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quinta-feira, 7 de maio de 2015

Marguerite Duras

7

Há um ano, eu lhe enviara as cartas de Aurélia Steiner. Escrevi daqui de Melbourne, de Vancouver, de Paris. Daqui, sobre o mar, deste quarto que agora se parece com você. Esta noite, revejo-o, você que eu não conhecia, sem dúvida em virtude das notícias da Polônia e da fome que me deixam, sim, você percebe, que me deixam entregue a mim mesma. Este quarto poderia ter sido o lugar onde nos tivéssemos amado, ele é então esse lugar, do nosso amor. Eu me sentia obrigada a lhe dizer isso algum dia, a seu e a meu respeito não posso me enganar. Eu lhe enviei as cartas de Aurélia Steiner, de parte dela, escritas por mim, e você me telefonou para dizer do amor que tinha por ela, Aurélia. Depois, escrevi outras cartas para ouvi-lo falar dela, de mim que a abrigo e a entrego a você como teria feito comigo mesma na loucura homicida que nos teria unido. Dei-lhe Aurélia. Dirigi- me a você naqueles momentos para que recebesse a carga de Aurélia nascente, você, para que estivesse ali entre ela e mim naquele momento, isso com a finalidade de ser quase a própria causa, percebe, como, do mesmo modo, você teria podido ser a própria causa de eu não escrever nada disso se, por exemplo, nos tivéssemos amado e tanto que essas palavras de Aurélia não tivessem vindo à luz, mas ainda somente as nossas, as de nossos nomes. Você é então a um só tempo a causa da existência e da não-existência de Aurélia Steiner em mim. Dou-lhe mais esta noite, sem nome, sem forma. Como também lhe dou Gdansk. Como também lhe dei os continentes judeus, Aurélia, da mesma maneira, como também lhe teria dado meu próprio corpo, eu lhe dou Gdansk. Como Aurélia, não posso guardar Gdansk só para mim, como escrevo Aurélia escrevo as palavras de Gdansk, e como Aurélia tenho que lhe enviar Gdansk acabada de sair de mim. Ei-la entre nós, contida entre nossos corpos. Olhe-a. Ela é iluminante como o desejo, sai da densidade das trevas, é nossa. Olhe esse despedaçamento do espírito diante da morte generalizada do proletariado, de seu assassinato, como ela está perto de nós, como sempre esteve perto de nós, tanto como a própria vida. Todos estão tristes por causa de Gdansk, salvo nós. A dor que foi nossa, ei-la então aqui, enfoque totalmente novo da conjuntura política. Ela é como um farol que iluminaria o grande monstro nauseabundo do socialismo europeu. Que os outros se calem. Gdansk somos nós. E é o real. E essa fé em Deus se confunde com esse real, essa prática proibida de Deus é justamente esse real, sendo o irreal a teoria deles proibindo essa suposta irrealidade de Deus. A tristeza dos estados- maiores é inevitável. Pois, veja bem, só se pode conhecer a felicidade de Gdansk num lugar, aquele que não está contaminado pelo poder. É impossível conhecer essa felicidade se se tem a menor parcela que seja do poder a gerenciar, a salvar. Gdansk, fomos nós que eles quiseram matar, é o bem de todos e ao mesmo tempo, ao mais alto grau, o de cada um. Eu o vejo, nós rimos. Hoje, o vento chegou com o entardecer, sem rajadas, sabe, regular, frio. Enxotou as pessoas, os pássaros, a cor. Eram seis horas da tarde. A luz já caía, o mar estava cinzento sob o céu desbotado e vazio, o mar estava como que trabalhando, já estranho, sim, já atarefado, fazendo vento, frio. O eixo de Antifer límpido, o horizonte impecável. E de repente esse vento que tudo tomava, e esse frio. Então as pessoas disseram, os primeiros a ousar: já é o fim do verão. As janelas do hotel se fecharam ao mar, e muito cedo se apagaram. O melhor, nesse caso, é dormir, sendo esse caso o da dificuldade de imaginar e o da aversão a saber. Não havia ninguém no caminho de tábuas além desse vento, ninguém na praia também. Durante as noites quentes, aqui houve muitas nesse mês de agosto, havia sempre gente passeando no caminho de tábuas, e na praia casais, eles iam se perder no espaço assustador do território do mar. Esta noite, não. Assim, ninguém escrevia no hotel, ninguém na cidade, em lugar nenhum , além de mim. As duas máquinas de escrever, sempre as mesmas, durante o verão, não se escutava seu ruído vindo do hotel. E o vento parou por volta das duas horas da manhã. Passagens, sempre, como urgências de tempo, e depois desaparecimentos totais, desmaios. Na varanda eu vi, o ar se tinha tornado imóvel e o mar outra vez adormecera. Pensei que eles jamais se apossariam de Gdansk, jamais, aconteça o que acontecer mais tarde. Jamais. Que éramos nós que a possuíamos. E apenas nós. Que eles estavam excluídos. E que sua tristeza também era feita da suposição de nossa felicidade. A noite era sonora e esquadrinhada pela ausência de olhares sobre seu esplendor obscuro. Escutavam-se como que sua textura, suas passadas. Eu estava ali para isso, para ver o que os outros ignorariam sempre, esta noite entre as noites, esta como outra qualquer, morna como a eternidade, a única inexistível do mundo. Pensei na concomitância do menino e do mar, na sua diferente parecença, arrebatadora. Disse-me que se escreve sempre sobre o corpo morto do mundo e, da mesma maneira, sobre o corpo morto do amor. Que era nos estados de ausência que a escrita se abismava para não substituir nada do que havia sido vivido ou supostamente vivido, mas para registrar o deserto por ele deixado. A calma da noite se seguia ao vento, mas essa calma não havia sido criada pelo vento ao se retirar, era outra coisa, era também a manhã que se aproximava. As portas da casa de Aurélia Steiner estão abertas a todos, aos furacões, a todos os marinheiros dos portos e no entanto nada acontece nesse lugar da casa de Aurélia além desse deserto da escrita, do registro incessante desse fato, esse deserto. Falo da totalidade do luto dos judeus carregada por ela como seu próprio nome. Essas pessoas que falavam de Montaigne pela televisão, vocês ouviram? Eles diziam que Montaigne havia deixado prematuramente o parlamento de Bordeaux, seus amigos, sua mulher, seus filhos, para escrever. Ele queria refletir, diziam eles, e escrever sobre a moral e a religião. Não vejo nenhuma decisão desse tipo na reclusão de Montaigne, ao invés de vê-la como racional vejo nela loucura e paixão. Foi para continuar a viver depois da morte de La Boétie que Montaigne começou a escrever. Não são coisas da moral. E se, como dizia Michel Beaujour, o único a ter ousado, Essais não é completamente legível e ninguém nunca o leu por inteiro, como a Bíblia, talvez menos ainda, é porque ele nunca se evade da singularidade de uma relação particular, eternizada aqui pela morte, lá pela fé. Se Montaigne tivesse escrito sobre sua dor, esta teria arrastado toda a escrita do mundo. Ora ele só escreveu como para não escrever, não trair, justamente escrevendo. De tal forma nos deixa sem ele, maravilhados, plenos, nas nunca entregues com ele à sua liberdade. Sabem, esta manhã, o tempo estava de novo esplêndido, as praias cobertas de pipas, de crianças, de famílias extenuadas pela vida, sempre tristes, percebem?, sempre. As colônias de férias atravessaram isso tudo, cantavam esta manhã, sempre essa indecifrável canção. E como sempre houve outras crianças que os seguiram, porque nada, à primeira vista, os distingue dos órfãos e porque os órfãos, como as crianças perdidas, exercem sobre as crianças que têm família e amor a atração incomparável do abandono. Sim, havia um menino com os olhos cinzentos. Perto dele, a jovem. De vez em quando ele catava coisas na praia e ela esperava. E outras monitoras reuniram todas as crianças, sempre antes daqueles dois, e ela lhes disse: vamos cantar. O menino dos olhos cinzentos sentou-se perto da jovem. E todo mundo cantou, salvo o menino e a jovem. As monitoras pediram ao menino que cantasse com os outros e ele não respondeu. Então a jovem disse que era porque ele não podia cantar com os outros. Não se entendia o que a jovem estava dizendo. E se queria que fosse o menino que respondesse. Por que você não quer cantar? Então o menino olhou para aquelas pessoas que lhe faziam perguntas, depois para as outras crianças, como se despertasse de repente, não estava tímido, e sim com um sentimento de surpresa um pouco assustada e sempre essa ligeira crispação do rosto, a emissão das palavras rompeu a imobilidade dos traços, e ele disse: eu não quero cantar. Hesitou- se, foi dito à jovem que ela protegia demais esse menino. Ela respondeu que não o protegia. Foi- lhe dito que a singularidade de uma criança nunca devia ser encorajada e sim, ao contrário, ser submetida à regra geral, que ela devia saber disso. A jovem respondeu que ela não compreendia o que lhe era dito. Foi-lhe dito que fosse embora com o menino, já que este se distinguia a tal ponto de seus colegas. Então eles foram embora, sabem, para o outro lado do molhe, em direção às colinas de argila e dos rochedos negros. E ali, ela cantou para o menino que na clara fonte ela foi passear e que ela nunca o esqueceria, e o menino escutava a letra. A maré estava baixando e naquele lugar entre as colinas e o mar há um terreno plano, uma larga faixa que conserva a água e que fica todos os dias durante muito tempo como um espelho brilhando. E a jovem falou ao menino, enquanto eles caminhavam sobre o espelho, sobre uma leitura recente, ainda ardente, da qual não se podia desligar. Que se tratava, dizia ela, de um amor que esperava a morte sem provocá-la, infinitamente mais violento que se realizado pelo desejo.

