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segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Stefan Zweig

Lágrimas inundam os olhos de Händel, tão violento o fervor se agita dentro dele. Folhas ainda tinham que ser lidas, a terceira parte do oratório. No entanto, após esse “Aleluia, Aleluia”, ele não pôde ir mais adiante. Esse júbilo o preencheu harmonicamente, dilatou-se e expandiu- se, doendo-lhe como fogo líquido que queria correr, sair. Ó, como isso comprimia e oprimia, pois ele queria escapar dele, ascender e retornar ao céu. Célere, Händel tomou a pena e escreveu notas, que se iam formando uma após outra com mágica pressa. Ele não podia parar e, como um navio cujas velas são impelidas pela tempestade, continuou a ser levado. Ao seu redor a noite estava silenciosa, a úmida escuridão jazia calada sobre a grande cidade. Contudo dele jorrava a luz e inauditamente o gabinete retumbava com a música do universo.

[Excerto do ensaio A RESSURREIÇÃO DE GEORG FRIEDRICH HÄNDEL, in Momentos Decisivos da Humanidade, tradução Álvaro Alfredo Bragança Júnior e Ingeborg Hartl, São Paulo, Record, 1999, p. 91]


Fonte: Blog de Henrique Autran Dourado




domingo, 22 de junho de 2014

Stefan Zweig

O MUNDO QUE EU VI - Excerto
Pessoas dessa espécie, tão rara, foram de grande vantagem para um principiante; mas ainda me faltava receber o ensinamento decisivo, o ensinamento que deveria servir para a vida inteira e que me foi dado, como um presente, pelo acaso. Em casa de Verhaeren travamos discussões com um historiador da arte, que declarou haver terminado a época da grande plástica e da pintura. Protestei energicamente. Perguntei se ainda não existia Rodin, que como plástico não era menor do que os grandes do passado. Principiei a enumerar as suas obras e, como sempre quando alguém combate uma opinião, tornei-me quase colérico. Verhaeren sorria consigo mesmo. Por fim disse: « Quem gosta tanto de Rodin deveria conhecê-lo pessoalmente. Amanhã irei ao seu atelier. Se quiseres, poderás ir comigo ».

Está claro que eu haveria de querer. Não pude dormir de alegria. Mas em casa de Rodin fiquei sem poder falar. Nem pude dirigir-lhe a palavra e fiquei entre as estátuas corno uma delas. Parece que esse meu embaraço agradou a Rodin, pois à despedida o bom velho me perguntou se eu queria ver o seu verdadeiro atelier, em Meudon, e convidou-me mesmo para almoçar. Eu tivera o primeiro ensinamento, a saber, que os grandes homens são sempre os mais bondosos.

O segundo foi que eles quase sempre são em sua vida os mais simples. Em casa desse homem, cuja fama enchia o mundo, cujas obras estavam presentes, linha por linha, à nossa geração, a comida era tão simples como em casa dum camponês de condição média: uma carne substancial e boa, algumas azeitonas, frutas em abundância e, além disso, um saboroso vinho nacional. Isso deu-me mais ânimo, por fim eu já falava com desembaraço, como se esse velho e sua esposa fossem meus íntimos desde muitos anos.

Após a refeição fomos ao atelier. Era uma grande sala em que estavam as mais importantes de suas obras em gesso; entre elas viam-se também centenas de preciosos pequenos estudos — uma mão, um braço, uma crina de cavalo, uma orelha de mulher, a maior parte delas apenas em gesso; ainda hoje conservo perfeitamente a lembrança de alguns desses esboços feitos apenas para exercício, e poderia falar durante horas sobre a hora que passei naquele atelier. Por fim, o mestre me levou para junto dum pedestal sobre o qual estava a sua última obra, coberta com panos úmidos, uma estátua de mulher. Com suas mãos pesadas e enrugadas, de camponês, retirou os panos e recuou. Sem querer soltei um «admirável! » e imediatamente me envergonhei dessa banalidade. Mas com a serena objetividade, em que não poderia encontrar-se uma partícula de vaidade, contemplando sua obra, murmurou ele: « De fato ». Depois hesitou. « Apenas ali na espádua... um momento! » Sacou do casaco, vestiu a blusa branca, pegou uma espátula e com um movimento magistral alisou a pele macia da espádua daquela mulher, .que parecia estar viva e respirar. Novamente recuou. « E agora aqui », murmurou ele. Outra vez, com um diminuto pormenor, fora aumentado o efeito. Depois não falou mais. Avançou e recuou, olhou a estátua num espelho, murmurou e proferiu sons ininteligiveis, modificou, corrigiu. Seus olhos, que à mesa se mostravam afáveis e distraídos, nesse momento tremiam sob a influência de luzes estranhas, parecia que ele se tornara mais alto e mais moço. Trabalhou, trabalhou, trabalhou com toda a diligência e força de seu corpo vigoroso e pesado; toda vez que energicamente avançava ou recuava, o assoalho estalava. Mas ele não ouvia os estalos. Não notava que atrás dele estava, sem dizer palavra, um jovem embevecido, ditoso por poder ver um mestre daqueles em seu trabalho. Ele se esquecera inteiramente de mim. Para ele eu não estava ali. Para ele ali só estava a estátua, a obra e, por trás dela, invisivelmente, a visão da perfeição absoluta.

