leitor não vai até o ponto de
desvendá-la. Na época do julgamento universal (dogma que espaventava Quevedo)
saberei se esse retrato discrepa ou não do original; também tu, leitor amigo,
o saberás; além de, naturalmente, muitas outras coisas.
[In Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, pp. 1421-1423].
[In Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, pp. 1421-1423].
sexta-feira, 29 de março de 2013
Murilo Mendes
QUARTA MEDITAÇÃO
Ó Deus tua solidão
Quando desde toda a eternidade
Conheces tua própria força e teu poder.
Tua solidão quando sopraste sobre o homem
Sabendo que ele te iria abandonar:
Tua solidão foi rompida pela intimidade
Que te incarnando concedeste ao homem...
E ao mesmo tempo que rompida, se agravou.
Ó Deus tua solidão
Porque o homem à tua sombra severa e suave
Prefere a companhia de imperfeitos
ídolos à base de terror.
Ó Deus tua solidão
Porque o homem não te pesquisa paciente
No Santo dos santos do seu próprio espírito
Mas observando sempre o espaço e o tempo.
Ó Deus tua solidão
Porque aceitaste experimentar a morte
Decretada pelo teu próprio Pai
E assim do enxerto da tua morte de homem
O homem um dia despontasse Deus.
Ó Deus tua solidão
Porque morte, fome, peste e guerra
Não te podem atingir nem alterar.
Ó Deus tua solidão
Porque abandonado nos abandonas.
Ó Deus tua solidão
Não te distancia — te aproxima de nós.
Ó Deus tua solidão
Te manifesta pobre, fraco e nu,
Ainda mais fraco do que o próprio homem
Usando seu poder de usurpação,
Ó Deus desfeito em sangue, verme vil.
Ó Deus tua solidão
Te desloca domado
Do infinito físico em que te limitaram
E te faz descer até nós
No infinito íntimo,
No recesso de miséria em que te recebemos,
No santuário sinistro do pecado,
Ó Deus que capitulas
E que te fazes semelhante a nós
Em nossa intransferível solidão
[In: Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 246
Ó Deus tua solidão
Quando desde toda a eternidade
Conheces tua própria força e teu poder.
Tua solidão quando sopraste sobre o homem
Sabendo que ele te iria abandonar:
Tua solidão foi rompida pela intimidade
Que te incarnando concedeste ao homem...
E ao mesmo tempo que rompida, se agravou.
Ó Deus tua solidão
Porque o homem à tua sombra severa e suave
Prefere a companhia de imperfeitos
ídolos à base de terror.
Ó Deus tua solidão
Porque o homem não te pesquisa paciente
No Santo dos santos do seu próprio espírito
Mas observando sempre o espaço e o tempo.
Ó Deus tua solidão
Porque aceitaste experimentar a morte
Decretada pelo teu próprio Pai
E assim do enxerto da tua morte de homem
O homem um dia despontasse Deus.
Ó Deus tua solidão
Porque morte, fome, peste e guerra
Não te podem atingir nem alterar.
Ó Deus tua solidão
Porque abandonado nos abandonas.
Ó Deus tua solidão
Não te distancia — te aproxima de nós.
Ó Deus tua solidão
Te manifesta pobre, fraco e nu,
Ainda mais fraco do que o próprio homem
Usando seu poder de usurpação,
Ó Deus desfeito em sangue, verme vil.
Ó Deus tua solidão
Te desloca domado
Do infinito físico em que te limitaram
E te faz descer até nós
No infinito íntimo,
No recesso de miséria em que te recebemos,
No santuário sinistro do pecado,
Ó Deus que capitulas
E que te fazes semelhante a nós
Em nossa intransferível solidão
[In: Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 246
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
Murilo Mendes
NATAL
Meu outro eu angustiado desloca o curso dos astros,
atravessa os espaços de fogo e toca a orla do manto divino.
O ser dos seres envia seu Filho para mim, para
os outros que O pedem e para os que O esquecem.
Uma criança dançando segura uma esfera azul com a cruz:
Vêm adorá-la brancos, pretos, portugueses, turcos, alemães,
russos, chineses, banhistas, beatas, cachorros e bandas de música.