(In O Verão de 80, tradução de Sieni Maria Campos, Rio de Janeiro: Record, s/d, pp. 61-68)


quarta-feira, 3 de abril de 2013

Marguerite Duras

EXCERTO DE "CADERNOS DA GUERRA E OUTROS TEXTOS"

Disseram-me: “O seu filho morreu.” Foi uma hora depois do parto, eu tinha visto a criança. No dia seguinte, perguntei: “Como era ele?” Disseram-me: “É loiro, meio ruivo, tem sobrancelhas como as suas, é parecido com você.” “Ele ainda está lá?” “Está, vai ficar lá até amanhã.” “Ele está frio?” R. respondeu: “Não toquei nele, mas deve estar, está muito pálido.” Depois ele hesitou: “Ele é bonito, é também por causa da morte.” Pedi para vê-lo. R. me disse que não. Pedi à Superiora. Ela me disse: “Não vale a pena.” Não insisti. Explicaram-me onde ele estava, num cômodo pequeno ao lado da sala de trabalho, indo para lá à esquerda. Eu estava sozinha com R. no dia seguinte. Fazia muito calor. Eu estava deitada de costas, estava com o coração cansado, não devia me mexer. Não me mexia. “Como é a boca dele?” “Ele tem a sua boca”, dizia R. E todas as horas: “Ele ainda está lá?” “Não sei.” Eu não podia ler. Olhava a janela aberta, a folhagem das acácias que cresciam nos aterros da estrada de ferro periférica.

À noite, a irmã Marguerite veio ver-me. “É um anjo, você deveria estar contente.” “O que vão fazer?” “Não sei”, dizia a irmã Marguerite. “Eu quero saber.” “Quando são tão pequenos eles os cremam.” “Ele ainda está lá?” “Está lá ainda.” “Então os cremam?” “Sim.” “E rápido?” “Não sei.” “Eu não queria que o cremassem.” “Não se pode fazer nada.” No dia seguinte, a Superiora veio: “Você quer dar suas flores para Nossa Senhora?” Eu disse: “Não.” A irmã olhou para mim: ela tinha setenta anos, estava ressecada pelo exercício cotidiano de organizadora da clínica, ela era terrível, tinha um ventre que eu imaginava preto e seco, cheio de raízes secas. Voltou no dia seguinte. “Você quer comungar?” Eu disse: “Não.” Então ela olhou para mim. Seu rosto estava horrível, era o rosto da maldade, do diabo: “Essa aí não quer comungar e se queixa porque o filho morreu.” Ela saiu batendo a porta. Chamavam-na de “minha mãe” (É um dos três ou qua­tro seres que encontrei que teria gostado de estripar. Estripar. A palavra é vertiginosa. Estripar. A palavra foi feita para ela, para a sua barriga cheia de tinta negra.)

Estava fazendo muito calor. Era entre os dias 15 e 31 de maio. Verão. Eu disse a R.: “Não quero mais visitas. Nada além de você.” Deitada sempre voltada para as acácias. A pele de minha barriga se colava às costas de tão vazia que eu estava. A criança tinha saído. Não estávamos mais juntas. Ela tinha morrido de uma morte separada. Havia uma hora, um dia, oito dias, morta à parte, morta para uma vida que tínhamos vivido nove meses juntos e ela acabava de morrer separadamente. Meu ventre havia caído pesa­damente, floc, sobre si mesmo, como um trapo usado, um farrapo, um lençol mortuário, uma laje, uma porta, um nada que era esse ventre. Ele tinha portado gloriosamente, num arredondamento adorável, aquela semente próspera, aquele fruto (uma criança é um fruto verde que nos faz subir a saliva à boca como um fruto verde) submarino que só tinha vivido no calor viscoso, aveludado e escuro de minha carne e que a claridade matou, que foi mortal­mente atingido por sua solidão no espaço. Tão pequeno e já tanto desde que morreu à parte. “Onde está ele?”, dizia eu a R. “Está sendo cremado?” “Não sei.” As pessoas diziam: “Não é tão terrível no nascimento. É melhor isso do que perdê-lo aos seis meses.” Eu não respondia às pessoas. Era terrível? Acredito que era. Precisamente essa coincidência entre a sua "vinda ao mundo" e a sua morte. Nada. Não me restava nada. Esse vazio era terrível. Eu não tinha tido filho, mesmo durante uma hora, obrigada a imaginar tudo. Imóvel, eu imaginava.  

Este, que está ali agora e dorme, este riu há pouco, riu para uma girafa que lhe acabavam de dar. Ele riu e isso fez barulho. Ventava e uma parte do barulho daquele risinho chegou até mim. Então eu levantei um pouco a capota de seu carrinho, dei-lhe de novo a girafa para que ele risse outra vez. Ele riu outra vez e eu enfiei a cabeça na capota do carrinho para captar todo o barulho do riso. Do riso do meu filho. Coloquei o ouvido naquela con­cha para ouvir o barulho do mar. A ideia de que aquele riso ia-se embora com o vento era insuportável. Eu o peguei. Fui eu que o tive. Às vezes, quando ele boceja, eu respiro a sua boca, o hálito de seu bocejo. Não sou uma mãe biruta. Não vivo só desse riso, desse hálito. Preciso de muitas outras coisas, da solidão, de um homem. Não. Sei o preço de uma criança. “Se ele morrer”, pensei, “terei tido esse riso.” Foi porque perdi um, é porque sei que pode morrer que sou assim. Meço todo o horror da possibilidade de tal amor. A maternidade nos torna boas, diz-se. Bobagem. Desde que o tenho tornei-me má. Enfim, tenho certeza desse horror, enfim eu o tenho, enfim os que acreditam se tornaram para mim absolutamente estranhos.

[DURAS, M. Cadernos da guerra e outros textos, São Paulo: Estação Liberdade, 2006, pp. 221-223].

Steve gribben

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Marguerite Duras

EXCERTO DE "YANN ANDRÉA STEINER"
Você entende, como resistir a uma coisa dessas, alguém tão pleno de infância que quer tudo junto, ao mesmo tempo. Rasgar os livros, queimá-los. E sentir medo pelo seu desaparecimento. Você sabia que o livro já existia. Você me dizia: o que a senhora pensa fazer? O que tudo isso quer dizer? Estar escrevendo o tempo todo, o dia todo? A senhora vai ser abandonada por todos, porque é louca, insuportável. Uma babaca... Nem vê que está bagunçando as mesas com tantos rascunhos, por toda a parte pilhas e pilhas...

Acontece de a gente rir junto dos seus acessos de raiva. De repente. Às vezes acontece você ficar com medo de que eu jogue o livro no mar ou o queime. Às vezes você volta às cinco da manhã das suas perambulações, das suas seções de contemplação daqueles inefáveis barmen dos grandes hotéis da colina, considerados os mais luxuosos do mundo. Feliz de voltar desses lugares maravilhosos. Muitas vezes estou dormindo quando você volta. Ouço você se dirigir à sala para verificar se o manuscrito está ali, em cima da mesa. E depois à cozinha, para ver se sobrou café no pacote, pão e manteiga e café!

Comecei a não falar mais com você. A somente lhe dar bom dia no meio da felicidade. A deixá-lo sozinho. A comprar-lhe bifes. A vê-lo apenas de manhã, saindo desgrenhado do seu quarto à procura de um café forte, e a rir até as lágrimas do seu ar de administrador, da sua fiscalização.

Você assustava, muitas vezes eu tinha medo de você. E em volta de nós se tinha medo por mim. Eu achava que a cada dia você era mais sincero, mas que era tarde demais para mim, que eu não podia mais conter você. Como nunca consegui conter o medo de você. Você não sabe me poupar do medo de ser morta por você. Todas as minhas amigas e conhecidas estão encantadas com a sua doçura. Você é meu melhor cartão de visitas. Para mim, sua doçura me leva de volta à morte, a qual você certamente sonha em me dar, sem saber. A cada noite.

