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segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Konstantínos Kaváfis

O SOL DA TARDE

Este quarto, como o conheço bem.
Agora alugam-se quer este quer o do lado
para escritórios comerciais. A casa toda tornou-se
escritórios de intermediários, e de comerciantes, e Sociedades.

Ah este quarto, não é nada estranho.

Perto da porta por aqui estava o sofá,
e diante dele um tapete turco;
ao pé a prateleira com duas jarras amarelas.
À direita; não, em frente, um armário com espelho.
Ao meio a sua mesa de escrever;
e três grandes cadeiras de vime.
Ao lado da janela estava a cama
onde nos amámos tantas vezes.

Estarão ainda os coitados nalgum lugar.

Ao lado da janela estava a cama;
o sol da tarde chegava-lhe até metade.

...De tarde quatro horas, tínhamo-nos separado
por uma semana só . . . Ai de mim,
aquela semana tornou-se para sempre.

(Tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis)

DOIS JOVENS, DE 23 A 24 ANOS

Desde as dez e meia estava no café,
e esperava que aparecesse logo.
Foi-se meia-noite – e ainda o esperava.
Foi-se uma hora e meia; esvaziara-se
o café quase por inteiro.
Cansou-se de ler jornais
mecanicamente. Dos seus escassos, três xelins
restava apenas um: tanto tempo esperou
que gastou os outros em cafés e conhaque.
Fumou todos os seus cigarros.
Esgotava-o a espera demasiada. Pois
assim sozinho como já estava por horas, começavam
a ocupá-lo pensamentos importunos
da sua vida desviada.

Mas quando viu o seu amigo entrar – de pronto
o cansaço, o tédio, os pensamentos fugiram.

Seu amigo trazia uma notícia inesperada.
Ganhara no jogo de cartas sessenta libras.

Seus belos rostos, sua juventude maravilhosa,
o amor sensual que tinham entre si,
refrescaram-se, avivaram-se, acentuaram-se
com as sessenta libras do jogo de cartas.

E cheios de alegria e força, sentimento e beleza
foram – não para as casas de suas famílias honradas
(onde, aliás, nem os queriam mais):
a uma conhecida, e mui particular,
casa de perdição foram e pediram
quarto de dormir, e bebidas caras, e novamente beberam.

E quando acabaram as bebidas caras,
e quando aproximavam-se as quatro horas,
ao amor entregaram-se felizes.

(Tradução: R. M. Sulis, M. P. V. Jolkesky, A. T. Nicolacópulos)

domingo, 19 de outubro de 2014

Konstantínos Kaváfis

O OMBRO ENFAIXADO
Disse que bateu em um muro ou que caiu.
Mas provavelmente a razão seria outra
para o ombro ferido e enfaixado.

Por conta de um movimento um tanto brusco
em direção à estante, para descer algumas
fotos que queria ver de perto,
soltou-se a faixa e um pouco de sangue escorreu.

Novamente enfaixei o ombro, e demorei-me
um pouco nesta tarefa, pois não doía
e agradava-me ver o sangue. Coisa
do meu amor era aquele sangue.

Assim que saiu, encontrei sobre a cadeira em
frente
um pano das ataduras manchado de sangue,
pano que parecia dever ir direto pro lixo
e que sobre os meus lábios mantive eu,
e que beijei por longo tempo –
o sangue do meu amor nos meus lábios.

[Tradução de Fernanda Lima. In. Bliss. Editores: Lucas Matos, Clarissa Freitas e Márcio Junqueira. Rio de Janeiro: 7Letras, 2009, p. 16].


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Konstantínos Kaváfis

EPITÁFIO DE ANTÍOCO, REI DE COMAGENA
Depois que voltou, tristíssima, de seu funeral,
a irmã daquele que viveu sóbria e afavelmente,
Antíoco, rei muito erudito de Comagena,
queria para ele um epitáfio.
E o sofista Calistrato de Éfeso que se instalava
frequentemente no pequeno estado de Comagena,
e que pela casa real
prazerosamente e repetidas vezes foi recebido como hóspede
redigiu-o, com a indicação dos artesãos sírios,
e enviou-o à velha senhora.

"Do benfeitor rei Antíoco
que se celebre dignamente, ó comagenenses, a glória.
Foi de nosso país um governante prudente.
Foi justo, sábio, valente.
Foi, além disso, o que há de melhor, helênico -
atributo mais honroso não possui a humanidade:
entre os deuses é que se encontram mais elevados".

[Poemas de K. Kaváfis, São Paulo, Ed. Odysseus, 2006, trad. de Ísis Borges da Fonseca, p. 279]. 

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Konstantínos Kaváfis

ARISTÓBULO
Chora o palácio, chora o rei, 
inconsolável, o rei Herodes lamenta-se; 
a cidade inteira chora por Aristóbulo 
que tão injustamente se afogou, por acaso, 
brincando com seus amigos na água.

