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quinta-feira, 13 de junho de 2013

Laís Correa de Araújo

Teatro de mímica

Nas fricções da íngreme subida 
em formação de combate 
há que pousar também a pomba 
encimando a cena no telhado 
de vidro em ogival declinação 
o gesto que antigo se repete 
recobra o jogo de milhões outrora 
hoje sempre em ganhos e perdas 
lança fora colcha e lençol 
cenário decomposto agora posto 
em entrega e aplicação 
a domicílio sem taxa de adesão 
cobrada em circunvoltas 
ida e vinda à segunda fonte 
onde o silêncio jorra em ais 
e inunda úmido a dupla solidão.

In INVENTÁRIO 1951/2002, Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004, p. 206


Miró

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Laís Correa de Araújo

August Macke
OFÍCIO 1
Curvar a espinha
sobre o papel

tentar preencher
o branco

com a clara do ovo
de Colombo

ESCRITA
A mosca pousada
no branco
- alheia
efêmera e feia.

Regurgito.

NO GOVERNO
"A seara é grande
mas os lavradores são poucos"

Os gafanhotos são muitos.

OFÍCIO 2
Ainda não descobri
a caneta ideal - o perfeito
encaixe nos dedos - seu fluxo
pênis pensamento
orgasmo e escrita

Ainda não descobri
a palavra ideal
- a menos que ideal
seja a palavra.

NU FRONTAL
Não há nada
mais bonito
e explícito
que um manuscrito.

AUTO DE FÉ
Quando a letra
voltar ao pó...
serei catecúmeno
- em alva -
para o batismo
da realidade:
abjurar a poesia.

(Pé de página)

 In INVENTÁRIO 1951/2002, Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004, p. 35

sábado, 3 de novembro de 2012

Laís Correa de Araújo


PROFISSÃO DE ESPOSA
Cala-te, burguesa,
e serve a minha mesa.

Cala-te, madama,
e serve-me na cama.

Cala-te, obesa,
e deixa a luz acesa.

Cala-te, obtusa,
e chama a minha musa.

In INVENTÁRIO 1951/2002, Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004, p. 130

VERSÍCULO 100
em verdade, em verdade vos digo:
nem todo aquele que sobe ao Templo
e bate no peito, dizendo
Poesia, Poesia,
entrará no Reino da
Mídia

In INVENTÁRIO 1951/2002, Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004, p. 141


sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Laís Correa de Araújo


CARTA
Quisera escrever-lhe com uma letrinha
redonda e bonita de aluna
de Escola Normal.
Ia dizendo que sinto saudades, mas não
é bem isso. O que sinto é uma agonia
dolorosa, porque a gente sabe que
não dá para matar.
Ia dizendo que o amo,
mas é assim que se entrega uma vida?
Ia terminando com um “eternamente sua”,
mas quem sabe se você me quererá para sempre?

In INVENTÁRIO 1951/2002, Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004, p. 28

FIM
Acabemos tudo, amor. Houve um sonho. 
O luar toca sua música branca 
na harpa da trepadeira.
Que seja assim. Dentro da noite 
como os grilos. E simples e sensatamente. 
Provemos a paz. Há paz nos meus cabelos, 
serei tua e irás. Com naturalidade.
Que importa que meu travesseiro 
fique hoje úmido e humano?

In INVENTÁRIO 1951/2002, Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004, p. 34

CINEMA
O peso quente do escuro,
a certeza de um braço amaciando
o encosto desconfortável,
a sensação de estar viva,
nos olhos, nos suspiros, nas mãos furiosas,
um gemido dilacerando
o seio imaculado do silêncio.
E o amor subiu escalando desejos, 
exagerado como folhas de árvore, 
e eu tive de despejá-lo em outra boca.

Depois uma bala de coco apagou 
o gosto de violência da penumbra 
e a luz me entregou a impressão 
azul da derrota,
da pureza inútil das ruas desabitadas.

In INVENTÁRIO 1951/2002, Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004, p. 35


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...