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terça-feira, 4 de agosto de 2015

Maria do Sameiro Barroso

28.
Depois da trovoada, as camélias
molhadas.
O medo passou.
A terra está fresca,
como uma lamparina a alumiar
a infância,
quando refrescos de groselha,
açucenas, matagais de amoras,
perfumavam o horizonte aberto.
Mais tarde, hortelã.

E cerejas a iluminar o palco
com a arte dos beijos.


29.
Ainda, a casa, o linho, as trepadeiras,
o orvalho.
À noite, o obscuro, o enigma,
o duplo gume,
os animais de sombra abandonando
os disfarces,
metamorfoseando-se em deuses,
sugando o corpo,
devorando o sangue,
percorrendo a manhã bicéfala,

incendiando a boca negra da lua.


[In O CORPO LUGAR DE EXÍLIO, Lisboa, 2013, pp. 28-29]

Oleg Trofimov




terça-feira, 9 de junho de 2015

Maria do Sameiro Barroso

LUA DE FOGO

Quisera adivinhar-te num cálice branco
de açucenas,
percorrer-te entre as ondas, beber, em ti,
a maresia, a lua de logo,
a rosa inarticulada de um fonema.

Depois, amar-te, entre o rosmaninho,
o feno, a alfazema,
no paraíso dos teus braços fluir,
no teu remanso ébrio,
nascer dos relâmpagos de seda,
na lâmpada nocturna,
nas uvas do teu corpo, florir,
e colher, na chama, no secreto lume,
o fruto, a estrela,

a seiva doce do poema.

[In AREIA DO TEU NOME POESIA AMOROSA, Lisboa, 2013, p. 49]

paul klee

sábado, 6 de junho de 2015

Maria do Sameiro Barroso

14.
Nada esqueço, nem o que fui,
nem o que sou.
Falta ainda uma rosa de luz,
quer seja concha, mimosa ou papoila,
boca, beijo ou coral.
Falta ainda uma canção para irradiar
a sombra.
Imensa é a escuridão dos frutos.


E o teu rosto que tomba, radioso,
no caudal azul das minhas mãos.

15.
Há uma noite para nomear a alegria,
uma voz a conjugar a lua
e os seus símbolos obscuros,
entre cimbales que me embriagam,
taças de ambrosia e veneno.
Há uma noite para reunir o canto
e trepar às raízes roxas do vazio,
nos estiletes que a noite tange
entre os violinos e a seda,
escrevendo as linhas de enxofre,
na cinza ampla


dos laranjais perdidos.

16.
Não duvidemos das rosas efémeras,
nem da primitiva luz.
Os mendigos dormem na aurora.
Não duvidemos da lembrança enferma,
da travessia inútil, da magia suprema
das palavras fidelíssimas
Não duvidemos da morte
essa toupeira incessante,
nem da vida,
chama em movimento.
chaga aberta.
Nos rios de sombra,
ateio a minha luz,


canção dos despojos. 

17.
Viajo nos paraísos que invento.
Nas anémonas negras, leio o sonho,
o cristal.
Deito-me entre sílabas
longas e breves,
pronuncio a chave, a palavra,
o incenso.
Procuro o significado dos frutos,
a lava, a cinza, a completa memória.
Numa aurora encarnada,
os genes da sombra frutificam


em opalas iridiscentes.

[In O CORPO LUGAR DE EXÍLIO, Lisboa, 2013, pp. 14-17]






quinta-feira, 1 de maio de 2014

Maria do Sameiro Barroso

CANÇÃO DAS CEREJEIRAS EM MAIO
Antigamente, as luas rodavam de outra forma,
as
pombas traziam-me a luz, o seu hálito,
por entre plátanos, madressilva e taças cheias
de cerejas, música.

Era quando os rios desaguavam em Maio,
anunciando
os dióspiros, os touros aquáticos, os touros do sol.
No mar, também as velas me festejavam
na sombra, na luz.
No Oriente as cerejeiras confluíam, em seu lume
claro, deslumbrante,
as suas flores caindo de uma só vez.

Nas cordas do ser, os harpejos fluíam e o céu
desprendia-se, de uma só vez,
na finitude amena


dos seus ramos de esplendor.

[In Poemas da Noite incompleta, Ed. Escrituras: São Paulo, 2010, p. 197]. 

