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domingo, 17 de julho de 2016

Ingeborg Bachmann

O TEMPO APRAZADO
Vêm aí dias difíceis.
O tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.
Em breve terás de atar os sapatos
e recolher os cães nos casais da lezíria,
pois as vísceras dos peixes
arrefeceram ao vento.
Mortiça arde a luz dos tremoceiros.
O teu olhar abre caminho no nevoeiro:
o tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.
Do outro lado enterra-se-te a tua amante,
a areia sobe-lhe pelo cabelo a esvoaçar,
corta-lhe a palavra,
impõe-lhe o silêncio,
acha-a mortal
e pronta para a despedida
depois de cada abraço.
Não olhes em volta.
Ata os sapatos.
Recolhe os cães.
Lança os peixes ao mar.
Extingue os tremoceiros!

Vêm aí dias difíceis.


sábado, 28 de março de 2015

Ingeborg Bachmann

DIZER TREVAS

Como Orfeu, toco
a morte nas cordas da vida
e à beleza do mundo
e dos teus olhos que regem o céu
só sei dizer trevas.

Não te esqueças que também tu, subitamente,
naquela manhã, quando o teu leito
estava ainda úmido de orvalho e o cravo
dormia no teu coração,
viste o rio negro
passar por ti.

Com a corda do silêncio
tensa sobre a onda de sangue,
dedilhei o teu coração vibrante.
A tua madeixa transformou-se
na cabeleira de sombras da noite,
os flocos negros da escuridão
nevavam sobre o teu rosto.

E eu não te pertenço.
Ambos nos lamentamos agora.

Mas, como Orfeu, sei
a vida ao lado da morte,
e revejo-me no azul
dos teus olhos fechados para sempre.


[In O tempo Aprazado, Seleção, tradução e introdução João Barrento e Judite Berkemeier, Lisboa, Assírio & Alvim, 1992, pp. 27-29]




sexta-feira, 4 de julho de 2014

Ingeborg Bachmann

MEIO-DIA, CEDO
Calma reverdece a tília na abertura do Verão,
muito distante das cidades cintila
o brilho baço da lua diurna. E já meio-dia,
na fonte já se agita o jacto,
sob os estilhaços já se ergue
a asa aviltada do pássaro mágico
e a mão deformada do lance da pedra
mergulha no trigo que desponta.

Onde o céu da Alemanha enegrece a terra,
o seu decapitado anjo procura um túmulo para o ódio
e oferece-te a taça do coração.

Uma mão cheia de dor perde-se para lá da colina.

Sete anos mais tarde
de novo te lembras,
junto à fonte, às portas da cidade,
não olhes muito no fundo,
que os olhos ficam toldados.

Sete anos mais tarde,
numa casa mortuária,
os carrascos de ontem bebem
a taça de ouro até ao fim.
Baixas os olhos de triste.

É já meio-dia, nas cinzas
contorce-se o ferro, no espinho
foi içada a bandeira e nos rochedos
do sonho ancestral fica a partir de agora
agrilhoada a águia.

Só a esperança se agacha cega na luz.

Solta-lhe as grilhetas, leva-a
pela encosta, põe-lhe
a mão sobre os olhos, para que
sombra nenhuma a queime!

Onde a terra da Alemanha enegrece o céu,
a nuvem procura palavras e enche a cratera de silêncio
antes que o Verão as oiça na sua chuva escassa.

O indizível passa, sussurrado, sobre esta terra:
é já meio-dia.

[In O tempo Aprazado, Seleção, tradução e introdução João Barrento e Judite Berkemeier, Lisboa, Assírio & Alvim, 1992, pp. 35-37]



domingo, 30 de março de 2014

Ingeborg Bachmann

MANOBRAS DE OUTONO
Não digo: foi ontem. Com insignificantes
trocos de Verão nos bolsos, estamos de novo deitados
sobre o joio do sarcasmo, nas manobras de Outono do tempo.
E a nós não nos é dada, como aos pássaros,
a retirada para o sul. À noite passam por nós
traineiras e gôndolas, e por vezes
atinge-me um estilhaço de mármore impregnado de sonho,
onde a beleza me torna vulnerável, nos olhos.

Leio nos jornais muitas notícias - do frio
e suas consequências, de imprudentes e mortos,
de exilados, assassinos e miríades
de blocos de gelo, mas pouca coisa que me dê prazer.
E porque havia de dar? Ao pedinte que vem ao meio dia
fecho-lhe a porta na cara, porque há paz
e podemos evitar essas, mas não
o triste cair das folhas à chuva.

