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domingo, 18 de setembro de 2016

Daniel Faria

DO MANUSCRITO C DE SANTA TERESA
DO MENINO JESUS 1

A lâmpada já estava apagada. Certifiquei-me.
Não era um grão, uma vagem aberta nem a manhã.
Esperei para testemunhar a felicidade na luz
Da certeza — sim minha madre tinha vomitado
A claridade do sangue — pensei
É o céu

Era a janela todavia, a enfermidade, a fenda
Voluntária. Não era minha madre
Toda a casa terrestre demolida.

DO MANUSCRITO C DE SANTA TERESA DO MENINO JESUS 2

Imagino que nasci num país coberto por espesso nevoeiro
E que nunca contemplei o risonho aspecto da natureza inundada
É verdade que desde a minha infância oiço falar
E sei que para lá dele, na minha pátria, há outro
E que é por esse que aspiro cada dia.
Não é uma história inventada por um habitante que não volta para
[a lavra
Por um homem triste que pára na velhice ou em frente do arado
É uma realidade brilhante como um rei em combate
Um herói a coroar-se das trevas que venceu

Se é preciso que eu coma sozinha o nevoeiro da provação
Ainda que me doa a humidade do reino luminoso
Comerei a obediência — há por certo
Uma região mais íntima na circulação das minhas veias
Uma outra terra que pensa a minha morada
Um perfume, uma maravilha, um repouso
Para a cabeça dos que lutam com bravura

Eu, porém, não disperso a energia. Reúno-a
Para o amor
Viro costas ao duelo como a medalha no peito do esposo
E respiro até à última gota do sangue. Minha madre
Eu corro

[In Dos líquidos, 2000]



sexta-feira, 6 de março de 2015

Daniel Faria

DO LIVRO SEGUNDO DA NOITE
ESCURA, DE SÃO JOÃO DA CRUZ 5
Entendo agora a nudez do pobre
E posso tocar-lhe como quem toca a alma às escuras
Mesmo sem a tremenda noite com que lhe toca a mão divina
O terceiro modo da paixão são os extremos. Agora entendo
Os dedos dos cegos
Agora entendo o ovo e o mártir quando é cercado para morrer
Entendo o ventre do bicho marinho, o fundo dos golfos
E já sei como abrem os ressuscitados os olhos no sepulcro

Sei o que é ser vomitado nas praias
O que é voltar a terra firme — ao dia mais do que à luz

Sei o que é o ouro no fogo e no inferno
Sei o que é renascer pelas águas

edição de Vera Vouga


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Daniel Faria

Quando a embarcação lançava o seu lugar
Quando baixava a sua âncora, a raiz
Da rosa nos ventos que a desfolham - corola marítima
Pétala a pétala ela perdia o movimento

As velas
Desciam - de noite o sopro
Deve ser dado aos astros

Acendia-se a escura ondulação dos que regressam
Ao sono. Mergulhavam -
Ao tocarem a noite é que se levantam

As estrelas

[Daniel Faria, "Dos Líquidos"]

Dai-me da água ou da resina de um ramo
Ou o baloiço apenas
Da sombra, a verdura que o move
O aroma que sobe o equilíbrio das folhas

Dai-me o oxigénio para aves que passam
O chão de combustíveis adubado pelas águas
Um pássaro de líquido, de vento, de coisas viajadas
O movimento do mundo

O mundo desloca-me em segredo sem que os homem mudem

[Daniel Faria, "Dos Líquidos"]

Este é o dia novo. Sei-o pelo desejo
De o transformar. Este é o dia transformado
Pelo modo como apoio este dia no chão.
Coloco-o na posição humilde dos meus joelhos na terra
Abro-o com os olhos que retiro de todas as coisas quando os fixo
Na atenção.

E fico atento, fico deitado porque não sei crescer
Num terreno que se levante.
Cresço na clareira de um homem que é uma palavra
Na sua túnica inteira
Porque este é o sítio do dia sem horário

Sem divisões

E ponho-me de frente no seu lado,
Nos seus braços abertos para me unir
E entro pelo lado aberto e ardo - como Elias
Em chamas subindo para o céu.

[Daniel Faria, "Homens que São Como Lugares Mal Situados"].


Por Martin Stranka 

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Daniel Faria

Deve ser o último tempo
A chuva definitiva sobre o último animal nos pastos
O cadáver onde a aranha decide o círculo.
Deve ser o último degrau na escada de Jacob
E último sonho nele
Deve ser-lhe a última dor no quadril.
Deve ser o mendigo à minha porta
E a casa posta à venda.
Devo ser o chão que me recebe
E a árvore que me planta.
Em silêncio e devagar no escuro
Deve ser a véspera. Devo ser o sal
Voltado para trás.
Ou a pergunta na hora de partir.


