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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Ana Luísa Amaral

GAUGUIN FOTÓGRAFO
Estas quase-noites das estampas:
azuis escuras, o sol às réstias louras
e mares cor de safira

Nem Gauguin e as angústias
que eram dele
tinham destas cores

Fosse Gauguin fotógrafo,
o seu comércio a estampa
(que não dores):
deitava-se na areia-cor-de-areia,
mimando o paraíso numa noite
que fosse de dormir

NARRAÇÕES (OU NEM TANTO)
I
«Na folha verde,
a aranha, de mansinho,
pé ante pé,
faz ninho»

Narrar o verso assim.
E porque não?
Porque não: rima curta e
corte em verso?
Em vez de rendilhado-
— teia azul:
um pedaço de rede
sem bordado.
Onde o verso, cansado
de regurgitar,
engolisse as laçadas
do bordado
em pontos de rimar.

II
Além de que as aranhas
não caminham
sub-repticiamente.
Mas criam de repente
uma avalanche
de patas e montanhas, 
que provoca tamanhos
terramotos.

A folha verde:
o palco mais de dentro,
epicentro mais fácil
e propício
para o bulício azul.

Catástrofe de nervo
e de sentido.
E o insustentável
mais ruído:
buracos no tricot

(In Queixas ou resignações)

PAUL GUAUGUIN

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Ana Luísa Amaral

PENÉLOPE FALA A ULISSES, OU OUTRAS FALAS
1.

Cala-te, tu,
de voz de azul harpia
e deixa-me que eu ouça outra vez o Egeu,
as ondas sufocadas,
as sereias cantando,
e um riso que foi meu junto de tanto mar

Deixa que ouça outra vez a sua voz
e silencia o tom de azul harpia,
agora, 
que o meu amigo fala,
e a memória que dele se desprende
só me pode rimar com o que tenho agora
e é demais conhecido ao longo desta língua,
a minha língua que não é de Egeu,
mas de outro mar mais largo

2.

Deixa-me que registe
por dentro da memória
a sua voz,
que com ela me cheguem
mil Cretas e soluços de sereias,
Minotauros brincando pela praia,
livres como meninos
em castelos de areia e labirintos

Deixa-me a sua voz,
tu, a de azul harpia,
revisitados montes sem idade
nem tempo para amar

3.

Por isso, ao meu amigo, lhe fala a minha língua
de saudade
- rimando no meu mar com o seu mar,
que é outro e tão diferente
e em tempo tão diferente
do azul, que até à exaustão
cantei 
Por isso, ao meu amigo, lhe fala
a minha língua de saudade:
de janelas de sol emolduradas em solidões
diferentes,
mas sempre e ao mesmo tempo
e neste bastidor:
a solidão igual -

[In INVERSOS poesia 1990-2010, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2010. pp. 534-536]



quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Ana Luísa Amaral

A CARTA
Senhores:
hão de a dor e a ausência ter sabor,
um certo cheiro doce e demorado,
em forma de mil olhos

Pois vós olhastes essa minha ausência,
dissestes que dali criei palavras,
mas não por minha mão

Na vossa história, senhores,
eu fui só voz,
em vez de gente inteira

Inteira, nunca o fui,
dobrada ao meio pelo escuro das vestes,
pelas juras forçadas que cumpri,
pelo dever que me ditou meu pai

Porém, fui eu que as fiz, às letras dessas cartas
eu, que as fui construindo devagar,
na escuridão da cela

O resto foi roubado por vós
e noutra língua,
e em mitos que vos eram
necessários

Não fui só voz:
fui eu, dona de mim,
porque as letras me foram, e o amor,
e o ódio vagaroso

Só para isso me valeu viver,
pura compor, igual a sinfonia,
tudo o que considerei

Ele foi só palavras que em palavras forjei,
bigorna onde moldei espadas e lanças,
o lume necessário

Só não moldei
as grades da prisão onde vivi:
essas, moldastes vós
até incandescência