Às vezes, sinto medo desde que você acorda. A cada dia, nem que seja somente durante alguns segundos, você se torna, como todos os homens, um assassino de mulheres. Isso pode ocorrer todos os dias. Às vezes, você dá medo como um caçador sem rumo, um criminoso em fuga. E disto, em volta de mim, acontecia que temessem por mim. Mas eu conservei isso, tenho medo de você. A cada dia, em momentos muito breves que lhe escapam, tenho medo do seu olhar sobre mim.

Às vezes, basta o seu olhar para eu ter medo. Às vezes, nunca te vi antes. Não sei mais o que vieste buscar nessa estação balneária tão frequentada  nessa temporada mortal, lotada, onde estás ainda mais só do que na tua cidade de província.

A fim, talvez, de conseguir matá-lo, expulsá-lo, não sei, acontece-me de nunca ter te visto antes. De te ignorar até o pânico. De não mais saber de modo algum por que estás aqui, o que vieste procurar aqui e também o que vais fazer de ti mesmo. O dia de amanhã é o único assunto que jamais abordamos.

Tu também não deves mais saber o que estás fazendo aqui, na casa desta mulher já idosa, louca de escrever.

Pode ser que seja como de costume, que seja sempre assim, que não seja nada, que tenhas simplesmente vindo porque estavas desesperado, como em cada dia da tua vida estás, e também durante alguns verões e a certas horas dos dias e das noites quando o sol deixa o céu, por exemplo, e penetra no mar a cada noite para sempre, tu não podes te impedir de querer morrer. Sei disso.

Nos vejo perdidos os dois na mesma espécie de natureza. Me acontece de ser invadida de ternura pela espécie de gente que somos. Instáveis, dizem as pessoas, loucos, um pouco. “Gente que não vai mais ao cinema, nem ao teatro, nem às recepções.” Gente de esquerda, está se vendo, é assim mesmo, não sabe mais viver, Cannes os aborrece e também os grandes hotéis marroquinos. O cinema, o teatro, tudo igual.


[In Yann Andréa Steiner, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1993, pp. 61-64].




sábado, 18 de agosto de 2012

Marguerite Duras

 EXCERTO DE "ESCREVER"
 A solidão também quer dizer isso: ou a morte, ou o livro. Mas antes de tudo quer dizer álcool. Quer dizer uísque. Até agora, nunca fui capaz, nunca mesmo, realmente nunca, ou talvez fosse preciso procurar bem longe... nunca fui capaz de começar um livro sem terminar. Nunca fiz um livro que não fosse minha razão de ser na hora em que está sendo escrito, e isso vale para qualquer livro. E em toda parte. Em todas as estações do ano. Essa paixão, eu a descobri aqui em Yvelines, nesta casa. Eu tinha afinal uma casa onde me esconder para escrever livros. Queria viver nessa casa. Para quê? Começou desse jeito, como uma brincadeira. Talvez escrever, disse a mim mesmo, quem sabe eu sou capaz? Já havia começado livros que deixara de lado. Esquecera até os títulos. Le Vice-consul, não. Eu não o abandonei, penso nele muitas vezes. Em Lol V. Stein não penso mais. Ninguém pode conhecê-la, L. V. S., nem vocês nem eu. E mesmo aquilo que Lacan disse a respeito do livro, eu nunca cheguei a entender direito. Lacan me deixava atordoada. E aquela sua frase: “Ela não deve saber que escreve, nem aquilo que escreve. Porque ela se perderia. E isso seria uma catástrofe.” Esta frase tornou-se, para mim, uma espécie de identidade de princípio, um “direito de dizer” totalmente ignorado pelas mulheres.

Achar-se em um buraco, no fundo de um buraco, numa solidão quase total, e descobrir que só a escrita pode nos salvar. Achar-se sem assunto para o livro, sem a menor ideia do livro significa achar-se, descobrir-se, diante de um livro. Uma imensidão vazia. Um livro eventual. Diante de nada. Diante de algo semelhante a uma escrita viva e nua, algo terrível, terrível de ser subjugado. Acho que a pessoa que escreve não tem a ideia de um livro, tem as mãos vazias, a mente vazia, e dessa aventura do livro ela conhece apenas a escrita seca e nua, sem futuro, sem eco, distante, com suas regras de ouro, elementares: a ortografia, o sentido.

Le Vice-consul é um livro que gritou, sem voz, por todo lado. Não gosto desta expressão, mas quando releio o livro eu a reencontro, qualquer coisa desse tipo. É verdade, o vice-cônsul berrava todo dia... mas de um lugar secreto para mim. Como se reza todo dia, ele todo dia berrava. Isto é verdade, gritava com força e pelas noites de Lahore ele disparava nos jardins de Shalimar para matar. Não importava quem fosse, mas matar. Ele matava por matar. A partir do momento em que não importava quem fosse, a índia inteira podia se achar em estado de decomposição. Ele berrava em casa, na Residência Oficial, e quando estava sozinho na noite negra de uma Calcutá deserta. Ele está louco, louco de inteligência, o vice-cônsul. Ele mata Lahore todas as noites.

Nunca o encontrei em outro lugar, não o encontrei senão dentro do ator que o representava, meu amigo, o genial Michael Lonsdale — mesmo em seus outros papéis, para mim, ele ainda é o vice-cônsul da França em Lahore. É meu amigo, meu irmão.

É no vice-cônsul que eu acredito. O grito do vice-cônsul, “a única política”, ele também registrou-se aqui, em Neauphle-le-Château. Foi aqui que ele a chamou, a ela, sim, aqui. Ela, A. M. S. Anna-Maria Guardi. Foi ela, Delphine Seyrig. E todas as pessoas do filme choravam. Eram lágrimas livres, sem noção do sentido que possuíam, inevitáveis, as lágrimas verdadeiras, as lágrimas da gente da miséria.

Chega um momento na vida, e acho que isso é fatal, do qual não se pode escapar, no qual tudo é posto em dúvida: o casamento, os amigos, sobretudo os amigos do casal. Não as crianças. As crianças jamais são colocadas em questão. E essa dúvida cresce a nossa volta. Essa dúvida existe sozinha, é a dúvida da solidão. Nasce daí, da solidão. Já se pode nomear a palavra. Acho que muita gente não é capaz de suportar isso que estou dizendo, fugiriam. Talvez este seja o motivo por que todos os homens não são escritores. Sim. Esta é a diferença. Esta é a verdade. Nada além disso. A dúvida é escrever. Portanto, é também o escritor. E com o escritor o mundo inteiro escreve. Sempre se soube isso.

Também acho que sem esta dúvida primordial sobre o gesto da escrita não existe solidão. Ninguém jamais escreveu a duas vozes. Foi possível cantar a duas vozes, e também tocar música, e jogar tênis, mas escrever não. Jamais. De saída, fiz livros chamados de políticos. O primeiro foi Abahn, Sabana, David, um dos que me são mais caros. Creio que isso é um detalhe, o fato de um livro ser mais ou menos difícil de guiar do que é a vida comum. A dificuldade é uma coisa que simplesmente existe. Um livro é difícil de guiar, na direção do leitor, na direção da sua leitura. Se eu não tivesse escrito, teria me tornado uma alcoólatra incurável. Trata-se de um estado prático, achar-se perdido sem poder mais escrever... É aí que se bebe. A partir do momento em que se está perdido e que não se tem mais o que escrever, mais o que perder, aí é que se escreve. Ao passo que o livro está ali, e grita, exige ser terminado, exige que se escreva. A pessoa se vê obrigada a se colocar a seu serviço.

É impossível escapar de um livro, antes que ele esteja afinal escrito — ou seja: sozinho e livre de você que o escreveu. É tão insuportável quanto um crime. Não acredito nas pessoas que dizem: “Rasguei meu manuscrito, joguei tudo fora.” Não acredito nisso. Ou o que estava escrito não existia para os outros, ou não era um livro. E sempre se sabe quando não é um livro. Se chegará um dia a ser um livro, não, isso nunca se sabe. Nunca.

Quando ia me deitar, cobria o rosto. Eu tinha pouco de mim mesma. Não sei como não sei por quê. E por isso bebia álcool antes de dormir. Para me esquecer de mim. Isso passa num instante pelo sangue, e depois vem o sono. A solidão alcoólica é angustiante. O coração, sim, é isso. De repente ele começa a bater ligeiro demais.

Tudo escrevia quando eu escrevia na casa. A escrita estava por todo lado. E quando via os amigos, às vezes mal os reconhecia. Houve muitos anos assim, difíceis, para mim, dez anos talvez, foi quanto durou. E quando os amigos, mesmo os mais queridos, vinham me ver, também era terrível. Não sabiam nada de mim: me queriam bem e vinham por gentileza, acreditando que me faziam bem. E o mais estranho era que eu não pensava em nada disso.

Isso torna a escrita selvagem. Vai-se ao encontro de uma selvageria anterior à vida. E sempre a reconhecemos, é aquela das florestas, tão antiga quanto o tempo. O medo de tudo, algo distinto e ao mesmo tempo inseparável da própria vida. Encarniçado. Não se pode escrever sem a força do corpo. É preciso ser mais forte do que si mesmo para abordar a escrita. É uma coisa gozada, sim. Não é apenas a escrita, o escrito, é o grito das feras noturnas, de todos, de você e eu, os gritos dos cães. É a vulgaridade maciça, desesperadora, da sociedade. A dor, é também Cristo e Moisés e os faraós e todos os judeus e todas as crianças judias, e é também a bondade mais violenta. Sempre, acredito nisso.