Vamos viajar! Debaixo de ciprestes
ou de palmeiras ou nos laranjais, vamos
contemplar a preços reduzidos
inigualáveis pores-de-sol! Vamos esquecer
as cartas ao dia de ontem, não respondidas!
O tempo faz milagres. Mas se chegar quando não nos convém,
com o bater da culpa - não estamos em casa.
Na cave do coração, desperto, encontro-me de novo
sobre o joio do sarcasmo, nas manobras de Outono do tempo.

[In O tempo Aprazado, Lisboa, Assírio & Alvim, 1992, pp. 35-37]


Jacob Epstein

domingo, 9 de março de 2014

Ingeborg Bachmann

DESPRENDE-TE, CORAÇÃO
Desprende-te, coração, da árvore do tempo,
soltai-vos folhas, dos ramos esfriados,
outrora abraçados pelo sol,
soltai-vos como lágrimas de olhos largos de longes.

Esvoaça ainda a madeixa dias inteiros ao vento
na fronte tisnada do deus do campo,
sob a camisa aperta o punho
já a ferida aberta.

Por isso resiste, quando o dorso macio das nuvens voltar a curvar-se para ti,
não te iludas se o Himeto te encher
de novo os favos.

De pouco vale ao lavrador uma erva na seca,
de pouco um verão, face à nossa grande estirpe.

E que testemunha afinal o teu coração?
Entre ontem e amanhã balança,
silencioso e estranho
e o seu bater
é já a sua queda para fora do tempo.

[In O tempo aprazado  (Últimos Poemas 1957-1967) tradução de Judite Berkemeier e João Barrento, Lisboa, Assírio & Alvim, 1992].

Laura Knight

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Ingeborg Bachmann

ESTRELAS DE MARÇO
Longe vem ainda a sementeira. Surgem 
os primeiros campos à chuva e estrelas de Março. 
O universo ajusta-se à fórmula 
de pensamentos estéreis, a exemplo 
da luz que não toca na neve.

Haverá também pó sob a neve 
e o que não se desfez servirá depois 
de alimento ao pó. Oh vento a erguer-se!
Arados rasgam de novo as trevas.
Os dias querem alongar-se.

Nos dias longos semeiam-nos sem nos perguntar 
naqueles sulcos tortos e direitos, 
e as estrelas retiram-se. Nos campos 
crescemos ou morremos ao Deus dará, 
obedientes à chuva e por fim também à luz.

[In O tempo aprazado, selecção, tradução e introdução Judite Berkemeier e João Barrento, Lisboa, Assírio & Alvim, 1992, p. 43]

By Edward Robert Hughes

sábado, 7 de dezembro de 2013

Ingeborg Bachmann

UMA ESPÉCIE DE PERDA

Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma
cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados,
gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos. Fizemos.
E estendemos sempre a mão.

Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por
Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma
cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,

(- o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um aponta-
mento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.

De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor
mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.

Não te perdi a ti,
perdi o mundo.

In O tempo aprazado  (Últimos Poemas 1957-1967) tradução de Judite Berkemeier e João Barrento, Lisboa, Assírio & Alvim, 1992.




quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Ingeborg Bachmann

EM VERDADE
Para Ana Ajmátova
Para aquele que nunca ficou sem palavras, 
eu vo-lo digo, 
aquele que só sabe ajudar-se a si mesmo 
com as palavras, 

este não pode ser  ajudado 
nem pelo caminho curto 
nem pelo caminho longo.

Fazer sustentável uma única frase,
agüentar  o ding-dong das palavras.

Que ninguém escreva esta frase
que não a assine.

               *****

NADA DE DELIKATESSEN
Já não gosto de nada.

Devo 
enfeitar uma metáfora 
com uma flor da amendoeira?
Crucificar a sintaxe 
sobre um efeito de luz?
Quem vai quebrar a cabeça 
por coisas tão supérfluas?

Eu aprendi a ser sensata 
com as palavras 
que há 
(para a classe mais baixa).

Fome, 
desonra, 
lágrimas 

trevas.

Com os soluços depurados,
com a desesperança
(e desespero da desesperança)
por tanta miséria,
pelo estado dos enfermos,  o custo da vida,
darei um jeito.