Mas eu, nas letras que compus,
eu inventei a ausência como mais ninguém.
Eu fui a mão da ausência
numa cela escura

E os atos dele foram-me as metáforas,
imagens a seguir-me, mais fortes
do que a vida.
Por isso me chamastes, senhores,
no vosso tempo, uma palavra nova e ágil:
literatura

E assim eu fui-vos voz,
e doce mito. E nada mais
vos fui

Quero dizer-vos hoje,
neste tempo tão escuro,
mas de um escuro diverso do que tive:
adeus

Deixai-me o escuro, o meu.
Porque ao lado da minha,
a vossa ausência, essa que em mim plantastes,
nada é.
Tomáreis vós saber o que é ausência

Ausência: eu: demorada nestas linhas.
Dizer com quanto escuro
a noite se desfaz
e se constrói —

(In Escuro, São Paulo: Iluminuras, 2015, pp. 47-48)





quinta-feira, 30 de abril de 2015

Ana Luísa Amaral

SONS, E ALGUMA VIDA
Nunca viveu a sintaxe
de coisa outra
que não fosse um caos
ameaçado

E a ordem
esteve sempre em recessão
desde o primeiro
acaso

Nunca as coisas
de dentro
entraram dentro
em tom propositado

E o sentido
foi sempre sentimento
mesmo quando
ensaiado

Nunca em suma
se obteve
a soma
concluída

Porque a soma
imperfeita
foi o metro
de que se fez a vida

PEQUENA ODE, EM ANOTAÇÃO QUASE BIOGRÁFICA
Bom dia, cão e gata,
por essa saudação e de manhã,
o corpo de veludo, a língua suave,
em simultânea tradução:
bom dia

Bom dia, sol, que entraste aqui,
me ofereces este espelho
onde me vejo agora, e tão de frente,
tornaste um pouco clara a folha de papel
e nela: em faixa transparente,
o tempo

Bom dia, coisas todas que brilham na varanda,
folha de japoneira, o nome cintilante,
o som daquele pássaro,
como se o mundo, de repente,
se fizesse mais mundo, e de maneira tal
que nunca mais se visse
escurecente o dia

Bom dia, gente pequenina
que não consigo olhar desta cadeira,
mas que está: formigas e aranhas,
minúsculos insectos
que hão-de morrer, mas aqui nascerão,
todos os dias

Bom dia, minha filha, igual a girassol,
quantas mais vezes te direi bom dia,
olhando o corredor,
tu, já não de baloiço, mas de amor
e pura filigrana,
eu, quase entardecendo

Bom dia, meu sofá,
onde me sento à noite, e devagar,
as flores que ora não são, ora às vezes
povoam esta mesa, a porta em vidro,
iluminada, em mais pura esquadria,
livros e quadros, curtas
fotografias em breve
desalinho

Bom dia, a ti também,
pelo perfume em fio que me trouxeste,
como se encera um chão rugoso de madeira,
os veios de uma planta desejosa de folhas,
ou mesmo as falhas na paz que me ofereceste,
e que desejo tua

Mesmo no tom cruel
que é acordar todos os dias
para um mundo sem sol em tantas mãos,
mesmo nesse desmando e tão violento curso
que é o mundo,
ainda assim, esta pequena anotação
de abrir os olhos e dizer bom dia,
e respirar de fresco o ar de tudo
em tudo –

DO JUSTO EXCESSO
OU DOS PEQUENOS FURTOS
Um dia, num poema,
ao servir-me do verso de um poeta,
cortei-lhe uma palavra

Não foi por mal que censurei o verso:
a distracção, a havê-la,
foi em puro desvelo,
um sentir-me tão quente e abraçada
que lhe errei o seu espaço
por amor

Não foi por mal,
não pensei que esse verso tinha tantas palavras a cobri-lo,
que uma palavra a menos:
ínfimo cobertor em noite
morna

