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sábado, 1 de junho de 2024

Fernando Paixão

 

Os berros das ovelhas 

de tão articulados

quebram os motivos.

 

Um lençol de silêncio 

cobre a tudo 

e todos.

Passam os homens velhos 

(estranha caligrafia de rostos) 

mulheres vestidas igual cebolas.

 

...os meninos distraídos 

chacoalhamos os sons 

do pequeno império.

 

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Sobre o chão das ruas não circulam bicicletas 

nem o girar de rodas mecânicas ameaça 

a manhã oblíqua.

Os pressentimentos crescem rente aos ossos 

os medos ganham o correr dos muros 

junto aos amigos.

 

Eu imagino (por livre imaginar) 

que numa das casas próximas 

banhada em sol

mora um fabricante de bonecas.

 

Concebo o homem e suas criaturas

 a desfiarem intimidades 

no fim da tarde.

 

Bonecas tocadas em nudez de porcelana.


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  (In Poeira, editora 34, SP, 2001)

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Fernando Paixão

OUTUBRO DE 1999
“Se a tua morte não é notícia
nos diários de Espanha
devemos então concluir
que a presença de um poeta
corresponde tão-somente ao círculo
de uma língua local, intransferível?”

Talvez. Os jornais nascem todas as manhãs
a partir de um engano, bem sabemos.

Quando morre um poeta, verdadeiro,
leva consigo um repertório insuspeito
de dedos noturnos ainda em funcionamento.
Nessa hora os seus versos teclam
aéreo abandono
mesmo cerrados os livros.

Não foi diferente contigo.

Hoje, pelo dia inteiro, chegou às alamedas
e praças de Sevilha e Barcelona
(e mesmo nestas calles de Madri)
um vento seco e severino, João Cabral,
mensageiro da tua ausência.


VÉSPERA
Um resto de hora
varre os telhados
em despedida.

Como outros calendários
sucumbiram
em outros quartos de hotel.

Idêntica mentira: a noite
alonga o corpo da fera
no escuro das velhas ruas.

A viagem termina. O dia
fecha os olhos à própria água.
Devagar: sem protocolo.

[In Poeira, São Paulo: Ed. 34, 2001]



quinta-feira, 9 de abril de 2015

Fernando Paixão

A noite é uma fruta costumeira
que sai das mãos maternas.
Aos poucos aparece crescida
nos hábitos da casa.

Certa vez entrou pela janela.
A passos largos distendeu
em vermelho tinto
um sem-número de cavernas.

Mas terminou resignada
igual às outras:
pálpebra escura e grave
sobre as casas.

 x.x

Sentado junto ao fogão
cúmplice da lenha que arde
assisto ao pé do fogo
os brotos infindáveis.

Observo chamas saltadas.
Sorvo delas um líquido boreal
derramado para cima.
As brasas me contam histórias
que logo esqueço.

Envelopes em bolhas de silêncio.

x.x

A candeia acesa sobre a cômoda
surpreende a visão
como o berro dos cães
aos ouvidos.

Chamas e latidos para o alto
despertam
um conhecimento miúdo
e rápido.

Como é grande o mundo...

Inseguro
recolho a atenção
nos frisos do assoalho limpo.

[In Poeira, São Paulo: Ed. 34, 2001]

Fernando Paixão nasceu em 1955 na pequena aldeia portuguesa de Beselga, vindo a transferir-se no início de 1961 para o Brasil. Formou-se em jornalismo pela USP, iniciou e interrompeu o curso de filosofia, e defendeu tese na Unicamp com estudo sobre a poesia do poeta português Mário de Sá-Carneiro. Sua produção literária começou com o livro "Rosa dos tempos", de 1980, seguido de "O que é poesia", dentro da coleção Primeiros Passos, dois anos depois. O autor, no entanto, renega hoje estes dois primeiros livros, por considerá-los “adolescentes”, sem o apuro necessário. Em 1989, retornou com o lançamento de "Fogo dos rios" (Brasiliense), seguido de "25 azulejos "(Iluminuras, 1994). Publicou também "Poesia a gente inventa", voltado para as crianças (Ática, 1996).








Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...