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domingo, 8 de junho de 2014

Weydson Barros Leal

A HERANÇA
Nada resta a este inventário - feitas
as contas depois da viagem - além  
das perdas do esquecimento ou
o surdo motivo de uma lembrança.

Afinal, um testamento é só o calendário
onde a cada dia podes contar teus bens
e lembrar que o relógio é a moenda
por onde a vida passa e tudo isso acaba.

Por isso eu te guardo, e lembro, e canto,
como a herança que, se fosse declarada,
seria entregue ao mundo como a chama
que acende a vida e jamais se apaga.

POEMA DO AMOR MELHOR
Amo a imperfeição das sebes,
as dúvidas do tempo no
relógio da chuva,
as instâncias do fogo ao respirar
a própria luta,
o talho da semente
ao explodir em planta, em fruta.
O amor não caminha sempre reto,
sem mácula, imune,
o amor também é o fardo
de sua incompletude,
é a incoerência de algo
que lhe custe.
O amor é o entendimento
do imprevisto, do louco, do absurdo,
é o corpo que não cabe
mais na roupa, no seu molde,
em seu ajuste,
mas quando tudo está perdido
é o amor a esperança que nutre.
O amor às vezes
se desnuda
sob a dor que ausenta e pune
na distância do abraço
quando um nó confunde o laço.
O amor resiste sendo carne, flecha, alvo,
pois em seu íntimo organismo vive
a força intraduzível,
a definição
do mais difícil.
Vencer um rio imenso,
um deserto ou a mais alta
cordilheira,
não é nada diante desse fogo
que sabe a vida inteira
a certeza do outro.

(Inéditos)

Photo by Renato Santicchia‎


domingo, 13 de abril de 2014

Weydson Barros Leal

GERAZ
O encanto é seu espelho. O doce espelho
que guarda do outro lado a mão que o toca,
mas não permite o ganho de contê-lo.
Pois é estranho como num só dia

nascem a alegria e o sofrimento,
e a pétala do bem também é o mal
que se resfria ao toque do metal.
A vida é este encontro mas também

é afastamento: o pão que agora é doce,
amanhã é o amargo do centeio,
e a tal proximidade desse espelho
faz crescer a vontade que faz mal...

A sede deste encanto não sacia,
pois feito o pão do amor também é sal.

[In A Quarta Cruz, Rio de Janeiro: Topbooks, 2009, p. 45]

Marsden Hartley


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Weydson Barros Leal

O TEAR DA MANHÃ
Os três únicos fios
dessa corda que teço,
são sentenças na boca
que me morde por dentro;

são três tripas de corda
de um sisal que não meço,
mas que aos poucos me engolem
como o dia o seu estro;

essas linhas que cruzo,
que manejo, que intento,
são da cesta os arreios
a frear o seu peso;

não conheço o traçado
de seu curso, o desenho,
sei que os fios são gritos
da mudez, do incêndio;
essa corda que arrasta
por meu corpo o seu beijo,
risca o chão, cada tábua
duma escada que desço,

que componho e desfaço,
que equilibro e é penso,
e ao ser chão é patíbulo
dessa boca que invento.


[In A Quarta Cruz, Rio de Janeiro: Topbooks, 2009, pp. 35-36]




terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Weydson Barros Leal

Divitiae
No princípio era a festa,
depois do fim, o orgulho.

Com o tempo,
com o passar dos anos e dos retratos
de seus novos amores, a distância esqueceu os reflexos
daquelas falsas bandeiras, e seu convés era mais nulo
do que o silêncio do morto,
mais devassável do que sua rouca escultura.

As velhas carências permitiam que a cidade fosse tomada
[por qualquer salteador,
e todos os nomes diziam que suas conquistas
foram ordenações de degredados.
Seu riso era apenas a solidão
que sob os olhos ela não conseguia povoar.

Como a luz que se dissolve na noite, seu orgulho deu lugar
a uma comiseração que também era sua pena,
e tudo, então, foi só a lembrança de uma antiga alegria,
ou algo que já não reflete a beleza que para sempre
será sua inverídica ressurreição.

[In A Quarta Cruz, Rio de Janeiro: Topbooks, 2009, pp. 60-61]

Sobre Weydson Barros Leal

Stephen Chaplin



Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...