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quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

García Lorca

CACIDA DA MÃO IMPOSSÍVEL

NÃO quero mais que uma mão,
mão ferida, se possível.
Não quero mais que uma mão,
inda que passe noites mil sem cama.

Seria um lírio pálido de cal,
uma pomba atada ao meu coração,
o guarda que na noite do meu trânsito
de todo vetaria o acesso à lua.

Não quero mais que essa mão
para os diários óleos e a mortalha de minha agonia.
Não quero mais que essa mão
para de minha morte ter uma asa.

Tudo mais passa.
Rubor sem nome mais, astro perpétuo.
O demais é o outro; vento triste
enquanto as folhas fogem debandadas.

[In Romanceiro Gitano e outros Poemas, trad. Oscar Mendes, Rio de Janeiro: José Aguilar Editora, 1974, p. 184]






terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

García Lorca

TRÊS HISTORIETAS DO VENTO

I
O vento vinha vermelho
pelo desfiladeiro encendido
e ficou verde, verde
pelo rio.
Logo ficará violeta,
amarelo e...
Será sobre as semeadas
um arco-íris estendido.

II
Vento estancado.
Em cima o sol.
Abaixo
as algas trêmulas
dos álamos.
E meu coração
tremendo.
Vento estancado
às cinco da tarde.
Sem pássaros.

III
A brisa
é ondulada
como os cabelos
de algumas raparigas.
Como os marzinhos
de alguns velhos mapas.
A brisa
brota como a água
e se derrama
- como um bálsamo branco -
pelas canhadas,
e desmaia
ao chocar-se com o duro
da montanha

1927

[In Poemas Esparsos, In Obra Poética Completa, Tradução Willian Angel de Mello, São Paulo, Martins Fontes, 1996,  pp. 627-629].

segunda-feira, 12 de maio de 2014

García Lorca

ELEGIA A DONA JOANA, A LOUCA
DEZEMBRO DE 1918
(Granada)
A MELCHOR FERNÁNDEZ ALMAGRO

PRINCESA enamorada sem ser correspondida.
Cravo vermelho num vale profundo e desolado.
A tumba que te guarda ressuma tua tristeza
através dos olhos que abriu sobre o mármore.

Eras uma pomba com alma gigantesca
cujo ninho foi sangue de solo castelhano,
derramaste teu fogo sobre um cálice de neve
e ao querer alentá-lo tuas asas se partiram.

Sonhavas que teu amor fosse como o infante
que te segue submisso recolhendo teu manto.
E em vez de flores, versos e colares de pérolas,
te deu a Morte rosas murchas em um ramo.

Tinhas no peito a formidável aurora
de Isabel de Segura. Melibéia. Teu canto,
como calhandra que olha quebrar-se o horizonte,
se toma de repente monótono e amargo.

E teu grito estremece os alicerces de Burgos.
E oprime a salmodia do coro cartusiano.
E choca com os ecos dos lentos sinos,
perdendo-se na sombra tremente e lacerado.

Tinhas a paixão que dá o céu da Espanha.
A paixão do punhal, da olheira e do pranto.
Oh! princesa divina de crepúsculo vermelho,
com a roca de ferro, e de aço o fiado!

Nunca tiveste o ninho, nem o madrigal dolente,
nem o alaúde jogralesco que soluça distante.
Teu jogral foi um mancebo com escamas de prata,
e um eco de trombeta sua voz enamorada.

E, sem embargo, estavas para o amor formada,
feita para o suspiro, o mimo e o desmaio,
para chorar tristeza sobre o peito querido,
desfolhando uma rosa de olor entre os lábios.

Para olhar a lua bordada sobre o rio
e sentir a nostalgia que em si leva o rebanho
e olhar os eternos jardins da sombra,
oh! princesa morena que dormes sob o mármore!

Tens os olhos negros abertos à luz?
Ou se enroscam serpentes em teus seios exaustos...
Para onde foram teus beijos lançados aos ventos?
Para onde foi a tristeza de teu amor desgraçado?

No cofre de chumbo, dentro de teu esqueleto,
terás o coração partido em mil pedaços.
E Granada te guarda como santa relíquia,
oh! princesa morena que dormes sob o mármore!

Heloísa e Julieta foram duas margaridas,
mas tu foste um vermelho cravo ensanguentado
que veio da terra dourada de Castela
para dormir entre neve e ciprestais castos.

Granada era teu leito de morte, Dona Joana,
os ciprestes, teus círios; a serra, teu retábulo.
Um retábulo de neve que mitigue tuas ânsias,
com a água que passa junto a ti! A do Douro!

Granada era teu leito de morte, Dona Joana,
a das torres velhas e do jardim calado,
a da hera morta sobre os muros vermelhos,
a da névoa azul e da murta romântica.

Princesa enamorada e mal correspondida.
Cravo vermelho num vale profundo e desolado.
A tumba que te guarda ressuma tua tristeza
através dos olhos que abriu sobre o mármore.

