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sábado, 28 de fevereiro de 2015

Else Lasker-Schüler

Fuga do mundo
Vou-me embora pra lá de além,
De volta a mim,
Jacinto em flor terçã
No temporão de minha alma,
Quiçá já tarde — tarde demais!
Ah, vou morrendo entre vocês,
Que me sufocam com vocês!
Lios queria que me atassem —
Num vira e mexe que findasse!
Desconcertante,
Equívoco por um instante,
Para que enfim eu escapasse
No rumo de mim.

Fim do mundo
Há um lamento no mundo,
Como se não mais houvesse o bom Deus,
E a sombra que cai, cortina de chumbo,
Pesa mausoléus.
Vem, escondamo-nos mais de perto...
A vida jaz nos corações
Como nos féretros.
Ei, beijemo-nos até não mais poder —
Pulsa uma saudade no mundo,
E é disso que temos de morrer.

[Tradução de Mauricio Mendonça Cardozo]


ángel descansando
carmen montesino



domingo, 21 de setembro de 2014

Else Lasker-Schüler

ESTER 

Ester é esbelta como a palmeira brava,
Os pés de trigo têm o cheiro dos seus lábios,
E os dias de festa que em Judá se celebram.

De noite, o seu coração repousa sobre um salmo,
Os ídolos escutam nas salas do palácio.

O rei sorri se vai ao seu encontro —
O olhar de Deus está sempre posto em Ester.

Os judeus jovens fazem canções à irmã,
Gravam-nas nas colunas da sua antecâmara.

[In Baladas Hebraicas, tradução e apresentação de João Barrento, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, p. 77].

By Francois-Leon Benouville

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Else Lasker-Schüler

MINHA CANÇÃO, MEU SILÊNCIO
Meu coração é um tempo triste,
Num tique-taque emudecido.

Minha mãe tinha asas douradas,
Que não encontravam mundo.

Ouçam, ela se pôs a minha procura,
Com seus dedos de luz e pés de sonho errante.

E o tempo bom que brisa azul
Sempre aquece meu sono

Nas noites,
Cujos dias usam a coroa de minha mãe.

Bebo da lua o vinho tranquilo,
Quando a noite cai só.

Minhas canções tinham do verão os azuis
E voltavam sombrias para casa.

De meu lábio vocês debochavam,
Mas ainda falam com ele.

Sim, tentei segurar suas mãos,
Pois meu amor é uma criança e quer brincar.

O primeiro, tomei-o de vocês,
E também o segundo, beijei-o,

Mas meus olhares se voltam para trás
Na direção de minha alma.

Tornei-me pobre
De seus favores mendicantes.

Ignorava o estar doente,
E agora estou doente de vocês,

E nada é mais furtivo que a doença,
Que da vida quebra os pés,

Rouba a luz ao caminho da cova

E difama a morte.

Meu olho
É o cume do tempo,

Seu brilho beija
As barras de Deus.

E ainda vou dizer mais,
Antes que entre nós escureça.

Se, entre todos, você for o mais jovem,
Saberá do que em mim é o mais antigo.

Os mundos todos brincarão
De agora em diante em tua alma.

E a noite vai se queixar
Ao dia.

Sou o hieróglifo
Sob toda criação.

E saí a vocês,
Em causa da saudade por causa do humano.

Arranquei de meus olhos os evos do olhar,
De meus lábios, a luz vitoriosa —

Pense num prisioneiro mais difícil,
Num mago mais malvado: eis-me aqui.

Meus braços, na querença de se erguer,
Tombam...


[Tradução de Mauricio Mendonça Cardozo, In Belas Infiéis, Revista do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução da Universidade Nacional de Brasília,  v. 1, n. 1, p. 203-209, 2012]. 

Henry Fuselli


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Else Lasker-Schüler

FARAÓ E JOSÉ*
Faraó repudia as suas mulheres, frescas
Como flores, cheirando aos jardins de Amon.

Sua cabeça real descansa sobre o meu ombro,
De onde emana cheiro de espigas.

Faraó é feito de ouro.
Os seus olhos vão e vêm
Como revérberos nas ondas do Nilo.

Mas o seu coração está no meu sangue;
Dez lobos vieram ao meu bebedouro.

Faraó pensa sempre
Nos meus irmãos
Que me lançaram num poço.

No sono, os seus braços são colunas
E ameaçam!

Mas o seu coração sonhador
Ressoa no fundo de mim.

Por isso os meus lábios inventam
Grandes bolos doces
No trigo da nossa manhã.
* Gênesis, 41.

