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quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Iacyr Anderson Freitas

BASTA UM DOMINGO
basta um domingo qualquer
e a mentira se descarna
feito um par de luvas
na fruteira

basta um domingo
para que vejamos

que nenhuma viagem
nos tirará desse lugar
que toda geografia
é um erro
que todas as ruas
são sempre a mesma rua
à mesma hora
da tarde ou da noite
que os dicionários todos
escondem apenas uma palavra
uma palavra tão clara e tão limpa
que jamais será dita

que é sempre possível
entrar mil vezes
no mesmo rio
que nunca houve outro rio
a não ser este
e que todos os dias da semana
não valem a soma de um domingo

que de si mesmo
sem notícia
vai lentamente se despedindo

[In A Soleira e o Século, Juiz de Fora, Funalfa, 2002]



sábado, 29 de novembro de 2014

Iacyr Anderson Freitas

ETTORE MAJORANA

é preciso partir
antes do apocalipse

em carta
diz que guardará a estima do amigo
pelo menos até
as onze horas daquela noite

nunca esteve tão só
como em Palermo
naquela noite

agora o mar o devolve
ao lugar onde talvez
outras embarcações o recusem

afinal trata-se de um homem
pesado de incertezas
um homem incapaz de flutuar
em resumo um homem
pesado demais

para o mar

(In Viavária, Juiz de Fora: Funalfa, 2010, p. 110)





segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Iacyr Anderson Freitas

A POÉTICA DO ESCASSO
Viste, através da chama de uma vela,
manhãs mais belas que em qualquer janela.

Mapas, postais mandaste, sem selar,
a todos os cometas, Bachelard.

Alguns poucos chegaram ao destino
ainda quentes, sob o sol a pino

(quando o verso em pânico de Murilo
queimava os que não quiseram ouvi-lo).

Outros se perderam, de parte a parte,
para que fome alguma então te farte.

Palavras, medos, nuvens são matérias
para escavar, do asfalto, tuas férias.

De teu dicionário pululam ventos
que multiplicam os quatro elementos.

Multiplicam pela raiz quadrada
de um número vivo, entre o ser e o nada

(quando o dia que surge é quarta-feira
e o sabemos igual, queira ou não queira,

quando a roupa da infância, já lavada,
inda guarda a lição que nos enfada

quando, para atar os quatro elementos,
esqueceste um acento nos assentos,

quando não viste, na luz de uma vela,
nada que não fosse incenso ou janela).

[A poética do escasso, livro editado em
A soleira e o século (2002)]

QUINTO MIRANTE
A quem doar essa manhã? A quem?
E essas corolas rubras, esse sal
de muitas e muitas chuvas, desdém
que fere de encantos o céu final?
A quem doar essa manhã? Sim, ponde
aqui a vossa enorme tribulação.
Ninguém sabe o que ocorreu. Quando? Onde?
E é preciso que a tudo digais não.
Dentro de cada espanto vós coubestes.
Em cada aposento, em cada sudário
fazeis de fezes vossas próprias vestes.
A quem doar essa manhã? É vário
o sol que aniquila os vossos ciprestes
e corre os vossos rios ao contrário.

[Mirante (1999)]

SOBRE IACYR ANDERSON FREITAS






Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...