Passou-se um quarto de hora, meia hora; já não sei quanto tempo se passou. Os grandes momentos estão sempre fora do tempo. Rodin estava tão absorto, tão engolfado em seu trabalho que nem um trovão o teria distraído dele. Seus movimentos iam-se tornando cada vez mais violentos, quase coléricos; ele fora tomado de uma espécie de exaltação ou de ebriedade, trabalhava cada vez mais depressa. Depois as mãos se tornaram hesitantes. Pareciam haver reconhecido que nada mais lhes restava fazer. Ele recuou uma, duas, três vezes, sem modificar nada mais. Depois murmurou algumas palavras, colocou os panos em torno da estátua tão carinhosamente como alguém põe um chale sobre os ombros da mulher amada. Respirou profundamente e aliviado. Seu corpo pareceu tornar-se de novo mais pesado. O fogo extinguira-se. Deu-se então o que eu ignorava, deu-se o grande ensinamento. Rodin despiu a blusa, vestiu o casaco e já ia sair. Nessa hora de extrema concentração esquecera-se inteiramente de mim. Já não sabia que um jovem, que ele próprio levara ao atelier para lhe mostrar suas obras, estivera ali atrás dele, com a respiração opressa, imóvel como as estátuas.

Encaminhou-se para a porta; no momento em que ia fechá-la deu comigo e fitou-me quase zangado: quem era esse jovem desconhecido que havia entrado às escondidas no seu atelier? Mas imediatamente se lembrou de tudo e quase envergonhado se dirigiu para mim: « Desculpe-me », disse ele, mas eu não o deixei continuar a falar e peguei agradecido a sua mão e tive vontade de beijá-la. Eu acabara de ver revelado o eterno segredo de toda grande arte, verdadeiramente de toda produção de valor nesse mundo: concentração, reunião de todas as forças, de todos os sentidos, empolgamento do artista todo. Eu aprendera alguma coisa para o resto de minha vida.

[In O mundo que eu vi (minhas memórias), Tradução de Odilon Gallotti, Rio de Janeiro, Guanabara, 1944, pp. 138-140].

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Stefan Zweig

EXCERTO DE “O MUNDO QUE EU VI”

