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segunda-feira, 15 de junho de 2015

Edmond Jabès

CANÇÃO DO ESTRANGEIRO

Estou à procura
de um homem que não conheço,
que nunca foi tão eu mesmo
quanto desde que o procuro.
Teria ele meus olhos, minhas mãos
e todos esses pensamentos semelhantes
aos destroços deste tempo?
Estação de mil naufrágios,
o mar deixa de ser mar,
convertido em água gelada dos túmulos.
Mais longe, porém, quem sabe mais longe?
Uma menina canta a contragosto
e, à noite, reina sobre as árvores,
pastora em meio a carneiros.
Arranquem a sede do grão de sal
que nenhuma bebida poderá aplacar.
Com as pedras, um mundo se consome
por ser, como eu, de parte alguma.

(Tradução de Caio Meira)

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Edmond Jabès

A  SOLIDÃO COMO ESPAÇO PARA A ESCRITURA

 “A aurora é uma gigantesca fogueira de livros.
Grandioso espetáculo do supremo saber destronado.
O amanhecer, então, é virgem”.

O ato de escrever é um ato solitário.

A escritura é  a expressão desta solidão?

Pode haver escritura sem solidão ou solidão sem escritura?
Haverá graus de solidão - assim como existem muitas praias, diferentes níveis de solidão - como há  intensidades da sombra ou da luz?

Poder-se-á, neste caso, sustentar  que há certas solidões dedicadas à noite e  outras ao dia?

Haverá, enfim,  várias formas de solidão: solidão resplandecente, redonda- como a do  sol - ou solidão plana, tenebrosa - como aquela das lápides; solidão da festa e a solidão do luto?

A solidão não se pode dizer,  a não ser que se pare imediatamente de existir.
Ela não pode ser escrita  sem a distância que a protege do olho que a lê.

O dizer será para o texto o que é a palavra oral  para a palavra escrita: o fim de uma solidão assumida para uma e o prelúdio de uma aventura solitária para a outro.
Quem fala em voz alta nunca está sozinho.O escritor reúne, pela intermediação da palavra, sua solidão.

Quem ousa,  no meio das areias, fazer uso da  palavra? O deserto só responde ao grito, o último, já envolto em silêncio do qual emergirá o sinal; porque ele jamais escreve senão os confins imprecisos do ser. Tomar consciência deste limite é, ao mesmo tempo, reconhecer como ponto de partida do que foi escrito, a linha irregular de demarcação de nossa solidão. Haverá então, bem como, pela solidão e pela escrita, fronteiras flutuantes que seguiremos,  a caneta na mão; fronteiras reconhecidas por nós e graças a nós.

A cada livro,  seus antros de solidão.

Sete paraísos reivindicam o céu.  O vazio tem suas etapas. Assim,  a solidão,  vazio do céu e da terra é o vazio do homem dentro do qual ele se agita e respira. Ligada à origem de tudo, a solidão em seu poder excepcional de romper o tempo, de limpar a unidade primeira; de fazer, de qualquer modo, o múltiplo indeterminado, o inominável.

Tentar escrever, nestas condições, consistirá,  então,  na margem da escrita, em refazer pela primeira vez, mas em  direção oposta, o caminho seguido pelo pensamento; a escrita, na palavra que a abrangia; seria, em suma, sair de sua própria solidão para esposar  a solidão inicial do livro na ignorância  de seu início e na qual o livro procurará seu nome; porque é sobre as ruínas de um livro, do qual se afasta, que o livro se constrói;  sobre a aterradora solidão de suas ruínas.

O escritor nunca abandona o livro. Cresce e cai  ao seu lado.   Escrever,  em primeira instância, seria apenas recolher as pedras  do livro desabado para construir uma nova obra - a mesma, sem  dúvida-; edifício onde o escritor será o infatigável mestre da obra: arquiteto e pedreiro; menos atencioso,  no entanto,  ao progresso da sua construção do que ao movimento interno, natural que preside sua conclusão; atento, sobretudo,  para escrever esta dupla solidão - a da palavra e a do  livro- que será progressivamente legível.

Em nenhum lugar  que não seja este retângulo de papel fino reservado ao indizível,  palavras e lugar tão fortemente integrados um ao outro e, ao mesmo tempo - oh paradoxo - tão remotas; porque nenhuma aliança é permitida à solidão, não há união ou associação; não há esperança de libertação comum.

