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segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Carlos Pintado

A BELEZA
De novo amo e não amo
e deliro e não deliro
Anacreonte

A beleza  que passa como o sonho,
fugaz, inabarcável, sem destino,
se detém um instante sobre o lábio
desvela a mirada ou o cabelo,
doura a sombra, os ocasos,
uma frase de amor, um corpo amado,
uma rosa reluzente nas trevas,
um fogo que desce da noite,
uma aurora silenciosa e distante,
um parque onde estamos tão unidos,
uma rua de Roma ou da Inglaterra,
um rapaz ou uma jovem que me espera,
e este verso que escrevo ao léu:
"a beleza que passa como o sonho".
( Habitación a Oscuras) 


terça-feira, 25 de setembro de 2012

Carlos Pintado

NA BREVE QUIETUDE DOS ANOS
Let's seek out some desolate shade
Macbeth. Act IV. Sc. III 

Como vão fugindo os dias
no cego costume das horas
e apenas recordar deixa sempre
nossos passeios tão rápidos e solitários
pelas  ruas antigas e desertas
onde uma vez sonhamos em nos perder.
De que lugar tão estranho vemos
a morte surgir com suas vestes
seus olhos fulgurando na penumbra
sua voz nos chamando em delírio.
Como de repente, deixam-nos a sós,
sem casa, sem amigo e sem amante,
diante do espelho que castiga sozinho
a breve quietude que trazem os anos.



sábado, 8 de setembro de 2012

Carlos Pintado

Eu gostava quando lia
um poema de são João da Cruz,
e  pensava na noite
como a única porta para o possível,
quando falava de minha escuridão
ou do cadáver de minha escuridão,
arranhando no silêncio,
a pele do silêncio,
ou quando descansava à tarde,
olhando-me nos olhos,
dizendo-me: nada nos salva da noite,
nem a noite.

(El Unicornio e outros poemas)

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Carlos Pintado


JOY ESLAVA

My "place of clear water,"
the first hill in the world
where springs washed into
the shiny grass
and darkened cobbles
in the bed of the lane.
- Seamus Heaney

"Esta história não aconteceu, ou está para acontecer, o que dá no mesmo".

As palavras ecoaram, reverberando em sua cabeça como o som distante e impreciso das coisas que se ouvem nos sonhos. Mais tarde, procuraria algo sem saber o que  estava procurando.  O quarto parecia um deserto: uma pasta com papéis, alguns livros jogados ao chão e um espelho oval com manchas cinzentas  a ofuscar a limpidez dos reflexos. A máquina de escrever indicava que algo ficara inacabado. O barulho de uma torneira pingando abafava a música que vinha de algum lugar. O homem piscou várias vezes. Suava. Foi à torneira e a fechou abruptamente.

A música de Clannad voltou a reinar no quarto.

Perguntou-se sobre o que fora fazer em Joy Eslava  essa noite, e, na tentativa de encontrar uma resposta, lembrou-se da palavra  Anahorish, que o remetia a um poema de Heaney e às noites imaginadas num pub de Dublin.

Nesse ponto  eu entro na história.

A história que ia acontecer começou com minha ida a  Joy Eslava;  tento explicar-lhe algo desta conjunção casual, mas ele não entende; não quer entender. Tem a teimosia característica dos irlandeses. Eu tento explicar, filosofar, lembrar-lhe que num poema de Heaney existe essa palavra intraduzível. Repito Anahorish e suponho que nem ele saberá traduzi-la.  Limitou-se a sorrir e eu não sorri.  Vamos dançar,  disse. Não foi uma pergunta. Eu não queria dançar, mas não pude negar o convite; suas mãos (talvez tenha sido apenas uma mão) se entrelaçam às minhas. Procuro a confirmação desse toque  e não é possível: a penumbra imposta impede qualquer visão; as luzes explodem  nas paredes, brilham com força na fátua escuridão do bar; seus dedos se enroscam nos meus, persistentes. Anos depois eu escreveria,  numa história que nada tem a ver com esta, como um personagem lembra o outro:

 "Com teus dedos de sombra me tocaste". Eu disse algo assim, mas mal se podia ouvir. Eu não conseguiria lembrar precisamente agora. Suas palavras me levaram de volta àquele momento.