Stefan Zweig e Rilke em Paris

De todos esses poetas talvez nenhum haja vivido mais modesta, misteriosa e invisivelmente do que Rilke. Mas sua solidão não era voluntária, forçada ou artificialmente sacerdotal, não era como a de Stefan George na Alemanha; a tranquilidade, por assim dizer, surgia em torno dele, onde quer que ele se achasse. Porque ele fugia a todo ruído e mesmo à sua própria fama — essa “soma de todas as desinteligências que se reúnem em torno de um nome”, como certa vez disse ele de maneira tão elegante – a onda da curiosidade, que em vão se lançava contra ele, só molhava o seu nome, e nunca a sua  pessoa. Era difícil encontrar Rilke. Ele não tinha casa, endereço, onde pudesse ser procurado, não tinha lar, morada fixa, emprego. Estava sempre a viajar pelo mundo, e ninguém, nem mesmo ele próprio, sabia de antemão para onde iria dirigir-se. Para sua alma extremamente sensível toda resolução firme, todo plano e todo aviso já eram incômodos. Por isso só casualmente era possível encontrá-lo. Alguém se achava numa galeria italiana e percebia, sem saber ao certo de quem vinha, um leve e afável sorriso. Só então reconhecia os olhos azuis de Rilke, que quando olhavam para alguém, com sua luz interior lhe animavam os traços fisionômicos, que verdadeiramente nada tinham que chamasse a atenção. Mas precisamente esse não ter nada que chamasse a atenção era o íntimo segredo da sua personalidade. É possível que milhares de pessoas tenham passado por esse jovem de bigode louro e caído e de formas de rosto um pouco eslavas e que não eram dignas de nota por nenhum traço, sem suspeitarem ser ele um poeta e um dos maiores do nosso século. O que ele tinha de especial só se revelava no trato mais íntimo: a extraordinária reserva do seu temperamento. Rilke tinha uma maneira suave e indescritível de aproximar-se, de falar. Quando entrava numa sala onde estavam reunidas várias pessoas fazia-o de modo tão silencioso que quase ninguém notava a sua chegada. Ficava então sentado a escutar, sem querer erguia às vezes a fronte, logo que alguma coisa parecia interessá-lo, e quando falava, fazia-o sempre sem qualquer afetação e sem ênfase. Narrava com a naturalidade, singeleza e carinho com que uma mãe narra ao filho um conto; era admirável ouvi-lo e perceber como ele tornava claro e atraente mesmo o assunto menos interessante. Mas, logo que notava que num grande grupo de pessoas se tornava o objeto da atenção geral, recolhia-se ao seu silêncio e limitava-se a escutar. Todo movimento, todo gesto seu tinha essa suavidade; mesmo quando ria, fazia-o com um tom apenas perceptível. A suavidade era para ele uma necessidade, nada podia perturbá-lo tanto quanto o barulho e, no domínio do sentimento, qualquer veemência. “Essas pessoas que cospem os seus sentimentos como sangue, esgotam-me", disse-me ele certa vez, “por isso russos, já só os suporto como licores, em quantidades bem pequenas". Não menos do que serenidade no proceder eram para ele necessidades absolutamente físicas a ordem, o asseio e o sossego; andar num bonde muito cheio e estar sentado num local barulhento perturbavam-no por algumas horas. Não suportava tudo o que é vulgar e, embora vivesse com recursos parcos, seu vestuário mostrava sempre o máximo esmero, asseio e gosto. Seu vestuário era uma obra prima bem analisada e bem imaginada, de discrição, e apesar disso, acompanhada de uma nota insignificante,  inteiramente pessoal, um pequeno acessório no qual ele tinha um prazer secreto, por exemplo, uma delgada pulseira de prata. O seu senso estético para perfeição e simetria ia até as coisas mais íntimas, mais individuais. Vi-o uma vez em sua morada arrumar a mala para viajar. Com razão foi o meu auxílio recusado, por ser julgado incompetente. A sua arrumação parecia uma colocação de mosaicos, cada peça era posta, quase carinhosamente no espaço cuidadosamente reservado; senti que teria sido um crime perturbar com o meu auxílio essa arrumação tão perfeita. Esse seu senso estético instintivo acompanhava-o até o detalhe mais acessório; escrevia originais mui cuidadosamente no mais bonito papel, com sua bela letra arredondada, deixando entre as linhas distâncias iguais; mesmo para a carta menos importante usava papel seleto, e sua bela escrita regular, limpa arredondada chegava exatamente até a margem. Nunca Rilke deixava sair de suas mãos alguma coisa que não estivesse inteiramente perfeita.       ;
Essa suavidade e concentração que o caracterizavam, não deixavam de exercer influência sobre toda pessoa que dele se aproximasse. Imaginar Rilke impetuoso era tão impossível quanto existir uma pessoa que na presença dele, pela vibração que emanava de sua calma, não perdesse toda exaltação e arrogância, pois sua reserva atuava como uma força que continuava a influir misteriosamente, uma força moral e educadora. Após toda longa conversa com ele uma pessoa se tornava incapaz  por horas ou mesmo por dias, de qualquer vulgaridade. Sem dúvida, por outro lado, essa sua constante reserva, esse nunca querer dar-se inteiramente, punha logo uma barreira que impedia toda cordialidade; creio que só poucos indivíduos se podem gabar de terem sido «amigos» de Rilke. Nos seis volumes de suas cartas quase nunca se vê Rilke tratar alguém por amigo, e parece que ele, desde seus tempos escolares, não concedeu a ninguém o tu fraternal e íntimo. Sua extraordinária sensibilidade não