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domingo, 11 de novembro de 2012

Júlio Castañon Guimarães


ESTUDO PARA ONTEM
tanto quanto se sobe a Mantiqueira
tanto quanto noite adentro
a Mantiqueira te envolve com o frio
tanto quanto à noite no alto da Mantiqueira
os perfis escuros das árvores
marcados contra a noite
assim quase imóveis na cerração que corre
tanto quanto na Mantiqueira
se chega a tal ponto

a tal ponto da memória
em que ao longo das curvas
lento se recurva sobre si o corpo
contra ele próprio envolto
e uma espiral desaba desenvolta
até os confins de outra cerrada cerração
tão remota tão sem repercurso
que sequer se pode entrever
a manhã clara e o espaço aberto
dentro em pouco sobre a Mantiqueira

a noite sim a noite insiste sempre adiante
tanto quanto se sobe a Mantiqueira
para que melhor se desfie a espiral
que desce até quando
o corpo sobre outro se envolvia
até mesmo quando lá no alto
em meio às árvores
ainda eram desde sempre
os únicos personagens do horizonte
mergulhados num silêncio
tanto quanto se sobe a Mantiqueira
a  cada curva da espiral
num silêncio que subsiste
concreto como uma sombra

In Poemas [1975 - 2005], Cosacnaif: São Paulo, 2006, pp. 85-86

domingo, 14 de outubro de 2012

Júlio Castañon Guimarães

TARDE DE DOMINGO
assim
disposta num terraço
aberto ao tempo
a cadeira se balança
com cuidado e conforto
mas leve indecisão
quanto ao ritmo

não tanto
pelo frágil frêmito
da imagem do mar
seu brilho
de espelho fraturado
sob o sol

mas sobretudo
pela regularidade
do movimento mesmo do mar:
avanço sistemático
e recuo estratégico
a tracejar
uma linha de ameaça
ou simples prenúncio
de perigos mais fundos
- o frio dos abismos
e os restos
que habitam esta baía 
não fosse vir
de dentro da casa
essa música
feita de limpidez
e medida
maquinaria impalpável
de emoção à flor da matéria
que numa recusa ao devaneio
se articula avessa à dispersão
para expor
por entre sombras
iluminadas pela razão
todo o seu desalento

In Poemas [1975 - 2005], Cosacnaif: São Paulo, 2006, pp. 72-73

terça-feira, 29 de maio de 2012

Júlio Castañon Guimarães

EMBORNAL

§
quantos passos rasuram
a rota da releitura?
quantas fraturas perfazem
a textura do mapa?

§
se devassa
o real e seus ermos
a história não isenta
as dobras da imaginação

§
um silêncio e seu repertório
operam a cena:
leve não é o olhar
se o espaço desenha o tempo


In Poemas [1975 - 2005], Cosacnaif: São Paulo, 2006, p. 119

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...