Foto: Mauj Alexandre


quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Maria do Sameiro Barroso

POEMA PARA O PRIMEIRO DIA
Nasço com as luzes mais altas, acesas no penúltimo
degrau das sombras, o corpo envolto ainda
nos braços da minha laranjeira,
derrubada na escuridão tempestuosa
da última noite de Natal.
Dela sobram pássaros, laranjas, folhas,
o vento, a chuva intensa,
e a raiz parcialmente apodrecida que a fez tombar
febrilmente sobre a minha face.
A ela me acolho, à sua seiva, ao seu fulgor,
às toalhas de chuva,
e aos muros que irromperam, há muito,
para amparar as sombras
e a face fracturada destes dias.
Os seus troncos envolvem-me suavemente
nas noites, dilatadas entre a água, o incenso,
a talha barroca e a narrativa azul do ouro
e dos presépios.
Na chama das imagens fracturadas, nasço,
escutando o rodopiar das aves moribundas,
anjos furtivos adejando,
entre laranjas, música, trompetes de chuva,
escrevendo labirintos, longas espirais,
nas horas mágicas, luminosas
de um poema para o primeiro dia.

Braga, 1 de Janeiro de 2014
Maria do Sameiro Barroso

[todos os direitos reservados.
publicado no Facebook]



quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Maria do Sameiro Barroso

POEMA DE NATAL
Os pensamentos galgam as montanhas, a escuridão
e o silêncio.
Nas mãos, sulcadas de violetas e de pássaros, há navios
e espuma que se afastam,
cavalos, liras e grinaldas que seguem a lua branca
de montanhas e de renas.

No húmus fecundo da terra,
as horas tornam-se antigas, celebrando as mãos,
o inverno, o solstício,
entre harpas marinhas, corolas, cristais, leitos de giestas.
Um cântico de Natal ecoa.

O sangue negro das florestas desdobra a flor do âmbar,
os olhos abertos para a vida resumem o espaço,
possibilidade, respiração,
raiz secreta que se abre ao esplendor dos astros fulvos.
as mãos dando para o Eterno,
o céu e a púrpura espelhando as lareiras e o sol,
no seu fulgor de palavras inexactas, música primordial,
estendida na noite

que se desprende dos seus tálamos de estrelas.

Georges de la Tour


sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Maria do Sameiro Barroso

ABÓBADAS IMPRECISAS

Sobre um leito de açucenas, as cicatrizes amontoam-se.
Nos fluidos imperceptíveis, a penumbra dispersa
os antigos turbilhões, cobertos de ramagens lúgubres,
e os ranúnculos sacodem o ar, a noite das avencas,
a boca toda sem pressa de concluir a palavra,
o limite, a suavidade;

o mar suspenso entre constelações preciosas,
as palavras crescendo,
a terra vibrando num ritual análogo de velas, redes,
sargaços, sulcando a luz, os sons do nevoeiro;

os cachos, as páginas, os frutos revolvidos
diante do maravilhoso enigma da relva que respira
e vive, no lacre silencioso, fechado numa garrafa de mar.

Nas antigas gretas da geada, há borboletas rosadas,
inesperadas lunações, cristais preciosos
e a vida pode ser o início, um princípio,
entre feridas sem regresso, abóbadas imprecisas,
guizos que chocalham

pássaros ungidos com água de chuva,
insectos sobre os nenúfares lavrando a caligrafia
ardente, sublime,

sob a lua abundante que segreda uniões.

In “Meandros Translúcidos"



sexta-feira, 15 de março de 2013

Maria do Sameiro Barroso

COMO UM DITIRAMBO
Desperto, num limiar sonâmbulo, imóvel, quase opaco,
como se o mar me acordasse, nas suas lâmpadas,
e no seu fulgor me enredasse, nos seus búzios claros 
de ardor e doçura.
Entre ossadas, cimento e música, uma árvore brilha,
entre as muralhas irredutíveis de outro tempo.
No sabor de mangas, coco, a lua acorda-me,
cheia de cristais pendentes, qual árvore enamorada,
leito de gatos macios, silêncio onde um suspiro
se extingue, num novo rumor, que de novo se inicia.
No limiar da bruma, as névoas separam-se.

