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sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Antonio Carlos Secchin

ÁGUA
A Olga Savary

Há um mar no mar que não me nada 
e não se entorna em ser espuma ou coisa fria. 
Me sinto cheio de palavra e de formato, 
murado em mim sob a ciência desse dia.
Na sonância do que vive,
minha fala é resistência, 
e dizer é corroer o que se esquiva, 
reter na letra a cicatriz do som vazio.
Sou apenas quinze avos da loucura, 
a dar um nome à ironia do que dura.

Nas águas se calava a terra, 
e as pedras se arrastavam às eras 
desatadas pelo arco exato dos rios.

Sobre as águas passaram 
o perfil das aves ciganas, 
o nome noturno dos mastros.

A chuva passa, mas não lava o movimento 
que a leva enquanto passa.
Terra, texto, era, imagem, 
a chuva escava a cor dos mapas 
na física unânime da tarde.

Vou no que me passa, intervalo 
entre voo e asa, para a secreta 
febre desse campo, o da semente.
Aqui e sempre, devolvo agora 
os dias algemados à memória, 
e confio a cada poro o testamento 
de naufrágios, restos e dilúvios.
Se o largo mar já navega em água imensa, 
em curtos rios ele aprende o seu impulso.

Depois de herdar 
dessa água a resistência, 
alugo a meu sonho 
a astúcia de meu corpo.
O que em mim se mira 
é o pleno em sua ausência, 
e pequeno me anoiteço 
em cada hipótese de porto.

Água, marcas da aventura
no rigor de luzes largas.

Água, pacto de barcas 
na manhã hereditária.

Baliza do azul, suor 
do silêncio nos cascos.

Horizonte.

In Todos os ventos, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, pp. 125-130.


Linda Celestian

domingo, 11 de agosto de 2013

Antonio Carlos Secchin

À NOITE,
A Waly Salomão

todas as palavras são pretas 
todos os gatos são tardos 
todos os sonhos são póstumos 
todos os barcos são gélidos
à noite são os passos todos trôpegos 
os músculos são sôfregos 
e as máscaras, anêmicas 
todos pálidos, os versos
todos os medos são pânicos 
todas as frutas são pêssegos 
e são pássaros todos os planos 
todos os ritmos são lúbricos 
são tônicos todos os gritos 
todos os gozos são santos

In Todos os ventos, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, p. 48

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Antonio Carlos Secchin

Margem
A Alberto Pucheu

Vou andando para a beira desse porto, 
entre cheiros de cigarro e de sardinha 
e um desejo líquido de partir.
Meu olhar desliza no horizonte, querendo saber 
a que distância um nome deixa de doer.
Seu nome, marcado em minha boca 
como a polpa de uma pera.
O navio enorme avisa que vai embora.
Escrevo a palavra salto, 
e paro no sal, e não chego ao alto.
A noite está boiando
num óleo grosso de silêncio e luz.
Molho os pés, penso em seu nome: gozo 
de um poço tapado. Insônia de musgos 
na beira das águas redondas.
Me vejo na ponta do cais,
cacos de luz
abrindo a cara do mar.
Destroços de palavras, pedaços de seu nome,
sílabas que batem contra os cascos.
Estou parado na beira de um porto,
azul e morte no oco do mar. 

In Todos os ventos, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, pp. 89-90



Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...