Mas o espaço sem forma
de o verso lá não estar
podia de entre as pedras
fazer nascer a mais rasante cor,
o justo excesso, e mais por isso ainda,
a terra onde vivemos:

bater quase invisível
de haste de girassol,
abrindo brechas pelo chão
do mundo

Não foi por mal o corte da palavra
no verso do poeta,
nem quem depois olhou o meu poema
viu crime de maior

Mas hoje ainda
o roubo me persegue:
pensar num cobertor de sílabas tão leve
sustendo uma paisagem
com sons e gente
ao fundo

OS MOMENTOS INTACTOS
Recursos de marítimo conforto.
Verde e azul. O voo das gaivotas.
Degraus barrocos, velha habitação
que me utilize os móveis e mantenha
intactas as sombras, alguns cantos.
E por arritmados decassílabos,
todavia correctos na contagem,
limitar a gaivota a sete letras
e o mar a três. Em antiga cabala.

E OUTROS, MENOS INTACTOS
Em torno das ideias, elas dançam
num compasso feroz, descompassado
e belo de sentir. De entre a magia
contundente e clara, anunciam doeres

antecipados. São pequenas clareiras
do instinto, são caminhos de sol
cumprindo o sortilégio da paixão.
E em torno das ideias por fazer

dançam com passos leves e doentes.
Comungadas do fogo que se escoa,
tombam por fim, exaustas e descalças,
aligeiradas dos tambores da mente.

SENTIDOS
De vez em quando,
uma emoção em falso,
a ferida abre-se:
e eles entram solenes,
os meus mortos

Migram dos sítios quentes
onde os tenho de cor,
e as folhas do arbusto na varanda
em frente à minha cama
trazem as suas vozes

E quanto mais a luz é sobre a ferida,
mais eles aí estão

Cobre-as, às folhas,
o cortinado da janela larga,
e o que avisto daqui
é só um gume a verde,
de nem fotografia
porque em dança

Não me assustam
nem gritam, os meus mortos,
só me lembram que a chuva
que agora se insinua devagar
lhes foi tempo e morada,
e eles a mim

Que alguns deles olharam
nesta mesma varanda
as mesmas folhas,
mais jovens e mais verdes,
ou que outros deles viram outras folhas,
mais jovens, mas sem cor

Neste tempo de agora que os não tem,
aos meus mortos,
cresceram pouco as folhas,
e a emoção em que os tropeço, e a mim,
não os fazem nascer

(Tomara o lume
que as mantém em vida
fosse o gume na ferida
de os não ter)


CRESCIMENTO
As minhas duas horas da manhã
transformaram-se
em séculos
de tanto as desejar,
de tanto que as cantei

deixaram de ser minhas
e como filho grande
entram incontroladas pelo tempo,
namoram outros tempos,
outras vozes.

Somadas meias horas,
Dizem-se às vezes três:
súbito casamento consumado
e a casa cheia
em séculos.
 
PEQUENA FÁBULA
DA MORTALIDADE
E lava os dentes como bom mortal,
que a riqueza não paga esse cansaço.
E os olhos eriçados de ambição
confunde-os ele a azul iluminado.

Toma um pequeno almoço que será
um pouco menos torto que os demais,
café, meia toranja, quiçá um sumo
leve de laranja e curtos cereais.

Verá a névoa a desprender-se, suave,
da erva, como pálido vapor?
E ficará em espanto nessa névoa,
como o outro, em esplendor?

Provavelmente, não, mas não se sabe,
sabe-se só que nesse dia sai
e volta aos seus assuntos imortais,
astutos e preclaros e enxutos.

E um dia qualquer, como qualquer
mortal em frente aos dentes e ao espelho,
há-de passar a estado de erva quente,
ou fria, consoante for estação.

Outro virá, noutro espelho em função
menos ou mais acesa. Só a erva,
feliz por ser só erva, ficará,
não se sabendo ela também mortal.