[In Livro de Poemas (1921), In Obra Poética Completa, Tradução de Willian Angel de Mello, Martins Fontes, São Paulo, 1996, pp. 29-31].





domingo, 6 de outubro de 2013

García Lorca

TRÊS RETRATOS COM SOMBRAS

VERLAINE
A canção,
que nunca direi,
adormeceu em meus lábios.
A canção 
que nunca direi.

Entre as madressilvas 
havia um vaga-lume, 
e a lua feria 
com um raio a água.

Então eu sonhei
com a canção
que nunca direi.
Canção cheia de lábios
e de álveos distantes.

Canção cheia de horas
perdidas na sombra.
Canção de estrela viva
sobre um perpétuo dia.

BACO
Verde rumor intacto.
A figueira me estende os braços.

Como uma pantera, sua sombra 
espreita a minha lírica sombra.

A lua conta os cachorros.
Equivoca-se e começa de novo.

Ontem, amanhã, negro e verde, 
rondas meu cerco de lauréis.

Quem como eu te quereria, 
se me mudasses o coração?

... E a figueira grita para mim e avança 
terrível e multiplicada.

JUAN RAMÓN JIMÉNEZ
No branco infinito,
neve, nardo e salina,
perdeu sua fantasia.

A cor branca anda 
sobre um mudo tapete 
de penas de pomba.

Sem olhos nem ademã 
imóvel sofre um sonho.
Mas treme por dentro.

No branco infinito, 
quão pura e longa ferida 
deixou sua fantasia!

No branco infinito.
Neve. Nardo. Salina.

In Canções (1921- 1924), In Obra Poética Completa, São Paulo, Martins Fontes, 1996, trad. Willian Angel de Mello, pp. 299-301



quarta-feira, 4 de setembro de 2013

García Lorca

ODE AO SANTÍSSIMO SACRAMENTO DO ALTAR 
(FRAGMENTO)
(Homenagem a Manuel de Falla)

exposição

Pange lingua gloriosi 
corporis misterium.

 Cantavam as mulheres pelo muro cravado 
quando te vi, Deus forte, vivo no Sacramento, 
palpitante e despido, como um petiz, que corre 
perseguido por sete novilhos capitais.

Vivo estavas Deus meu, dentro do ostensório. 
Picado pelo teu Pai com agulha de lume. 
Palpitando como o pobre coração da rã 
que os médicos põem dentro do frasco de vidro.

Pedra de solidão onde a relva se lamenta 
e onde a água escura perde seus três acentos, 
elevam-te a coluna de nardo sob a neve 
sobre o mundo de rodas e falos que circula.

Eu fitava tua forma aprazível boiando 
na ferida de azeites e pano de agonia, 
e virava meus olhos para darem no doce 
tiro ao alvo de insônia sem um pássaro negro.

É assim, Deus passageiro, que te quero ter. 
Pandeirinho de farinha pro recém-nascido.
Brisa e matéria juntas em expressão exata, 
por amor à carne que desconhece teu nome.

É assim, forma breve de rumor inefável,
Deus em mantilhas, Cristo diminuto e eterno, 
repetido mil vezes, morto, crucificado 
pela impura palavra do homem sudoroso.

Cantavam as mulheres na arena sem ter norte, 
quando te vi presente sobre teu Sacramento. 
Quinhentos serafins de resplandor e de tinta
 teu racemo no domo neutro saboreavam.

Oh! Forma Sacratíssima, vértice das flores, 
onde os ângulos todos tomam suas luzes fixas, 
onde número e boca constroem um presente 
corpo de humana luz com músculos de farinha!

Oh! Forma limitada para expressar concreta 
multidão de luzes e de clamor percebido!

Oh! neve circundada por timbales de música! 
Oh! chama crepitante sobre todas as veias!

Federico García Lorca, Romanceiro Gitano e outros Poemas, trad. Oscar Mendes, Rio de Janeiro: José Aguilar Editora, 1974, pp. 242-243


Susana Giraudo

sábado, 1 de junho de 2013

García Lorca

SE MINHAS MÃOS PUDESSEM DESFOLHAR
10 DE NOVEMBRO DE 1919
(Granada)

Eu pronuncio teu nome 
nas noites escuras, 
quando vêm os astros 
beber na lua 
e dormem nas ramagens 
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco 
de paixão e de música.
Louco relógio que canta 
mortas horas antigas.

Eu pronuncio teu nome, 
nesta noite escura, 
e teu nome me soa 
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas 
e mais dolente que a mansa chuva.

Amar-te-ei como então 
alguma vez? Que culpa 
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma, 
que outra paixão me espera?
Será tranquila e pura?

Se meus dedos pudessem 
desfolhar a lua!!