Clannad dá lugar aos  Cranberries. O teatro de teto circular ampara a noite. Viro a cabeça para olhar para algo no segundo andar e ele aproveita a oportunidade para beijar meu pescoço. Ia fazer-lhe uma pergunta, mas me calo.  Prefiro sair e inventar a história que poderia ter acontecido: sobre os dois na Joy Eslava, dançando, bêbados; eu seria o turista de passagem por Madri e ele a sombra de um sonho, uma invenção minha, embora certamente negaria isso. Não quer para si o destino que lhe dou; diz que, se existe, não é a sombra de ninguém. Ele me pegaria nos ombros e eu teria que lembrar - em outra história que escreverei - que na realidade alguém me segurou pelos ombos naquele lugar.  Em vão tentaria lembrar-me do momento em que  trocamos os agasalhos. "Então terás algo para se lembrar de mim", disse, entregando-me o casaco de peles que me fez lembrar um urso morto. Nesse momento penso que é melhor fechar os olhos; pensar nessa palavra que nunca pude traduzir e que ele não entende. A única coisa que não existe é essa palavra, ele diria.

Se eu lhe desse mais atenção, talvez escreveria melhor esta história. Escreveria: o cheiro de seu cigarro me lembra outras ervas. Admitiria, depois, que gostava de vê-lo fumar no meio da multidão colorida.  Fumaça de Dublin, penso. Como se lesse o pensamento,  pergunta-me se conheço a Irlanda. Fitamo-nos. A fumaça é uma nuvem azul em meus olhos; eu a inalo; o perfume do tabaco é diferente. Fumaça de Dublin, eu escreveria anos mais tarde, em outra história que nada tem a ver com esta. Eu explico - tento explicar -  que um dia escreveria esta história, mas ele não dá atenção. Jogamos o mesmo jogo de inventar-nos com  palavras ditas no escuro, naquele mar de beijos e cotovelos e música alta.

Acordei com um fogo ardendo em meu peito. Tentara traduzir Heaney antes de dormir. Acordei pensando nessa tradução. Sussurrei Anahorish como se eu não estivesse sozinho no quarto e alguém, nas sombras do sono, pudesse me ouvir. Esperei alguns segundos, mas nada aconteceu.  Esta história,  devo-a a ignorância daquela palavra. Levantei-me convicto  de que precisava ir a algum lugar. Pensei naquele que me lembrava uma "alegria eslava". Hesitei em ir ou ficar. Em algum lugar do meu pescoço eu  tinha a marca, ainda úmida, de um beijo.

Ao entrar, vê-lo-ia dançando. Exatamente assim: sorrindo sem olhar ninguém, com um boné inclinado para baixo,  quase tapando-lhe os olhos. Não sei se devo aproximar-me dele. Espanta-me sua pele pálida, como se há anos não tivesse visto sol. Minutos depois estávamos dançando. Fascina-me vê-lo envolvido pela luz dos holofotes.  Contra a luz seu corpo parece frágil, a ponto de perder-se na sombra.   Achego-me devagar. Como explicar-lhe que há algumas horas eu sonhara com ele? Pensaria que eu estava louco? Essa ideia me assusta. Não queria assustá-lo. Quem sabe o sonho se prolongara até aqui, até este momento em que, finalmente, estamos os dois: ele dançando, lentamente, sorrindo como um menino; eu, como uma estátua, observando a irrealidade da situação. Ainda estarei sonhando? pergunto-me, até que a voz de Dolores O´Riordan me acalma.