A presença da criança transmite aos homens uma paz inefável
que eles comunicam nos seus lares a todos os amigos e parentes.
Anjos morenos sobrevoam o mar, os morros e arranha-céus,
desenrolando, em combinação com a rosa-dos-ventos,
grandes letreiros onde se lê: GLÓRIA A DEUS NAS ALTURAS
E PAZ NA TERRA AOS HOMENS DE BOA VONTADE.
[In Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 246]
Meu outro eu angustiado desloca o curso dos astros,
atravessa os espaços de fogo e toca a orla do manto divino.
O ser dos seres envia seu Filho para mim, para
os outros que O pedem e para os que O esquecem.
Uma criança dançando segura uma esfera azul com a cruz:
Vêm adorá-la brancos, pretos, portugueses, turcos, alemães,
russos, chineses, banhistas, beatas, cachorros e bandas de música.
A presença da criança transmite aos homens uma paz inefável
que eles comunicam nos seus lares a todos os amigos e parentes.
Anjos morenos sobrevoam o mar, os morros e arranha-céus,
desenrolando, em combinação com a rosa-dos-ventos,
grandes letreiros onde se lê: GLÓRIA A DEUS NAS ALTURAS
E PAZ NA TERRA AOS HOMENS DE BOA VONTADE.
[In Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 246]
![]() |
| Giotto (e aiuti) ? Il presepe di Greccio affresco dalle Storie di san Francesco, 1295-97/1299 Assisi, basilica superiore |
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Murilo Mendes
ÁVILA
A José Bergamin
O aeronauta conduz a bordo a palavra silêncio.
Sobrevoamos Ávila, composição abstrata.
O avião abrindo curvas dá guinadas
Como os movimentos da alma na escrita de Santa Teresa.
Ávila absorvida, surge Madrid à frente:
Subimos agora as ladeiras da descida.
Volto a ver Ávila, contornada a pé.
Em Ávila recebi minha ração de silêncio maior
E pude decifrar o texto do meu enigma:
Deus permitiu que eu cresça desde o início
No espaço árido da minha fome e sede.
Permitiu que eu tocasse o núcleo da minha origem,
Eu que sou o não-figurativo, o não-nomeado,
O não-inaugurado, o que sempre se perfaz,
Nutrido pelo sol interior que acende o esqueleto;
Alguém que é ninguém,
De amor consumido pelo Nada ou Tudo,
O que nunca abriu a boca, nem supõe o milagre,
Habita na aflição, na densidade,
Sem Espanha e com Espanha.
Que muero porque no muero.
Severa e castigada, Ávila funda
O espaço criador do espaço,
A pedra macha de Espanha
Que cerra o segredo.
SANTA TERESA DE JESUS
Teresa, corpo de glória,
O romance de cavalaria desde cedo
Conduziu-te à aventura celeste.
Da dura terra aprendeste a defrontar
A arma do touro, a cruz ponteaguda, o grito árabe.
Das casas fortificadas de Castela
Extraíste a imagem objetiva
Para fundar teus castillos interiores.
Da pedra de Ávila extrais a resistência.
O vazio do espaço dilatado de Castela
Corresponde ao deserto de Deus.
Teresa, decifras o «mistério» masculino de Espanha.
Teu íntimo substrato é o fogo:
Convida-te a elidir o supérfluo.
Vendo oculto Deus desnudo
— Minério subjacente de Castela —
Concentraste-o num ponto mínimo.
Descreves com precisão o itinerário da alma.
Altas cristas de Ávila desertas.
Alta Teresa de Ávila, intocada,
— Rigor e lucidez na intensidade —
Consegues tornar didático o absoluto.
[In Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, pp. 584-585]
A José Bergamin
O aeronauta conduz a bordo a palavra silêncio.
Sobrevoamos Ávila, composição abstrata.
O avião abrindo curvas dá guinadas
Como os movimentos da alma na escrita de Santa Teresa.
Ávila absorvida, surge Madrid à frente:
Subimos agora as ladeiras da descida.
Volto a ver Ávila, contornada a pé.
Em Ávila recebi minha ração de silêncio maior
E pude decifrar o texto do meu enigma:
Deus permitiu que eu cresça desde o início
No espaço árido da minha fome e sede.
