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sábado, 2 de janeiro de 2016

Jorge Luis Borges

O ANJO
Que o homem não seja indigno do Anjo
cuja espada o protege
desde que o gerou aquele Amor
que move o sol e outras estrelas
até o Ultimo Dia em que ressoe
o trovão na trombeta.
Que não o arraste a vermelhos bordéis
nem aos palácios que erigiu a soberba
nem às tavernas insensatas.
Que não se entregue à súplica
nem ao ultraje do pranto
nem à fabulosa esperança
nem às pequenas magias do medo
nem ao simulacro do histrião;
o Outro o observa.
Que lembre que jamais estará só.
Ou no público dia ou na sombra,
o incessante espelho o confirma;
que não macule seu cristal uma lágrima.

Senhor, que até o fim de meus dias sobre a Terra
eu não desonre o Anjo.

O SONHO
A noite nos impõe sua tarefa
mágica. Destecer o universo,
as infinitas ramificações
de efeitos e de causas, que se perdem
na vertigem sem fundo que é o tempo.
A noite quer que esta noite esqueças
teu nome, teus ancestrais e seu sangue,
cada palavra humana e cada lágrima,
o que a vigília pôde te ensinar,
o ponto ilusório dos geômetras,
a linha, o plano, o cubo, a pirâmide,
o cilindro, a esfera, o mar, as ondas,
tua face sobre a fronha, o frescor
do lençol estreado, os jardins,
os impérios, os Césares e Shakespeare
e o que é mais difícil, o que amas.
Curiosamente, uma pílula pode
riscar o cosmos e erigir o caos.

[Poesia Borges, Companhia das Letras, 2009, pp. 340-341]



domingo, 26 de abril de 2015

Jorge Luis Borges

O OURO DOS TIGRES

Até a hora do ocaso amarelo
Quantas vezes terei contemplado
O poderoso tigre de Bengala
Ir e vir pelo predestinado caminho
Por detrás das barras de ferro,
Sem suspeitar que eram seu cárcere.
Depois viriam outros tigres,
O tigre de fogo de Blake;
Depois viriam outros ouros,
O metal amoroso que era Zeus,
O anel que a cada nove noites
Engendra nove anéis e estes, nove,
E não há um fim.
Com os anos foram me deixando
As outras belas cores
E agora só me restam
A vaga luz, a inextricável sombra
E o ouro do princípio.
Oh, poentes, oh, tigres, oh, fulgores
Do mito e da épica,
Oh, um ouro mais precioso, teus cabelos
Que estas mãos almejam.

East Lansing, 1972

(In O OURO DOS TIGRES, 1972, tradução Josely Vianna Baptista)


quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Jorge Luis Borges

O DESERTO
Antes de adentrarem o deserto 
os soldados beberam longamente da água do poço. 
Hiérocles entornou sobre a terra 
a água de seu cântaro e disse:
“Se havemos de entrar no deserto, 
já estou no deserto.
Se a sede vai me abrasar, 
que me abrase já”.
Esta é uma parábola.
Antes de me abismarem no inferno
os lictores do deus concederam que eu olhasse uma rosa. 
Essa rosa é agora meu tormento 
no obscuro reino.
Um homem foi deixado pela mulher.
Resolveram fingir um último encontro.
O homem disse:
“Se devo entrar na solidão, 
já estou só.
Se a sede vai me abrasar, 
que me abrase já”.
Esta é outra parábola.
Ninguém na terra
tem a coragem de ser aquele homem.

[In Poesia Borges, Companhia das Letras, 2009, p. 349]