Esta casa em Neauphle-le-Château, comprei-a com os direitos da adaptação do meu livro Un Barrage contre le Pacifique para o cinema. Ela me pertencia, ela estava em meu nome. Essa compra precedeu a loucura da escrita. Uma espécie de vulcão. Acho que esta casa é assim para muitos. Ela me consola de todas as dores da infância. Quando a comprei, soube logo que tinha feito alguma coisa importante, para mim, e definitiva. Alguma coisa só para mim e para meu filho, pela primeira vez na vida. E me dediquei à casa. Limpei-a. Fiquei bastante “ocupada” com ela. Depois, quando embarquei nos meus livros, me ocupei menos.

A escrita vai muito longe... Até se acabar. Às vezes é algo insustentável. De súbito, tudo adquire um sentido em relação à escrita, é de deixar a gente doida. As pessoas que conhecemos não as conhecemos mais, e aquelas que não conhecemos, achamos tê-las visto antes. Não há dúvida de que eu estava já simplesmente, e um pouco mais que os outros, cansada de viver. Era um estado de dor sem sofrimento. Não tentava me proteger dos outros, sobretudo das pessoas que me conheciam. Não era triste. Era desesperado. Eu tinha embarcado no trabalho mais difícil da minha vida: meu amante de Lahore, escrever sua vida. Escrever Le Vice-consul. Precisei dedicar três anos a este livro. Não podia falar do assunto porque a menor intrusão no livro, a menor informação “objetiva” teria apagado tudo do livro. Uma outra escrita, corrigida, teria destruído a escrita do livro e o que eu sabia de mim em relação ao livro. Essa ilusão que se tem — e que é justa — de ser o único que escreveu o que está escrito, seja uma nulidade ou uma maravilha. E quando lia os críticos, a maior parte do tempo eu me achava sensível ao fato de que se dizia que aquilo não se parecia com nada. Quer dizer que aquilo vinha ao encontro da solidão inicial do autor.

[In Escrever.  Trad. Rubens Figueiredo, Rio de Janeiro,  Ed. Rocco,  1999, pp. 18-24]


terça-feira, 31 de julho de 2012

Marguerite Duras

Excerto de "Yann Andréa Steiner"
Quando você começou a falar de livros, captei, por trás do olhar atento, do raciocínio lúcido, perfeito, uma espécie de urgência que você não conseguia moderar, como se precisasse agir depressa para chegar a dizer tudo o que decidira dizer e também tudo o que decidira não dizer. Tudo o que você queria dizer antes que subitamente «parecesse a evidência, a coisa, terrível, iluminadora, essa decisão que você tinha tomado: conhecer-me antes de se matar.
Naquele momento eu não soube de você mais do que isso.
Muito mais tarde, você falou. Disse que sem dúvida era verdade, sim, mesmo ficando obscuro, acrescentou: Como para você, de um outro modo. Você não pronunciou a palavra, mais tarde compreendi que mesmo por dentro você devia silenciar sobre ela, a palavra, essa palavra dita em seu sorriso: escrever.

E depois caiu a noite. Eu lhe disse: Você pode ficar aqui, pode dormir no quarto do meu filho, que dava para o mar, a cama estava feita.
Que se quisesse tomar um banho, também podia.
E da mesma forma, se preferisse sair.
E também, por exemplo, podia comprar um frango frio, uma lata de creme de castanhas, creme de leite para acompanhar, frutas e queijo e pão. Que era isso que eu comia todos os dias, para simplificar minha vida. Disse-lhe também que podia comprar uma garrafa de vinho para você.
Que eu bebia menos em certos dias. E nós dois rimos.

Logo depois de sair, você voltou. O dinheiro, disse, gastei com o ônibus, não tenho mais nada, tinha esquecido.

Você devorou tudo com apetite de criança, que então eu não sabia lhe ser habitual.
Muito depois você me disse que ainda tinha fome ao sair da mesa. Mesmo depois do creme de castanhas, que você comeu todo, com o creme de leite, sem reparar.

Foi talvez naquela noite, com você, que recomecei a beber. Bebemos as duas meias-garrafas de Côtes du Rhône que você comprara na Rue des Bains. Era falsificado, intragável. Bebemos as duas meias-garrafas desse vinho da Rue des Bains.

Na primeira noite você dormiu no quarto que dá para o mar. Nenhum ruído veio dali, como quando eu estava sozinha. Você devia estar muito cansado, depois de dias e dias, de meses, daqueles anos de chumbo talvez, aqueles, áridos, trágicos anos diante do emprego do futuro e também daqueles anos do calvário desta mesma solidão do desejo púbere.

[In Yann Andréa Steiner,tradução de  Maria Ignez Duque Estrada Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, pp. 14-15].

terça-feira, 17 de julho de 2012

Marguerite Duras

TEXTOS DE APRESENTAÇÃO (Anexo ao roteiro do filme O CAMINHÃO)

Primeiro Projeto
Não vale mais a pena fazermos o cinema da esperança socialista. Da esperança capitalista. Não vale mais a pena fazermos o de uma justiça a vir, social, vigilante ou outra. A dó trabalho. Do mérito. A das mulheres. Dos jovens. Dos portugueses. Dos nativos de Mali. Dos intelectuais. Dos senegaleses.
Não vale mais a pena fazer o cinema do medo. Da revolução. Da ditadura do proletariado. Da liberdade. Dos seus espantalhos. Do amor. Do sofrimento. Não vale mais a pena fazermos o cinema do cinema. Não se crê em mais nada. Crê-se. Alegria: crê-se: mais nada. Não se crê em mais nada. Não vale mais a pena fazer o seu cinema. Não vale mais a pena. É preciso fazer o cinema do conhecimento disso: não vale mais a pena. Que o cinema caminhe para sua perda, para a sua perda, é a única política.

Segundo Projeto
O cinema impede o texto, atinge mortalmente sua descendência: o imaginário. Nisso reside sua própria virtude: fechar. Impedir o imaginário. Esse impedimento, esse fechamento, chama-se: filme, Bom ou não, sublime ou execrável, o filme representa esse impedimento definitivo. A fixação da representação uma vez por todas e para sempre. O cinema sabe disso: ele jamais pôde substituir o texto. Apesar disso, procura substituí-lo. Ele sabe que só o texto é o portador ilimitado de imagens. Porém não pode mais retornar ao texto. Não sabe mais retornar. Não conhece mais o caminho da floresta, não sabe mais voltar ao potencial infindável do texto, à sua ilimitada proliferação de imagens. O cinema é amedrontado, debate-se, luta, se esforça para encontrar outros caminhos que o da palavra para responder à inteligência crescente de seu espectador, para apreendê-lo e mergulhá-lo mais uma vez nas salas de projeção, para que continue a consumir o seu produto. Isso está visível. O cinema já vê o deserto do cinema à sua frente. Opulento, milionário, o cinema tenta, a partir de meios financeiros que competem com os das transações petrolíferas e campanhas eleitorais, reencontrar seu espectador. Os filmes se banham seja na beleza, no crime, no sangue, nas matanças, na pureza, no exotismo proletário, em Proust, Balzac, nos escândalos financeiros, na paciência dos povos, no florescer da fome. Em vão. O cinema jamais chega a corresponder à sede crescente do conhecimento do seu espectador. O que o cinema não sabe é que o que acontece fora do cinema junta-se ao que se passa no interior do cinema. Que não se trata, por mais milionário que ele seja, que o cinema possa apreender a inteligência que tenha um espectador da confecção desse cinema. Que a inadequação fabulosa entre os meios do cinema e seu projeto atinja de morte daí em diante o produto que sai. Que é a mesma coisa. Que a fabricação do filme já é o filme. A recusa torna-se indivisível e total. O espectador cada vez mais deixa de entrar na sala. Sabe previamente que o produto que lhe oferecem está aferrolhado nos milhões, bastardo, poluído pelas próprias condições de sua confecção. A recusa surge como tal, saída da asfixia das palavras de ordem ativas de todo tipo. É livre. O espectador não quebra mais as vitrinas. Ele passa. Fica na rua, em vez de entrar. E nada mais. A multidão doente, sofrendo de calma, de digestão contínua, tornará a entrar no cinema, porém de agora em diante sozinha. Suportará o filme, sem repercussões, sem eco. Uma pedra atirada num poço. Já faz muito tempo que muitos abandonaram o cinema. E o fizeram por causa disso.