Como de resto tudo o que se encontra
abaixo de uma linha estranha e torta,
que em nós: ausente de definição.
Mas a suspeita existe, se a escutarmos

de um reduto de som. E esse: comum
ao pequeno fulgor que a sustentou.
Dele sobram as folhas enceradas.
Do resto, só o verde. Enquanto existe –

(Em E TODAVIA, Assírio & Alvim, Abril 2015)


DANIEL CHESTER FRENCH


sábado, 25 de abril de 2015

Ana Luísa Amaral

A VOZ
Confundem-me os degraus destas escadas:
serão de inferno ou céu,
ou porque espero aqui,
se nada me visita, nem me espreita:
só este lenço embainhado
a branco

E tudo em esquecidíssima aquarela,
como eu esquecido estou,
menos em verso —

Se pudessem escutar-me em fio de lume,
se do fundo do tempo
me trouxessem,
e às memórias de mim,
dos que comigo olharam o horror
de ter nascido, para morrerem
nem sequer inteiros —

Se a prenda inteira
que nesse dia a minha mãe me deu
fosse sentida pelas mães a ser
como coisa tão delas
que a dor se adiantasse à dor
do desperdício

Talvez se sossegassem estas vozes,
que me enchem de reparos e de fumos,
e não se calam, não se calam
nunca

E eu saberia enfim como estas malhas
podem ser destecidas
como os tempos,
veria onde me levam os degraus

E deitava-me enfim,
e podia dormir,
além dos versos —

[In ESCURO, Lisboa: Assírio & Alvim, 2014, pp. 57-58]


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Ana Luísa Amaral

PASSOS DE VELUDO (título póstumo)

Do not go gently into that good night
Dylan Thomas
Não permitas que a noite se desabe,
habituada e negra. Antes confunde
as regras e as sombras que lhe obedecem,
cegas. Não descanses olhar sobre
o vazio, nem no silêncio seduzindo
em nada. Aqui: címbalo, pífaro, assobio,
ou tampas de barulho avesso a almofada.
Grita, blasfema, geme em timbre agudo,
mas não deixes a lua, com passos de veludo
entrar pela ombreira, sentar-se e conversar.
Nem lhe ofereças um lar de cabeceira
e penumbra doente. Argumenta-a de frente
e à seda roçagante dos seus passos;
numa filosofia de algibeira,
resiste-lhe o abraço cultivado. E rasga
a sua máscara ausente de suor. Não entres
docemente nessa noite. Não entres
tão depressa.

[In Inversos poesia 1990-2010, Lisboa: Dom Quixote, 2010, p. 209]


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Ana Luísa Amaral

ADAMASTOR
Havia nesse tempo uma espécie de sol,
E era ao cimo da água,
e eu no fundo do mar

E eu via aquele brilho sem saber que era sol,
só uma linha difusa a clarear
lugares do nunca

Eu habitava a mais funda fundura,
nela resplandecia
a minha escuridão

Feito entre limos, pedra e pesadelo,
eu era o pesadelo,
e não sabia ainda poder ser

o sustento de versos e de sonhos,
de línguas novas
a falar abismos

Inventaram-me ali,
naquele tempo,
nessa espécie de sol

Não chega o toque para dizer corpo,
e o meu era de pedra
a transformar-se

E disseram-me carne,
e eu fiz-me carne,
e disseram-me lama,

e a pedra no meu corpo fez-se lama,
e deram-me cabelos,
boca, olhar

E eu olhei lá do fundo,
da fundura mais funda onde vivia,
e gritei, descoberto,

e nu, e forte,
e ouviu-me
o mar

Mas o que dele rebentou, profundo,
foi a parte de mim
que nada era

A outra, que eu não sei,
por não ter voz,
ficou na escuridão

por inventar —

[In ESCURO, Lisboa: Assírio & Alvim, 2014, pp. 55-56]

DESENHO DO Mestre H. Mourato

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Ana Luísa Amaral

EPÍLOGO
Esta história podia não ter fim.
Bem sei que diz de lagos e de chuva
E o seu final se fecha com a chuva
Caindo sobre o lago.
Mas mesmo assim podia não ter fim.