E quando o souberem também nas outras regiões,
quando na Síria se divulgar,
mesmo entre os gregos muitos sentirão;
quantos poetas e escultores estarão de luto,
pois Aristóbulo era famoso entre eles,
e qual de suas visões sobre adolescente
alcançou um dia uma beleza tal como a deste rapaz;
qual estátua de deus Antioquia conseguiu
como este filho de Israel?

Lamenta-se e chora a Primeira Princesa: 
sua mãe, a mais importante hebreia.
Lamenta-se e chora Alexandra pela calamidade. - 
Mas quando se acha só, ela muda sua dor.
Geme; enfurece-se; insulta; amaldiçoa.
Como a enganaram! Como a iludiram!
Como finalmente se realizou o objetivo deles! 
Destruíram a casa dos Asmoneus.
Como o conseguiu o rei criminoso: 
o astuto, o perverso, o celerado.
Como o conseguiu! Que plano infernal 
para que mesmo Mariana nada percebesse!

Se Mariana tivesse percebido, se tivesse desconfiado, 
teria achado um meio de salvar seu irmão;
é rainha enfim, alguma coisa poderia fazer.
Como devem estar triunfantes agora e como se regozijarão secretamente
aquelas perversas, Cipro e Salomé;
as mulheres abjetas, Cipro e Salomé. -
E estar ela impotente, e forçada
a fingir que crê em suas mentiras;
não poder dirigir-se ao povo,
sair e gritar aos hebreus,
dizer, dizer como ocorreu o assassinato.
é rainha enfim, alguma coisa poderia fazer.
Como devem estar triunfantes agora e como se regozijarão secretamente
aquelas perversas, Cipro e Salomé;
as mulheres abjetas, Cipro e Salomé. -
E estar ela impotente, e forçada
a fingir que crê em suas mentiras;
não poder dirigir-se ao povo,
sair e gritar aos hebreus,
dizer, dizer como ocorreu o assassinato.

[Poemas de K. Kaváfis, São Paulo, Ed. Odysseus, 2006, trad. de Ísis Borges da Fonseca, p. 207-209]. 




sábado, 25 de maio de 2013

Konstantínos Kaváfis

DESDE AS NOVE
Meia-noite e meia. Rápido passou a hora 
desde as nove quando acendi o candeeiro, 
e me assentei aqui. Permanecia sem ler 
e sem falar. Com quem falar, 
completamente só nesta casa?

A imagem de meu corpo jovem, 
desde as nove quando acendi o candeeiro, 
veio encontrar-me e fez-me lembrar 
quartos fechados aromatizados, 
e volúpia passada - que ousada volúpia!
E trouxe-me diante dos olhos, também,
ruas que agora se tornaram desconhecidas,
locais de divertimento cheios de movimento que acabaram,
e teatros e cafés que existiram outrora.

A imagem de meu corpo jovem
veio trazer-me também as lembranças tristes:
lutos da família, separações,
afeições dos meus, afeições
dos mortos, tão pouco apreciadas.

Meia-noite e meia. Como passou a hora.
Meia-noite e meia. Como passaram os anos.

[Poemas de K. Kaváfis, São Paulo, Ed. Odysseus, 2006, trad. de Ísis Borges da Fonseca, p. 215]

 Hippolyte Flandrin 

terça-feira, 30 de abril de 2013

konstantínos kaváfis

SÚPLICA
O mar levou o marinheiro para as suas profundezas –
A sua mãe, sem ainda o suspeitar, caminha e acende

uma vela, coloca-a aos pés da Virgem Maria
pede um regresso rápido; e bom tempo, e sempre,

sempre inclinando a cabeça ao soprar do vento
mas, enquanto ela reza e implora

o ícone escuta-a, solene e triste,
sabendo que o filho que ela espera não mais voltará.

(1898)

sábado, 22 de setembro de 2012

Konstantínos Kaváfis

ÍTACA
Se partires um dia rumo à Ítaca
Faz votos de que o caminho seja longo
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem lestrigões, nem ciclopes,
nem o colérico Poseidon te intimidem!
Eles no teu caminho jamais encontrarás
Se altivo for teu pensamento
Se sutil emoção o teu corpo e o teu espírito tocar
Nem lestrigões, nem ciclopes
Nem o bravio Posidon hás de ver
Se tu mesmo não os levares dentro da alma
Se tua alma não os puser dentro de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
Nas quais com que prazer, com que alegria
Tu hás de entrar pela primeira vez um porto
Para correr as lojas dos fenícios
e belas mercadorias adquirir.
Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos
E perfumes sensuais de toda espécie
Quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrinas
Para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas, não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
E fundeares na ilha velho enfim.
Rico de quanto ganhaste no caminho
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu
Se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência.
E, agora, sabes o que significam Ítacas.

[In: O Quarteto de Alexandria - tradução de  José Paulo Paes].

Sobre Konstantínos Kaváfis




Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...