Sozinha, ela se constrói,  é construída; sozinha, com a cumplicidade da escrita, organiza a lição dos orgulhosos cartazes dos tempos de seu esplendor ou de suas largas e profundas feridas, no momento em que a trabalho que ela coloca de pé, se torna túmulo empoeirado; onde o livro se parte na fratura infinita de suas palavras. Solidão à qual o escritor se submete; às vezes, dando mais do que tem, sem poder escapar  do compromisso com ela.

Mas por quê? A solidão não é uma escolha deliberada do homem? Então, quais são suas cadeias que ninguém forjou? Haverá, então,  uma solidão que escapa à sua vontade, que não possa, impotente, superar?

A demanda desta solidão da qual o escritor não será libertado é, precisamente, aquela que a palavra que a designa lha impõe; solidão do inconsciente de sua solidão, como se houvesse uma solidão mais solitária,  enterrada dentro da solidão, onde a palavra modela a imagem captada de si mesma, como uma criança no ventre materno.   

Doravante, tudo será organizado conforme uma ordem preestabelecida: porque o projeto do livro é, primeiramente, um  projeto audacioso da palavra. Não se pode escrever  o livro sem ter participado indiretamente deste projeto que será, talvez, mais do que a intuição que tivemos do livro, a partir daquilo que está escrito.

Solidão, então,  de uma palavra, solidão da palavra diante a palavra,  da noite ante a noite na qual, astro submerso, a palavra  brilha mais do que a solidão.

Mas, poder-te-ão objetar, como se pode, a partir do livro, ir-se à palavra? – Como dia vai ao sol, responderei. Livro não é uma palavra? Sempre retornaremos à palavra “livro”. O espaço do livro é aquele, interior, da palavra que o designa. Escrever o livro não será mais que designar este espaço oculto, que escrever dentro desta palavra.

Contudo,  esta palavra que reúne todas as palavras da língua - como a estrela da manhã reúne toda a luz do mundo - não é o lugar de sua solidão; o lugar onde ela se confronta com a nulidade; onde deixa de significar, onde não designa Nada.

"Você não pode ler  o que viu, mas pode viver o que  leu," ele disse.

-Quantas páginas tem seu livro?

-Exatamente noventa e seis superfícies planas de solidão. Uma ao lado da outra. A primeira na parte de cima e a última na base. Esta é a rota da escrita - ele respondeu.

E acrescenta: "O que me intriga não é, de forma alguma, ter descido, de folha em folha, todos os degraus do livro, mas saber como fiz para me encontrar, desde o início, sobre o mais alto, o primeiro”?

O fundo da água está cheio de estrelas.

A escrita é um desafio da solidão; fluxo e refluxo de inquietação. Ela é sempre o reflexo de uma realidade que se manifesta em sua nova origem e onde, no coração de nossos desejos confusos e de nossas dúvidas, nós temos sua imagem.

(Edmond Jabès, Le petit livre de la subversion hors de soupçon, en Anthologie de la poésie francaise du XXe siécle, Editions Gallimard, 2000). 

[Tradução de Antonio Damásio Rêgo Filho e Margarida Moura]

By Jean-Jacques Henner

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Edmond Jabès

E Yukel fala:
Busco-te.
O mundo onde te busco é um mundo sem árvores.
Nada além de ruas vazias,
ruas nuas.
O mundo onde te busco é mundo aberto a outros mundos sem nome,
um mundo onde não estás, é aí que te busco.  
Há teus passos,
teus passos que sigo e espero.
Segui o lento caminhar de teus passos sem sombra
sem saber quem eu era,
sem saber para onde ia.
Um dia lá estarás.
Aqui, ou em outro lugar,
um dia como todos os outros.
Talvez, amanhã.
Tenho seguido, para chegar a ti, outros caminhos amargos
onde o sal quebra o sal.
Tenho seguido, para chegar a ti, outras horas, outras orlas.
A noite é uma mão para quem segue a noite
À noite, caem todos os caminhos.
Era necessária essa noite em que peguei tua mão, quando estávamos sozinhos.
Era necessária essa noite como era necessário esse caminho.
No mundo onde te busco és a grama e o degelo.
És o grito perdido em que me extravio.
Mas és também, ali onde nada vela, o esquecimento feito de cinzas de espelho.



sexta-feira, 28 de março de 2014

Edmond Jabès

SEMIABERTA, MINHA MÃO
Semiaberta,
minha mão
insensível à fadiga.
Signos e seus sons
buscam se embrenhar
no estreito espaço
prometido à pena.
Em breve, a respiração
não se fará mais.
A mão se achatará
sobre a folha.
Abusada.