E se continuasse, então que fosse
Um fim feliz, uma segunda história,
Espécie de coisa bela e irmanada
Sem amor decaindo e onde as duas
Se encontrassem por fim num terceiro país.

Por exemplo, o Japão. Agrada-me o Japão
Nesta minha função de contadora,
Pelo tom improvável e exótico.
Que seja no Japão o seu encontro.
Imaginemos pois uma viagem.

Vindas de lugares extremos,
Alguns anos depois
E o pequeno amor à sua volta ainda.
Vulneráveis ainda. E em silêncio.

A filha fôra despedir-se deles ao aeroporto. Ao olhá-la, pensou como o cabelo já não era tão louro como antes, mas de um tom castanho. Clarinho ainda, a dar-se bem com os olhos azuis. A filha abraçou-a, pedindo «Volta depressa, mãe. E telefona.» Eram sempre assim as despedidas. Ela tentando não chorar e no último momento desfazendo-se em lágrimas, ele mais sóbrio, contrariando-lhe a compra do tabaco «Não vais fumar isso tudo, com certeza.»

Sempre assim fôra. Ele cultivando o sensato e a segurança, como estar um pouco antes da hora marcada no aeroporto ou entrar no comboio meia hora antes, ela amando o prazer de esperar pela última chamada, o tempo misturado, o imprevisto.

Fez-lhe a vontade e foram dos primeiros a entrar no avião, e a viagem era dele: um curso necessário no Japão. Sentiu medo, como sempre, do avião a levantar. E se não levantasse, e o chão ainda ali, as chamas envolvendo o avião, e a morte. Mas eram tão iguais as coisas todas e tão pouco provável o acidente, que o avião levantou de facto e os ouvidos dela ressentiram-se. Como sempre. O costume.

A conversa, o costume, que nem merece honras de página ou de linhas. Foi bonita a chegada ao fim da tarde, o avião pousando realmente e os ouvidos dela uma vez mais. O costume. Como a chegada ao hotel, o desfazer das malas, a pequena ronda de reconhecimento tão do gosto dele e o fazerem amor como o costume. As lágrimas nos olhos dela, que ele não viu, porque tinha a cabeça no seu ombro e no silêncio escuro as lágrimas são cópias de pérolas pequenas.

Depois, a ida cedo para a cama, que o curso a começar de manhãzinha assim o exigia. E ela fechada na casa de banho a chorar um pouco, pensando em anos antes, na primeira história em que as três da manhã eram o génesis de tudo. E, no dia seguinte, a desejar-lhe boa sorte para o primeiro dia e ele a dizer-lhe «até logo, e não te esqueças, vê lá, do pequeno-almoço».
Sozinha no quarto, pouco lhe interessava o pequeno- almoço. Um país diferente como o outro há alguns anos, mas a mesma língua em que o léxico idêntico e comum era dos dois. Nada de províncias de palavras importando mais do que dizer: aqui, as palavras eram só palavras como adeus até logo e não te esqueças vê lá do pequeno-almoço.

Não te esqueças de mim. Vou sentir a tua falta. Tanto. Numa língua diferente há alguns anos. O pequeno amor sempre rondando, sempre perto nas cartas - por favor, escreve, querendo dizer apesar da distância, amo-te sempre, e apesar do beijo que não houve, mas houve sem lábios. Saiu.

Eram ruas diferentes
Como é suposto assim ser no Japão.
E tanta gente, cidades povoadas E de cultura tanta e tão diferente.
Imaginemos, pois,
Que do extremo lugar ao que era o dela, A outra também vinha, uma lua maior Como a lua anterior de há tantos anos.
E as quatro da manhã a recordá-las.

[Excerto de Ara, Porto, Sextante Editora, 2013, p. 57-59].

