VERÃO
Há um claro jardim entre muros baixos,
de ervas secas e luz, que aos poucos cozinha
sua terra. É uma luz que tem gosto de mar.
Tu respiras a erva tocando os cabelos
e espantando a lembrança.
Eu já vi despencar
muitos frutos, doces, sobre a relva caseira,
com um baque. E assim tu igualmente estremeces
ao soluço do sangue. Balanças a testa
como envolta num denso prodígio aéreo
e o prodígio és tu. Há um mesmo sabor
na lembrança serena em teus olhos.
Escutas.
As palavras que escutas te tocam de leve.
Tens no rosto calmo uma ideia clara
que desenha em teus ombros o brilho do mar.
Tens no rosto um silêncio que aperta o peito
com um baque e lhe extrai uma dor antiga
como o suco dos frutos caídos outrora.
(In Trabalhar Cansa, Tradução e introdução Maurício Santana Dias, São Paulo: Cosac Naify, 2009, p. 165)
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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
Cesare Pavese
A VOZ
Cada dia o silêncio do quarto isolado
se recolhe no leve marulho dos gestos
como o ar. Cada dia a estreita janela
se abre imóvel ao ar que se cala. A voz
rouca e doce não volta no fresco silêncio.
O ar imóvel se abre ao alento de quem
vai falar e se cala. É assim todo dia.
E a voz é a mesma, mas não rompe o silêncio,
rouca e igual como sempre na imobilidade
da memória. A clara janela acompanha
com sua breve batida o antigo sossego.
Cada gesto percute o antigo sossego.
Se soasse a voz, voltariam as dores.
Voltariam os gestos no ar espantado
e palavras, palavras à voz submissa.
Se essa voz ressoasse, até a breve batida
do silêncio que dura seria uma dor.
(In Trabalhar Cansa, Tradução e introdução Maurício Santana Dias, São Paulo: Cosac Naify, 2009, p. 269)
Cada dia o silêncio do quarto isolado
se recolhe no leve marulho dos gestos
como o ar. Cada dia a estreita janela
se abre imóvel ao ar que se cala. A voz
rouca e doce não volta no fresco silêncio.
O ar imóvel se abre ao alento de quem
vai falar e se cala. É assim todo dia.
E a voz é a mesma, mas não rompe o silêncio,
rouca e igual como sempre na imobilidade
da memória. A clara janela acompanha
com sua breve batida o antigo sossego.
Cada gesto percute o antigo sossego.
Se soasse a voz, voltariam as dores.
Voltariam os gestos no ar espantado
e palavras, palavras à voz submissa.
Se essa voz ressoasse, até a breve batida
do silêncio que dura seria uma dor.
(In Trabalhar Cansa, Tradução e introdução Maurício Santana Dias, São Paulo: Cosac Naify, 2009, p. 269)
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