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sábado, 21 de novembro de 2015

Carminha Gouthier

PAÍS SEM FRONTEIRAS

Ó Tu que remas,
qual o nome deste grande mar?
A água azul, de tão azul, tingiu meus olhos,
a água azul tingiu meus sonhos.

Perdi o rumo das enseadas
e o contorno dos mil países

Não quero caminho, não quero norte,
não quero agulhas de navegante.

Sei de terras lá muito longe,
de um palácio sem morador.
Sei de uma estrada — de onde vem?
que é longa e reta - para onde vai?

O tu que remas tão devagar,
As horas caem das tuas mãos.

Há luzes mortas nos horizontes
e estranho apelo para a solidão.

 By Ahmed Ammar


domingo, 24 de março de 2013

Carminha Gouthier

ADORO-TE
Adoro-Te,
maravilhada,
quando plantas na areia selvagem
cedros e acácias,
murtas e oliveiras,
quando chamas as estrelas pelo nome.

Temendo,
quando surges na ilha da visão:
olhos de fogo,
pés de metal ardente,
na Tua voz, ruído de muitas águas,
na boca, a espada de dois gumes.
Distante e violento,
a medir, a pesar,
a julgar para sempre.

Comovida,
quando Te sei humano,
estremecendo de dor
ante a pedra de um sepulcro.

Amando Teus amigos
com a ternura
com que amo os meus.

Carminha Gouthier, Mystica Poesia - Poemas Reunidos, p. 139.

sábado, 9 de março de 2013

Carminha Gouthier

COM O ÓLEO DA ALEGRIA
Se não queres que descanse nos Teus ombros
minha fronte atormentada...

E não me convidas para as colheitas de trigo, 
onde espigas vibram à música de Tuas Palavras...

Nem me permites brincar com algas e conchas 
na areia da praia,
onde os Teus consertam redes, no oficio de pescar...

Se tropeço nas raízes da Cruz,
ao colher as flores que amanhecem nos Teus rastros.

E tenho de ficar sozinha,
esquecida,
até que venhas...

Unge meus olhos, para que Te reconheçam 
sob o véu de todas as ausências.

E meus joelhos,
para que possa equilibrar-me
nesse fio de luz estendido sobre os abismos.

Mystica poesia, poemas reunidos, ed. José Hipólito de Faria, Belo Horizonte, 2003, p. 110

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Carminha Gouthier

ATÉ O VALE SEM CREPÚSCULO
Atrás de fontes, água corrente,
água de nuvem,
caminhei.

Na hora mais nítida
pelas searas levei
olhos de espera
cestos vazios.

Já anoitece.
Volto chorando.

Nos ombros, o manto que se rasgou.
Nas mãos, o que pude salvar:
- a Carta do meu País,
a flor da magnólia,
estes versos de Amor.

Mendigo ainda.

Não mais o poço que foi encontrado
e dá mais sede.

Não mais o pão que os Anjos trazem,
cozido em cinzas,
para a viagem.

Além de mim,
além do hoje,

caminharei,

até a Fonte prometida
à estrangeira,
na pausa de Sicar.

Até o vale sem crepúsculo,
onde o trigo amadurece
ao esplendor da Sua Face.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Carminha Gouthier

E EU ME CURVO DE DOR
Teus rebanhos se multiplicam
em doce alvura pelo sem fim,
teares trabalham dia e noite,
urdindo mantos de inverno.

E eu me curvo de frio.

Espigas silenciam de tão pesadas,
abelhas dançam música
nos ramos floridos,
o mel transborda nas Tuas medidas.

E eu me curvo de fome.

Em tuas arcas refulgem
braceletes, diademas, pérolas,
que ninguém pode contar. 

E eu me curvo de dor,

porque levaste
o pequeno aro de ouro da minha mão.

DE ONDE O LAMENTO?
Tão próximo este mar,
grande a noite que desceu,
treva única, murmurante.

Onde a montanha,
o barco,
papagaios que dançavam cores
em hastes invisíveis?

Ondas da noite?
Ondas do mar?

Abismos de sombra,
estrelas paradas,
abismos humanos,
angústias somadas.

De onde o lamento?

