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sábado, 5 de setembro de 2015

Affonso Romano de Sant´Anna

PALAVRAS QUE ATRAPALHAM E AJUDAM A VIVER

"Mas você sabe que a pessoa pode encalhar 
numa palavra e perder anos de vida?".
Clarice Lispector


Vejam só: encalhar numa palavra. A pessoa lá vai no seu barquinho vida adentro e, de repente, encalha numa palavra. Pode ser "marxismo", "Deus", "pai", "vanguarda", "revolução", "Paris", "aposentadoria". As palavras são paralisantes. O Brasil, por exemplo, no princípio do século estava encalhado na "febre amarela". Nos últimos anos reencalhou na "ditadura" e na "censura". Tem hora que encalha na "inflação". Agora encalhou no "desemprego". E está dificil desencalhar da "reforma agrária", da "corrupção" e do "subdesenvolvimento".
Os escritores, sobretudo, encalham muito nas palavras. João Cabral se referia a Graciliano Ramos como um homem "com as mesmas vinte palavras girando ao redor do sol". Joyce, com Ulisses e Finnegans wake encalhou titanicamente numa região cheia de palavrosos icebergs. Alguns poetas que conheço estão há cinqüenta anos engastalhados em palavras como "Pound, ideograma., morte do verso, Joyce, un coup de dés", e não há quem os demova.
Quem leu O nome da rosa se lembra que havia lá na biblioteca medieval um texto impossível, envenenado, como o fruto interditado no meio do jardim. É que as palavras, com essa coisa de se plantarem em nossa vida, nos alimentam e nos matam, são remédio e veneno, e, como os produtos de uma farmácia, são drogas que podem sarar ou curar. É uma questão de alquimia verbal saber administrá-las. Aurélio Buarque de Hollanda, que dicionarizava rebanhos de palavras, enfatizando o lado positivo das palavras, me disse um dia: "Nós temos que dar oportunidade às palavras". Entendi isto como uma sugestão para a gente se desencalhar e ir desfrutando palavras novas, como o amante que com um novo amor renasce vida afora.
Em algumas culturas certas palavras não podem sequer ser pronunciadas, pois trazem desgraças. Mas em algumas narrativas certos vocábulos abrem grutas, cofres e corações. Sim, algumas palavras ajudam o barco a flutuar: "esperança", amanhã", "utopia". Pode-se também passar uma estação com algumas delas, como se pode passar uma temporada num determinado lugar, num certo corpo, num certo amor. Certas palavras são como hotéis: nelas fazemos pernoite, mas outras demandam moradia maior, são grutas ou catedrais que exigem contemplação.
Ler é tomar a palavra alheia, vesti-la, habitá-la por certo tempo. Escritor, no entanto, não é aquele que acumula palavras obscuras num egoísta museu ou cofre de erudição, mas quem as troca na bela moeda da emoção.
Eis um bom exercício: tome um lápis e anote as palavras que paralisaram ou fizeram sua vida avançar. Palavras-coisas, palavras-pessoas. Sobre a vida e sobre as palavras há várias teorias, a escolher. Há quem diga que a vida tem que ser palavras em movimento, aquele work-in-progress de que falam os ingleses. Se você encontrar, vinte ou trinta anos depois, uma pessoa fazendo o mesmo discurso, tenha pena, desconfie, é sinal que a vida dela emperrou. (A menos que seja um discurso de amor).
Com as palavras a gente tem que tomar cuidado, pois no primeiro encontro nos libertam, depois nos aprisionam. Há palavras tão duras e montanhosas, que nem com trator, só dinamitando. E o fato é que um simples "bom dia" ou "alô" pode salvar uma vida. A psicanálise pretende ser o método da "cura pela fala", mas também pode se tratar pelo ouvido. As palavras ouvidas também curam. Vejam a mãe soprando o dedinho do filho dizendo: "já passou o dodói, pronto".
Viver também é a arte de lidar com as palavras.
E como já disse alguém as palavras são caminhos para encontrar as coisas perdidas.

[In Que presente te dar? Leya, 2013]



segunda-feira, 1 de junho de 2015

Affonso Romano de Sant´Anna

SUPLÍCIO CORPORAL
Magoamos
pelo menos 3 vezes ao dia
nosso corpo
obrigando-o a comidas repulsivas.

De noite ele se vinga
sonhando (ou faxinando)
o lixo imaginário
que nele acumulamos.

Magoamos o corpo
a vida inteira
não lhe ofertando o sexo
que urge
como urge
onde urge
quando urge.

Em compensação
o cobrimos de joias perfumes, cremes e roupas
nem sempre convenientes.

Ele suporta.
O levamos a festas, esportes, celebrações exaustivas.
Ele emite sinais de desconforto.
Mas prosseguimos inclementes
chicoteando a alimária que somos. 

REMORSO
Irônico, eu digo:
“Bem que eu gostaria
que bife desse em árvore.”
Mas árvores também sangram
e não me deixariam dormir
rasgando com gemidos
minha insone madrugada.

Ainda agora descubro uma pequena mariposa
na água que restou do banho.
Estou limpo
e ela
           morta.

Com a indiferença de paquiderme
                                                       pisamos
formigas e índios, operários e mulheres
e, desatentos,
não recolhemos seus restos sequer
como troféu.

[In Sísifo desce a montanha, Rio de Janeiro: Rocco, 2011, pp. 104-105]

Zaira Dzhaubaeva



quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Affonso Romano de Sant´Anna

NA BOCA DO DESERTO
Estava indo, há muito, para o deserto
e não sabia.

Antes, ao revés, julgava caminhar
das pedras para o bosque
lugar de onde o mel e o vinho jorrariam.

Bastava fazer a travessia.

Em alguma parte passei por algum oásis
mas era para este destino de pedra
silêncio e pasmo
que me dirigia.

Os beduínos há muito compreenderam
o que eu não compreendia:
apenas nos movemos entre pedras, cabras e camelos
olhando ternamente o fim do dia.

A tenda é provisória.

Eterno
         só o áspero horizonte de pedra
e a poesia.
[In Sísifo desce a montanha, Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p. 52]

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...