[In Baladas Hebraicas, tradução e apresentação de João Barrento, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, p. 63].



segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Else Lasker-Schüler

VIVA!
Meu desejo ferve na nostalgia de meu sangue
como vinho selvagem que arde entre pétalas de
fogo.
Quisera que você e eu, nós, fôssemos uma
força,
fôssemos de um sangue
e uma consumação, uma paixão,
uma ardente canção de amor dos mundos!
Queria que você e eu, nós, nos
ramificássemos,
quando – louco de sol – o dia de verão clama
pela chuva
e nuvens de tempestade estalam no ar!
E que toda vida fosse nossa;
que arrancássemos a morte de sua própria
sepultura
e regozijássemos por seu silêncio.
Quisera que – de nosso abismo – se elevassem
massas
- como rochas – uma após a outra e desembocassem
Em uma cúpula, incansavelmente longínqua!
Que abarcássemos completamente o coração do
céu
e nos encontrássemos em cada brisa
e nos vislumbrássemos por toda a eternidade!
Um dia de celebração no qual murmuraremos
um no outro
no qual – nós dois nos fundiremos
m no outro
como fontes que manam da íngreme
altura rochosa
em ondas que escutem o próprio canto
e -  de repente – desabam rugindo e unem-se
em inseparáveis rebanhos de águas selvagens!


terça-feira, 3 de setembro de 2013

Else Lasker-Schüler

O MEU POVO
Apodrece o rochedo 
De onde provenho
E ao qual entoo os meus cânticos sagrados... 
Subitamente, precipito-me do caminho 
E águas murmuram em mim 
Na distância, só, sobre pedras de lamentação, 
Em direcção ao mar.

Jorrei-me para tão longe 
Do mosto mal fermentado 
Do meu sangue.
E sempre e ainda o eco 
Dentro de mim,
Quando, voltados para Oriente,
Os ossos do rochedo apodrecido,
O meu povo,
Lançam um grito terrível para Deus.

[In Baladas Hebraicas, tradução e apresentação de João Barrento, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, p. 47].

Exodus - Bernard Deshler

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Else Lasker-Schüler

Resignação
Maternal e suave, abraça-me,
e mostra-me o reino do céu,
noite sonhadora;
E descansa minhas dores
Escondidas em teu regaço
sobre rosas e folhas prateadas
no profundo pó da terra.

Na luz e no brilho crepuscular
teus sonhos se pulverizam
no azul suntuoso das nuvens.
Preparo-me para a batalha do dia.
Anseio pela noite eterna
para esvair-me em silêncio no vermelho da tarde,
em teu braço salvador, morte.

 
ODILON REDON

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Else Lasker-Schüler

DAVID E JÔNATAS*
Na Bíblia estamos escritos 
Num abraço de cores vivas.

Mas os nossos jogos de meninos estão 
Vivos também na nossa estrela.

Eu sou David,
Tu, o meu companheiro de brinquedos.

Ah, os dois tingíamos de vermelho 
Os nossos corações brancos de carneiro!

Como as flores em botão nos salmos do amor 
Sob o céu de um dia de festa.

Mas os teus olhos de despedida, os teus olhos — 
Estás sempre a despedir-te no silêncio do beijo.

E o teu coração, que fará 
Ainda sem o meu?

A tua noite doce 
Sem as minhas canções?

* I Samuel, 18.

[In Baladas Hebraicas, tradução e apresentação de João Barrento, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, p. 69].

NO PRINCÍPIO
Suspensa de uma nuvem de ouro de primavera, 
Quando o mundo era ainda uma criança 
E Deus ainda tão jovem, e já pai.
Baloiçava, e ai!
Pelo éter ela vai,
Os cabelos de lã brilhando em rodopio.
Brincava com o trôpego avô-sol,
Depenicava prata da mãe-lua,
Tranquei Satanás lá no céu 
E Deus no inferno fumegante.
E eles ameaçavam-me com o dedo maior,
E davam murros na porta: Bum, bum!
E as chicotadas dos ventos sibilavam;
Mas depois Deus, com o diabo, deu duas gargalhadas 
Trovejantes, rindo do meu pecado mortal.
Daria a 10000 na terra felicidade 
Para voltar a viver nascida assim de Deus,
Assim a salvo em Deus, assim sem véus.
Assim,
Como quando era ainda a menina traquinas de Deus!

[In Baladas Hebraicas, tradução e apresentação de João Barrento, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, p. 91].




Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...