Navio fantasma
levou tantos sóis
levou tantos sonhos,
levou o que era
de muito guardar...

Levou o anel
de nome gravado,
levou os vestidos
tecidos de prata.

De onde o lamento?
Da noite ou do mar?

Das praias de hoje,
da serra longínqua,
dos velhos telhados?

De onde o lamento,
ninguém saberá.

Mystica poesia, poemas reunidos, ed. José Hipólito de Faria, Belo Horizonte, 2003, pp. 136-137
Lasar Segall (1909)

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Carminha Gouthier

FERIDOS, SILENCIARAM
Era tempo de colheita.

Auroras inesperadas,
a Letra das Escrituras
ungindo as horas para
a Eternidade.

E
eu segredava:

podes levar o que quiseres,
deixando-me
as dimensões da Cruz,
para conferir o que restar.

Então vieste,
sem aviso.

Cega de espanto,
quis regatear.

Cega diante da Tua Vontade,
espada de gume ardente,
fogo a lavrar
nos ermos da minha fé,
nos ermos da minha dor.

Cega, feri os pulsos no Teu Sigilo.

Feridos, silenciaram.

Era tempo de dar.

In Mystica poesia, poemas reunidos, ed. José Hipólito de Faria, Belo Horizonte, 2003

JERCI MACCARI



sexta-feira, 6 de abril de 2012

Carminha Gouthier

FERIDA ABERTA 
Caminharemos juntos. 
Aqui está minha cabeça povoada de coisas inúteis, e poderás enchê-la de espinhos. 

Aqui estão os ombros já meio curvos, 

que descerão mais, 
para o equilíbrio da cruz. 

Subiremos a grande montanha. 

Subiremos, e talvez me canse. 
Tu irás bem devagar, para que meus pés
não fiquem muito longe dos Teus pés. 

No alto haverá o mistério do desamparo, 

ferida aberta no mistério da esperança. 
E mais um pouco, as sombras cairão rápidas
sobre os vestígios dos meus passos.

Carminha Gouthier, Mystica Poesia - Poemas Reunidos, p. 92




sábado, 31 de março de 2012

Carminha Gouthier


Seja louvado
Pelo muito que me dá,
por tudo que tirou,
pela neve que caiu,
pelo fogo que me lavrou.

Pela herança de solidão
que me esperava,
pelo acréscimo de solidão
que me acompanha.

Pelas mão ávidas
de estrelas,
que se calaram
submissas.

Pelos olhos que exigiam itinerários do espaço,
para fugas imprevistas.

Olhos que aceitam
as margens desnudas,
os limites tão próximos,
a réstia de sol no retângulo da mesa.

Seja louvado,

com os lábios que bendizem a pedra do moinho,
as horas trituradas.



Carminha Gouthier


Náufrago
Sobre esta praia
de areias ardentes e selvagens
me debruço;
ouvindo o lamento

dos que foram tragados
porque não acreditaram,
dos que fugiram sem esperança.

Sobre esta praia
de areias ardentes e selvagens
me levanto,
pressentindo as trombetas longínquas
do carro de ouro
que recolhe os náufragos.


Carminha Gouthier


A  cidade encantada
Sentir que estes horizontes serão sempre os mesmos
todos os dias.

Saber que para além
está o mundo grande iluminado.

Medir com a inquietude da minha aspiração
as distâncias que se desdobram infinitamente.

E a cidade encantada
vai ficando cada vez mais longe.

Bem que eu alongo os meus braços
alongo
para alcançá-la.

Alongo os meus braços inutilmente.



Carminha Gouthier

Não Te demores
Como um cego tento reconhecer
as pedras, as casas, a veste do irmão, tento reconhecer-me.

Quem é o peregrino que tropeça em si mesmo,
que país será este,
tão sem auroras?

Como um cego,
pássaro ferido, jogado não sei onde.

Sinto as horas caindo desamparadas,
sobre as areias da solidão.

E sobre as areias, sobre as águas,
sobre as nuvens caminharás.

Não Te demores,
que esta ilha é de crepúsculo e cinza ...

E eu aprendo chorando
o Cântico Novo para a Tua Chegada.

 (A Luz e o Trigo, pág. 72). 

SOBRE CARMINHA GOUTHIER





Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...