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terça-feira, 21 de abril de 2015

Seamus Heaney

O VEREDICTO DE PEDRA
Quando ele se põe de pé no tribunal
Com a bengala na mão e o chapéu largo
Ainda na cabeça, mutilado pela dúvida
E um antigo desprezo de lisonjas e escusas,
Não será justiça se a sentença for balbuciada.
Ele espera mais que palavras na corte mais alta
Com a qual contou na mudez de uma vida.

Que seja como o julgamento de Hermes,
Deus do monte de pedra, onde as pedras eram veredictos
Lançados com solidez aos pés, empilhando-se em volta
Até ele encerrar-se a meio-corpo no monumento
De sua apoteose: talvez um pilar de portão
Ou um muro em ruína onde a canabrás cobre o silêncio
Que alguém há de quebrar enfim para dizer: “Aqui
Subsiste seu espírito”, e terá dito muito.

[In Poemas, Tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes, São Paulo, Companhia das Letras, 1998, p. 299]

quinta-feira, 27 de março de 2014

Seamus Heaney

OSTRAS
Nossas conchas craqueavam nos pratos.
Minha língua era um estuário se enchendo.
Meu palato curvado de estrelas:
Enquanto eu degustava as Plêiades salgadas
Órion mergulhava o pé na água.
Vivas e violadas,
Jaziam nos leitos de gelo:
Bivalves: o bulbo partido
E o suspiro galanteador do oceano.
Milhões delas rompidas, arrancadas, dispersadas.
Fôramos de carro àquela costa
Através de flores e calcários
E lá estávamos, brindando à amizade,
Depondo uma lembrança perfeita
No frescor do colmo e da louça de barro.

[In Poemas, São Paulo, Companhia das Letras, 1998, p. 141]




sábado, 28 de setembro de 2013

Seamus Heaney

1. O MINISTÉRIO DO MEDO 
Para Seamus Deane

Bom, como disse Kavanagh, vivemos 
Em lugares importantes. A solitária escarpa 
De St. Columb’s College, onde me aquartelei 
Por seis anos, sobranceava seu Bogside.
Encarei novos mundos: a inflamada garganta 
De Brandywell, a iluminada pista de corrida 
De cães, a goela da lebre. Na primeira semana 
Senti tanta saudade que nem sequer comi 
A sobra de biscoitos para suavizar meu exílio. 
Joguei-os sobre a cerca certa noite 
Em setembro de 1951 
Quando as luzes das casas de Lecky Road 
Eram âmbar na neblina. Era uma ação 
Furtiva.
            Depois Belfast, depois Berkeley.
Nós dois sob disfarce,

A cometer versos até se transformarem 
Numa vida: de gordos envelopes que chegavam 
Nas férias a magros volumes
Despachados “com os cumprimentos do autor”.
Aqueles poemas a mão, arrancados da espiral
De seu caderno de exercícios, deixavam-me perplexo —
Vogais e idéias jogadas soltas
Como as sementes que o vento levava dos sicômoros. 
Tentei escrever sobre os sicômoros 
E inovei uma rima do sul de Derry 
Com bushed e lullede ecoando pushed  e pulled.
Aquelas chancas ferradas de além da montanha 
Andavam, por Deus, pelos primorosos 
Campos da elocução.
         Terão nossos sotaques
Mudado? “Católicos, em geral, não falam 
Tão bem como os alunos das escolas protestantes.” 
Lembra-se daquela essência? Complexos 
De inferioridade, essência de que os sonhos eram feitos. 
“Qual é o seu nome, Heaney?”
               “Heaney, padre.”
                                          “Está
Bem.”
No meu primeiro dia, a correia de couro
Estalava epiléptica na sala de estudos,
Os ecos salpicando sobre nossas cabeças curvas,
Mas ainda assim escrevia para casa que a vida
De internato não era tão ruim, retraindo como sempre.

Nas férias longas, então, eu revivia
No banco de beijos de um Austin Dezesseis
Parado junto a uma empena, o motor ligado,
Meus dedos firmes como hera nos ombros dela,
Uma luz acesa a esperá-la na cozinha.
E a caminho de casa, a liberdade
Do verão minguando noite após noite, o ar
Todo luar e odor de feno, policiais
Brandiam as lanternas carmim, rodeando
O carro como gado negro, a apontarem
A boca da automática para meu olho:
“Qual é o seu nome, motorista?”.
                                                “Seamus...”
                                                                      Seamus?

Certa vez leram minhas cartas num bloqueio
E luziram os fachos sobre os hieróglifos,
“Dicções esbeltas” em letra bem floreada.

Ulster era britânica, mas sem direitos
À lírica inglesa: a nossa volta, embora
Sem mencioná-lo, o ministério do medo.

Sobre Seamus Heaney

In Poemas, São Paulo, Companhia das Letras, 1998, pp. 130-132.





Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...