Permitiu que eu tocasse o núcleo da minha origem,
Eu que sou o não-figurativo, o não-nomeado,
O não-inaugurado, o que sempre se perfaz,
Nutrido pelo sol interior que acende o esqueleto;
Alguém que é ninguém,
De amor consumido pelo Nada ou Tudo,
O que nunca abriu a boca, nem supõe o milagre,
Habita na aflição, na densidade,
Sem Espanha e com Espanha.
Que muero porque no muero.
Severa e castigada, Ávila funda
O espaço criador do espaço,
A pedra macha de Espanha
Que cerra o segredo.
SANTA TERESA DE JESUS
Teresa, corpo de glória,
O romance de cavalaria desde cedo
Conduziu-te à aventura celeste.
Da dura terra aprendeste a defrontar
Das casas fortificadas de Castela
Extraíste a imagem objetiva
Para fundar teus castillos interiores.
Da pedra de Ávila extrais a resistência.
O vazio do espaço dilatado de Castela
Corresponde ao deserto de Deus.
Teresa, decifras o «mistério» masculino de Espanha.
Teu íntimo substrato é o fogo:
Convida-te a elidir o supérfluo.
Vendo oculto Deus desnudo
— Minério subjacente de Castela —
Concentraste-o num ponto mínimo.
Descreves com precisão o itinerário da alma.
Altas cristas de Ávila desertas.
Alta Teresa de Ávila, intocada,
— Rigor e lucidez na intensidade —
Consegues tornar didático o absoluto.
[In Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, pp. 584-585]
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Murilo Mendes
JANDIRA
O mundo começava nos seios de Jandira.
Depois surgiram outras peças da criação:
surgiram os cabelos para cobrir o corpo,
(às vezes o braço esquerdo desaparecia no caos).
E surgiram os olhos para vigiar o resto do corpo.
E surgiram sereias da garganta de Jandira:
o ar inteirinho ficou rodeado de sons
mais palpáveis do que pássaros.
E as antenas das mãos de Jandira
captavam objetos animados, inanimados,
dominavam a rosa, o peixe, a máquina.
E os mortos acordavam nos caminhos visíveis do ar
quando Jandira penteava a cabeleira...
Depois o mundo desvendou-se completamente,
foi-se levantando, armado de anúncios luminosos.
E Jandira apareceu inteiriça,
de cabeça aos pés.
Todas as partes do mecanismo tinham importância.
E a moça apareceu com o cortejo do seu pai,
de sua mãe, de seus irmãos.
Eles é que obedecem aos sinais de Jandira
crescendo na vida em graça, beleza, violência.
Os namorados passavam, cheiravam os seios de Jandira
e eram precipitados nas delícias do inferno.
Eles jogavam por causa de Jandira,
deixavam noivas, esposas, mães, irmãs
por causa de Jandira.
E Jandira não tinha pedido coisa alguma.
E vieram retratos no jornal
e apareceram cadáveres boiando por causa de Jandira.
Certos namorados viviam e morriam
por causa de um detalhe de Jandira.
Um deles suicidou-se por causa da boca de Jandira.
Outro, por causa de uma pinta na face esquerda de Jandira.
E seus cabelos cresciam furiosamente com a força das máquinas;
não caía nem um fio,
nem ela os aparava.
E sua boca era um disco vermelho
tal qual um sol mirim.
Em roda do cheiro de Jandira
a família andava tonta.
As visitas tropeçavam nas conversações
por causa de Jandira.
E um padre na missa
esqueceu de fazer o sinal-da-cruz por causa de Jandira.
E Jandira se casou.
E seu corpo inaugurou uma vida nova,
apareceram ritmos que estavam de reserva,
combinações de movimento entre as ancas e os seios.
À sombra do seu corpo nasceram quatro meninas que repetem
as formas e os sestros de Jandira desde o princípio do tempo.
E o marido de Jandira
morreu na epidemia de gripe espanhola.
E Jandira cobriu a sepultura com os cabelos dela.