Terceiro Projeto
Não sei aonde vou em O caminhão. Ela, a mulher, também não sabe. E isso nos é, da mesma forma, igual. Eu não sabia quem era aquela mulher. Nada. Apenas isto: eu sabia que havia uma mulher na curva de uma estrada - eu via essa estrada na Mancha, na direção de Vauville - que esperava um caminhão e eu. Isso depois de várias semanas. Eu não trabalhava o texto. Eu sabia que o texto, qualquer que fosse, seria jogado fora pela filmagem. Que a mulher e o texto não coincidiriam antes do filme. Que a mulher só começaria a existir com o filme, ao mesmo tempo que o filme, e à medida do seu desenrolar. Mais ainda: que a mulher estava ansiosa para o filme começar a existir. Antes dele, só vejo dela a espera. Eu sei amála. Virei-me para ela. Ela, não, ela se virou para o exterior. Ela não sabe que a amo, não sabe ser amada, ignora o amor que é capaz de inspirar. Ela, virada para fora: Olha. Eu, virada para ela. Olhando-a. Projetadas, ambas, na direção do exterior. É por ela que eu vejo. Por ela que eu pego o exterior e que o submerjo em mim. Eu a amo. Ela me ignora. Sempre virada para o exterior. Desloco meu olhar. Olho o que ela olha: isso fica cada vez mais nítido. Eu não a vejo, eu nunca vejo seu rosto. Quando o filme acaba, nunca vi seu rosto. Porém o que ela olhava me deslumbrou: o filme. 

Quarto Projeto
Em lndia Song, tentei fazer com que a história de um amor transborde do seu território. Através de Michael Richardson, Anne-Marie Stretter gosta de Calcutá inteira. Em O caminhão a história, o pretexto para falar de amor desapareceu. A mulher do caminhão vive um amor de ordem geral. Ela ignora vivê-lo. Completamente virada para fora, ela entrou num processo de desaparecimento de identidade. Não apenas não sabe quem é, mas procura em todos os sentidos quem poderia ser. Em O caminhão não lhe resta nenhuma outra referência a uma possível identidade do que aquela prática da carona. Ela não passa de uma caroneira. Assim como me apareceu, vejo-a desaparecer, ela pára outro veículo e me abandona para sempre. Ela se mantém, assim, um tanto anulada, num constante estado de espera, de espera dela mesma, na esperança de ser tudo ao mesmo tempo. Seu movimento em direção ao tudo é, para mim, o do amor. A mulher do caminhão não me aborrece. Ela não procura nenhum sentido para sua vida. Descubro nela uma alegria de existir, sem procura de sentido. Uma verdadeira regressão, em curso, em progresso, fundamental. O único recurso sendo aqui esse conhecimento decisivo da inexistência do recurso.

[In O CAMINHÃO, trad. José Sanz, Rio de Janeiro: Record, 1977, pp. 57].







segunda-feira, 18 de junho de 2012

Marguerite Duras

EXCERTO  DE  "CADERNOS DA GUERRA E OUTROS TEXTOS"
Entre todas as cidades eu gosto daquelas, daquelas que se parecem com Sarzana, Marina di Carrara, Aen e certas cidades corsas, Bonifácio, Pontevecchio, Toulon também, as cidades sem árvores (Florença também, a coisa mais chocante é que não há uma única árvore em Florença) nas praças ardentes que, do meiodia às três horas, se esvaziam, se fecham, ficam completamente mortas. Geralmente essas cidades são sujas, cheiram a cebola, excremento de cavalo e, como estão à beira-mar, a peixe. As casas são velhas, mal construídas, pobres, populosas, as entradas e os corredores cheiram a mofo, não há jardins, na praça uma fonte da qual sai um filetezinho de água. Os frontispícios são raros, encaixam-se em janelas, há meias, embalagens, cartões postais, macacões de trabalho. Tudo desmorona nessas cidades, as calçadas desmoronaram, o varredor público dorme da uma às três, só há um varredor para a cidade toda, pois a municipalidade é pobre, e nas sarjetas acumula-se lixo. Essas cidades são varridas pelo vento do mar que se levanta lá pelas três da tarde e então, nas praças vazias, a poeira se levanta em nuvens, a poeira dessas cidades é fina, salgada, cheira a urina, ela está por toda parte, os buxos do jardim do padre (as únicas plantas da cidade) ficam cobertos por ela, e as crianças têm os pés empoados com ela. 

Quando chove no final de agosto essas cidades exalam, como nenhuma outra, a poeira de cinco meses de verão, de podridões de toda sorte, incham e exalam seus odores de carnes molhadas. Essas cidades não são feitas para agradar, são mercados onde vêm se abastecer os moradores dos campos vizinhos. Em seus arredores perambulam mascates, cinemas ambulantes. Essas cidades são para mim as mais eróticas do mundo. Cidades de sombra, de sol. A sombra contrastante. A sombra é erótica. 

É com essas cidades, dizia eu a mim mesma, que sonha Gaston, o varredor. 

[In Cadernos da guerra e outros textos, são Paulo: Estação Liberdade, 2006, p. pp. 243-244]




sexta-feira, 15 de junho de 2012

Marguerite Duras

EXCERTO DE "OLHOS AZUIS CABELOS PRETOS"
Sem dúvida ainda é noite. Nenhuma claridade chega do lado de fora. Em torno dos lençóis brancos, o homem que caminha, que se volta.
O mar chegou em frente ao quarto. A manhã não deve estar longe. É o mar insone que está ali, bem próximo às paredes. É mesmo o seu rumor, vagaroso, exterior, aquele que leva a morrer.
Ela abriu os olhos. Eles não se olham.
Há várias noites que isso acontece.
Nenhuma definição exterior se apresenta para explicar o que estão vivendo. Nenhuma solução para evitar o sofrimento.

Ela dorme. Ele chora.

Chora por uma imagem distante da noite de verão. Precisa dela, da sua presença no quarto para chorar o jovem estrangeiro de olhos azuis cabelos pretos.

Sem ela no quarto a imagem permaneceria estéril, dessecaria seu coração, seu desejo.
O corpo, ele não o vira. Apenas que usava roupas brancas, uma camisa branca.
Pálido, era pálido, vinha do Norte, do país secreto.
Alto.
A voz, ele não sabe.
Parou de se mexer. Refaz o trajeto do parque do hotel à janela do vestíbulo.
Ouve, olhos fechados. Ouve o grito. Continua não percebendo nenhuma palavra, nenhum sentido. Quando abre os olhos já é muito tarde, o corpo de olhos azuis caminha em silêncio para a janela aberta.
A ela, não fala dele. Não lhe passa pela cabeça. Não fala de sua vida. Nunca pensou que se pudesse fazê-lo. As palavras não estão ali, nem a frase onde colocar as palavras. Para eles dizerem o que lhes acontece há o silêncio ou então o riso ou, às vezes, por exemplo, com elas, chorar.
Ela o olha. É assim que o vê em sua ausência, tal como está ali. Repleto de imagens mudas, embriagado de sofrimentos diversos, do desejo de recuperar um objeto perdido assim como de comprar um que ainda não possui e de repente se transforma em sua razão de ser, essa roupa, esse relógio, esse amante, esse carro. Onde quer que esteja, o que quer que faça, sempre um desastre particular.
Ela pode olhá-lo por muito tempo, noites. Ele percebe que seus olhos estão abertos. Sorri para ela como se tivesse sido de alguma forma desmascarado, contrito, sempre na interminável desculpa por viver, por ter de fazê-lo.

[In "Olhos Azuis Cabelos Pretos",  Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986, pp. 48-51]


segunda-feira, 16 de abril de 2012

Marguerite Duras


A MORTE DO JOVEM AVIADOR INGLÊS (Texto Completo)
Marguerite Duras




O começo, o ponto de partida de uma história.

É a história que vou contar, pela primeira vez. A história deste livro.

Creio que é uma direção do escrito. É isso, o escrito dirigido, por exemplo, para você, do . qual ainda não sei nada.

Para você, leitor:

Isso se passa em uma aldeia bem perto de Deauville, a alguns quilômetros do mar. Essa aldeia se chama Vauville. O distrito é o de Calvados.

Vauville.

Foi lá. É a palavra escrita na tabuleta da porta.

Quando fui lá pela primeira vez, seguia o conselho de amigas, comerciantes de Trouville. Elas me falaram sobre a capela adorável de Vauville. Então nesse dia vi a igreja, pela primeira vez, sem ver nada disso que vou contar.

A igreja é de fato bem bonita e mesmo adorável. À direita há um cemitério pequeno, do século dezenove, nobre, luxuoso, que lembra Père-Lachaíse, muito enfeitado, como uma festa imóvel, parada, no centro dos séculos.

Do outro lado dessa igreja se encontra o corpo do jovem aviador inglês, morto no último dia da guerra.

E no meio da relva há um túmulo. Uma laje de granito cinzento claro, muito bem polida. Eu não a vi logo de saída, essa pedra. Eu a vi quando soube da história.

Era uma criança inglesa. Tinha vinte anos.

Seu nome está inscrito na laje.

No início ele era chamado de o jovem aviador inglês.