(ARA recebeu o prêmio PEN clube português 2013, na categoria narrativa). 














quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Ana Luísa Amaral

ENCENAÇÕES E QUASE VOOS

Uma luz construída
ilumina
esses santos,
cada um sem o halo,
mas pombo circundante
na cabeça

São quatro santos no cimo
da igreja,
e cada um dos pombos escolheu
a face mais marcada,
os caracóis de pedra
que fossem mais macios

Talvez não sejam santos,
mas apóstolos, tão de barroco,
e o seu gosto a vestir:
um excesso de desvio
quase pecado

Apóstolos ou santos,
os pombos circundantes na cabeça
são halos delicados
que, julgando-se em céu,
vêem quase metade da cidade,
a meio: o rio e os telhados
de casas

Fingindo-se de mão a abençoar,
são adereço de um teatro
inteiro:
caos encenado
ou um perfil egípcio

E os caracóis solenes e sombrios
convidam ao pecado
e convocam-me aqui: noite de verão,
a liquidez do olhar:

Eu não poder,
em pedra,

abrir as asas

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Ana Luísa Amaral

O SONHO
Vinha de trás, daquela noite
em que escrevera os seus versos mais belos,
depois de ter reunido os conselheiros próximos
e decidido continuar as sementes
que seu pai havia já plantado.
As dunas tinham sido a glosa a romper,
mas, após esses versos,
adormecera sobre a mesa
e sonhara um sonho de mar e marés bonançosas,
cheia de areia branca e arvoredos.

No seu sonho, não havia outra gente:
só a sua.

Munido desse sonho
e da música que ouvira a trovadores,
sempre bem-vindos no seu castelo,
desistira de uma guerra, trocando-a por vilas.
A paz fora firmada,
como as canções que ouvia e que falavam também de paz.

De muito lhe serviu sua mulher,
de flores lendárias no regaço e serventia boa,
como eram então de boa ou má serventia as mulheres
que em silêncio acompanhavam os homens,
fossem eles pequenos ou poderosos.

No sonho, sonhara elmos e cotas de malha,
roupagens de guerra ainda desconhecidas no seu tempo,
mas que de serventia de guerra nada tinham:
só belas e brilhantes.

Vira-os, aos da sua gente,
alguns com barba longa e olhos claros,
chegar em botes a um mar de areia branca.
Os botes tinham sido descidos de navios esguios,
as velas como lenços de cabeça de mulher,
mas imensos e brancos,
desenhados a cruzes.
E os navios do seu sonho
dariam nome a animais delicados
parecidos com nenúfares,
que vogavam à superfície das águas.

Ele vira os olhos da sua gente cheios da cor,
e do céu, e da água transparente dessas praias.
Mas nunca vira no seu sonho
outra gente que não fosse a sua.

Disse quem veio muito depois dele
em seta pelo tempo
que os ramos dos pinheiros e o cheiro a resina
entraram na feitura desses navios,
mas que era feito de carvalho o tabuado do seu casco.

Porém, ele acreditava, porque o sonhara,
que as formas esbeltas e doces
vogando à superfície das águas
levavam no futuro a sua gente
e vinham das sementes pensadas nessa noite.

E, como os quase nenúfares azuis, elas seguiam.

Para a frente e na esteira
dos seus mais belos versos.

[In Vozes, São Paulo, Iluminuras, 2013, pp. 86-87]

By Monet

domingo, 16 de março de 2014

Ana Luísa Amaral

A CERIMÔNIA
Sagrei-os, aos meus filhos.
Fiz o que era esperado de mim,
mas a minha lembrança era do avesso,
para o futuro,
e estava toda nas rosas
que o tempo haveria de trazer,
em forma das guerras do meu país.
Dessas guerras me lembro,
mas nunca cheguei a ver a guerra
que a ambição e os sonhos lhes doaram.

