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sábado, 29 de março de 2014

Luís Filipe Castro Mendes

DE ESQUECER
Demorei-me muito tempo ao pé de ti.
As portas fechadas por dentro, como se encerrasses
o amor e a lei. Demorei-me demais. Ao fim da tarde,
nesse mesmo dia que já morreu,
olhámo-nos devagar, mas distraídos. Diria até que anoiteceu
Nunca falámos do amor que chega tarde.
Nem o interpelámos (como se já não pudesse
ter nome). Fingia ter esquecido o teu corpo
nas muralhas. Nas areias.
Vês aqui alguma figura? Ninguém vê.
Repara no ponto preto que alastra na margem do quadro
nas minhas lágrimas desse tempo.
Relê.

[In Modos de Música, In Poesia Reunida, Rio de Janeiro, Topbooks, 2001, p. 307]

Claude Monet


sexta-feira, 7 de março de 2014

Luís Filipe Castro Mendes

TRÊS POEMAS DE VIAGEM
1.
Um museu abandonado
Tantos gestos de amor que se perderam
repousam nestes quadros, nestes gessos:
só uma dobra escusa da pintura
sugere o que de dentro foi regresso.
Tantos gestos de amor, tanta invenção:
como a morte perdida foi momento
de breve encontro, engano, sedução
de quanto em nós de pedra se fez vento.
Tantos gestos de amor que não perduram
foram nas árvores seiva interrompida
e no desenho oculto da pintura
são a raiz e o chão da nossa vida.
Mas ao vento, lá fora, duram árvores
nas folhas já de seiva renascida.

[In Outras Canções, In Poesia Reunida, Rio de Janeiro, Topbooks, 2001, p. 352]





domingo, 9 de fevereiro de 2014

Luís Filipe Castro Mendes

NOCTURNOS
1.
(Sobre um poema de Nuno Júdice) 
Havia luz demais no teu poema:
por isso esperámos pela noite. Escureceu na pequena
estação sobre a praia, mas o teu poema
continuava a brilhar no meio das notícias
levíssimas e das palavras que trocámos
por dentro da tarde. Ficámos assim muito tempo.

Nenhum de nós saberia dizer o que esperámos.
Apenas as palavras começaram a afastar-se,
para nós entendermos. Como a luz.

2.
(A partir de uma estampa chinesa)
I
O pavilhão desenhado no jardim
não é matéria de sonho:
quem o habita? quem
dentro da linha ténue
das paredes
lhe recolhe o fruto
desolado?

II
Haverá um centro,
um motor de harmonia,
uma fábrica de sonhos
por perceber?
Será a linha do horizonte aquela margem do rio
que os teus passos não podem conhecer?
III
Se pudesses merecer
toda a indiferença da terra
terias nestas pedras, nesta água
o teu lugar.
O pavilhão não se acende no jardim:
vibra na paisagem
atrás da luz.

[In O jogo de fazer versos, In Poesia Reunida, Rio de Janeiro, Topbooks, 2001, pp. 266-267]





quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Luís Filipe Castro Mendes

DIÁLOGOS DE POETAS
Quando eram os dois estudantes em Oxford disse uma vez Auden a Spender:
«a arte é o que resulta de uma persistente humilhação»;
e ficou deitado no quarto a fumar,
enquanto ouvia os passos envergonhados do outro
a afastar-se pelo corredor fora. A arte
pode durar no sangue, mas nada conta
face aos tumultos, ao insaciável e brutal conhecimento.
Assim ficaremos, sós e divididos,
a respirar no silêncio dos quartos
a perdida invenção da juventude
— até encontrarmos noutros frios corredores
a música voraz do esquecimento.

PAISAGEM SUBURBANA
Pequenas árvores torcidas
sob a chuva; o verde pouco;
e casas onde o céu não tem como findar.

Se esta paisagem fosse só
amor ausente, vidro fosco,
miséria sem halo
(como o real que sobra da canção),
contrafeitos à chuva e transviados
saberíamos perder o coração.

POÉTICA MÍNIMA
Considera o peso de uma alma,
o cheiro a pó-de-arroz
atrás de tanta chama,

a seda amarrotada,
o cetim que não brilha,
a boneca no fundo
da quinquilharia.

Nada pesa no limbo
que há dentro da memória:
considera na alma
o avesso da História.

[In Modos de Música, In Poesia Reunida, Rio de Janeiro, Topbooks, 2001, pp. 289-291]

Sobre Luís Filipe Castro Mendes

Joseph Mallord William Turner

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...