Era órfão. Estudava em um colégio de província ao norte de Londres. Ele se alistou, como fizeram muitos jovens ingleses.

Eram os últimos dias da guerra mundial.

Talvez o último, é possível. Ele tinha atacado uma bateria alemã. De farra. Como atirou sobre a bateria, os alemães responderam. Acertaram no garoto. Tinha vinte anos. .

O garoto tornou-se prisioneiro de seu avião. Um Meteoro de um só assento.

Foi assim mesmo. Ficou prisioneiro do seu avião. E o avião caiu no topo de uma árvore da floresta. Foi ali - acreditam as pessoas da aldeia - que ele morreu, durante aquela noite, a última  da sua vida.

Durante um dia e uma noite, na floresta, todos os habitantes de Vauville velaram seu corpo. Como antes, nos tempos antigos, como teriam feito antes, velaram-no com velas, preces, cânticos, lágrimas, flores. E depois conseguiram retirá-lo do avião. E extraíram o avião da árvore. Foi demorado, difícil. Seu corpo tinha se tornado prisioneiro do emaranhado de aço e da árvore.

Desceram-no da árvore. Foi muito demorado. No final da noite, estava encerrado. O corpo, uma vez trazido do alto da árvore, foi levado até o cemitério e logo em seguida cavaram a cova. Foi no dia seguinte, imagino, que compraram a laje de granito clara.

Esse é o começo da história.

Ele está sempre ali, o jovem aviador inglês, naquele túmulo. Sob a laje de granito.

No ano seguinte à sua morte, veio alguém para vê-lo, esse jovem soldado inglês. Trouxe flores. Um homem velho, inglês também. Veio até ali para chorar sobre o túmulo desse garoto e rezar. Disse que era professor daquele garoto em um colégio ao norte de Londres. Foi ele quem revelou o nome do garoto.

Foi ele também quem disse que o rapaz era órfão. Que não havia ninguém a quem comunicar sua morte.

Todo ano ele voltava. Durante oito anos. E sobre a laje de granito, a morte continuou a se eternizar.

Depois, nunca mais voltou.

E ninguém mais na face da terra se lembrou da existência dessa criança selvagem, e louca, alguns diziam: esse garoto doido que, sozinho, ganhou a guerra mundial.

Só restaram os moradores da aldeia para lembrar e cuidar do túmulo, das flores, da laje de pedra cinzenta. Creio que durante anos ninguém soube da história exceto as pessoas de Vauville.

O professor tinha dito o nome do garoto.

Esse nome ficou gravado sobre o túmulo:

W.J. Cliffe.

Sempre que o velho falava sobre o garoto, chorava.

No oitavo ano, ele não veio. E depois não veio nunca mais.

Meu irmão mais novo morreu durante a guerra do Japão. Morreu sem nenhuma sepultura. Atirado em uma fossa comum por cima dos últimos corpos. E é uma coisa tão terrível de se pensar, tão atroz, que não se pode suportar, e até ter passado por isso, é impossível saber como é. Não se trata da mistura dos corpos, em absoluto, é o desaparecimento desse corpo na massa dos outros corpos. É o seu, o seu próprio corpo, atirado na fossa dos mortos, sem uma palavra, sem uma frase. Exceto aquela da prece de todos os mortos. .

Para o jovem aviador inglês, não foi esse o caso, pois os moradores da aldeia cantaram e rezaram de joelhos sobre a grama ao redor do túmulo, e ficaram ali a noite inteira. Apesar de tudo, isso me lembrou aquela fossa de cadáveres nas imediações de Saigon, onde está o corpo de Paulo. Mas agora creio que lá existe outra coisa. Acho que um dia, mais tarde, bem mais tarde, mais tarde ainda, não sei bem, mas já sei que sim, bem mais tarde, reencontrarei, eu já sei que sim, algo de material que vou reconhecer como um sorriso suspenso no buraco dos olhos. Os olhos de Paulo. Lá, há algo mais do que Paulo. Para que isso se torne um acontecimento tão pessoal, essa morte do jovem aviador inglês, há mais do que aquilo que eu acredito haver.

Eu não saberia nunca dizer o que é. Nunca se vai saber.

Ninguém.

Isso me reporta também ao nosso amor.

Existe o amor do irmão mais novo e existia o nosso amor, nosso, dele e meu, um amor bem forte, oculto, culpado; um amor de todos os instantes. Adorável ainda depois da morte. O jovem morto inglês era todo mundo e era também ele mesmo. Era todo mundo e ele. Mas todo mundo não nos faz chorar. E depois essa vontade de ver o jovem morto, de verificar, sem conhecêlo nem um pouco, se seu rosto estava bem, aquele buraco, na extremidade do seu corpo sem olhos, essa vontade de ver seu corpo e ver como estava seu rosto de morto, dilacerado pelos punhais do Meteoro.

Será que ainda era possível ver alguma coisa assim? Isso aflige o pensamento. Nunca pensei que fosse escrever uma coisa dessas. Isso dizia respeito a mim e não aos leitores. Você é meu leitor, Paulo. Pois eu lhe digo, eu lhe escrevo, é verdade. Você é o amor da minha vida inteira, o gestor da nossa cólera diante daquele irmão mais velho, e isso ao longo de toda a nossa infância, da tua infância.

O túmulo está só. Como ele viveu. O túmulo tem a sua idade de morte ... como dizê-lo ... não se sabe ... o estado da grama, e também do jardinzinho. Também contou a proximidade do outro cemitério. Mas, na verdade, como dizê-lo?

Como unir o garotinho que morreu com seis meses, cujo túmulo está no alto do terreno gramado, e esse outro garoto de vinte anos? Continuam ali, os dois, e seus nomes, e suas idades. Estão sós.

E depois vi outra coisa. Sempre depois, a gente vê as coisas.

Vi o céu com o sol através das árvores, elas também mortas nos campos, mutiladas, as árvores negras. Vi que as árvores ainda estavam negras. E depois a escola municipal, ela também estava ali. E ouvi as crianças cantando: "Nunca te esquecerei." Para você. Só. Na origem disso tudo, havia, outrora, aquela pessoa qualquer e aquela criança, minha criança, meu irmãozinho, e mais alguém, o garoto inglês. Parecidos. A morte também batiza.

Aqui estamos muito longe da identidade. É uma morte, uma morte de vinte anos que irá até o final dos tempos. É só. O nome, não interessa mais: era um garoto.

Dá para ficar ali.

Dá para ficar ali, naquele ponto da vida de um garoto de vinte anos, o último morto da guerra.

Não interessa qual seja a morte, é a morte. Não importa qual seja o garoto de vinte anos, é um garoto de vinte anos.

Não é mais, de jeito nenhum, a morte de qualquer um. Continua sendo a morte de um garoto.

A morte de qualquer um é a morte inteira.

Não importa que seja todo mundo. E não importa quem possa tomar a forma atroz de uma infância em marcha. Essas coisas são sabidas nas aldeias, me foram contadas por camponeses com a brutalidade de um acontecimento que se tornou aquele acontecimento,· um garoto de vinte anos morto em uma guerra com a qual ele se divertia.

Talvez também por isso ele tenha ficado intacto, esse jovem inglês morto, tenha se aferrado a essa idade, terrível, atroz, a de vinte anos.

Fiquei amiga das pessoas da aldeia, sobretudo da velha que toma conta da igreja.

As árvores mortas estão lá, loucas, congeladas em uma desordem fixa, de tal modo que o vento não as procura mais. Elas são inteiras, mártires, são negras, o sangue negro das árvores mortas pelo fogo.

Esse passante tornou-se sagrado para mim - esse jovem inglês, morto com vinte anos. Ele sempre me faz chorar.

E depois o velho senhor inglês que vinha todo ano para chorar sobre o túmulo desse garoto, lamentei não tê-lo conhecido para conversar sobre o garoto, o seu riso, os seus olhos, suas brincadeiras.

O garoto morto foi adotado pela aldeia inteira. E a aldeia o adorou. O garoto da guerra terá sempre flores sobre seu túmulo. Continua o desconhecido: a data do dia em que isso cessará ..

Em Vauville, volta a minha memória do canto da mendiga. Esse canto bem simples. Aquele dos loucos, de todos os loucos, em toda parte, os cantos da indiferença. O canto da morte fácil. Da morte pela fome, dos mortos nas estradas, nos fossos, em parte devorados por cães, tigres, aves de rapina, ratos gigantes dos pântanos.

O mais difícil de suportar é o rosto destruído, a pele, os olhos arrancados. Os olhos esvaziados dos sinais da vida, sem mais olhar. Fixos. Virados para o nada.

Isso tem vinte anos. A idade, a cifra da idade pára com a morte, terá sempre vinte anos, tornou-se isso. Não sabe. Não olhou.

