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quarta-feira, 21 de maio de 2014

Ernesto Sabato

ABADON O EXTERMINADOR - Excerto
Passei um dia muito ruim, querido B., estão me acontecendo coisas que não consigo explicar, mas enquanto isso e por isso mesmo trato de aferrar-me a este universo diurno das idéias. A tentação do universo platônico! Maior é o tumulto interior, mais tremendas são as pressões que nos acossam, mais nos sentimos inclinados a buscar uma ordem nas idéias. Sempre me ocorreu isso, mas deveria dizer que sempre ocorre isso. Lembra o célebre grego harmonioso com que nos encheram a cabeça no colégio secundário: é uma invenção do século XVIII, e faz parte desse arsenal de lugares comuns em que encontrarás também a fleugma dos britânicos e o espírito de medida dos franceses. As mortíferas e angustiantes tragédias gregas bastariam para aniquilar esta bobagem se não tivéssemos provas mais filosóficas, e particularmente a invenção do platonismo. Cada um busca o que não tem, e se Sócrates busca a Razão é precisamente porque necessita com urgência contra suas paixões: lia-se todos os vícios em seu rosto, lembras? Sócrates inventou a Razão porque era um insensato e Platão repudiou a arte porque era um poeta. Lindos antecedentes para estes propiciadores do Princípio de Contradição! Como vês, a lógica não serve nem mesmo para seus inventores.
Conheço bem essa tentação platônica, e não porque a tenham me contado. Primeiro, a sofri quando era um adolescente, quando me encontrei só, masturbando-me em uma realidade suja e perversa. Então descobri este paraíso, como alguém que se arrastou por um esterqueiro encontra um lago transparente onde limpar-se. E muitos anos mais tarde, em Bruxelas, quando pensei que a tena se abria sob meus pés, quando aquele rapaz francês que depois morreria nas mãos da Gestapo me confessou os horrores do stalinismo. Fugi para Paris, onde não só passei frio e fome no inverno de 1934, mas também desolação. Até que encontrei aquele porteiro da École Normale da Rue d’Ulm que me deixou dormir em sua cama. Todas as noites tinha de entrar por uma janela. Roubei então no Gibert um tratado de cálculo infinitesimal, e ainda recordo o momento em que, enquanto tomava um café quente, abri o livro tremendo, como quem entra em um silencioso santuário após ter escapado, sujo e faminto, de uma cidade saqueada e devastada pelos bárbaros. Aqueles teoremas foram me recolhendo como delicadas enfermeiras recolhem o corpo de alguém que pode ter quebrado a coluna vertebral. E, pouco a pouco, por entre as frestas de meu espírito destroçado, comecei a vislumbrar as belas e graves torres.
Muito tempo permaneci naquele reduto de silêncio. Até que um dia me descobri escutando (não ouvindo, mas escutando, ansiosamente escutando) o rumor dos homens, lá fora. Começava a sentir a nostalgia do sangue e da imundície, porque é a única forma como podemos sentir a vida. E que pode substituir a vida, mesmo com suas penas e finitude? Quem e quantos se suicidaram nos campos de concentração?
Assim estamos feitos, assim passamos de um extremo ao outro. E nestes amargos tempos finais de minha existência, em várias ocasiões voltou a tentar-me aquele território absoluto, jamais pude ver um observatório sem sentir a inversa nostalgia da ordem e da pureza. E embora não tenha desertado desta batalha com meus monstros, embora não tenha cedido à tentação de reingressar a um observatório como um guerreiro a um convento, às vezes o fiz vergonhosamente, refugiando-me nas idéias sobre a ficção: a meio caminho entre o furor do sangue e o convento.

[In Abadon o Exterminador, tradução de Janer Cristaldo, Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1981, pp. 72-73].


sábado, 22 de fevereiro de 2014

Ernesto Sabato

EXCERTO DE "O TÚNEL" 
XXI
Voltei para casa com a sensação de uma absoluta solidão.

Em geral, essa sensação de estar só no mundo aparece mesclada a um orgulhoso sentimento de superioridade: desprezo os homens, acho que são sujos, feios, incapazes, ávidos, grosseiros, mesquinhos; minha solidão não me assusta, é quase olímpica.

Mas naquele momento, como em outros semelhantes, encontrava-me só em consequência de meus piores atributos, de minhas baixas ações. Nesses casos sinto que o mundo é desprezível, mas compreendo que eu também faço parte dele; nesses instantes sou invadido por uma fúria de aniquilação, deixo-me afagar pela tentação do suicídio, me embriago, procuro as prostitutas. E sinto certa satisfação em provar minha própria baixeza e em verificar que não sou melhor do que os sujos monstros que me rodeiam.

Naquela noite me embriaguei num café da zona do porto. Estava no pior da bebedeira quando senti tanto nojo da mulher que estava comigo e dos marinheiros que me rodeavam que saí correndo para a rua. Caminhei pela Viamonte e desci até o cais. Sentei ali e chorei. A água suja, embaixo, tentava-me constantemente: para que sofrer? O suicídio seduz por sua facilidade de aniquilação: em um segundo, todo este absurdo universo vem abaixo como um gigantesco simulacro, como se a solidez de seus arranha-céus, de seus encouraçados, de seus tanques, de suas prisões não passasse de uma fantasmagoria, sem mais solidez que os arranha-céus, encouraçados, tanques e prisões de um pesadelo.