Sagrei-os na minha mente,
antecipando o gesto de outra
que teria o meu nome.
Nesse dia, de manhã cedo,
era ainda escuro, e no quarto,
mesmo descerradas as cortinas,
quase não entrava a luz.
As aias ajudaram-me a vestir, e eu,
como sempre acontecia depois de acordar
e enquanto não chegavam as horas do dever,
lembrei-me do meu pai, do meu país,
dos seus campos muito verdes atravessados
por rebanhos, da chuva do meu país,
tão contínua como as minhas saudades.

Quando acabei as recordações
e o choro de silêncio,
chamei-os na minha mente.

A todos ofereci prendas.
Ao primeiro dei um cetro
enfeitado de papel e de palavras,
ao segundo, uma espada
de aço brilhante,

ao terceiro, o gosto pelo mundo,
e ao último, contei-lhe o caminho
de água verde e espuma alta
por onde eu tinha chegado;
mostrei-lhe o mar,
ao longo das muitas tardes
em que eu própria sonhava
com as margens que havia deixado
para trás.

Se pudesse sentar-me novamente
junto àquela janela,
a espada brilhante que dei a esse meu segundo filho
tê-la-ia transformado em arado,
ou em pequena lamparina,
porque, ao dar-lhe a espada,
dei-lhe também o resto de matar e de morrer.

Antes lhe tivesse dito vezes sem conta
como é belo o mundo
e poder falar dentro dele.
Ou antes lhe tivesse mostrado só o mar,
como fiz com esse filho
junto de quem me cansava
das saudades da minha terra.

Uma prenda, porém,
me é boa na memória:
a do papel e das palavras.
Dispensaria o cetro,
mas era ele que segurava palavras e papel.
Dessa prenda não me arrependo,
e quase me regozijo um pouco
por aquilo que fiz nessa manhã fria e escura
em que os chamei aos quatro
para junto da minha mente
e do meu coração.

Mas o que fizeram de mim,
naquele dia há tantos anos, quando, quase menina,
me ajudaram a subir para o bote
e depois para o navio
que me haveria de levar a uma terra
que eu não conhecia,
a uma língua que não era a minha língua?

Onde ficaram as minhas tardes
molhadas de chuva?
E a memória que de mim ficou,
porque não fala ela dos meus campos verdes
e das sombras dos rebanhos que os atravessavam?
Porque me nega essa memória
as rosas que, em futuro,
e ditas como guerra,
haveriam de dizimar tanta da minha gente?

Por que outra noite trocaram
o meu escuro?

[In Vozes, São Paulo, Iluminuras, 2013, pp. 90-92]





terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Ana Luísa Amaral

ESPADAS E ALGUNS MURMÚRIOS
As poucas vezes que te permito a entrada são vezes de fascínio e penitência. Abrir-te a porta, a alegria dorida da chegada, no mesmo instante arrepender-me do meu gesto, da minha cordialidade. O resto dessas vezes é quando chega a pergunta inevitável: o porquê de te ter permitido. Afasto-a, se consigo, mas quando não consigo, os ventos que a limitam não são zéfiros. A pergunta forma-se a partir de tornados a tomar-me, e o que me custa mais (mais repetido) é sempre a mesma cara, o mesmo olhar por fora - o ficado por ver: rompido, amachucado, milionésimas partes de mim mesma. As poucas vezes que te permito são vezes frágeis, são vezes de papel.

É todavia nessas alturas que mais me crio um espaço. Deixo-te entrar juntamente com música no corpo e nos ouvidos, olhando sem olhar coisas sem tempo. Milionésimas partes de ti que trago sempre hibernadas, acordo-as nessa altura. Junto-as com um cuidado de ourives, um cuidado de mãe coleccionando memórias. E só depois que posso permitir-te: quando o teu riso inteiro, o corpo inteiro, algum pequeno pormenor de braço ou fala passa a fazer sentido por estar na totalidade. Milionésimas partes reunidas todas na partitura.

