POTLATCH
Onde o espírito se satisfaz,
mede-se a grandeza de sua perda
HEGEL
Do que perdi, nada tinha.
Lenha de cansaço na fogueira das feras,
meu rosto do canário e a noite esperando a música chegar.
Isso tudo caiu do meu bolso ao dobrar a esquina.
Meus ouvidos doem: uma gravidade solar
vergou a espinha do mundo e já não existem mais
retas, nem rios, nem gotas d’águas perdidas
nos pontos de fuga.
Um homem repousa a cabeça em fluxos de ciclone.
Há que se encontrar um gesto que faça calar
o silêncio das árvores.
Entre seivas, frestas de cascas e o derramar de folhas,
descansam cigarras e mais nada se ouve
nos azuis de maio.
Não vejo a luz.
Por trás das sombras, esperança de cores.
Meu espírito brincando de passa-anel enquanto dormia.
Oceano batendo no quintal
e cumplicidade com o infinito
no café da manhã.
Durmamos.
Os predadores foram devorados em fogueiras d’águas
aprisionadas.
Durmamos.
Os ossos das feras nos guardam em negros olhos
esbugalhados.
E não, não foram os gigantes.
Uma mão humana cravou o tempo nas entranhas das terras.
Posso assobiar horas nas linhas de eucalipto
mas é inútil vergar galhos quando o vento embala raízes.
Não reconhecer cicatrizes, não salivar feridas,
espreitar a dor. Trapacear.
Desfalecimento do espírito.
[In Inquietação-Guia 15 poetas em torno da Azougue, organização Sérgio
Cohn, Rio de Janeiro, Azougue Editorial, 2009, pp. 141-142]
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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Maurício Ferreira
O QUE ISAÍAS DISSE A MADALENA E TOMÉ NUM
BAR DA FREI CANECA
1
Essa é uma cidade de desesperos controlados.
Os prazeres permanecem intrínsecos à lógica da metrópole,
coroando-nos com espinhos trançados em ponto-cruz,
branca a pele de nossa
textura de mártires.
Feridas em sangue e glicose; tabaco e anilina
vermelha,
groselha de gente nas festas de dezembro.
Libertinagem de vazios.
Teu amor, Maria,
a morfina ideal para simular um coração no oco do peito.
E quando em ternuras de conhaque e anfetamina
te toco os
lábios abertos de manticore,
afilados para meu corpo
como que ereções do
diâmetro do mundo;
Quando eu te toco,
vêm à mente a noção exata do quanto de prisão
existe nas
profecias.
II
Poderia um gemido sincero sacudir a cidade.
Mas somos fracos, falsos sofredores.
Ferro e vidro recheando pele de espelhos,
não nos importa as
dores não existirem de fato.
Afinal de contas,
o que existe além do alcance dos teus olhos, Tomé?
Tua língua já experimentou o próprio gosto?
Nos fartamos de carne moída com trigo e
mostarda,
a benção do Símio fugindo enquanto pulávamos sob luzes
mecânicas e movediças.
O horizonte como uma profecia perdida
entre blocos de
concreto.
III
Mas não vos assusteis.
Um dia sete lobos descerão arcanjos.
Entoarão hosanas e mantras durante
três dias e três noites.
Rasgarão o celestial das vestes e nus, afiados dentes,
mastigarão o cérebro dos entediados.
Mas se não vierem,
por favor, não me perguntem.
Do alto do fio elétrico cantará um pardal ao final das
tardes.
In Inquietação-Guia 15 poetas em torno da Azougue, organização Sérgio Cohn, Rio de Janeiro, Azougue Editorial, 2009, pp. 159-160.
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