Não descuido da escritura,
mas de mim mesma.
Os outros sabem 
Deus sabe 
o que fazer com as palavras.
Eu não sou o meu assistente.

Devo aprisionar um pensamento 
e levá-lo à cela iluminada de uma frase?
Alimentar olhos e ouvidos 
com bocados de palavras de primeira?
Investigar a libido de uma vogal,
descobrir o valor diletante das nossas consoantes?

Mesmo com 
a cabeça apedrejada, 
com o espasmo de escrever nesta mão
sob a pressão de trezentas noites 
devo romper o papel, 
varrer as urdidas óperas de palavras, 
destruindo assim : eu, tu e ele, ela, 
nós, vós?

(Que seja. Que sejam os outros).

Que se perca a minha parte.

Tradução do espanhol: Alejandro Carvajal


Otto Mueller



                       

sábado, 9 de novembro de 2013

Ingeborg Bachmann

Em casa deito-me no chão e espero, eu ofego e me afogo, me afogo cada vez mais; é mais grave do que algumas sístoles adicionais, eu não quero morrer antes que Malina chegue, olho para o despertador, os minutos não passam e, no entanto, tenho a impressão de que minha vida está passando. Não sei como cheguei ao banheiro, ponho as mãos embaixo da torneira de água fria, a água corre pelos braços até o cotovelo, esfrego os braços e os pés e as pernas com um pano gelado, na direção do coração, os minutos não passam, mas agora Malina deve chegar, e então Malina chega, imediatamente estou menos tensa, finalmente, meu Deus, por que você chegou tão tarde?!

Certa vez, em um navio, eu estava sentada no bar com um grupo de passageiros que iam para a América, alguns eu já conhecia. Então um deles começou a queimar as costas da mão com um cigarro aceso. Ele foi o único a rir, não sabíamos se também deveríamos rir. Na maioria das vezes não se sabe por que as pessoas fazem mal a si mesmas, elas não o dizem a ninguém, ou então dizem algo bem diferente, para que não se descubra o verdadeiro motivo. Em um apartamento em Berlim encontrei certa vez um homem que bebia um copo de vodca atrás do outro mas nunca ficava bêbado; horas depois continuava conversando comigo incrivelmente sóbrio e, quando ninguém estava prestando atenção, ele me perguntou se podia me rever, pois queria me rever de qualquer jeito, e meu silêncio foi tão inequívoco que era o mesmo que um consentimento. Depois falou-se sobre a situação mundial, e alguém pôs um disco no toca-discos, L'Ascenseur a l'échafaud. Quando os acordes soavam baixinho e a conversa havia chegado ao telefone vermelho entre Washington e Moscou, o homem me perguntou, no tom mais natural possível, como pouco antes, quando perguntara se eu não ficaria melhor vestida de veludo, ele preferia me ver em veludo: A senhora já matou alguém? Respondi no tom mais natural possível: Não, claro que não, e o senhor? O homem disse: Eu sim, eu sou um assassino. Por um momento eu não disse nada, ele me olhou docemente e acrescentou: A senhora pode acreditar! E de fato acreditei, pois deveria ser verdade; ele foi o terceiro assassino com quem estive sentada em uma mesa, mas o primeiro e o único a confessá-lo. As duas outras vezes foi em noitadas em Viena, e fiquei sabendo depois a caminho de casa. Vez por outra quis anotar algo sobre essas três noites, separadas por muitos anos, e em uma folha avulsa escrevi, como tentativas: Três assassinos. Mas aí não fui adiante, pois só queria anotar algo sobre esses três para chamar a atenção sobre um quarto, pois a história de meus três assassinos não dá uma história; não tornei a ver nenhum deles, hoje eles estão vivendo em algum lugar, jantando com outras pessoas, fazendo mal a si mesmos. Um deles não está mais preso em Steinhof, o outro está na América com o nome trocado, o último bebe, para ficar cada vez mais sóbrio, e não está mais em Berlim. Do quarto não posso falar, não me lembro dele, eu esqueço, não me lembro...

(Mas corri contra o arame farpado eletrificado.) Lembro-me desse detalhe insignificante. Uma vez joguei fora minha comida, dia após dia, mesmo o chá, às escondidas; devo ter sabido por quê.

[Excerto de "Malina", tradução de Ruth Röhl, São Paulo, Ed. Siciliano, 1993, pp. 226-227]

Sobre Ingeborg Bachmann







Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...