Quis escrever sobre o garoto inglês. E não posso mais escrever sobre ele. E escrevo, vocês vêem, assim mesmo, escrevo. É porque escrevo que não sei que isso pode ser escrito. Sei que isto não é uma narrativa. É um fato brutal, isolado, sem nenhum eco. Os fatos são suficientes. Contarei os fatos. E o velho que sempre chorava, que veio durante oito anos, e que, em certo momento, não veio mais. Nunca. Ele também viu-se apanhado pela morte? Sem dúvida alguma. E depois a história terminaria para a eternidade, da mesma forma que o sangue do garoto, os olhos, o sorriso do garoto tolhido pela boca descolorida da morte.

As crianças da escola cantam que há muito tempo o amavam, esse garoto de vinte anos, e que nunca vão esquecê-lo. Cantam assim depois do meio-dia.

E eu choro.

Existia o crepúsculo do azul dos olhos dessas crianças da escola.

Havia essa cor azul no céu, esse azul que era o mesmo do mar. Houve todas as árvores que foram assassinadas. E havia também o céu. Eu o olhei. Ele recobria todas as coisas na sua lentidão, na sua indiferença de todo dia. Insondável.

Vejo os lugares ligados uns aos outros. Exceto a continuidade da floresta, que desapareceu.

Não quis mais voltar. E ainda assim chorei. Eu via o garoto morto em toda parte. O garoto morto de brincar na guerra, de brincar de ser o vento, de ser um inglês de vinte anos, heroico e belo. Que brincava de ser feliz.

Ainda vejo você. O próprio garoto. Morto como um passarinho, de uma morte eterna. A longa morte que virá e a dor do corpo dilacerado pelo aço do avião, ele suplicava a Deus que o fizesse morrer depressa para não sofrer mais.

Chamava-se W. J. Cliffe, sim. É isto que agora está escrito sobre o granito cinzento.

É preciso atravessar o jardim da igreja e ir  para a escola pública que permanece ali, no mesmo lugar. Ir na direção dos gatos, esses doidos, incríveis, esses bandos de gatos, de uma incrível e cruel beleza. Esses gatos chamados "cascos de tartaruga", amarelos como labaredas avermelhadas, como sangue, brancos e negros. Negros como as árvores enegrecidas para sempre pela carga de bombas alemãs.

Há um rio ao longo do cemitério. E depois, ao lado, há ainda árvores mortas, do lado oposto ao lugar onde está o garoto. As árvores queimadas que gritam contra o vento. É um ruído muito forte, um tipo de varredura estridente, do fim do mundo. Dá muito medo. E depois cessa, de repente, sem que se saiba o que era. Sem razão, parece, sem a menor razão. E então os camponeses dizem que não é nada, que são as árvores que guardaram na sua seiva o carvão de suas chagas.

O interior da igreja é admirável, de fato. Tudo se reconhece. As flores são flores, as plantas, as cores, os altares, os bordados, os tapetes. É admirável. Como um quarto momentaneamente abandonado, à espera dos amantes que não vieram em razão do mau tempo.

Com essa emoção, se quer chegar a algum lugar. Escrever sobre o exterior, talvez, limitando-se a descrever, talvez, descrever as coisas que estão ali, presentes. Não inventar outras. Não inventar nada, nenhum detalhe. Não inventar de modo algum. Nada. Não acompanhar a morte. Que fique em paz, afinal, que pelo menos por uma vez não se olhe para isso desse ângulo.

As estradas que vão para a aldeia são caminhos antigos, muito antigos. São da pré-história. Estão ali desde sempre, parece, é o que se diz, eram rotas de passagem obrigatórias rumo ao desconhecido, trilhas e nascentes e praias onde era possível se proteger dos lobos.

Nunca aconteceu de me ver transtornada a tal ponto pela morte. Capturada por inteiro. Presa na sua viscosidade. E agora, para mim, todos os lugares, acabou, não vou mais lá.

Resta Vauville, esse jogo de amarelinha, resta a decifração dos nomes inscritos em alguns túmulos. Resta a floresta, a floresta que a cada ano progride na direção do mar. Sempre preta, de fuligem, pronta para a eternidade que virá. .

O garoto morto era também um soldado da guerra. E podia muito bem ter sido um soldado francês. Ou americano.

Fica a dezoito quilômetros da praia do Desembarque.

As pessoas da aldeia sabiam que ele era do norte da Inglaterra. O velho inglês lhes havia contado sobre esse garoto, o velho não era o pai do garoto, o garoto era órfão, devia ser seu professor, ou talvez um amigo dos pais. O homem amava aquele garoto. Como se fosse seu filho. Tanto quanto um amante, talvez, quem sabe? Foi ele que disse o nome do garoto. O nome foi inscrito sobre a laje cinzenta. W. J. Cliffe.

Não posso dizer nada. Não posso escrever nada.

Haverá uma escrita da não-narrativa. Um dia isto virá. Uma escrita breve, sem gramática, uma escrita de palavras sozinhas. Palavras sem apoio de uma gramática. Extraviadas. Ali, escritas. E logo deixadas de lado.

Eu queria expor o cerimonial que se criou em tomo da morte do jovem aviador inglês. Sei alguns detalhes: toda a aldeia se envolveu, redescobriu um tipo de iniciativa revolucionária. Sei também que o túmulo foi feito sem autorização. Que o prefeito não se envolveu. Que Vauville tornou-se uma espécie de festa fúnebre em torno da adoração do garoto morto. Uma festa livre de lágrimas e de cantos de amor.

Todas as pessoas da aldeia conheciam a história do garoto. E também a história das visitas do velho, aquele velho professor. Mas nunca falam da guerra. A guerra era para eles aquele garoto assassinado com vinte anos.

A morte reinou sobre a aldeia.

As mulheres choravam, não podiam se conter. O jovem aviador desaparece, morre de uma morte verdadeira. Caso cantassem essa morte como um exemplo de outras, não seria a mesma história. Essa discrição sublime das mulheres, que fez, segundo creio - mesmo que não esteja inteiramente certa disso -, com que o garoto fosse colocado do outro lado da igreja, ali onde ainda não havia túmulo algum. Ali onde ainda só existe o seu túmulo. Ao abrigo do vento louco. Elas tomaram o corpo do garoto, lavaram-no e puseram-no naquele lugar, dentro do túmulo, o da laje de granito claro.

As mulheres não contaram nada sobre isso. Se eu estivesse ali com elas, junto, para fazer o que elas fizeram, creio que nunca poderia escrever sobre isso. Afirmo que esse sentimento fantasticamente forte que experimentei, de estar comprometida com o caso, talvez não se produzisse. É a emoção que retoma ainda agora quando estou sozinha. Sozinha, ainda choro esse garoto que veio a ser o último morto da guerra.

Esse fato inesgotável: a morte de um garoto de vinte anos, morto pelas baterias alemãs no dia em que se fez a paz.

Vinte anos. Digo sua idade. Digo: tinha vinte anos. Terá vinte anos para a eternidade, diante do Eterno. Exista ou não, o Eterno será aquele garoto.

Quando digo vinte anos, é terrível. O mais terrível é isso, a idade. É uma banalidade essa dor que me aflige a respeito dele. É curioso, nunca a idéia de Deus se apresentou a respeito do garoto. Esta palavra fácil que é a palavra Deus, a mais fácil de todas, ninguém a disse. Não foi pronunciada uma só vez durante o sepultamento do garoto de vinte anos que tinha brincado de guerra no seu Meteoro por cima da floresta normanda, bela como o mar.

Não existe nada para dar a medida deste fato. Existem muitos fatos como este no universo. Brechas. Lá, este fato foi visto. E também se viu que o garoto morreu por ter brincado de guerra. Tudo fica claro diante da morte do garoto.

Ele estava contente, ele estava muito feliz ao sair da floresta, não via nenhum alemão. Estava contente de voar, de viver, de ter resolvido matar os soldados alemães. Adorava brincar de guerra, aquele garoto, como todos os garotos. Morto, ele era, o tempo todo, um outro garoto de vinte anos, não importa qual garoto. E depois isso tudo parou com a noite, a primeira noite. Ele tornou-se o garoto dessa aldeia francesa, ele, o aviador inglês.

Ele assinou sua morte, aqui, diante das pessoas de Vauville, que olhavam.

Este livro não é um livro. Não é uma canção.

Nem um poema. Nem um livro de pensamentos.

Mas de lágrimas, de dor, de pranto, de um desespero que não se pode conter e sobre o qual não se pode raciocinar. Cóleras políticas fortes como a fé em Deus. Mais fortes ainda. Mais perigosas porque são infinitas.

Esse garoto morto na guerra é também um segredo de cada um daqueles que o encontraram no alto daquela grande árvore, crucificado naquela árvore pela carcaça de seu avião.

Não se pode escrever lá em cima. Ou então se pode escrever em cima de qualquer coisa. Escrever sobre tudo, tudo ao mesmo tempo, é não escrever. É nada. E é uma leitura insustentável, da mesma forma que uma publicidade.

Ouço de novo o canto das crianças da escola pública. O canto das crianças de Vauville. Isso deveria ser suportável. Ainda é difícil para nós. Sempre chorei com esse canto das crianças. E ainda choro.