Livro de Poemas (1921), In Obra Poética Completa, Martins Fontes, São Paulo, 1996, trad. Willian Angel de Mello, p. 47


domingo, 12 de maio de 2013

García Lorca

SOLIDÃO INSEGURA (Noite)
Noite de flor fechada e veia oculta.
— Amêndoa sem coalhar de verde tato —
Noite cortada por demais depressa,
as folhas e as almas abalava.
Peixe mudo pela água de amplo som
lascivo se banhava no tremente,
luminoso marfim, recém-cortado
ao da lua chavelho adolescente.
E se o centauro canta nas ribeiras
deliciosa canção de trote e flecha
ondas recolham glaucas seus acentos
com uma dor de nardos sem limites.
Lira bailava na fingida curva,
alvo imóvel de imóvel geometria.
Dormem na escuridão olhos de lobo
renunciando ao sangue das ovelhas.
No lado oposto, Filomela canta,
umidades de heras e jacintos,
com  no ar uma queixa de Sul louco
sobre a da fonte flauta fixada.
Enquanto em meio do sombrio horror
fingindo cantos e aguardando medo
voz inquieta de náufrago soava.

...............................................................
Lírios de espuma cem e cem estrelas
baixaram porque ondas não havia.
Seda em tambor fica reteso o mar,
enquanto Tetis canta e soa Zéfiro.
Palavras de cristal e brisa escura
redondas sim, os peixes mudos falam.
Academia no claustro dos íris
sob o êxtase denso e penetrável.
Chega bárbara ponte de delfins
onde a água se transforma em mariposas,
colar de pranto nas areias finas,
sem braços a voar à cordilheira.

............................................................
Rola gelada a lua, quando Vênus
com a cútis de sal na areia abria
brancas pupilas de inocentes conchas.
A noite cobre seus precisos rastros
com chapins feitos de fósforo e espuma.
Enquanto hirto gigante sem latido
raspa as espáduas tépidas sem vênera.
O céu exalta cicatriz borrosa,
vendo mudada sua carne em carne
que participa da funesta estrela
e o molusco de medo sem limite.

...........................................................


Federico Garcia Lorca, Romanceiro Gitano e outros Poemas, trad. Oscar Mendes, Rio de Janeiro: José Aguilar Editora, 1974, pp. 228-229



quinta-feira, 2 de maio de 2013

García Lorca


1910
(Intermezzo)

Aqueles olhos meus de mil e novecentos e dez
não viram enterrar os mortos,
nem a feira de cinza do que chora pela madrugada,
nem o coração que treme arrincoado como um cavalinho de mar.

Aqueles olhos meus de mil e novecentos e dez 
viram a branca parede onde as meninas urinavam, 
o focinho do touro, a seta venenosa 
e uma lua incompreensível que iluminava pelos cantos 
os pedaços de limão seco sob o preto duro das garrafas.

Aqueles olhos meus no pescoço da égua,
no seio traspassado de Santa Rosa dormindo 
nos telhados do amor, com gemidos e mãos frescas, 
num jardim onde os gatos devoravam as rãs.

Desvão onde o pó velho congrega estátuas e musgos, 
caixas que guardam silêncio de caranguejos devorados 
no lugar onde o sonho tropeçava em sua realidade.
Ali meus pequenos olhos.

Não me perguntem nada. Já vi que as coisas 
quando buscam seu curso encontram seu vazio.
Há uma dor de vácuos pelo ar sem gente 
e em meus olhos criaturas vestidas, sem nudez!

Nova Iorque, agosto de 1929

Federico Garcia Lorca, Romanceiro Gitano e outros Poemas, trad. Oscar Mendes, Rio de Janeiro: José Aguilar Editora, 1974, p. 94.



quinta-feira, 7 de junho de 2012

García Lorca

RUÍNA
A Regino Sainz de la Maza

Sem encontrar-se
Viajante pelo seu próprio torso branco.
Assim ia o ar.

Logo se viu que a lua
era uma caveira de cavalo
e o ar uma maçã escura.

Detrás da janela,
com látegos e luzes se sentia
a luta da areia contra a água.

Eu vi chegarem as ervas
e lhes lancei um cordeiro que balia
sob seus dentezinhos e lancetas.

Voava dentro de uma gota
a casca de pluma e celulóide
 da primeira pomba.

As nuvens, em manada,
ficaram adormecidas contemplando
 o duelo das rochas contra a aurora.

Vêm as ervas, filho;
já soam suas espadas de saliva
pelo céu vazio.

Minha mão, amor. As ervas!
Pelos cristais partidos da morada
o sangue desatou suas cabeleiras.

Tu somente e eu ficamos;
prepara teu esqueleto para o ar.
Eu só e tu ficamos.

Prepara teu esqueleto;
é preciso ir buscar depressa, amor, depressa,
nosso perfil sem sonho.

Federico Garcia Lorca, Romanceiro Gitano e outros Poemas, Rio de Janeiro: José Aguilar Editora, 1974, p. 134



Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...