[Daniel Faria, Explicação das Árvores e de Outros Animais, 1998]

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Daniel Faria

DO LIVRO DO APOCALIPSE
Onde há uma estrela há um homem nocturno
Um homem hemisférico que pensa na luz.
Ele sabe que a lâmpada é o cordeiro. Sabe que a cidade
Não precisa do sol nem da lua. O homem acende na cidade
O pensamento.
O cordeiro está em pé como que degolado e o sangue
Corre da ferida viva como um braseiro. A lâmpada
Abre uma constelação no chão: o livro
Que nomeia e nutre os ressuscitados.
O homem põe a estrela na direcção da vida
Um astrolábio celeste. Não precisa do sol nem da lua
Porque tem o cordeiro em pé e de frente.
Ele sabe que o cordeiro é pedra que está ferida
E roda-a devagar até ele próprio ser a fonte.
O homem junta as duas mãos como quem bebe
E queima-se nas mãos, na boca, nas entranhas
Com o lume muito novo da bebida.

DO LIVRO DOS ACTOS DOS APÓSTOLOS
A luz de Damasco é um grito
Para a ovelha que regressa

A luz de Damasco é um tombar do trigo, um cair
Do grão – cega tanto como os olhos
De um homem perseguido quando se volta
Para nós

A luz de Damasco golpeia. É circuncisão
Que abre, limpa, a luz de Damasco
É dura. Da dureza

Das pedras que um mártir junta com as mãos
Com que empedra o caminho para a morte. A luz
De Damasco é esse lume

Da oração de um mártir ao morrer.

In “ Dos Líquidos” Fundação Manuel Leão, Porto, 2000


Hubert Jan van Eyck



quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Daniel Faria


Depois das queimadas as chuvas
Fazem as plantas vir à tona
Labaredas vegetais e vulcânicas
Verdes como o fogo
Rapidamente descem em crateras concisas
E seiva
E derramam o perfume como lava

E se quiséssemos queimar os animais de grande porte
Eles não regressariam. Mas a morte
Das plantas é sua infância
Nova. Os caules levantam-se
Cheios de crias recentes

Também os corações dos homens ardem
Bebem vinho, leite e água e não apagam
O amor

***
A estrela nasce da raiz carbonizada
Do caule queimado
Da roda dos bois afogueados
Quando em chamas com cornos espigados
Passam entre medas que alumiam o caminho para casa.
O fogo é provisão e possessão
O degrau na vida - ao meio
A bússola que arde. E há constelações na mão
Que leva o gado.

***
Largo é o aberto abandonado
E o vazio é pata que sustenta
De leveza o ramo. O pássaro amanhece
E o seu bico não fere o seu canto.

***
Como doem as árvores
Quando vem a Primavera
E os amigos ainda estão de pé

***
Como as crias no colo dobrasse as patas
E nas pequenas hastes trespassasse
O que separa
E bebesse do chão aberto pelos cascos

***
Voz o vento passando entre poeira
Edifício
Árvore noutro poema
Fico à sombra da vide e do esteio no Outono

E enxerto a luz
em tudo o que nomeio

[Daniel Faria, Poesia, Quasi Edições]


sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Daniel Faria

EXPLICAÇÃO DO POETA
Pousa devagar a enxada sobre o ombro
Já cavou muito silêncio

Como punhal brilha em suas costas
A lâmina contra o cansaço

EXPLICAÇÃO DO SORRISO
A mãe disse-lhe escreve-me
De  lá de longe para onde vais
E ela disse não é longe casar
E a mãe sorria cega de dor
E parecia de deslumbramento

EXPLICAÇÃO DA AUSÊNCIA
Desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou
Não rodou mais para a festa não irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém
A mudança fez-se vazio repetido
E o a vir a mesma sensação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera é não acontecer - fosse abertura -
E a saudade é tudo ser igual.

EXPLICAÇÃO DA NOITE
Sobre a água estarei solto de caminhos
Dos que vierem nenhum barco é para ti

Não deixes a candeia acesa
Dorme: basta-me essa luz

AQUILES E PÁTROCLO
Nem sucessivas e sucessivas migrações de aves
Perfarão a distância que agora nos separa
Mas esta nau não me levará à casa
E seguir-te não será morrer

[Daniel Faria, Poesia, Quasi Edições]










domingo, 18 de novembro de 2012

Daniel Faria

1
Acordei com as narinas a sangrar perfume
Como um santo quando acaba de morrer
E debrucei-me para dentro
Para encontrar o golpe no sono.
Encontrei uma mulher sentada entre os pássaros
Que quebrava vasilhas de barro.
Disse-lhe: bebe do meu sangue.
Ela rasgou-me as veias com cacos
E deu de beber aos pássaros.

2
Acordei também com os pássaros
E estudei a posição em que os bordava
Nos seus vestidos
E disse: para que lhes espetas a agulhas no coração
Ela respondeu: para que aprendam a direcção do voo.