Estamos em Joy Eslava. Esta historia é verdadeira.  Está acontecendo, digo a mim mesmo. A voz da cantora murmura em minha cabeça, zumbi, zumbi... Volto a pensar que tudo foi um sonho. É novembro:  Joy Eslava está repleta de gente linda, de turistas, de madrilenos  que, para escapar ao frio, vêm a lugares como este. As pessoas se movem ao ritmo de um transe inatingível.   Sei que estou numa dança estranha e isso me incomoda. Vou ao bar e peço uma bebida que me tire a timidez. Teria preferido fumar um pouco. Há anos não ponho um cigarro em meus lábios. Escuto: and the violence causes silence, who are we mistaken? Tudo gira sem um centro fixo, sem gravidade, repleto de sombras que trocam beijos e abraços. Penso no garoto do sonho, que pouco a pouco vai desaparecendo de minha memória; o sonho deixa tudo muito irreal, como o poema de Heaney, que fala de um lugar tranquilo, cercado de águas quentes, onde se pode estender-se e falar. Repito a palavra, como para lembrar um conjuro - a esta altura duvido se o fato de repeti-la é de  fato um conjuro ou um surto esquizofrênico - e nesse momento um casal se senta perto de mim; vejo-os de mãos dadas; ela me olha e me cumprimenta; ele faz o mesmo; ela para de me olhar e sussurra-lhe algo; o rapaz se demora fitando-me. Eu abaixo os olhos; as mãos se entrelaçam, persistentes. Anahorish, digo, ante o arranque estridente da música. Depois disso perco a noção de tudo.  Há um fio muito tênue entre a realidade e o sonho, quando a garota deixa o rapaz e vai dançar sozinha. Meus olhos e os olhos do rapaz se encontram naquele mar de sombras e contornos enfumaçados. Ele quer dançar e eu digo sim, é claro. Suas mãos - ou talvez fosse apenas uma mão - se prendem às minhas mãos. Lembro-me de uma carícia ou da imagem de uma carícia.  A pele arrepiada pelo tato. Olho para  seu rosto, ele estava sorrindo. Em outra história, ao tentar descrevê-lo, eu escreveria: "Eu vou ser capaz de esquecer tudo sobre ele, exceto seu sorriso, suave, sensual, como o de uma menina. Mais tarde eu saberia que sua pele, ou melhor, a brancura de sua pele, era inesquecível.

Sorriu pela última vez e nos beijamos.

Quando ela voltou, ele e eu estávamos dançando. Suas mãos - muito mais suaves do que as dele - me abraçaram por trás. Senti sua língua brincalhona fincada em minha nuca. Neste momento confundo as duas histórias; há anos pintei um bosque cheio de caminhos que se cruzavam sob a neblina inglesa. Esta imagem retorna à minha memória. Pela manhã os dois serão somente uma sombra. Estarei, lamentavelmente, à margem dessa sombra. Recordarei de suas palavras: "amanhã pensarás que tudo isto foi um sonho". Vi que a menina já não estava. Surpreso, pareceu-me vê-la fugindo para algum lugar. Quis gritar-lhe algo, mas  era inútil: a música se elevava como se fôssemos surdos. Ele e eu seguimos dançando grudados com as camisas abertas. De seu peito ressumavam gotas luminosas. Sorríamos e eu pensei que poderia morrer olhando aquele sorriso.

A noite nos deixou ali como náufragos. O ar se tornava menos ar. Sem deixar de abraçá-lo, busquei o rosto dela entre as centenas de rostos que nos olhavam.  Aqui me dou conta de que esta não é a história dele nem a minha, mas a história dela. Amanhã será ela quem  a escreverá: ele e eu dançando e beijando-nos na Joy Eslava. "Não te preocupes", me acalmaria, e as palavras ecoariam como saídas de dentro de um túnel, sobrepondo-se à música. "Ela saberá terminar esta história da melhor forma que lhe pareça".

À distância,  observei-a conversando com o barman: seu corpo parecia um arco; segundos depois ela estava terminando de tragar uma bebida azul, muito azul. Sob o cone de luz seu rosto  filtrava uma certa semelhança com o do rapaz que me abraçava. No vidro do bar sua silhueta se refletia imprecisa, deformada. Réstias de uma luz difusa mantinham seu reflexo no vidro. Temi que aquela imagem fosse mais que um sonho. Senti que ela nos olhou com inveja. "Não lhe dê atenção. Tu e eu estamos onde ela não pode ir, "Eu ouvi", é por isso que ela nos sonha. Pergunto, sem entender: “Ela nos sonha”? Quando ela saiu invadiu-me o desespero de não saber o que aconteceria.  Torno a perguntar "Ela nos sonha ou nos inventa?", mas ele não sabe a resposta ou preferiu não responder. Por fim, murmurou: "só ela o sabe. Nós estamos do lado de cá das coisas". E fez um gesto que não entendi. Dancei não pelo prazer de dançar mas pela distância que dá a dança  quando há pouca coisa a falar.  Eu precisava organizar meus pensamentos.