[In DESEJO DE UM COMEÇO, ANGÚSTIA DE UM SÓ FIM, A MEMÓRIA E A MAO - UM OLHAR, São Paulo, Lumme Editor, trad. Armanda Mendes Casal & Eclair Antonio Almeida Filho, 2013, pp. 77-79]




quarta-feira, 5 de março de 2014

Edmond Jabès

SEMPRE ESSA IMAGEM
Sempre essa imagem
da mão e da fronte,
do escrito rendido
ao pensamento.

Tal a ave no ninho,
minha cabeça está em minha mão.
Restaria a árvore a celebrar,
se o deserto não fosse toda parte.

Imortais para a morte.
A areia é nossa parte
insensata de herança.

Possa essa mão
onde o espírito se recolheu,
ser plena de sementes.
Amanhã é um outro termo.

Sabíeis que nossas unhas
outrora foram lágrimas?
Arranhamos os muros com nossos prantos
endurecidos como nossos corações-infantes.

Não pode haver salvamento
quando o sangue afogou o mundo.
Dispomos apenas de nossos braços
para alcançar, a nado, a morte.

(Para além dos mares, acima das cristas,
minúsculo planeta não identificado,
mãos unidas, redondas mãos plenas,
escapadas ao pesar.)


Quando a memória nos for rendida,
o amor saberá enfim sua idade?

Felicidade de um velho segredo partilhado.
Ao universo se agarra ainda
a esperança do primeiro vocábulo;
à mão, a página amarrotada.

Há somente tempo para o despertar.

[In DESEJO DE UM COMEÇO, ANGÚSTIA DE UM SÓ FIM, A MEMÓRIA E A MÃO - UM OLHAR, São Paulo, Lumme Editor, trad. Armanda Mendes Casal & Eclair Antonio Almeida Filho, 2013, pp. 78-83].

By Fran Viegas


terça-feira, 27 de agosto de 2013

Edmond Jabès,

PARA DENISE COLOMB, 1989

Isso sempre me pareceu evidente.

O deserto é, antes de tudo, a perda do rosto.

A imagem, em sua muda violência, é sonora.

Ela coage a perfeita escuta: a do infinito, da eternidade,
do Tudo tornado novamente o Nada;

pois é a partir desse Nada teimoso, envolto de silêncio que,
de ora em diante, veremos e ouviremos.

Um rosto emerso de sua ausência. Desenhado à medida que
esta o descreve.

Ousaremos fixá-lo? Não, jamais o poderíamos.

Todos esses rostos me falam. Eu os reconheço.

Vindos dos mais longínquos, como se o infinito se entrea-
brisse.

A solidão é povoada.

In DESEJO DE UM COMEÇO, ANGÚSTIA DE UM SÓ FIM, A MEMÓRIA E A MAO - UM OLHAR, São Paulo, Lumme Editor, trad. Armanda Mendes Casal & Eclair Antonio Almeida Filho, 2013, p. 148.



quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Edmond Jabès

ROSTOS PARA ANTONIO SAURA, 1987 (Excerto)

... esse mundo tem um rosto: o nosso.

Vira, para mim, teu rosto.
O universo é, de verdade, tão pequeno?

O rosto envelhece com o nome já velho.

Estrangeiro. E tanto tenho errado. E, quantas vezes, reedificado?

Que tenho eu, ah, dizei, vós que me conhecestes, que tenho eu guardado para mim?

Absolutidade do Nada.

Tivéramos nossos reis.
Mas esses reis estão mortos.
Tivéramos nossos príncipes.
Mas esses príncipes pereceram.
Tivéramos nossos sábios.
Mas, sábios, eles viraram a página de sua vida. 
Fôramos um povo.
Mas esse povo se dispersou.
Somos o livro, 
no coração do incêndio.

Com as chamas que, uma noite, lamberam nossos livros, pintaremos, sobre cada guarda-fogo, um rosto vivaz.

In DESEJO DE UM COMEÇO, ANGÚSTIA DE UM SÓ FIM, A MEMÓRIA E A MAO - UM OLHAR, São Paulo, Lumme Editor, trad. Armanda Mendes Casal & Eclair Antonio Almeida Filho, 2013, p. 138

ANTONIO SAURA




Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...