Como um ditirambo, a luz soletra a rota de Dioniso,
Alexandre, à beira do Hidaspes.
Nos vitrais exóticos, à luz de um candelabro,
vislumbro anis, alaúdes, elefantes de magia.
Na noite, acendem-se as jóias obscuras de secreta
alquimia.
Junto das árvores, onde os pássaros cantam,
pela manhã, a erva-doce preenche o espaço, a boca,
a névoa, onde o peito de asas sôfregas respira.

Há pouco, ânforas vazias eram os meus olhos
e amuletos de luz eram as palavras que segredavam
os navios brilhantes, que alguma palavra selou.
Há pouco, num instante apenas nasceria, se no leito
dos teus rios me banhasse,
numa só noite viveria, se no corpo das algas me espraiasse,
e, num só gesto morreria, se de tuas cisternas de cristal
me apartasse.
Nas torrentes de murmúrios e mel, há um rio
onde anémonas de sangue se associam,
para dizer as palavras transparentes.

Nos desertos onde pairam a lua e hibiscos, o céu murmura
as areias límpidas, as sombras que se desprendem
e as ânforas que se enchem-se, de novo,

no liquor luminoso de preciosos sinais.

In “Uma Ânfora no Horizonte” 2009


FANTASIA SOBRE UM TEMA BÍBLICO
Escurecem os jardins, as fontes, as cisternas,
apenas a noite e esta mulher, para mim, Saul,
coroado de treva.
Da sombra, igual ao sheol , recebo as insígnias sagradas,
do espírito divino me chega o lírio tenebroso,
a unção da morte,
e qual rebanho entre as macieiras, repouso em ti,
mulher de En-Dor,
porque as harpas tocam e as fontes vivas reclamam
o meu nome,
o meu sangue, o teu silêncio mo diz,
por isso prossigo, por isso me fortaleço
e no teu seio me demoro.
Em ti bebo a sede eterna, porque as harpas sempre
se pareceram com mulheres e as mulheres
com nenúfares, acedendo à noite incandescente,
de nardos e ciprestes.

Amanhã regressarei às pastagens celestes,
Antes sorverei o teu rútilo mel, nos teus umbrais
perfumados,
breve mandrágora, estrela entre os cardos.

secreta flor colhida em En-Gaddi.

In “Uma Ânfora no Horizonte” 2009


FRAGMENTOS HELÉNICOS
O mar, o vinho e os seus reflexos (as baías do Egeu),
a cal, o húmus, um sol de espigas plenas,
o mistério das coisas simples,
um mundo de dimensões perfeitas.

Depois, as mãos, as raízes, os muros, as manhãs
odorosas.
Uma sílaba exacta semeando um átrio,
a Primavera úbere, o mosto quente de Setembro,
o vinho cristalino, o sabor dos frutos,
cristais de Outono,
Inverno, uma rosa túmida, Eugénio de Andrade.

Como quando li, pela primeira vez
e a poesia me envolveu,
em suas sílabas nocturnas, luminosas,

como girassóis primordiais.

In “Uma Ânfora no Horizonte” 2009


Para os amigos do outro lado do Atlântico: 

MAGNÓLIA ATLÂNTICA
É de vida que o poeta se nutre, de poemas que vai beber 
aos rios,
por isso as suas palavras são carne, fruto, seiva, essência,
constelação brilhante, semeada entre os livros.
É de vida que o poeta se nutre, do cântico dos pássaros,
de vivências exóticas.

Do outro lado do Atlântico, há brisas doces, água de coco,
palmeiras estivais, e a vida recorta-se, em toda a sua luz,
construindo do nada a sua essência.
Na luminosidade dos dias, releio o Memorial de Aires,
e as lágrimas aguardam, pacientes, num jazigo,
entre momentos lépidos, passados entre Shelley,
Thackery, e Fidelia, qualquer coisa a lembrar Beethoven.

Gosto quando as narrativas se enredam e me enredam,
entre uma carta de alforria, uma referência a Heine,
os jacarandás, o cheiro do café,
ou uma reflexão sobre a abolição da escravatura.

É assim o Brasil; entre araras e araucárias,
também se pode ler Goethe, Fausto (o Prólogo do Céu),
nas brisas mornas, feitas de pedras soltas, limas,
jacarandás, limões de açúcar,
quando o cheiro a tinta das tipografias atravessa as praças,
as ruas, os cafés, o céu perfumado e o vasto oceano,

onde refulge o sal precioso da magnólia atlântica.