A vida aparece à luz desse raciocínio como um longo pesadelo, do qual, no entanto, cada um pode libertar-se com a morte, que seria, assim, uma espécie de despertar. Mas despertar para quê? Essa irresolução de lançar-me ao nada absoluto e eterno foi o que me deteve em todos os meus projetos de suicídio. Apesar de tudo, o homem é tão apegado ao que existe que acaba preferindo suportar sua imperfeição e a dor que causa sua fealdade, a aniquilar a fantasmagoria com um ato de vontade própria. E costuma acontecer, também, que quando chegamos a essa beira do desespero que precede o suicídio por ter esgotado o inventário de tudo o que é mau e ter chegado ao ponto em que o mal é insuperável, qualquer elemento bom, por menor que seja, adquire um valor desproporcional, acaba tornando-se decisivo, e nos aferramos a ele como nos agarraríamos desesperadamente a qualquer talo de grama diante do perigo de rolar num abismo.

Era quase madrugada quando decidi voltar para casa. Não me recordo como, mas, apesar da decisão (que recordo perfeitamente), encontrei-me de repente diante da casa de Allende. O curioso é que não recordo os fatos intermediários. Vejo-me sentado no cais, fitando a água suja e pensando: “Agora preciso me deitar”, e em seguida me vejo diante da casa de Allende, observando o quinto andar. Para que olharia? Era absurdo imaginar que àquela hora eu pudesse vê-la de algum modo. Fiquei ali muito tempo, estupefato, até que tive uma ideia: desci até a avenida, procurei um café e telefonei. Fiz isso sem pensar no que diria para justificar uma ligação a uma hora daquelas. Quando atenderam, depois de eu ter insistido durante uns cinco minutos, fiquei paralisado, sem abrir a boca. Desliguei, espavorido, saí do café e comecei a andar ao acaso. De repente me vi novamente no café. Para não chamar a atenção, pedi uma genebra e enquanto a bebia resolvi voltar para casa.

Depois de um tempo bastante longo me vi afinal no ateliê. Joguei-me, vestido, sobre a cama e adormeci.

[In O Túnel, tradução Sérgio Molina, São Paulo: Mediafashion, 2012, pp. 85-87 (Coleção: Folha Literatura ibero-americana, vol. 5)]



sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Ernesto Sabato

BRUNO QUERIA IR-SE,

sentia-se incômodo, o via desalentado, além de escrever centenas de páginas ainda era necessário explicar quem era, pois afinal se tratava disso. E agora o via naquele canto, tirando os óculos e passando a mão na testa, com seu gesto de cansaço e desalento, enquanto aqueles rapazes discutiam entre si. Porque nem eles mesmos estavam de acordo, e constituíam uma absurda mistura (que fazia ali, por exemplo, Marcelo, e seu companheiro soturno e silencioso? Em virtude de que disparatada combinação também se encontravam ali? ). E aquela discórdia, aquela violenta e irônica discórdia, lhe lembrava o signo da tremenda crise, o desmoronamento das doutrinas. Se acusavam entre si como inimigos mortais, e no entanto todos eles per­tenciam ao que chamavam esquerda; mas cada um deles parecia ter motivos para considerar com desconfiança o que estava ao lado ou em frente, como sutil ou aber­tamente vinculado a serviços de informações, à CIA, ao imperialismo. Olhava seus rostos. Quantos mundos diferentes havia atrás daquelas fachadas, quantos seres fun­damentalmente distintos. A Humanidade Futura. Que cânones, que tipos de seres? O Homem Novo. Mas como construí-lo com aquele arrivista hipócrita, com aquele Puch que ali estava a adivinhá-lo, e com alguém como Marcelo? Que atributos, que unha daquele pequeno arrivista da esquerda poderia contribuir à integração desse Homem Novo? Contemplava Marcelo, com sua campeira surrada e suas calças enru­gadas, com aquela presença quase imperceptível que no entanto tanto impressiona­va Sábato. Porque, explicava-lhe Sábato, diante dele se sentia sempre culpado, como em outro tempo lhe ocorrera em relação a Arturo Sánchez Riva; e não porque fosse terrível, mas pelo contrário: por sua bondade, por sua reserva, por sua delicadeza. Não acreditava que sua alma fosse aprazível; quase com certeza era atormentada. Mas seu tormento era recatado, até mesmo cortês. Lhe resultava curioso observar em seu rosto os mesmos traços que no Dr. Carranza Paz, seu nariz ossudo e proemi­nente, sua fronte alta e estreita, aqueles olhos grandes e aveludados, um pouco úmi­dos: um dos cavalheiros do enterro do Conde de Orgaz. Por que então as diferen­ças? Mais uma vez compreendia que pouco significavam os ossos e a carne do rosto. Eram sutilezas, as que produziam as diferenças, às vezes abissais. Mas é que as coisas se diferenciam no que se parecem, já havia descoberto Aristóteles, a parte proustiana daquele gênio múltiplo. E era efetivamente o que aqueles olhos e aquela boca e aquele nariz ossudo, proeminente, tinham de comum, o que revelava o fosso aberto entre pai e filho. Um fosso talvez natural, mas logo aumentado pelos anos. Traços quase invisíveis nos extremos dos olhos, nas pálpebras, nas comissuras dos lábios, na forma de inclinar a cabeça e de recolher as mãos (em Marcelo, com timidez, como pedindo desculpas por tê-las, por não saber onde escondê-las), o que se­parava triste e definitivamente dois seres tão próximos e até mesmo (quase poderia afirmá-lo) tão necessitados um do outro.

In Abadon,  o Exterminador, Tradução de Janer Cristaldo, Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves Editora, 1981, p. 101.






Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...