3
Ela pôs-me o dedal sobre os olhos
Um vaso pequenino com que me ministrou o sono
Apagou em mim os instintos da caça.
Estou ferido nas narinas e nos pulmões,
Digo-lhe: sufoco.
Ela ordenou que os pássaros batessem as asas
E fez circular o ar.

4
Acordei dentro do poço
Do ar
E soube que podia respirar dentro da água
Porque a mulher estava cercada de peixes.
Disse-lhe: porque quebras aquários contra os joelhos?
Ela mastigava e não me respondeu,
Estendeu a mão e deu-me um vidro a provar

5
Trinquei o vidro e ouvi o coração da mulher estalar:
A mulher era uma ilha de todos os lados
Na sua força de um redemoinho parado

6
Ela sorveu-me o sangue, curou-me a boca,
Espetou-me um anzol na língua e puxou-me
As palavras
Foi então que pensei que ia morrer
Afogado.

7
Acordei dentro desse pensamento como um homem salvo
Com a boca cheia de búzios em forma de palavras.
Soube que era possível respirar dentro das palavras
Porque vi a mulher pôr as mãos sobre os ouvidos.
Ela estava no meu pensamento e tinha um pequeno tear.

8
E eu disse à mulher: destece-me
Até que alguma coisa me pense para dentro
Como se alguém me chamasse
Como se badalasse um sino ao redor
Dentro de mim.
A mulher pôs-se à escuta: perdi o fio — disse —
Dos teus novelos.

9
Assemelhei-me a um xilofone de silêncio
A um estrondo muito forte que só se ouvia bem em silêncio.
Gritei: então canta!
Ela pegou a minha tristeza e começou a dobrar.

10
Debrucei-me sobre a meada estreita, o estreito poço
E disse: é agora que vou descer.
Acordei no meio da descida e pensei:
Ah, quem dera a mulher lançasse a sua trança
A prumo.

11
A mulher lançou a sua mão
Eu estava na palma da mão
Eu era uma linha que se apagava
Uma linha que ninguém sabia ler.
Eu disse à mulher: Ah, fecha a mão
Para me guardares

12
A mulher guardou-me no útero
E eu vi quanta morte existe ao redor de quem nasce.
Perguntei à mulher: porque estás de luto?
Ela abriu o regaço e vi como nas fotografias do holocausto
Exatamente como nas manhãs depois dos terremotos
Cadáveres e cadáveres de peixes e pássaros

13
Acordei com os olhos comidos como um corpo depois de sepultado
E gritei para fora do poço: existe alguém desse lado?
Eu estava no fundo, eu estava morto e vi
Que os peixes e os pássaros
Ressuscitavam.

Daniel Faria, Poesia, Quasi Edições

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Daniel Faria

Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio
Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio
Restauro-a
Dou-lhe um som para que ela fale por dentro
ilumino-a

Ela é um candeeiro sobre a minha mesa
Reunida numa forma comparada à lâmpada
A um zumbido calado momentaneamente em enxame

Ela não se come como as palavras inteiras
Mas devora-se a si mesma e restauro-a
A partir do vomito
Volto devagar a colocá-la na fome

Perco-a e recupero-a como o tempo da tristeza
Como um homem nadando para trás
E sou uma energia para ela

E ilumino-a

Explicação da ausência
Desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou
Não rodou mais para a festa não irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido
E o a vir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera é não acontecer – fosse abertura –
E a saudade é tudo ser igual.



















Daniel Augusto da Cunha Faria nasceu em Baltar, Paredes, a 10 de Abril de 1971. Frequentou o curso de Teologia na Universidade Católica Portuguesa – Porto, tendo defendido a tese de licenciatura em 1996. Licenciou-se em Estudos Portugueses na faculdade de Letras da Universidade do Porto.  Faleceu a 9 de Junho de 1999 quando estava prestes a concluir o noviciado no Mosteiro Beneditino de Singeverga.
Recebeu vários prêmios literários relativos a inéditos de poesia e conto. Algumas publicações: Oxálida (Porto, Associação dos Estudantes da Faculdade de Teologia do Porto, 1992), A Casa dos Ceifeiros (Porto, Associação dos Estudantes da Faculdade de Teologia do Porto, 1993), Explicação das árvores e de outros animais (Porto, Fundação Manuel Leão, Colecção Fogo das Figuras, 1, 1998), Homens que são como lugares mal situados (Porto, Fundação Manuel Leão, Colecção Fogo das Figuras, 2, 1998) e o póstumo Dos Líquidos (Porto, Fundação Manuel Leão, Colecção Fogo das Figuras, 3, 2000). Colaborou nas revistas Atrium, Humanística e Teologia, Via Spiritus e Limiar.

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...