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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Margaret Atwood

TERRA REVOLTA
Terra revolta: algumas plantas logo brotam ali.
Os cardos me vêm à mente.
Depois que você os arranca,
eles se esgueiram de novo sob o chão
e metem seus focinhos carnudos e espinhentos
onde você pretendia ver lírios.

A orelha-de-lebre faz isso. A beldroega. A ervilhaca roxa.
Marginais, cavando fossos,
flagrantes com sementes, disseminando
seus buquês de indigentes.

Por que você os rejeita,
a eles e às suas emaranhadas harmonias
e madrigais vulgares?
Porque frustram a sua vontade.

Sinto o mesmo com relação a eles:
cavo e desenterro,
piso em suas vagens e em seus caules,
decepo-os e os esmago. Ainda assim,

imagine que eu consiga retornar —
que opere uma transmutação, digamos —
uma vez tendo sido calcada com a pá?
Alguma estranha vegetação ou emboscada?

Não busque na orla de plantas perenes:
procure por mim na terra revolta.

[In A Porta, trad. Adriana Lisboa,  Rio de Janeiro: Rocco, 2013, pp. 116]


By Anna Silivonchik




terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Margaret Atwood

DAGUERREÓTIPO EM IDADE ANTIGA
Sei das mudanças, sim
Sei que mudei

A quem pertence este rosto inexpressivo
Tristonho e largo, redondo
Suspenso no papel
como se avistado num telescópio

uma lua granulosa

Levanto-me da cadeira
Repudio a gravidade
Viro-me
e saio para o jardim

Revolvo os vegetais
A minha cabeça pesada
A reflectir o sol
Sombras nas cavadas ravinas
Abertas nas minhas faces, nas
Duas crateras dos meus olhos

Entre os caminhos
Traço a minha órbita
As macieiras brancas
Brancas estrelas
Revolteando em meu redor

A ser devorada
Pela luz.

Tradução: HelenaVasconcelos



terça-feira, 4 de junho de 2013

Margaret Atwood

CANÇÃO DO BARCO
Há empurrões e tumulto, 
coletes salva-vidas de menos: 
isso é óbvio;

então, por que não passar os últimos momentos 
praticando nossa modesta arte 
como sempre fizemos,

criando um lago de conforto possivelmente falso 
em meio à tragédia?
Há algo a ser dito em favor disso.

Imaginem-nos, então, na orquestra do navio.
Todos permanecemos em nossos lugares, tocando 
notas breves e dedilhando e marcando o tempo

com nossos instrumentos cotidianos 
enquanto os gritos e as botas correm pesados.
Alguns pularam; seus casacos de pele e seu desespero

puxam-nos para baixo. Mãos crispadas se projetam em meio
[ao gelo.
O que estamos tocando? E uma valsa?
Há comoção demais

para que os outros possam distinguir com clareza,
ou então estão longe demais —

um alegre foxtrote, um velho hino meloso?
O que quer que seja, somos nós com os violinos
enquanto as luzes se esvaem e o grande navio afunda
e a água se fecha sobre ele. 

In A Porta, trad. Adriana Lisboa,  Rio de Janeiro: Rocco, 2013, pp. 109-110



Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...