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sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Cláudio Daniel

ZAUBERBUCH
A Jorge Luís Borges

Todos
os livros
- os Sutras, o Corão,
os Vedas, o Zohar -
são enigmas: jardins verticais,
rios insubmissos,
listras de mármore possesso;
todas as páginas
- em lâminas de argila, pele de carneiro,
folhas de papyro ou rubro ouro esculpido -
são impossíveis, viscerais,
areia alucinada.
Os livros, Borges, inventam os leitores
e os nomes de vales, savanas, estepes
e de amplas avenidas que ignoramos;
vivemos essa efêmera realidade
para lermos suas secretas linhas,
e nossos filhos e netos.
Um dia, porém, os livros
- últimos demiurgos — desaparecerão,
como o grifo e o licorne,
e ler será apenas lenda.

[In: Roteiro da Poesia Brasileira - anos 90, seleção e prefácio Paulo Ferraz, São Paulo: Global, 2011, p. 64]


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Cláudio Daniel


A ARTE DA POESIA
Os poetas em Lizzey são todos cegos.
Caminham apoiados em bengalas em
forma de serpente e são guiados por
cães que lhes mordem as pernas e
depois lambem as feridas. Ninguém
pode tocá-los, nem mesmo ficar à sua
sombra ou dirigir-lhes a palavra sem
sujar-se. Eles se arrastam pelas ruas
declamando seus romances, cuspindo
as sílabas entre caretas de suas bocas
tortas. Quando um poeta consegue
causar êxtase à multidão, às vezes pela
pronúncia de uma única palavra, todos
se calam e ficam como sonâmbulos.
Depois, como recompensa, os habi-
tantes de Lizzey juntam paus e pedras
e apedrejam o rapsodo. O seu corpo,
então, é disputado com avidez pelas
feras, que nada sabem de poesia.

(Inédito)

Sobre Cláudio Daniel

Fonte: Poetas na Biblioteca Antologia, São Paulo: Fundação Memorial da América Latina, 2001, p. 75

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...