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domingo, 8 de março de 2015

Gastão Cruz


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Nas madrugadas de segunda-feira
tinhas de regressar não sabíamos bem
a que fracção do tempo porque tudo
se sobrepunha
e éramos forçados a deter
o instante não por ser
belo, apenas por ser água
onde nunca ninguém duas vezes entraria

22
Existiam então esses momentos
que a câmara
do tempo não retinha? Ao rio das
manhãs não voltaríamos?
São as coisas concretas as mais claras
o suor o quarto a roupa abandonada

23
Os dias existiam somente por sabermos
que se lhes seguiriam
outros essa era a garantia
de sermos reais e o tempo um facto indiscutível
como a vinda do vento o movimento das
marés a força das correntes que mudavam
a posição dos barcos fazendo-os opor
à direcção da água as proas movediças

[In Observação do Verão seguido de Fogo, Rio de Janeiro: Móbile, 2013, pp. 57-59]

foto © Michael Simon 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Gastão Cruz

EM TARDES E CREPÚSCULOS 

Em tardes e crepúsculos marcados
por ferro que esmagava a esperança
revendo tempo como filme ou quadro

antes filme talvez porque continha
o movimento
do que acontece sem às vezes termos

consciência disso
em fins de tarde quando eu regressava
nem sei se do presente ou dum futuro

conhecido tu perguntavas como
seriam esses dias que pareciam
impossíveis mas, já não duvidávamos,

viriam
embora ainda fossem simplesmente
uma espécie de nuvem não direi

negra por ser o óbvio e não seria
porventura essa a cor do que viria,
esse tempo sem cor de que falávamos

quando do que virá  falamos convencidos
de que a vinda
tão temida já nada significa

e afinal é ainda possível
acreditar um pouco no sentido
de palavras ambíguas como  vida

O AR

recordando Fiama e Luís Miguel Nava
no jardim Gulbenkian

Numa tarde que excede já o inverno
busco o lugar de outrora no jardim
onde o ar recupera o dom eterno
de voltar a ser jovem quando o fim

do tempo que domou o seu desejo
o corpo lhe devolve e aquece, ao dia
o entregando; aqui num banco vejo
da mente transportados para a fria

superfície da pedra dois poetas
que sobre ela existiram, suas falas
no ar sobrevivente como rectas
perfeitas desenhando; agora cala-se

o jardim onde apenas a aragem
move a nova folhagem devagar

18 de março de 2011

[In Observação do Verão seguido de Fogo, Rio de Janeiro: Móbile, 2013, pp. 26-27]



domingo, 25 de novembro de 2012

Gastão Cruz

SEGUNDA GLOSA
ao Manuel Gusmão, que da Litania 
também recolheu os ecos

Regressámos à curva das palavras, ao
eco na abóbada total
onde a nossa pequena eternidade
como a frágil película dum filme
escurecido se fixava

Tínhamos posto as mãos sobre a pele do tempo
por baixo pressentindo
a corrente de lava enquanto esperança
e desejo sopravam
no peito raso

Entendemos agora que
quando cruelmente triunfamos
é fugaz o furor voraz dos músculos
e por isso terror e alegria, então
e hoje, nos trespassam 

[Escarpas, Rio de Janeiro, Móbile, 2011 p. 60]


quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Gastão Cruz

MARGEM DO MAR
Volto-me para ti ou antes para
o teu lugar se é que tal abstracção
é possível, noite sem
som onde tu és o eco múltiplo
procuro

ver novamente os teus vários retratos
animados pelo sol o amor ou a respiração
o sangue torna
a passar-te nos braços fotográficos
devo continuar

a narrar o percurso irregular
da tua multiplicidade
eras o ar a árvore voltar-me
para ti é como procurar
no mar os afogados


NÃO MAIS
Não mais te seguirei a um palco suburbano 
como num mês incerto de setenta e três 
ou mais exactamente

a ninguém seguirei
seja a que lugar for com o duvidoso
e porventura inútil desígnio do amor

Gastão Cruz
Escarpas
Rio de Janeiro, Móbile Editorial
2011
pp. 26-27


segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Gastão Cruz

NAO CANTES O MEU NOME EM PLENO DIA
Não cantes o meu nome em pleno dia
não movas os seus ásperos motivos
sob a luz dolorosa sob o som
da alegria

Não movas o meu nome sob as tuas
mãos molhadas do choro doutros dias
não retenhas as sílabas caídas
do meu nome da tua boca extinta

Não cantes o meu nome a primavera
já o ameaça hoje principia
a vida do meu nome não o cantes
com a tua alegria.

In Os nomes, Imagem da Linguagem, Assírio & Alvim, 1974

Fonte: Poesia e prosa no sapo.pt

Sobre Gastão Cruz

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...