Suas últimas palavras deixaram-me com uma sensação estranha: "se ela deixar de sonhar-nos, nós deixaremos de existir". Ao levantar os olhos vi novamente seu sorriso. Contei-lhe meu sonho, falei sobre os poemas de Heaney e sobre aquela palavra que soava em meu sonho como um eco de címbalos,  que jamais poderei traduzir. "É uma ladainha insuportável", ele disse, enquanto tentava me explicar que no sonho as coisas se repetem incansavelmente; falou de uma eternidade no sonho que não entendi. "Esta história não aconteceu, ou está por acontecer, o que é a mesma coisa", disse ao ver meu rosto assombrado pela dúvida. Fechei os olhos. Lembrei-me dessas palavras. Uma multidão enfurecida e bêbada avançava sobre mim,  vinda de todos os lados. A lembrança da chegada a Madri foi um ardil a mais. Quis negar-me a ser sonhado, mas me faltava  o desespero inato a algumas pessoas em situações tão inusitadas. Uma das portas do bar se abriu e induzi que poderia escapar. Dei alguns passos, mas sua mão segurou a minha. “Não sejas louco, ninguém escapa de um sonho. Se ela te sonha aqui é porque aqui deves ficar". Eu o escuto e fecho os olhos. O rosto dela me vem à memória. Ao abri-los estamos os três dançando. Não sei como isso aconteceu.  As mãos dela serpenteavam em meu peito, sua língua fincou-se em minha nuca. Eu descansei minha mão em seu torso nu e o afastei um pouco; ao virar, percebi que ela olhava para mim; quis mostrar-se surpreendida.  "Por que  o afastaste", ela perguntou. Sua voz soava como metal. Dei de ombros. "Foi um instinto", disse. Segurei-a pela cintura. Dançamos agarrados. A música era quase inaudível. O ar era mais fumaça  que  ar: uma névoa espessa - acumulada por tantos cigarros acesos - flutuava sobre dezenas de corpos. Dançamos como se não estivéssemos tocando o chão. Perguntei-lhe qual era seu nome, mas ela não respondeu, "Eu quero ver-te de novo", pedi, e ela sorriu. Senti o peso do silêncio. Com o canto do meu olho eu podia ver que o espelho nos duplicava. Minha mão acariciou a pele de suas costas, como se pressentisse que ela estava prestes a escapar.

“Não vou escapar; também estou presa a um sonho", respondeu-me. Enquanto nos fitávamos,  ele chegou e firmou meu ombro. Senti seus dentes lúdicos mordendo o lóbulo de minha orelha. Ela nos olhava e ria sem motivo. Ele disse:  "Eu sou o reflexo dela em teu mundo; ela não pode vir até aqui,  por isso  inventou-me ..." Tentei responder, mas ela continuou: "... e ele te inventa", eu pedi que se calasse e, como se não estivesse me ouvindo, concluiu: "... e tu também o inventas. Os três somos a matéria de teus sonhos. Nada disso existirá amanhã". Ia dizer-lhe que não era verdade, mas preferi sair.

 Comecei a andar no meio da multidão. Imaginava que a porta do bar se abria e fechava constantemente. Fui até ela. Ao empurrá-la, transportei-me ao quarto do hotel. Havia ainda o som abafado de outro lugar. Eu fecho a porta e olho para o livro de Seamus Heaney em minhas mãos. Eu acho que dormi lendo os poemas.  Repito Anahorish entendiado, com a impressão de que eu imaginara uma história na qual alguém conjectura o significado da palavra. Eu vou escrever esse conto amanhã,  digo a mim mesmo e caio no sofá. À minha direita há uma cesta cheia de papéis, um espelho oval cheio de nuvens cinzentas. O som da água vem da cozinha. Eu mal posso ouvir o disco de Clannad. Penso: "Esta história não aconteceu, ou ainda está para acontecer, o que dá no mesmo."

Eu me levanto e vou desligar a torneira.

Madri, 2 de dezembro de 1998

Fonte: http://zafralitenespanol.blogspot.com.br/2009/12/joy-eslava-de-carlos-pintado.html

Tradução livre: Antonio Damásio Rêgo Filho

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Carlos Pintado

QUARTO EM ARLES
Nada mais tocante:  a cadeira
deixada inconclusa pelo pintor
talvez imaginando o difuso
enredo da luz, o pesadelo
de viver sem uma orelha.
Nada perturba o quadro; a agonia,
nós a sentimos;  a agonia
nele não existe. A cadeira perplexa
prossegue a seu tempo inabalável  e só.
Pouco importa o cachimbo que parece
indiferente à fumaça impedida
de saltar  do desenho. Triste e só
ficará para sempre na pintura,
a cadeira que outra sorte não tem. 