In “Uma Ânfora no Horizonte” 2009



terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Maria do Sameiro Barroso

O CORPO E OS SEUS LUGARES
Fermenta a mudança, a escrita, o feltro, os filtros e as atmosferas.
Fermenta a noite, errante, com os cabelos errantes
errando, os olhos narrativos,
o corpo desencadeando a forma e a matéria, os olhos fermentando
as linhas distorcidas, as fábricas e as atmosferas;

o corpo e os seus lugares registando as formas de envolver o sangue,
os fluidos errando, enlaçados,
os ritmos loucos desatando o crânio, o peito e a duração dos meses.

Numa noite suave, os violoncelos na penumbra,
os joelhos nascendo, entre a luz e as teclas, os aulos e os clavicórdios.
Caldeiras. Morcegos bruxuleando.
Os joelhos errantes errando numa Hexenlied de Mendelssohn,
as arcas cindidas juntando as trovas e os cabelos,
os joelhos e o corpo, os versos e a minha biografia
fundindo-se, numa simbiose luminosa.

Por vezes, o corpo tem linhas, instantes, lugares e neblinas
no silêncio que anuncia o fogo,
numa atmosfera verde, sublimada, nos momentos parados,

e os poetas têm olhos fundos, onde o peito se evapora,
pelo líquen cego arrancado à convulsão dos dias,
pelas harpas que dizem o corpo e a sombra,
um hálito de estrelas, a luz errante

e as umbelas límpidas, junto às umbreiras matinais.

In “Idades Sonâmbulas”

OS AMANTES DA NEBLINA
“Et tu boies cet alcool brûlant comme la vie”
Guillaume Apollinaire


Ecutas a penumbra, as veias quentes, os pântanos soltos,
a turva região, a cabeça lentíssima,
um caudal de lava que começa pelos olhos e invade
os lençóis negros.
Rarefeito é o ar e o corpo cria as suas dádivas,
as trepadeiras assinalam-te, trazendo o eco das regiões
nocturnas.
O ébano retrai-se, a realidade transforma-te.
Voam para longe os atormentados pássaros
que o olhar dilacera.
Olho os feixes magnéticos, os figos dulcíssimos.
As lareiras criam raízes terríveis e envolvem o corpo
numa língua exótica, numa evidência de musas.
E invento-te, a ti, amante da neblina,
porque Novembro é um silêncio atroz, uma casa nas nuvens,
um gemido que acorda e invade os lençóis negros,
sobre uma evidência putrefacta.
As pérolas são longos e meditabundos silêncios.
Com elas enlouqueço.
Os pulsos escondem-se na penumbra.
Talvez pelos círculos, os laços, a sucessão das bagas,
de romãs e crisântemos.
Talvez pelos círculos, as palavras e as luzes se fechem,
em uníssono, num álcool incessante,
com o respirar das candeias.


In "Amantes da Neblina"
Pierre Bonnard

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Maria do Sameiro Barroso

POEMA PARA MARIA GABRIELA MARTINS
Frescura alvíssima de magnólia e nuvens,
assim és tu, estrela branca, figura esguia,
roteiro de sol,
chama derramada, na fronte algarvia.

Na noite de pérolas, és amendoeira puríssima,
jardim luminoso,
recanto onde voam aves antiquíssimas,
entre as pedras, o limbo,
as águas mouras, as águas cintilantes,
as águas de Abril.

Porque te conheci, um dia, como exaltada flor,
no teu país de brisas doces,
é que repenso o agora, o antes, o sempre,
penso nas rimas perfeitas, nas águas lentas,
coloco um candelabro sobre a mesa,
escuto as estrofes do silêncio,
neste lugar onde o arvoredo brama
e a palavra brilha, no espaço
em que a poesia é a ramagem eleita,
sobre castelos semeados,

na lua clara de preciosas sementes.

Fonte:  sites.google.com/site/nasmargensdapoesia/poetas/maria-do-sameiro-barroso


Thomas Moran

domingo, 16 de dezembro de 2012

Maria do Sameiro Barroso

O ÓPIO DA MEMÓRIA
A primeira luz de uma página em branco concentra
em si, o espaço solar, os fetos marinhos,
as tulipas do mar, uma espinal-medula primitiva
e o corpo é o desejo extenso, um circunlóquio de música,
onde tudo se busca e transfigura,
no auge da sede, no fulgor dos rumores,
porque todo o seu límpido instante é um corpo
de palavras transgressoras.