[Excerto de Ara, Porto, Sextante Editora, 2013, p. 17].



terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Ana Luísa Amaral

O TEMPO DAS ESTRELAS
Um compasso de espera
tão longo e musical
por estrelas destas
a tocar-me o rosto
E aprender a aceitá-las,
e eu ser um céu imenso
onde elas se pudessem passear,
encontrar uma casa,
um pequeno silêncio
de folhas,
de poeiras e cometas
Na desordem mais cósmica
das coisas,
organizar inteiro:
o coração
Porque, a tocar-me o rosto,
o tempo das estrelas
será sempre,
mesmo que tombem astros,
ou outras dimensões se lancem
em vazio,
ou raízes de luz se precipitem
no nada mais atônito
Terá valido tudo
a desordem do sol, terá valido tudo
este lugar incandescente
e azul
Porque, a tocar-me o rosto,
agora,
e em silêncio tão terreno:
paraíso de fogo:
estas estrelas
Transportadas em luz
nas tuas mãos —

[In Imagias, Lisboa, Gótica, 2001]



segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Ana Luísa Amaral

ESCRITO À RÉGUA
O poema sustenta o universo 
Como um equilibrista
Muito breve

Ancorar o sentir 
em instrumento certo e 
objetivo:
um quilômetro agora de palavra, 
depois a solidão enumerada, 
e em frente:
o quase abismo

Sem guia modelar,
subir a pulso
os mil degraus do verso,
e não voltar
atrás:

Pela última vez, 
medir periferia do olhar: 
quarenta mil centímetros, 
o mesmo que dizer 
quarenta metros 
de uma escala exata

No fim,
lançar a régua contra o vento, 
lançá-la em direção 
à nuvem mais distante

E ter aos pés 
coisas que tinha antes: 
mandrágoras, dragões, 
ligeiríssimo grifo arrebatado,

uivante
sílaba  

In Vozes, São Paulo, Iluminuras, 2013, p. 57

O COLOSSO
GOYA




sábado, 21 de setembro de 2013

Ana Luísa Amaral

SALOMÉ REVISITADA
Deixa-a lá dentro, cortada, na cozinha,
e traz-me só café. Pousa a bandeja
ali, e depois vai. Não quero o seu olhar:

recorda-me a prisão que ele habitou
(sem ser por mim) e a outra
em que eu morei, e onde fiquei,

lembrando o seu olhar. Bolo de figos
e de mel, conchas de som — mas não é
Salomão que eu sinto em sonhos

nesse corredor, mas Salomé, a outra,
a mesma que aqui está. E o seu olhar:
amputado de mim não pela espada,

mas por gume maior: o tempo
a insistir que eu nunca fui: multiplicada
pela sua íris. Agora, sai: é largo o corredor,

está certo o quarto, e eu decerto fiz bem.
Tão brilhante e tão quente. Como
sabe a vermelho este café —

In Vozes, São Paulo, Iluminuras, 2013, p. 31

GASTON BUSSIERE

domingo, 15 de setembro de 2013

Ana Luísa Amaral

A VITÓRIA DE SAMOTRÁCIA
Se eu deixasse de escrever poemas em
tom condicional, e o tom de conclusão
passasse a solução mais que perfeita,
seria quase igual a Samotrácia.

Cabeça ausente, mas curva bem lançada
do corpo da prosódia em direção ao sul,
mediterrânica, jubilosa, ardente, leopardo
musical e geometria contaminada
por algum navio. A linha de horizonte:

qualquer linha, por onde os astros morressem
e nascessem, outra feita de fio de fino aço,
e outra ainda onde o teu rosto me contemplasse
ao longe, e me sorrisse sem condição que fosse.

Ter várias formas as linhas do amor: não viver
só de mar ou de planície, nem embalada
em fogo. Que diriam então ou que dirias?

O corpo da prosódia transformado em
corpo de verdade, as pregas do poema,
agora pregas de um vestido longo, tapando
levemente joelho e tornozelo. E não de pedra,
nunca já de pedra. Mas de carne e com
asas —

In Vozes, São Paulo, Iluminuras, 2013, p. 64

Sobre a autora



Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...