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quinta-feira, 10 de abril de 2014

Emílio Moura

POEMA
DE que nos valerá todo esse esforço para recuperar
     [de uma hora para outra a perdida serenidade ?
De que nos valerá todo esse esforço, se o mal não
está no gesto desesperado desses horizontes que
     [se fecharam ?
Se ele não está nessas algemas inexoráveis que a
     [mão do homem forjou para a mão do homem ?
De que nos valerá todo esse esforço, se o mal não
está no grito lancinante desses trens ininterruptos
que lá vão esmigalhando cabeças dentro da
     [noite ?
De que nos valerá tudo isso, se o mal está mas é na
ausência da simplicidade que desertou, já faz
     [tanto tempo, da face fria e desesperada da terra?
De que nos valerá tudo isso, se o mal está mas é na
     [ressurreição de Caim ?

[In POESIA 1932-1948, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1953, pp. 261-262]





quinta-feira, 9 de maio de 2013

Emílio Moura

POEMA
SERÁ possível esquecer que a noite desceu sobre os
[campos
e que ninguém, aqui, acredita mais que tudo o que
[os corações perderam há de ressurgir, um dia?
 Será possível esquecer que só a perplexidade é que
[nos domina,
que o próprio tempo já não importa mais e que já
[estamos mortos e bem mortos?
Será possível esquecer, mas esquecer, como quem
[nasce de novo,
que esta noite é mesmo noite ?
Podem pedir que venha a Amada,
e que, diante de sua aparição mítica, os nossos cora-
[ções brinquem.
De que nos valerá pedir tanto, se as consciências já
[se fecharam e os corações dormem ?
Em lugar deles, o que se levantou foi uma coluna
[de fogo.
Por que não pedem silêncio ?
Por que não gritam que já morremos ?
Oh ! é impossível esquecer, eu bem sei, mas esque-
[cer como quem nasce de novo
que já estamos mortos e bem mortos.
Quem explicará aos que vierem depois de nós que
[nossa verdade foi soterrada ?
Quem há de entender as nossas almas, se ainda somos daqueles que assistiram ao próprio
[ato da criação,
se pertencemos, ainda maravilhados, à infância mes-
[ma do mundo?

[In POESIA 1932-1948, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1953, pp. 259-260]. 

Philip Guston

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Emílio Moura

QUEM SOU EU?
ESTOU diante de ti.
Imóvel.
Absolutamente imóvel.
Nu e
silencioso.
Por que não te prevaleces deste instante
e não me revelas quem sou?

Fonte: POESIA 1932-1948, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1953, p. 202

POEMA
Renasces em ti mesma e por ti mesma.
Movimentas o sonho, a poesia e as aventuras imprevisíveis.
O imponderável é a tua matéria.

A poesia só me visita para que te realizes
para que eu te sinta e te compreenda. 

Que caminhos te prendem,
que ignotas rotas te iluminam ?

Uma rosa se forma entre o teu sorriso e a aurora.

De repente,
tudo se torna tão irreal
que te sinto visível.

Ibidem, pp. 212-213

domingo, 1 de abril de 2012

Emílio Moura

Solidão, Solitude

Minha alma, súplice, procura
cingir a tua, mas em vão.

Tua alma, súplice, procura
cingir a minha, mas em vão.

Teu nome, agora, é solitude.
Meu nome, agora, é solidão.

Emílio Moura

Bucólica

Olha este azul, Eliana!

Que importa o que não fui,
se o que não sou te embala?

Emílio Moura

MAR ALTO
Que hei de fazer, se não me encontro,
se há tanto tempo estou perdido?
É o mar, meu pai: é o mar! E o mar está crescendo.
O mar é fundo, o mar é frio.

Meu pai, que silêncio,
que grave silêncio!
Por que não sorris?

Meu pai, estou perdido:
há tantos caminhos no fundo do mar.
Como hei de voltar?


Emílio Moura

PASTORAL
Quando te encontrei, de que país estranho foi que
 imaginei mesmo que tu acabavas de regressar?
Sei que era de um país remoto e que havia duas longas
filas de plátanos junto de uma estrada.
Sei que vinhas cantando.

Mas, de onde vinhas e por que vinhas,
quando te encontrei?

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...