No silêncio, há versos, reversos, sombras carregadas,
transparentes solstícios.
Pela pulsação errática, os meteoros deslizam
e as rodas inventam os mecanismos, onde um ópio
delirante circula, as nuvens se movem, e a consciência lateja.

Os textos são nevrálgicas fontes, nebulosas de fogo
onde o gelo se concentra.
A intermitência, a vida, os recortes respiráveis,
a busca de um horizonte vegetal desenha-se
na poeira cósmica dos olhos sacrificados,
pelos polvos à deriva.

Por vezes, apenas nas secreções marinhas,
as pálpebras encontram a serena melodia
a inundar a resposta.
Na pulsação singular, toda a matéria é vazio,
plenitude, abundância, onde as melodias se enredam,
se alargam à sede.
Para chegar à saciedade, talvez já não haja caminho,
nem pássaros no jardim que escrevo.
Talvez nos cárceres da memória,
ou apenas nas cicatrizes se inscreva 
o cristal iridiscente, o sol luminoso,
o céu de muitos espelhos, as constelações de luz,

o ardor de muitos séculos.

[Poemas da Noite incompleta, São Paulo: Escrituras, 2010, pp. 110-111]. 


AMADEO DE SOUZA-CARDOSO



segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Maria do Sameiro Barroso

O INCÊNDIO PURO
Nascer, quando orquídeas de sangue flutuam
nas tuas mãos, silvas pelos muros,
exultante, a febre, a água, a imensidão,
as pálpebras fechadas,
Rogério Ribeiro
a música despenhando-se pela boca, pela erva,
no galope silencioso da lua, do orvalho,
a apoteose secreta lavrando a pele, os lírios,
a tuberosa lassidão.

Nas resinas da noite, nascer, na tua boca,
o pranto, o riso, a agonia.
Nascer, a face toda, o canto aceso, a areia,
o barro, o canto dos pássaros,
o perfume das árvores, das flores
(tílias, laranjeiras),
o já vivido, o nunca vislumbrado,
a gota sonolenta, as rédeas soltas,
os corcéis de seda percorrendo a terra,
o mar, os veios, a pedra,

o sonho inteiro. 

TATUAGEM
Cabeleira de sangue, vinho de tâmaras, substâncias
mágicas.
E nós, tatuados um no outro, perdidos para sempre.
Dá-me a tua mão. Quem sabe?
E doces serão as roseiras, a vertigem da noite,
a crineira de névoa,
ou os versos que escrevo, sobre verde malaquite,
nos torreões de sono.

Cabeleira de sangue, cabeleira de fogo, linfa cindida,
crineira errante.
Mágicas eram as serpentes líquidas.
E nós vivíamos entre as algas, as plantas venenosas,
os leves colibris.
Nesse tempo, eu gostava de sumo de maçã,
morangos, cogumelos.
Tu falavas de jasmim.

Cabeleira de sol, crineira de gelo, vinho nocturno.
E nós, tatuados nas estrelas,
as cigarras escrevendo os seus hinos
sobre os nossos corpos,
suas vozes rimando, como textos,
o mar embalando os búzios do sonho.

Cabeleira obscura, cabeleira negra, cabeleira
fresca.
E nós, acordando sobre os jardins de orvalho,
nada sabíamos das nuvens, da ímpar fusão,
do jasmim de névoa.

Algo precisava de se cumprir.

Sobre Maria do Sameiro Barroso

Poemas da Noite incompleta, Ed. Escrituras: São Paulo, 2010, pp. 52-53.


AS CENTELHAS DO LUME
Como o fulgor dos oceanos, revivo um corpo,
o seu nome, o lume que nos insectos lateja,
quando a chuva preenche a terra, o seu tumulto,
em busca das aves que partem,
na febre migratória de conhecer o fogo, o céu.

O conhecimento é então a comunicação aberta,
vertida no éter dos sonhos.
Na boca, salpicada de mar,
o húmus é a habitação dos grandes relógios,
o amor, a grande ambição do tempo,
o céu o seu umbigo mágico,
que o sol acompanha,
com suas guitarras de luar.

Na volatizada estrela, há um tremor
que a música fere, nas centelhas esquecidas,
sob os vulcões onde o coração resplandece,
na terra incendiada,

coberta de mágicos perfumes.

Poemas da Noite incompleta, Ed. Escrituras: São Paulo, 2010, p. 114. 

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...