Renato Casaro

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Jorge Luis Borges

O FAZEDOR
Somos o rio que invocaste, Heráclito. 
Somos o tempo. Seu intangível curso 
Arrasta os leões e as montanhas, 
Pranteado amor, cinzas do deleite, 
Insidiosa esperança interminável,
Vastos nomes de impérios que são pó,
Hexâmetros do grego e do romano, 
Lúgubre um mar sob o poder da aurora,
O sono, em que pregustamos a morte,
As armas e o guerreiro, monumentos,
As duas faces de Jano que se ignoram,
Os labirintos de marfim que urdem 
As peças de xadrez no tabuleiro,
A rubra mão de Macbeth que pode 
Ensanguentar os mares, o secreto 
Trabalho dos relógios entre as sombras, 
Um incessante espelho que se fita 
Em outro espelho, e ninguém para vê-los, 
Lâminas aceradas, letra gótica,
Uma barra de enxofre em um armário, 
Pesadas badaladas da insônia,
Auroras e poentes e crepúsculos,
Ecos, ressaca, areia, líquen, sonhos.
Não passo de imagens que o acaso 
Vai embaralhando e que nomeia o tédio.
Com elas, mesmo cego e alquebrado,
Hei de lavrar o verso incorruptível
E (é meu dever) salvar-me. 

[In Poesia Borges, Companhia das Letras, 2009, p. 327]


quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Jorge Luis Borges

Eclesiastes, 1,9
Se passo a mão de leve sobre a fronte, 
se afago as lombadas desses livros, 
se o Livro das Noites reconheço, 
se giro a terceira fechadura, 
se me demoro no umbral incerto, 
se uma dor incrível me atordoa, 
se recordo a Máquina do Tempo, 
se recordo o tapete do unicórnio, 
se mudo a posição enquanto durmo, 
se a memória me devolve um verso, 
repito o ritual inumeráveis 
vezes em meu assinalado rumo.
Não posso executar um ato novo, 
teço e torno a tecer a mesma fábula, 
repito um repetido decassílabo, 
torno a dizer o que outros me disseram, 
as mesmas coisas sinto, sempre à mesma 
hora do dia ou da abstrata noite.
Noite após noite o mesmo pesadelo, 
noite após noite o austero labirinto.
Sou o cansaço de um espelho imóvel 
ou o pó de um museu.
Somente algo indesejado espero,
só espero esse dom, ouro da sombra, 
essa virgem, a morte. (O castelhano 
permite esta metáfora.)

Poesia Borges, Companhia das Letras, 2009, p. 310-311

Kyung Hoon Min

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Jorge Luis Borges


OS JUSTOS
Um homem que cultiva seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra exista música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que em um café do Sur jogam um 
          silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não 
          lhe agrade.
Uma mulher e um homem que leem os tercetos finais de 
          certo canto.
O que afaga um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra exista Stevenson.
O que prefere que os outros estejam certos.
Essas pessoas, que se desconhecem, estão salvando o 
          mundo.

Poesia Borges, Companhia das Letras, 2009, p. 346

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Jorge Luis Borges

Em memória de angélica
Quantas possíveis vidas terão ido 
Com esta pobre e diminuta morte,
Quantas possíveis vidas que a sorte 
Daria à memória ou ao olvido!
Quando eu morrer, morrerá um passado; 
Com esta flor um futuro está morto Nas águas que ignoram, um aberto 
Futuro pelos astros arrasado.
Eu, como ela, morro de infinitos 
Destinos que o acaso não me depara;
Busca minha sombra os desgastados mitos
De uma pátria que sempre mostrou a cara.
Um breve mármore vela sua memória;
Sobre nós vai crescendo, atroz, a história.

Meus livros
Meus livros (que não sabem que eu existo)
São tão parte de mim como este rosto
De fontes grises e de grises olhos 
Que inutilmente busco nos cristais 
E que com a mão côncava percorro.
Não sem alguma lógica amargura
Penso que as palavras essenciais
Que me expressam se encontram nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevi.
Melhor assim. As vozes dos mortos
Vão me dizer para sempre.

Poesia Borges, Companhia das Letras, 2009, p. 190-191

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Jorge Luis Borges

Um sábado
Um homem cego em uma casa oca 
Fatiga certos limitados rumos 
E toca as paredes que se alongam 
E o cristal das portas interiores 
E as lombadas ásperas dos livros 
Proibidos a seu amor e a apagada 
Prataria que foi dos ancestrais 
E as torneiras de água e as molduras 
E umas vagas moedas e a chave.
Está só e não há ninguém no espelho. 
Um ir-e-vir. A mão roça a borda 
Da primeira estante. Sem querer, 
Recostou-se na cama solitária 
E sente que os atos que executa 
Interminavelmente em seu crepúsculo 
Obedecem a um jogo que não entende 
E que dirige um deus indecifrável.
Em voz alta repete e cadenciosa 
Fragmentos dos clássicos e ensaia 
Variações de verbos e de epítetos 
E bem ou mal escreve este poema.