Tradução livre do espanhol: Antonio Damásio Rêgo Filho e Alejandro Carvajal 

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Carlos Pintado

UMA TELA DONDE O BOSQUE SE ILUMINA

                              No bosque de Erec e  Enid
                                              Chrétien de Troyes
  
Amanhecer que sempre chegas
e chegando permaneces impassível,
fixado ao tempo em que,  terrível e murmurando,
esconde tuas bestas.
Saber-te tão distante como o sonho
fere como a flecha que lançada
voa, fugaz, ansiosa no sonhado
tecido da tela do entressono
e contudo, ficamos contemplando
os altos pinheiros cuja penumbra
nega a breve luz, aquela que não ilumina
sequer as coisas já iluminadas.
Tudo está suspenso e muito distante
no tecido, no tempo, no instante.

Tradução livre do original espanhol: Alejandro Carvajal e Antonio Damásio Rêgo Filho

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Carlos Pintado

D.

O ontem chega a mim desde um futuro
apenas memorável. Por trás
segue o rio da vida: a cinza
de um fogo que persiste na memória
fará também do fogo tua cinza.

Jamais saberei se somos abençoados
pelo tempo que, como um morto,
atravessa tua sombra e a minha. Os misteriosos
dons do ócio fugaz nos consomem.
As estâncias do medo nos consomem.
A nudez de um corpo ou suas palavras
nos consomem. A luz ou seu reverso
nos consomem. Tua voz desce  em mim
como uma pedra no fundo do abismo,
e esse simples ato também pode
salvar-nos ou perder-nos para sempre.

Tradução livre do original espanhol: Antonio Damásio Rego Filho

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Carlos Pintado

AUTORRETRATO EM AZUL

Morrer é impossível: bebemos
a cicuta, lentamente, como se fora vinho
e não morremos. Olho a pistola;
a coronha é que nem a noite.
Brinco com o gatilho e nada acontece.
Sozinho, sem ninguém, eu me odeio.
Penso que nada importo para o assassino.
Sou um tirano a mais. Ninguém conspira
às minhas costas. Renego minhas mulheres.
Sonho incendiar as casas desta cidade.
Abdico de meu nome e de minha história.
Morrer é impossível. Nada acontece.
Ninguém morre. Ninguém morre.
A morte nos escreve
os dias e as noites, pouco a pouco.

Tradução livre do original espanhol: Antonio Damásio Rego Filho e Alejandro Carvajal

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Carlos Pintado

Quadras de Outono

Concederam-me o fogo do pecado.
Apenas o fogo; o amor jamais foi
em mim senão sombra. Sonhei
nas noites eternas do esquecimento,

que alguém me amava e sonhava comigo. Não pude
corresponder. Sou triste como o fado
que muda os destinos do amado.
Sou o amado; não quem ama. Fui

traidor e amigo. Agradei
aos deuses das trevas com o manjar sagrado.
Alguém na penumbra me buscou.
Alguém na penumbra me venceu.

Trad. livre para o português do Brasil: Antonio Damásio Rego Filho

domingo, 22 de julho de 2012

Carlos Pintado

TALVEZ NEM A LUZ ME SALVE
Distante da luz chamo minhas sombras.
Abraço-me à dor como quem sabe
que nenhum reino terá, além do esquecimento.                
Nada haverá senão  pegadas que outros deixam
sobre minha pegada. Distante de tudo,
nas tardes tranquilas de alguma cidade,
quem sabe alguém descobrirá meu rosto
no rosto sem vida de uma estátua.
Senti uma vez esse horror.
Sonhei a morte como sonha
uma criança em segredo com um brinquedo
muito alto para suas mãos. Abracei-me
a minha dor, a meu medo,
súbita sombra me abraçou.
Ninguém pode salvar-me da noite
nem dessas breves praias onde fomos
de certa forma o amado e o amante.
Senti a misteriosa espuma subindo-me
de alto a baixo, toda a friagem
da água, suas facas a devorar,
a arder nas trevas das águas.
Nada pode salvar-me dessa espuma, 
de seus cisnes de morte percorrendo-me.
Talvez já sem glória; despojado
de toda luz e brilho, silencioso
como um homem ciente de sua morte, 
recorro às paragens onde deixei
minha sombra a beber tua sombra
para depois sentar-me e ver tranquilo
como constroem torres em meu nome
como  ninguém escuta quando digo
sou mínimo, sou mínimo, e confesso
sou eu quem toca, às vezes, serenamente,
o coração insondável dos homens.
Tradução livre autorizada pelo autor, por Antonio Damásio Rego Filho

domingo, 15 de julho de 2012

Carlos Pintado

A NOITE AVANÇA BREVE EM MEU CORPO

A noite avança breve em meu corpo.
Em seus braços tremo como um menino.
Ando nas sombras, enigmático,  temeroso,
perdido e desesperado para sempre.
Em mim a escuridão é um castigo
de deuses e anjos sombrios.
Meu destino é a noite. Uma penumbra
infinita ronda meus passos.
Nada além do silêncio me acompanha,
nada além de nada e de ninguém
nunca o amor, a glória do que foi
de musgo ou de ouro um frouxo anel
talvez encontrado na fonte,
pássaro de luz nas trevas, fulgurando.