Já se vê menos o túmulo do jovem aviador inglês. Ele ainda é visível na paisagem ao redor. Mas já se afastou de nós, na direção da eternidade. E a sua eternidade será vivida como tal por esse garoto desaparecido.

Os locais ao redor da igreja dão acesso ao túmulo do garoto. Lá, ainda existe alguma coisa acontecendo. Encontramo-nos agora separados do fato por décadas e no entanto aqui o túmulo é um fato. Quem sabe essa solidão de um garoto morto na guerra não sejam ternas carícias sobre o granito frio da sua laje tumular? Não se sabe.

A aldeia tornou-se a aldeia desse garoto inglês de vinte anos. É como uma espécie de pureza, um luxo de lágrimas. A atenção extrema dirigida ao local de seu túmulo será eterna. Isto já se sabe.

A eternidade do jovem aviador inglês está ali, presente, se pode abraçar a pedra cinzenta, tocá-la, dormir sobre ela, chorar.

Como um refúgio, essa palavra - essa, eternidade, vem à boca - será a vala comum de todos os outros mortos da região que as guerras futuras terão matado.

Talvez seja o nascimento de um culto. Deus reempossado? Não, Deus é reempossado todos os dias. A gente nunca se acha sem Deus.

Não sei como chamar essa história.

Tudo está ali, em algumas dezenas de metros quadrados. Tudo está ali naquela mixórdia de mortos, naquele esplendor de túmulos, aquele luxo, que faz desse lugar algo admirável. Não se trata do número, ali o número se dispersou, pelas planícies alemãs do norte da Alemanha, pelas hecatombes das regiões de toda a costa do Atlântico. O garoto continuou sempre sendo ele mesmo. E só. Os campos de batalha foram para longe, pela Europa inteira. Aqui é o contrário, é o garoto, o rei da morte causada pela guerra.

É um rei também: é um garoto tão sozinho na morte quanto um rei na mesma morte.

Seria possível fotografar o túmulo. O fato do túmulo. O nome. O sol se pondo. O negrume da fuligem nas árvores queimadas. Fotografar os dois rios gêmeos enlouquecidos e que urram todas as noites, não se sabe nunca por que ou para quê, como cães esfomeados, esses rios malfeitos, equívocos de Deus, mal nascidos, que toda noite se entrechocam, se atiram um de encontro ao outro. Nunca vi isso em, lugar algum.

Dementes de um outro mundo, com um barulho de ferragens, de massacre, de carroças rodando, e que buscam onde se atirar, algum mar, alguma floresta. E os gatos, a nuvem de gatos que berram de medo. Estão sempre nos cemitérios, vigiando não se sabe o quê, algum fato de natureza indecifrável, exceto quanto a eles mesmos, os gatos, sem líder. Perdidos.

As árvores mortas, os prados, o gado, tudo aqui contempla o sol do entardecer em Vauville.

O lugar em si permanece muito deserto. Sim, vazio. Quase vazio.

A zeladora da igreja mora bem perto dali.

Todo dia de manhã depois do café, ela vai olhar o túmulo. Uma camponesa. Veste o avental de pano azul-escuro que minha mãe usava em Pasde-Calais, quando tinha vinte anos.

Esqueço: há também o cemitério novo, a um quilômetro de Vauville. É um cemitério de túmulos padronizados. Há arranjos de flores grandes como árvores. Tudo foi pintado de branco. E ali não há ninguém, ninguém lá dentro, parece que não tem ninguém. Que não é um cemitério. Não se sabe bem o que é aquilo, talvez um terreno de golfe.

Ao redor de Vauville há várias trilhas muito antigas, de antes da Idade Média. Foi sobre elas que fizeram as estradas por onde passamos agora. Ao longo das sebes milenares, existem caminhos para os novos seres vivos. Foi Robert Gallímard que me revelou a existência de toda essa rede de trilhas ancestrais da Normandia. Os primeiros caminhos dos homens do litoral, os homens do norte.

Existem, sem dúvida, muitas pessoas que teriam escrito a história dastrilhas.

O que seria necessário apontar é a impossibilidade de falar sobre esse lugar, aqui, e esse túmulo. Mas assim mesmo é possível abraçar o granito cinzento e chorar por você, W. J. Cliffe.

É preciso começar ao contrário. Não falo de escrever. Falo do livro já escrito. Partir da fonte e segui-la até o ponto onde sua água se deposita. Partir do túmulo e ir até ele, o jovem aviador inglês.

Muitas vezes encontramos relatos e muito raramente se encontra a escrita.

Não existe senão um poema, talvez, e para tentar ainda ... o quê? Não se sabe mais nada, nem mesmo isso, o que era preciso fazer.

Há a grandiosa banalidade da floresta, dos pobres, dos rios enlouquecidos, das árvores mortas, esses gatos carniceiros como cães. Gatos vermelhos e negros.

A inocência da vida, sim, é verdade, ela está lá, do mesmo modo que as cantigas de roda das crianças da escola.

Existe, é verdade, a inocência da vida.

Uma inocência que faz chorar. Ao longe, há a antiga guerra, aquela que agora se fez em migalhas, quando estamos sozinhos na aldeia, em face das ãrvores mártires calcinadas pelo fogo alemão. O corpo das árvores assassinadas pela fuligem. Não, não existe mais guerra. A criança da guerra tomou o lugar de tudo. O garoto de vinte anos: toda a floresta, toda a terra, ele a substituiu, e também o futuro da guerra. A guerra foi enterrada no caixão junto do corpo desse garoto.

Estâ tranqüilo, agora. O esplendor central é a idéia, a idéia dos vinte anos, a idéia de brincar de guerra, que se tornou resplandecente. Um cristal.

Se não existissem coisas como essa, a escrita não teria lugar. Mas mesmo se a escrita está presente, sempre prestes a urrar, a chorar, são coisas que não se escrevem. São emoções dessa ordem, muito sutis, muito profundas, muito carnais, também essenciais, e completamente imprevisíveis, que podem incubar vidas inteiras dentro do corpo. A escrita é isto. É o fluxo do escrito que passa através do corpo de vocês. Atravessa. Daí partimos para falar dessas emoções difíceis de dizer, tão estranhas e que, todavia, de repente se apoderam de vocês.

Eu estava em minha casa, nesta aldeia, aqui, em Vauville. Ia lá todo dia para chorar. E então, um dia, nunca mais fui.

Escrevo em razão dessa chance de me fundir por inteiro, com tudo, essa chance de me achar no campo de guerra, nesse teatro de guerra vazio, na ampliação dessa reflexão, na ampliação que ocupa o terreno da guerra, bem devagar, o pesadelo em marcha da morte desse jovem de vinte anos, nesse corpo morto do garoto inglês de vinte anos, morto com as árvores da floresta normanda, da mesma morte que elas, ilimitada.

Essa emoção vai se estender além dela mesma, rumo ao infinito do mundo inteiro. Isso durante séculos. E então, um dia - todos sobre a terra entenderão algo como o amor. Dele. Do garoto inglês morto com vinte anos por ter brincado de guerra contra os alemães nessa floresta monumental, tão bela, se poderia dizer, tão antiga, secular, adorável mesmo, sim, é isso: adorável é a palavra.

Seria possível fazer um filme. Um filme de insistências, de retornos e de reinícios. E depois abandoná-lo. E filmar também esse abandono. Mas isso não será feito, já se sabe. Nunca será feito.

Por que não fazer um filme sobre aquilo. que é desconhecido, ainda desconhecido?

Não tenho nada nas mãos, nada na cabeça para fazer esse filme. E foi nisso que mais pensei neste verão. Porque esse filme seria, apesar de tudo, um filme da idéia inatingível e louca, um filme sobre a literatura da morte viva.

A escrita da literatura é justamente aquilo que apresenta um problema para todos os livros, para todos os escritores, para cada livro de cada escritor. E sem isso não existe escritor, não existe livro, nada. Assim, parece que se pode dizer também que, desta maneira, não existiria talvez mais nada.

A silenciosa derrocada do mundo teria começado naquele dia - o dia daquela morte tão lenta e tão dura do jovem inglês de vinte anos no céu da floresta normanda, esse monumento no litoral do Atlântico, essa glória. Esta notícia, este simples fato, esta notícia misteriosa se inscreveu na mente das pessoas ainda vivas - um ponto de onde não se pode voltar teria sido alcançado no silêncio elementar da terra. Soube-se que, a partir de então, seria inútil esperar. Isso em toda a superfície da terra e partindo deste único objeto, um garoto de vinte anos, o jovem morto na última guerra, o esquecido pela última guerra no início da vida.

E depois, um dia, não haverá nada  para se escrever, nada para se ler, não existirá senão o intraduzível da vida desse morto tão jovem, tão jovem que chega a doer.

Marguerite Duras. Escrever. Rocco: Rio de Janeiro, 1999, pp. 51-74, trad. Rubens Figueiredo



Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...