As Causas
Os poentes e as várias gerações.
Os dias e nenhum foi o primeiro.
A frescura da água na garganta 
De Adão. O ordenado Paraíso.
O olho tentando decifrar a treva.
Os amores dos lobos na alvorada.
A palavra. O hexâmetro. O espelho.
A Torre de Babel e a soberba.
A lua que miravam os caldeus.
As areias inúmeras do Ganges.
Chuang Tzu e a borboleta que o sonha. 
As douradas maçãs de certas ilhas.
Os passos do errante labirinto.
A tela infinita de Penélope.
Dos estóicos o tempo circular.
A moeda na boca de um morto.
O peso da espada na balança.
Cada gota de água na clepsidra.
As águias, os fastos, as legiões.
César na manhã clara da Farsália.
A sombra que as cruzes deixam na terra. 
O xadrez e a álgebra do persa.
Os rastros de extensas migrações.
A conquista dos reinos pela espada.
A bússola incessante. O mar aberto.
O eco do relógio na memória.
O rei pelo machado justiçado.
O pó incalculável que foi exércitos.
A voz do rouxinol na Dinamarca.
A escrupulosa linha do calígrafo.
O rosto do suicida no espelho.
A carta do taful. O ouro ávido.
As formas de uma nuvem no deserto.
Cada arabesco do caleidoscópio.
Cada remordimento e cada lágrima.
Definiram-se todas essas coisas
Para que nossas mãos se encontrassem. 
(História da Noite)

Poesia Borges, Companhia das Letras, 2009, pp. 288-290


segunda-feira, 28 de maio de 2012

Jorge Luis Borges

O ESPELHO
Quando menino, eu temia que o espelho
Me mostrasse outro rosto ou uma cega
Máscara impessoal que ocultaria
Algo na certa atroz. Temi também
Que o silencioso tempo do espelho
Se desviasse do curso cotidiano
Dos horários do homem e hospedasse
Em seu vago extremo imaginário
Seres e formas e matizes novos.
(Não disse isso a ninguém, menino tímido.)
Agora temo que o espelho encerre
O verdadeiro rosto de minha alma,
Lastimada de sombras e de culpas,
O que Deus vê e talvez vejam os homens.

Poesia, Companhia das Letras: São Paulo, 2009, p. 282

sábado, 21 de abril de 2012

Jorge Luis Borges

O CÚMPLICE

Crucificam-me e eu devo ser a cruz e os cravos.
Passam-me o cálice e eu devo ser a cicuta.
Enganam-me e eu devo ser a mentira.
Incendeiam-me e eu devo ser o inferno.
Devo louvar e agradecer cada instante do tempo.
Meu alimento é todas as coisas.
O peso preciso do universo, a humilhação, o júbilo.
Devo justificar aquilo que me fere.
Não importa minha ventura ou desventura.
Sou o poeta.

Poesia Borges, Companhia das Letras, 2009, p. 347


Jorge Luis Borges

OS JUSTOS

Um homem que cultiva seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra exista música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que em um café do Sur jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de
certo canto.
O que afaga um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra exista Stevenson.
O que prefere que os outros estejam certos.
Essas pessoas, que se desconhecem, estão salvando o mundo.


Poesia Borges, Companhia das Letras, 2009, p. 346



Jorge Luis Borges

A CIFRA

A amizade silenciosa da lua
(citando mal Virgílio) te acompanha
desde aquela dispersa hoje no tempo
noite ou entardecer em que teus vagos
olhos a decifraram para sempre
em um jardim ou um pátio que são pó.
Para sempre? Eu sei que alguém, um dia,
irá dizer-te verdadeiramente:
"Não voltarás a ver a clara lua.
Já esgotaste a inalterável
soma de vezes que te dá o destino.
Inútil abrir todas as janelas
do mundo. É tarde. Não a encontrarás".
Vivemos descobrindo e esquecendo
esse suave hábito da noite.
Olha-a bem. Quem sabe seja a última.

Poesia Borges, Companhia das Letras, 2009, p. 363


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...