suportava que alguém ou alguma coisa se aproximassem muito dele, e em especial tudo o que era acentuadamente masculino, provocava nele um mal-estar absolutamente físico. Com as mulheres conversava com mais facilidade. Gostava de escrever-lhes, escrevia-lhes muito e mostrava-se mais desembaraçado em sua presença. Talvez fosse a ausência do caráter gutural em suas vozes que lhe agradasse, pois as vozes desagradáveis o faziam sofrer. Vejo-o ainda diante de mim em conversa com um grande aristocrata; durante todo o tempo manteve-se curvado e nem sequer levantou uma só vez os olhos, para que eles não revelassem quanto o fazia sofrer esse falseto desagradável. Mas como era bom ver Rilke junto de uma pessoa de quem ele gostava! Então se sentia sua bondade íntima, embora fosse ela parca em palavras e sentia-se a sua bondade interior como uma irradiação aquecedora, benéfica, que penetrava até as profundezas da alma.
Apesar de tímido e retraído, Rilke em Paris, nesta cidade que expande o coração, procedia com muito mais franqueza, talvez porque ali a sua obra e o seu nome ainda não eram conhecidos e ele, como anônimo, sempre se sentia mais  desembaraçado, mais livre e mais feliz. Visitei-o ali em dois quartos de aluguel; ambos eram simples e não tinham ornatos e, apesar disso haviam adquirido imediatamente estilo e tranquilidade graças ao seu senso estético. Ele jamais poderia morar numa casa grande, com vizinhos barulhentos; preferia uma casa velha, mesmo que fosse menos confortável, mas em que pudesse sentir-se bem, e, onde quer que fosse residir, sabia preparar imediatamente o interior da sua morada mediante habilidade no arranjo dos objetos, de acordo com a sua índole. Havia sempre só muito poucos objetos em torno dele, mas sempre havia flores num vaso ou numa floreira, flores talvez oferecidas por mulheres ou talvez carinhosamente levadas por ele próprio para casa. Viam-se livros em estantes presas à parede, bem encadernados ou cuidadosamente encapados, pois gostava de livros como de animais.  Sobre a secretária as canetas e os lápis achavam-se enfileirados, as folhas de papel em branco bem arrumadas; um ícone russo, um crucifixo que o acompanhavam, creio, em todas suas viagens, davam ao seu gabinete de trabalho um caráter ligeiramente religioso, embora seu espírito não estivesse preso a nenhum determinado dogma. Sentia-se que todo pormenor fora escolhido com cuidado e era mantido com carinho.  Se alguém lhe emprestava um livro que ele não conhecia, ele o devolvia envolto num papel de seda, e o embrulho era feito com muito esmero e atado uma fita de cor, como se fosse um presente de festas.  Lembro-me ainda de ele ter levado ao meu quarto uma dádiva preciosa um manuscrito da “Canção do amor e da morte» e hoje ainda conservo a fita que o circundava. Mas o que havia de mais encantador era passear com Rilke em Paris, pois isso era ver com outros olhos a coisa mais insignificante; ele notava toda minúcia e gostava de pronunciar em voz alta  mesmo os nomes das tabuletas das firmas se eles pareciam soar ritmicamente; conhecer a cidade de Paris até seus últimos cantos e recantos era para ele uma paixão, quase a única que nele notei. Certa vez em que nos encontramos em casa de amigos comuns a ambos, narrei-lhe que na véspera por acaso fora até a velha "Barrière", onde, no cemitério de Picpus haviam sido sepultadas as últimas vítimas da guilhotina, entre elas André Chénier; descrevi-lhe esse pequeno comovente campo com suas sepulturas espalhadas, as quais o forasteiro raramente vê, e contei-lhe que, no regresso, em uma das ruas vira através dum portão um convento com uma espécie de  beguina que calmamente, sem falar, fazia girar, como  num sonho piedoso, o rosário. Foi uma das poucas vezes em que vi quase impaciente esse homem tão suave, tão moderado: ele disse que tinha de ver a sepultara de André Chenier e o convento e perguntou-me se eu queria levá-lo lá. Fomos logo no dia seguinte. Ele ficou numa espécie de imobilidade extática diante desse eremitério solitário e o qualificou de «o mais lírico de Paris». Mas na volta viu que o portão do convento estava fechado. Pude então verificar a sua paciência, que ele na vida não dominava menos da que em sua obra. «Esperemos pelo acaso», disse ele e com a cabeça levemente abaixada postou-se de modo a poder olhar através do portão se ele se abrisse. Esperamos talvez vinte minutos. Uma religiosa que então ia chegando ao convento,  tocou a campainha. «Agora», disse ele baixinho e nervoso. Mas a religiosa percebera que ele espreitava — eu já disse que nele tudo se sentia de longe pela atmosfera — aproximou-se e perguntou-lhe se estava à espera de alguém. Ele sorriu para ela com aquele seu sorriso terno, que imediatamente despertava confiança, e disse francamente que gostaria de ver o convento. A religiosa, sorrindo, disse que sentia muito, mas não podia deixá-lo entrar. Todavia o aconselhou a dirigir-se para a casinha do jardineiro, que ficava perto e de cujo andar superior teria através da janela uma boa vista. E assim conseguiu ele isso, como tantas outras coisas; várias vezes cruzaram-se os nossos caminhos, mas sempre que penso em Rilke vejo-o em Paris, cuja hora mais triste ele não teve o desgosto de presenciar.

[In O Mundo que eu vi, trad de Odilon Gallotti, Rio de Janeiro, Ed. Guanabara, 1942, pp. 160-166].





Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...