Sou uma violação fabulosa. a morte na minha mãe ainda viva.
um exilado. órfão. suspeito. um caçador entre os mortos.
e mastigando dessa fertilidade, deambulo, florido, por ruas
obscuras.
as árvores como incudes. uma revolução de eras
subindo pelas estátuas. e dentro, o meu grito, cuneiforme,
febril, arremessando navalhas.
ah! ouço-me. repartido. ah! ouço-me. inteiro.
ouço-me, regressando à pia baptismal. àquela hora em que
o medo era branco, branco como as nódoas mais brancas.
ah ! o medo. a glória do medo. e os olhos vazios, súbitos,
abrindo-se, azuis,
como os filhos mais amados de uma raça nobre,
mas barbárica.
e ao alto, a mão do padre, a mão fina, mas furiosa, ordenando:
ergue-te e anda! ergue-te e anda!
e assim me ergui dos mortos, e no rosto enrugado da minha avó
reconheci um sol, a sombra mais velha do sol.
In: Topografia abissal
Fonte: https://www.facebook.com/groups/221722414629884/
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terça-feira, 23 de abril de 2013
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
Luís Costa
DA MAGNITUDE
A magnitude sísmica de um pulso aberto por onde crescem
as flores primaveris
insectos furiosos emergindo da profundeza arterial
astros ou olhos penetrantes
pólipos embatendo contra o rochedo das clareiras
a cicatriz do metal que aflora dentro de um coração
prestes a quebrar de amor
e as armaduras possantes de um novo dia
o sol
a água
as choupanas
o sexo à procura dos primeiros sinais de vida
um pulsímetro que se gera na garganta
ainda seca
ainda sem esperança ou negação
ainda liberta dos vermes e dos lagartos
dos tigres
que dilacerem as carnes nos tanques de Agosto
ó branca escuridão que corres pelas veias!
que te entranhas na alma
viril aço rudimentar
curto-circuito
devastação nos côncavos inchados de pedras
quem conhece os teus fabulosos mistérios?
quem sabe o porquê
desta cavalgada exterior aos cuidados da amamentação?
ah! como tudo se ergue e cai
como tudo se processa no movimento rigoroso
onde os sentidos são sombras graníticas
sobre a fina
areia dos pantanais
ó fenda que expeles lava nas ventas do animal
eis a boca possessa que mal acorda logo em si recebe
a bênção da destruição
In: Arqueologia nocturna
A magnitude sísmica de um pulso aberto por onde crescem
as flores primaveris
insectos furiosos emergindo da profundeza arterial
astros ou olhos penetrantes
pólipos embatendo contra o rochedo das clareiras
a cicatriz do metal que aflora dentro de um coração
prestes a quebrar de amor
e as armaduras possantes de um novo dia
o sol
a água
as choupanas
o sexo à procura dos primeiros sinais de vida
um pulsímetro que se gera na garganta
ainda seca
ainda sem esperança ou negação
ainda liberta dos vermes e dos lagartos
dos tigres
que dilacerem as carnes nos tanques de Agosto
ó branca escuridão que corres pelas veias!
que te entranhas na alma
viril aço rudimentar
curto-circuito
devastação nos côncavos inchados de pedras
quem conhece os teus fabulosos mistérios?
quem sabe o porquê
desta cavalgada exterior aos cuidados da amamentação?
ah! como tudo se ergue e cai
como tudo se processa no movimento rigoroso
onde os sentidos são sombras graníticas
sobre a fina
areia dos pantanais
ó fenda que expeles lava nas ventas do animal
eis a boca possessa que mal acorda logo em si recebe
a bênção da destruição
In: Arqueologia nocturna
domingo, 3 de fevereiro de 2013
Luís Costa
COBRA DE JADE
Tu eras a chuva dos pássaros nascida na boca faminta de estrelas.
Tu eras a chuva dos pássaros nascida na boca faminta de estrelas.
olor da violência feminina.
amoras que se desfaziam nos alvéolos
poderosos.
ó Ilustres tardes onde os bichos-da-seda teciam o ouro.
metalurgia absoluta.
obra secreta dos ígneos metais.
a genialidade dos ourives.
tudo jorrava do núcleo perpétuo
e era o movimento e a pedra
que as mãos recolhiam com o louvor da luz.
rotação alegre.
oráculos fotográficos por onde um deus espreita.
assim te via com mantos dourados e lembranças excessivas,
entre o verde das ramagens,
de onde os mamíferos saltavam,
rápidos e elegantes.
costuras que erguiam o espaço
com as pressões ejaculares do fogo.
e tudo circulava, agreste,
como o sol em repouso nas hastes das sombras ,
nos canaviais.
assim te via.
e eras real como a água secreta que murmurava, cintilante,
nos tanques.
In Arqueologia Nocturna
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