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quinta-feira, 9 de julho de 2015

Boris Pasternak

A MORTE DO POETA*
Ninguém acreditava. Pensavam: «Que delírio!»
Mas sabiam por dois,
por três, por todos. Alinhavam-se
sobre o tempo que parara
as casas de funcionários e comerciantes,
os pátios, as árvores, e lá dentro
gralhas, ébrias de sol,
excitadas com as esposas
que gritam, para que daí em diante essas loucas não
se ponham a pecar, que diabo!
Tinha no rosto rugas húmidas
como vincos rasgados nas feições.

Era um dia, um dia inofensivo, mais
do que dezenas de dias vividos antes.
Amontoava-se o povo em parada à entrada,
como se um tiro os tivesse formado.
Como, esmagados, são esborrachados pelas águas
sargos e lúcios na explosão do petardo,
como o suspiro de um tiro a sério.

Tu dormias, deitado num leito de trapos,
tu dormias e, os calafrios acalmados,
— Belo, aos vinte e dois anos **.
Como anunciava o teu tetráptico.
Tu dormias, a face contra a almofada,
dormias — com todas as pernas, com toda a força,
penetrando de novo e com novo ímpeto
no reino dos mitos recentes.

Viram-te nele entrar ostensivamente
e chegares de um só salto;
o teu tiro foi semelhante ao Etna
nos contrafortes de covardes e poltrões.

______________________
* Escrito à morte de Maiakovski.
** Alusão ao poema de Maiakovski: "A nuvem de calças".

[In Poetas Russos, Tradução e prólogo por Manuel de Seabra, Lisboa: Relógio D´Água, 1995, pp. 119-121].




quinta-feira, 12 de junho de 2014

Boris Pasternak

Ah, se eu antes soubera desta sina,
Quando me preparava para a estreia,
Que há morte nestas linhas, – assassinas!,
como um golpe de sangue na traqueia.
Os folguedos desta busca de avessos
Eu deixaria, inúteis, de uma vez
Já tão remoto o esforço do começo,
Tão temeroso o primeiro interesse.
Mas a velhice é Roma. Não lhe peça
Que venha com estórias de ninar.
Ela exige do ator mais que uma peça,
Uma entrega total, um naufragar.
Quando o verso é um ditado do mais íntimo,
Ele imola um escravo em cena aberta.
E aqui termina a arte, o pano fecha,
Ao respirar da terra e do destino.
(1932)

[Tradução de Boris Schnaiderman e Haroldo de Campos]


sexta-feira, 6 de junho de 2014

Boris Pasternak

A FAMA É RELES
Ter fama é reles; a escalada
ao apogeu segue outras leis.
Arquivos não servem de nada,
Não tremas sobre os teus papéis.

Criar é se entregar de todo,
e não sucesso ou alarido.
É vergonhoso, sendo engodo,
virar provérbio difundido.

Cumpre viver, mas sem disfarce,
para atrair-se enfim o puro
amor do espaço ou escutar-se
o apelo, ao longe, do futuro.

Deixa as lacunas no destino,
nas obras, não. Qualquer passagem,
qualquer capítulo ou domínio
de tua vida – anota à margem.

Some no anonimato e esconde
teus passos como sítio oculto
por brumas muito espessas onde
não há como entrever seu vulto.

Outros, que irão por tua rota,
seguem teu rastro, passo a passo.
Mas não te cabe ser quem opta
entre um sucesso ou um fracasso.

Não rendas nunca, por motivo
algum, teu rosto, tua estrada;
prossegue vivo, apenas vivo
até o fim, vivo e mais nada.
(1956)

QUERO CHEGAR
Quero chegar em tudo ao cerne,
ao mais oculto.
Buscando a rota, no afazer, no
peito em tumulto.

Ao bojo dos dias de outrora,
ao próprio centro,
justo às raízes e às escoras,
medula adentro.

Sempre agarrando toda a série
de sinas, fatos,
sentir, pensar, amar, viver e
fazer achados.

E escreveria, ah, se o lograsse,
sobre os diversos
dons da paixão, de todo ou quase,
em oito versos.

Seus crimes, fugas e caçadas,
seus atropelos
acidentais, mãos espalmadas
e cotovelos.

Deduziria a essência inata
e as suas leis,
diria a inicial de cada
nome outra vez.

Dispondo cantos em canteiros,
com veias tensas,
veria as tílias: o horto inteiro
posto em seqüência.

E verteria, em verso, aromas
de rosa e menta,
prado, flor, feno e quanto assoma
numa tormenta.

Assim Chopin verteu – portento
vivo – seu mundo,
sítios, jazigos, bosques, dentro
de seus estudos.

O jogo e o suplício do afã de
vencer de fato –
a corda retesa e vibrante
do arco dobrado.
(1956)

Tradução Boris Schnaiderman

SOBRE BORIS PASTERNAK

Ilustração Nikolai Milioti



Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...