Desde o terceiro dia o marido
fez um grande esforço para ressuscitar:
não se conforma, no quarto escuro onde está,
que Jandira viva sozinha,
que os seios, a cabeleira dela transtornem a cidade
e que ele fique ali à toa.
E as filhas de Jandira
inda parecem mais velhas do que ela.
E Jandira não morre,
espera que os clarins do juízo final
venham chamar seu corpo,
mas eles não vêm.
E mesmo que venham, o corpo de Jandira
ressuscitará inda mais belo, mais ágil e transparente.
(O Visionário)
[In Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, pp. 202-203]
O mundo começava nos seios de Jandira.
Depois surgiram outras peças da criação:
surgiram os cabelos para cobrir o corpo,
(às vezes o braço esquerdo desaparecia no caos).
E surgiram os olhos para vigiar o resto do corpo.
E surgiram sereias da garganta de Jandira:
o ar inteirinho ficou rodeado de sons
mais palpáveis do que pássaros.
E as antenas das mãos de Jandira
captavam objetos animados, inanimados,
dominavam a rosa, o peixe, a máquina.
E os mortos acordavam nos caminhos visíveis do ar
quando Jandira penteava a cabeleira...
Depois o mundo desvendou-se completamente,
foi-se levantando, armado de anúncios luminosos.
E Jandira apareceu inteiriça,
de cabeça aos pés.
Todas as partes do mecanismo tinham importância.
E a moça apareceu com o cortejo do seu pai,
de sua mãe, de seus irmãos.
Eles é que obedecem aos sinais de Jandira
crescendo na vida em graça, beleza, violência.
Os namorados passavam, cheiravam os seios de Jandira
e eram precipitados nas delícias do inferno.
Eles jogavam por causa de Jandira,
deixavam noivas, esposas, mães, irmãs
por causa de Jandira.
E Jandira não tinha pedido coisa alguma.
E vieram retratos no jornal
e apareceram cadáveres boiando por causa de Jandira.
Certos namorados viviam e morriam
por causa de um detalhe de Jandira.
Um deles suicidou-se por causa da boca de Jandira.
Outro, por causa de uma pinta na face esquerda de Jandira.
E seus cabelos cresciam furiosamente com a força das máquinas;
não caía nem um fio,
nem ela os aparava.
E sua boca era um disco vermelho
tal qual um sol mirim.
Em roda do cheiro de Jandira
a família andava tonta.
As visitas tropeçavam nas conversações
por causa de Jandira.
E um padre na missa
esqueceu de fazer o sinal-da-cruz por causa de Jandira.
E Jandira se casou.
E seu corpo inaugurou uma vida nova,
apareceram ritmos que estavam de reserva,
combinações de movimento entre as ancas e os seios.
À sombra do seu corpo nasceram quatro meninas que repetem
as formas e os sestros de Jandira desde o princípio do tempo.
E o marido de Jandira
morreu na epidemia de gripe espanhola.
E Jandira cobriu a sepultura com os cabelos dela.
Desde o terceiro dia o marido
fez um grande esforço para ressuscitar:
não se conforma, no quarto escuro onde está,
que Jandira viva sozinha,
que os seios, a cabeleira dela transtornem a cidade
e que ele fique ali à toa.
E as filhas de Jandira
inda parecem mais velhas do que ela.
E Jandira não morre,
espera que os clarins do juízo final
venham chamar seu corpo,
mas eles não vêm.
E mesmo que venham, o corpo de Jandira
ressuscitará inda mais belo, mais ágil e transparente.
(O Visionário)
[In Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, pp. 202-203]
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Fernando Paixão
Os berros das ovelhas de tão articulados quebram os motivos. Um lençol de silêncio cobre a tudo e todos. Passam os homens velho...
-
Os berros das ovelhas de tão articulados quebram os motivos. Um lençol de silêncio cobre a tudo e todos. Passam os homens velho...
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PÃO-PAZ O Pão chega pela manhã em nossa casa. Traz um resto de madrugada. Cheiro de forno aquecido, de levedo e de lenha queimada. Traz as...
-
O Barco Bêbado Quando eu atravessava os Rios impassíveis, Senti-me libertar dos meus rebocadores. Cruéis peles-vermelhas com uivos terríve...