Tradução livre do original espanhol, por Antonio Damásio Rego Filho (Com permissão do autor)

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Carlos Pintado

ORLANDO

Virginia Woolf

Como o terror é só um exercício,

solitário me perco noite adentro,

sonho um poente sombrio e em seu centro

a fraca luz me oferece vão ofício.

Mas o terror não é mais que artifício,

da luz e da sombra, talvez um jogo,

treva que se apaga como o fogo,

treva fatal a me negar o juízo.

In "Habitación a oscuras"

Traducción con permisso, por Antonio Damásio Rêgo Filho

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Carlos Pintado


AS NOITES

Noites de amantes breves como círios ardendo,
e cetros e fortunas e reis e palácios.
Noites de fundos espelhos, águas de um rio mágico.
Noites de altas torres a se perder na noite
e sonoras trevas retumbando na escuridão.
Noites de labirintos como folhas a cair
no poço abissal onde a minha sede enfeita
de música seus cânticos, as suas noites tão eternas.
Noites de altas cercas, jardins e estátuas.
Noites onde tudo parece não querer
dominar a forma terrível de minha sombra.
Noites em que me perco sem sabê-lo na noite,
sob finíssimas gotas de cristal sonhado,
por caminhos nebulosos, por bosques de unicórnios.
Noites em que as coisas amadas se despedem
agitando no ar uma espantosa mão.
Noites para sonharmos com a mão que retira
a neve da espada, a espada da pedra,
e o mágico orvalho sobre a água do lago,
água lustral fluindo, água de prata e lua.
Noites de fundos espelhos em sombras desvelados,
e rostos que olham para um fundo de sombras.
Noites que são o sonho de chifre e de marfim.
Noites de altas portas, de interiores sagrados,
e paisagens que mostram a madrepérola de algum rosto.
Noites para esquecer quem avança para minha sombra,
debaixo de estrelas nas quais sustenho meu corpo
insone e solitário,  como uma luz trêmula.
Noites de longínquas ilhas, de  barcos sombrios
e portos ideais para agitar lenços.
Noites para sentarmos e falar sobre a noite.
Noites de  aves sinistras e de tigres na escuridão,
e dedos sobre a vidraça, e cítaras tocando.
Noites em que somos a própria noite,
reconhecendo o passo trôpego de seus mortos.

Tradução livre para do espanhol para o  português do Brasil, por Antonio Damásio Rêgo Filho. 

terça-feira, 10 de julho de 2012

Carlos Pintado


CONVERSA COM PANERO
Ninguém me chama. Ninguém me espera.
Mais solitário que a noite, sou a noite.
Mais solitário que a sombra, sou a sombra.
Sou menos que o vinho, menos que a taça.
A que lugar do tempo me condenam
lembranças, escrituras, profecias, palimpsestos, velas, escuras
tarjas onde não escreveram meu nome.
Se monstro eu fui, então, o inferno
será meu paraíso mais próximo.
Não sofro a pobreza, sou pobreza.
De minha mão escorre o mal.
Anjos me abraçam e me beijam
Faço amor com Deus e com o diabo.

(Tradução livre do original espanhol, com permissão do autor)

Jovem poeta cubano, nascido em 1974, radicado nos Estados Unidos. Recebeu o Prêmio Internacional de Poesia, na Espanha,  por seu livro "Autorretrato en azul". 

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Carlos Pintado

PÓRTICO

De alguma forma penso
que no último instante de minha vida
haverá uma frase de Walt Whitman dizendo-me
que quem caminha uma légua sem amor
caminha para seu próprio funeral.

(Tradução livre do original espanhol por Antonio Damásio Rêgo Filho, com autorização do autor).

Fonte:  http://poetassigloveintiuno.blogspot.com

Carlos Pintado é  poeta cubano, nascido em 1974.



Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...