VERÃO
Há um claro jardim entre muros baixos,
de ervas secas e luz, que aos poucos cozinha
sua terra. É uma luz que tem gosto de mar.
Tu respiras a erva tocando os cabelos
e espantando a lembrança.
Eu já vi despencar
muitos frutos, doces, sobre a relva caseira,
com um baque. E assim tu igualmente estremeces
ao soluço do sangue. Balanças a testa
como envolta num denso prodígio aéreo
e o prodígio és tu. Há um mesmo sabor
na lembrança serena em teus olhos.
Escutas.
As palavras que escutas te tocam de leve.
Tens no rosto calmo uma ideia clara
que desenha em teus ombros o brilho do mar.
Tens no rosto um silêncio que aperta o peito
com um baque e lhe extrai uma dor antiga
como o suco dos frutos caídos outrora.
(In Trabalhar Cansa, Tradução e introdução Maurício Santana Dias, São Paulo: Cosac Naify, 2009, p. 165)
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
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