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sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Leonardo Almeida Filho

TUTANO

Para Antônio Damásio

Há coisas que pedem silêncio
o mesmo silêncio das pedras no fundo do rio
dos peixes nos igarapés, da aranha no paiol vazio
a mudez das rochas e dos musgos

Há coisas que devem permanecer caladas, intocadas
Entaladas na garganta como o choro que se engole
Dissimulado, amargo

Há coisas que pedem para serem engasgadas
para ficarem dentro da gente como tutano
pulsando por se mostrarem vivas
estigmas
não mais que isso.

Há segredos que devem morrer sagrados
ocultos, enterrados, como fossem fósseis
no sítio arqueológico da alma
sob olhares quase-mortos
e cheios de tristeza e desencanto
sem dor, lamento ou pranto.

Há coisas que exigem silêncio
mas é sobre essas coisas que o poeta berra
que os poemas uivam
que os versos gritam
para quem as quiser ouvir
e se ensurdecer.

(Inédito)


OUTROS JARDINS

Flores iguais, embora diferentes
de mesmo pólen, viris
sementes
híbridas espécies, múltiplas, ardentes
a rude maciez do amor
valente

Brotam nos jardins de toda casa
entre ervas que as julgam
repelentes
Algumas se ocultam, outras se mostram
no orgulho da botânica
iridescente

Ah, como anseio a jardinagem
da rara orquídea azul entre
os teus dentes
tocar-te o caule, o talo, o grão, a vagem
sentir na pele-pétala a seiva
quente.

(Inédito)



sábado, 31 de agosto de 2019

Leonardo Almeida Filho

COPACABANA

Ninguém há de viver seu sonho ou seu pesadelo
ninguém vai dormir por você
nem há se sonhar sua dor, viver seu desespero
ninguém vai gozar por você
Viver não tem drama.

Há solidão nos velhos que cruzam a rua 
quase a se arrastarem
Há solidão naquele silêncio profundo
que seus olhos trazem
A solidão: companheira fiel do seu jantar.
(Letra de um samba publicada numa antiga crônica nomeada "Tipos de Copacabana - As plantinhas tristes")

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Leonardo Almeida Filho

NESSAS MANHÃS DE VENTO

Saiba - disse-me o sem-voz - nem tudo é mansidão.
Quando olhares para a boca de um homem velho,
pensa quantos lábios deve ter tocado,
quantas línguas sugado,
quantos sabores provado.
Pensa nos dentes dessa boca de homem velho:
Quanto terá mastigado?
Que carnes, que frutos triturado?
Que mamilos e tetas mordiscado?

Quando fitares a boca de um homem velho,
pensa, jovem leitor, na senectude daquela língua
e nas ordens que terá decretado.
Quantas palavras mastigado? Quantos versos lambido?
Que nãos... a quantos ferido?
Que sins... a quantos acariciado?
Pensa nos verbos no imperativo,
nos substantivos gelados e lânguidos adjetivos,
nos silêncios engolidos e gritos vomitados.
Quando cravares teu olhar na boca de um homem velho,
flor murcha decadente, lábios enrugados
como pétalas costuradas em linho gris,
pensa nos sorrisos que brotaram em tempos viçosos,
[imprecisos,
em campos da alma fértil e fresca
banhados por raríssimos orvalhos
que o tempo fez questão de eliminar.
Pensa no hálito-brisa que então partia,
dobrando as flores da vida desejada,
anunciando a chuva definitiva
que levaria a alma-seiva para outras safras.

Quando olhares a boca de um homem velho
e dela ouvires “Filho, o que te aflige?"
Responde, com calma, que teu olhar investiga
o tempo, o tempo, o tempo, o tempo.
E se ela tornar a perguntar a ti,
na teimosia típica de um velho,
“Filho, o que te assusta?"
Olha firme para aquela boca, sem medo,
e não deixe que perceba
que nela vês os corpos dilacerados de teus irmãos
E os fiapos de carne presos naquelas presas.
Beija aquela boca, filho,
é a tua boca repousando no amanhã.

SOL E ESCURIDÃO

Para Ana C. e os suicidas de Copacabana 

Deve ser assim:
quando se salta do décimo segundo andar
não se enxerga o sol
o mundo é negro como o asfalto
que o acolhe num violento abraço
seu aconchego, seu remanso
a rigidez do meio-fio
a sujeira da calçada em obras
um dente ensaguentado na sarjeta

Um céu sem nuvens, azul, despido,
o sol brilhando nas peles oleosas de Copacabana
e Nossa Senhora recolhendo os pedaços
do suicida em sua avenida
Alguns velhos anseiam o sol
por um pouco mais de vida
Deve mesmo ser assim:
Quando se salta do décimo segundo andar
não há outro anseio
que não o brilho da escuridão.

CARTA DE INTENÇÃO

quandeu crescer
vou ser rimbaud-menino-mau
de cueca suja e cara iluminada
dentes sujos da carne do poema
Talvez escreva Cantos
prometo: pecarei na tua lápide
um pouco de Edgar, outro de Álvares
um tanto de Bandeira, outro de Andrades

quandeu morrer, que seja leve
o anjo que virá chamar meu nome
na lista em sua palma desenhada
e que eu, ainda lúcido, questione
a cor das asas e da hora-madrugada.

(In Babelical, Ed. Patuá, SP, 2018)

Foto by Gregory Colbert























Leonardo Almeida Filho é professor universitário, escritor, ensaísta e mestre em literatura brasileira pela Universidade de Brasília. Publicou sua tese, Graciliano Ramos e o mundo interior: o desvão imenso do espírito, pela Editora da UnB, em 2008, e também, O livro de Loraine (romance, 1998) e Logomaquia: um manefasto (híbrido, 2008). Possui contos e poesias nas coletâneas Antologia do Conto Brasiliense (2004), Todas as gerações (2007) e Prêmio SESC de contos Machado de Assis (2011); e Poemas para Brasília (2004). Em 2010, pela Editora Hinterlândia, publicou, com os professores Hermenegildo Bastos e Bel Brunacci, o livro Catálogo de benefícios: o significado de uma homenagem; e em 2014, pela editora E-galaxia, o volume de contos Nebulosa fauna & outras histórias perversas. Em 2018, lançou o volume de poesias Babelical, e em 2019 o romance Nessa boca que te beija, ambos pela Editora Patuá. Email: leo.almeidafilho@gmail.com

(Dados retirados do blog Ruído Manifesto)


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...