E para quê
morrer nos bairros onde
o batom substitui o sangue nos dão por cinco reais algo que
dizem que é
um sucedâneo do mel?
(Mesmo que às vezes contenha pestanas afogadas
que você deve
separar cuidadosamente antes de usar.)
Um cigarrinho por tão poucos reais! Melhor oferta não há!
O buraco de que tanto precisávamos para nele meter
a nossa
enorme cabeça e
num intervalo de duas horas não ouvir nada além
do barulho
que ela
própria produz (uma espécie de rio de lodo).
O que estão esperando, o que estão esperando para
Desenterrar os pedaços de vidro colorido que a terra
engoliu as balas que ao passar pelo intestino se
transformarão em algo
desagradável ao tato, ao gosto, ao olfato,
ou os cachorros com que brincávamos na esquina
enquanto os carros ao passar nos sujavam de lama?
Tudo: as flechas, as férias, e tudo por tão pouco preço,
senhores, por tão pouco preço um arlequim dançará nas
suas pupilas, uma
serpente com muleta aninhará nelas,
um vento, talvez, reconheço que um pouco
cansado
e com vontade de ir para casa, tratará de limpar os cinzeiros,
e tudo por tão pouco preço, senhor,
por tão pouco preço.
Tradução de Carlito Azevedo
[Fonte: Bliss, revista de poesia, Rio de Janeiro: 7Letras
volume único p. 137]
